Caça Menor      

 

 

... E o início do capítulo sobre José Pardal  05-07-2009 2:48:51 Escrito por hernethehunter  (6 Respostas)  

 

Tem de ...  06-07-2009 0:03:32 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

Exactamente ... foi este o texto que vi!  06-07-2009 10:26:55 Resposta por António Luiz Pacheco   

 

Caro Confrade Antônio  06-07-2009 22:23:03 Resposta por hernethehunter   

 

Ops! Respondi no lugar errado  06-07-2009 22:28:39 Resposta por hernethehunter   

 

É pá! Calma...  06-07-2009 23:41:42 Resposta por António Luiz Pacheco   

 

O Senhor Zé Pardal  08-07-2009 17:23:31 Resposta por joaoacabado   

 


... E o início do capítulo sobre José Pardal 

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hernethehunter  05-07-2009 2:48:51
 
 

UM COLONO:
JOSÉ DA CUNHA PARDAL

Tanto os pardais quanto os colonos europeus na África tiveram, por anos, uma má fama que não mereceram.

Dos pardais se dizia que se multiplicariam em número até que os céus estivessem cobertos deles e todas as outras espécies de pássaros fossem extintas; um naturalista, Hornaday, abria o capítulo de sua História Natural dedicado ao pardal com as seguintes palavras: “Deixai-me molhar a pena em ácido corrosivo; ferve-me o sangue ao pensar que devo escrever seu nome”. Os pardais fizeram outros inimigos ilustres: entre nós brasileiros, Von Ihering foi o mais conhecido.

E a se acreditar na retórica marxista do século XX, os europeus na África eram piores do que os pardais. Eram os culpados por todas as mazelas do continente africano, mesmo as já existentes antes de sua chegada. O melhor deles era um colonialista estúpido, os piores, imperialistas satânicos. Quatro ou cinco gerações na África não garantiam ao colono de origem européia o título de africano, ainda que seu vizinho negro houvesse emigrado recentemente para o mesmo país.

A passagem dos anos foi favorável a ambos.

O pardal, por exemplo, não se reproduziu até coalhar a terra. Pelo contrário, a espécie vem diminuindo na Europa sem causa aparente, a ponto de merecer um discurso do Primeiro Ministro da Inglaterra, Tony Blair, que instituiu um fundo para investigar os motivos mais prováveis para o desaparecimento. Mesmo nos locais onde a espécie foi introduzida, e nos quais a catástrofe prevista atingiria proporções de um filme de Hitchcock, os pardais não só não atingiram tais números como também vêm perdendo terreno para outras espécies comensais; no Brasil, o número de pombas silvestres (zenaida e leptotila) aumenta na mesma proporção em que rareiam os pardais.

Mas o pardal sempre teve um lado simpático. Não é uma ave de plumagem exótica nem de canto mavioso; mas está sempre onde os outros pássaros não conseguem existir. Seu charme é a simplicidade. Resistente e alegre ao mesmo tempo, ninguém é mais europeu e ao mesmo tempo mais cosmopolita do que o pardal. Seu chilreio pode ser ouvido da Argentina aos países nórdicos: singelo, monótono, mas de forma alguma desagradável. Mesmo sua taxonomia é a própria simplicidade: Passer domesticus. Nosso companheiro comum.

Por isso os europeus de origem humilde sempre tiveram uma afeição especial pelos pardais. Afinal de contas, a ave é como eles: plebéia mas onipresente e antiga como os que realmente lutaram em Agincourt, não para conseguir um título de nobreza mas sim porque era parte de existir. Assim os londrinos da gema, os cockneys, se tratam afetuosamente de sparrow. E uma francesa pequena e frágil, nascida Edith Giovana Gassion debaixo de um lampião de gás nas ruas de Paris resolveu adotar o pássaro como seu sobrenome, não na forma culta de moineau, mas sim no argot usado pelos apaches mas também pelos trabalhadores pobres e dignos de Paris: Piaf.

Ao contrário dos naturalistas, que não conseguiram fazer prosperar sua cruzada de morte contra os pardais, alguns ideólogos africanos foram mais bem sucedidos em sua perseguição aos colonizadores europeus. A esmagadora maioria foi sumariamente expulsa, e os novos líderes então se assentaram e passaram a esperar que o paraíso na terra se instalasse. De repente, começaram a perceber que dentre seus vizinhos os que haviam preservado a população de colonos brancos eram os mais prósperos, e tinham instituições mais sólidas do que as suas. Ao invés de remediarem a situação e atraírem os colonos de volta, aumentaram a retórica. E o caos.

Basta de divagar.

Era uma vez um imigrante europeu na África Oriental. Não na África Oriental Inglesa, mas na Portuguesa, em Moçambique. Sua língua materna não era o inglês, não era lord nem sir, nem passava os dias explorando pobres nativos na plantação que não possuía. Era professor. Seus rifles não eram Holland and Holland ou Purdey: o seu preferido foi o popular mas clássico Winchester modelo 70 “African” calibre .458. Se ocasionalmente trabalhava como White hunter, era para complementar o orçamento familiar. Em seus safaris não corria champagne ou Chateau Latour: seu farnel era o “pão que o diabo amassou”, algumas laranjas, uma cebola, carne seca e ocasionalmente vinho branco da Terrinha. Esta é a história de um José qualquer. Qualquer, não: um José Pardal. Tão bom ou melhor caçador do que os outros.

José da Cunha Pardal nasceu em Covilhã, nas fraldas da Serra da Estrela, Portugal, no dia primeiro de março de 1.923, filho do barbeiro João da Costa Pardal e da costureira Faustina da Cunha. Os Pardal eram uma família pobre de agricultores, mas na qual corria o germe da caça: o pai, os avós e os bisavós eram caçadores, e perseguiam na Serra o coelho e a perdiz. O jovem José aprendeu a caçar desde os oito anos com o avô paterno, que o criou até os doze anos e o ensinou os segredos da caça com armadilhas. Aos dez anos, já perito na arte, José a ensinava aos passarinheiros da cidade, em troca de um escudo. Conservador nato, desde a infância poupava os rouxinóis, soltando-os logo que caíam nas armadilhas, porque estes eram para ele “parte integrante do encanto dos campos”. Seu único irmão, Francisco Pardal, envolveu-se com as artes venatórias por vias transversas: tornou-se um famoso taxidermista.

Quando tinha dois anos, ocorreu a Pardal o que ele considera a maior tragédia de sua vida: Dona Faustina morreu, com apenas 23 anos. O pai, desgostoso, decidiu emigrar para Moçambique, deixando para trás os filhos aos cuidados dos avós. Como às vezes acontece, das coisas muito ruins algo bom acaba por nascer: a morte da mãe foi mais tarde indiretamente a causa da emigração para Moçambique, onde o jovem Pardal estaria, em suas palavras, “no lugar certo e na altura certa” para realizar seu sonho infantil – de ser um caçador a sério.

Aos treze anos, foi para Moçambique no porão do vapor “Angola”, aportando na África em julho de 1936, depois de trinta e dois dias de viagem. Sua primeira tarefa não foi dedicar-se ao aprendizado da caça, mas sim completar sua educação formal, que iniciara ainda em Portugal numa escola primária distante cinco quilômetros de sua casa – palmilhados todos os dias a pé. Para ele, tornar-se professor era tão importante quanto ser caçador, e José continuou seus estudos até prestar o chamado “Exame de Estado” – bateria de testes que duravam 21 horas, e que o habilitaram a lecionar no Ensino Comercial como Mestre Principal de Grafias. Tudo isso, entretanto, sem se descuidar de sua outra educação, já que aproveitava suas horas vagas para se dedicar à caça africana – no caso, percorrendo setenta quilômetros de bicicleta com um amigo chamado Zé Soares até as margens do Umbelúzi, para caçar rolas armado de um rifle .22.

Com a .22, uma Remington de tiro único, Pardal se iniciaria na caça de animais um pouco maiores: coelhos, galinhas d´Angola, pequenos antílopes, etc. Viria depois um período intermediário, de calibres maiores e caça idem: nyalas, impalas, kudus e reedbucks. Por fim, aos vinte anos o jovem estudante se gradua na caça africana: abate seu primeiro elefante.

(...)

 
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