Caça Menor      

 

 

Para o Miguel, a história do whitetail  06-07-2009 22:38:46 Escrito por hernethehunter  (8 Respostas)  

 

Ena Ena  06-07-2009 23:18:43 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

AH!AH!AH! e Belo... belíssimo!  06-07-2009 23:34:30 Resposta por António Luiz Pacheco   

 

Excelente!  07-07-2009 0:29:51 Resposta por Jaime   

 

Venham daí as outras espécies.  07-07-2009 9:34:31 Resposta por paulo farinha   

 

Soberbo relato  07-07-2009 11:41:14 Resposta por Luis Paiva   

 

Caro Confrade Luís: meu diagnóstico  07-07-2009 19:28:16 Resposta por hernethehunter   

 

A lei de Murphy  07-07-2009 20:00:03 Resposta por Luis Paiva   

 

Excelente relato  08-07-2009 0:22:53 Resposta por Pedro Jorge   

 


Para o Miguel, a história do whitetail 

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hernethehunter  06-07-2009 22:38:46
 
 

Porque o Confrade Miguel pediu, vai aqui minha a descrição da minha jornada – única – ao whitetail. E só porque o Miguel pediu, porque de resto posso dizer duas coisas: se não foi a pior, pelo menos foi uma das piores caçadas da minha vida (pelo menos, a mais besta). Além da “lembrança” maldita das seqüelas da Lyme, que me acompanharão até o fim da minha vida.
De qualquer jeito, agradeço ao Miguel por uma coisa: sem o incentivo dele, nunca iria descrever as lembranças, que de outro jeito não seriam exorcizadas. Mas aí vai.

Em primeiro lugar, eu nunca quis caçar whitetails. Fui a Manassas, Virginia, para caçar raposas, sem ter que sujar minhas mãos de sangue vulpino: era só ter que me agüentar na sela por umas três horas ou mais, beber um “stirrup cup” antes e muitos depois, e paquerar as meninas no bar.
Antes, tenho que me apresentar: meu nome é Sérgio Corrêa de Siqueira, nasci em 1961 em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil., e fui caçar pela primeira vez aos nove anos, acompanhando meu tio José (Dé) e meu avô Merolino às narcejas. Pelo lado materno venho de uma longa linhagem de caçadores, e meu pai é um não-caçador de paciência de Jó que sempre levou o filho sanguinário à lide. A família de minha mãe sempre manteve matilhas para caçar a paca e uns primos paulistas perseguiam os veados no corso, com cães e cavalos – minha caçada preferida. No corso nunca fiz muita questão da morte; como dizia minha saudosa amiga Charlotte Hatch, caçar é como namorar: a graça está na perseguição. Depois só sobra um troféu apodrecendo num canto da sala.
Mas sempre gostei das aves: comecei pequeno nas narcej.as, porque na região onde minha família tem fazendas as codornas e perdizes são escassas; depois cacei algumas em outras partes do país. Atirei nos marrecos de vez em quando, na juventude e depois, e gostei: é um tiro rápido e alto, para os hábeis. Gosto de atirar e até me dei bem em algumas modalidades, mas nunca fui atirador: sou caçador e só, arma é só mais uma ferramenta. E aves são muito melhores, quando nada na panela.
Paralelamente, sempre gostei de cavalos: comecei aos quatro anos, caindo de cabeça de um pangaré, e continuei pela vida afora. Joguei umas partidas de pólo, fiz hipismo por anos a fio (meu velho Danny Boy morreu o ano atrasado, ficamos juntos por vinte e sete anos até que a minha Lyme e a artrose dele nos aposentou) e até ganhei alguns campeonatos estaduais no Brasil. E ADORO ver um cachorro trabalhar, seja um perdigueiro ou uma matilha de corso; infelizmente, não vejo um há anos.
Nos tempos de mestrado (1982-84) filiei-me à Cambridge Hunt, e, anos depois, aproveitando umas conexões antigas cacei raposas no West Galway Hunt (The Blazers) com o Willie Leahy de Aille Cross, Loughrea, Irlanda (acho que eles já estão na Internet, nem o Willie seria tão retrógrado assim), quase todos os anos entre 1989 e 2000. Em 1998 conheci em Loughrea uns americanos da Virginia que me convidaram para caçar nos EUA: eram um bando alegre, mais realista do que o rei em matéria de etiqueta de caça e com um inegável charme hollywoodiano até na casaca de caça, que era de “Confederate Grey” com gola vermelha desde mil oitocentos e tantos. Ficamos amigos, e eles me convidaram para caçar raposas na Virginia. Enrolei um ano (1999), mais por falta de dinheiro do que qualquer coisa. Aceitei o convite em 2000.
Fui regiamente recebido pela turma: Catherine, uma viúva que mantinha um estábulo em Manassas; meu amigo Timmy, e André Bich, de quem nunca me esqueci porque era neto do sujeito que inventou as Canetas Bic e porque tinha a profissão que eu mais invejo: vivia de rendas, só caçando. Cada qual fez o que mais podia para me agradar: comi um dos melhores presuntos da minha vida, na fazenda de uns imigrantes de origem alemã (dá inveja ao Pata Negra e ao Bellotado, e deixa o italiano no chinelo), visitei o campo de batalha de Gettysburg, passeei à farta. Só teve um problema: a caçada gorou, porque apesar de ser início de temporada – dezembro – nevou às pencas.
Aquilo não era mais neve, era merda branca: todos os dias eu acordava esperando que a porcariada tivesse derretido e eu pudesse dar uma caçadinha, e era só neve e mais neve – mais não sei quantas polegadas e pés por dia. Durma-se com o El Niño e o aquecimento global. E a Catherine tinha reservado dois cavalos especiais para mim, incluindo um alazão que prometia muito.
Mas nevou, nevou e nevou. Nevou na terça, nevou na quinta, nevou no sábado: uma semana sem caçar. E na semana seguinte eu tinha que voltar para casa, porque não eram férias prolongadas mas uma licença mais comprida. Foi aí que alguém teve a idéia – com o que eu concordei entusiasmado – de me colocar caçando whitetails.
Foi relativamente fácil, e eu não achei a idéia nem um pouco ruim: eu era leitor da Field & Stream há muito tempo e tinha sido atraído pela mística da coisa, desde 1994 eu caçava um javali por ano no Brasil e tinha uma certa familiaridade com caça à bala, e se a vida te deu um limão faça dele uma caipirinha – limonada é para os medíocres. Tirei uma licença – só um tempinho na fila, mole para qualquer brasileiro, e baratinha, além de tudo - e fiquei esperando me emprestarem o equipamento, porque eu só tinha o que eu achara necessário: botas, culote, camisa de gola alta, plastrom, capacete e casaca. E eu não ia gastar com o que eu não fosse usar.
No dia seguinte apareceu um velhote, simpaticíssimo e solícito, com um uniforme de Rambo: calça (suspensórios inclusos, o que eu não via desde o jardim de infância), ceroulas, jaqueta, boné. casaco: tudo camuflado e “scent proof”, como ele fazia questão de dizer. Fiz como o chinês da estória e aceitei, com muitos risinhos agradecidos; e esperei para ver como seria o rifle.
Nenhum dos meus anfitriões caçava de rifle, mas pela amabilidade tenho certeza de que eles se esforçaram para me conseguir o que um vizinho me ofereceu: era a arma do Luke Skywalker, sem tirar nem por. E aqui um parêntese, para que eu me explique.
Minha arma mais nova tem vinte anos (minha cartucheira mais nova – ou caçadeira, como vocês preferem – tem 60 e tantos; a outra cento e cinco) mas o modelo tem umas oito décadas de fabricação (meu Smith&Wesson .38 cano 2 polegadas; o resto é ainda mais antigo); os únicos materiais permissíveis numa arma para mim são aço e nogueira. Mas o rifle que um ancião ainda mais vetusto que o primeiro estava me emprestando era um Remington 30.06 feito em aço inox ou outra coisa terrivelmente brilhante, com uma coronha de kevlar ou outro material que o Han Solo descartou do Millenium Falcon. Pior, com uma ENORME mira telescópica em cima; da mira normal, nada.
Nas imortais palavras de Clint Eastwood, o Homem precisa conhecer suas limitações; tecnologia é definitivamente a minha. Uso um Rolex automático desde os dezoito anos, nunca troco de carro de medo de abridores de janela elétricos e nunca usei uma mira telescópica na minha vida – não chamo de “luneta” por que me parece neologismo demais. Para mim o máximo da tecnologia é meu canivete Rodgers, que corta por anos sem perder o fio.
Mas ri amarelinho e agradeci, e no outro dia acordei antes da madrugada e fui para meu “tree stand”, pedindo informações ao segundo velhote – que era impressionantemente ágil – e conseguindo o que podia: Com aquela mira telescópica enorme, eu tinha que atirar de muito longe? E como eu ia conseguir isso, no meio de um pinheiral?
- Easy, respondeu o velhote (infelizmente, o nome dele as apagou da memória). Se o whitetail desse as caras, ia ser a oitenta jardas – setenta e muitos metros, pensei. Então, para que uma mira tão grande? Para te olhar, respondeu mentalmente o velhinho; e como sapo de fora não pia, calei a boca.
Chegamos ao meu “tree stand”: uma cadeirinha minúscula no alto, BEM LÁ NO ALTO, de um pinheiro. O velhinho tinha uma escada que deve ter desfalcado o Fire Department local por anos, e lá fui eu escada a cima para o tree stand. E outro parênteses, aqui.
Minha formação universitária é a seguinte: cursei engenharia de minas, fiz meu mestrado em engenharia geológica na Inglaterra, e direito depois de já formado. Como engenheiro de minas fiquei nove anos na Mina de Morro Velho trabalhando para a Anglo South African, hoje Anglo Ashantii Gold, a mil e tantos metros abaixo da superfície. Nunca tive claustrofobia, apesar de enfrentar horas e elevador e mais um tempo de câmara de descompressão na subida e na descida. Nunca, nunca mesmo, sofri de claustrofobia: ponha-me num elevador com os dois sujeitos mais flatulentos do mundo e as luzes apagadas, e eu estou à vontade. Por outro lado, mande-me subir na escada para pegar um livro na última prateleira e... eu me borro todo. Para dizer a verdade, eu ODEIO alturas.
Mas não falei nada com o velhinho que me largou às quatro e pouco da manhã (manhã? Era noite fechada) no alto do mais alto do pinheiro mais alto da alta floresta, e levou a escada embora. Sou brasileiro de sangue luso (75%), tcheco (12,5%), francês –basco (12,5%) e não desisto nunca. E fiquei eu lá, com a roupa do tio-avô do Rambo, uma garrafinha vazia de Manassas Spring Water para mijar dentro, um frasco de bolso de Hennessy cinco estrelas – pelo menos! – e o rifle do Buck Rogers carregado de projéteis de liga de não-sei-o-quê a esperar minha presa.
Sempre detestei esperas. De uns quatorze javalis nos últimos treze anos, matei onze no chão, de madrugada; os três ou quatro que apanhei na espera devem ter sido singularmente estúpidos: me vem uma vontade de fumar, de tossir, de falar alto, de ir até a esquina apanhar um pãozinho quente com café... Todo caçador é meio masoquista, mas naquele dia eu me superei: horas e horas a fio sentindo o vento gelado entrando pela gola e saindo pelas mangas, ou vice-versa. Às vezes variava: o frio entrava pelos canos das calças e saía pela gola. Enchi a garrafinha de Manassas Spring Water, entediei-me de todas as formas possíveis, evitei cochilar para não cair da árvore, o que de resto me apavorava acima de tudo.
Acho que fiquei tão quieto mais pelo congelamento do que por outra coisa. Lá pelas dez e meia apareceram duas corças e eu evitei atirar; pelas onze e meia enchi mais um pouco da garrafinha de água mineral outra vez; finalmente, pouco depois do meio dia, apareceu um macho mais sensato do que eu, pelo menos na hora do despertar. Não era o “twelve pointer” que eu sonhara, de jeito nenhum: era um “six pointer” bem mais modesto, melhor dizendo um “five pointer”, já que tinha quebrado uma antena na briga. Medindo a olho o troféu na minha churrasqueira diria que tem uns cinqüenta e tantos centímetros da base à ponta; padeço da obsessão dos americanos.
Não devia estar a mais de setenta metros de distância; meti o olho no visor da luneta, custei para divisar uma massa de pelos onde julguei estar a “sala das caldeiras” e espremi o gatilho. O bicho correu uns vinte metros e estatelou-se; quanto à mim, fiquei mais preocupado com o belo olho roxo que conseguira metendo a cara tão perto do visor.
Não pude ver o efeito do meu tiro por horas: fiquei lá em cima enregelando mais um pouco até o velhote colocar a escada de volta por volta das quatro e meia. Até lá eu evitava olhar para baixo. Desci, recebi uns parabéns que não sei se eram merecidos e colocamos a carcaça na caminhonete, até o açougueiro. Ao voltar para casa, notei que mesmo com aquele frio todo o F.D.P. de um carrapato tinha me mordido bem na gola da camisa – provavelmente o que me transmitiu a Doença de Lyme cujos primeiros sintomas eu só sentiria quase um mês depois, já no Brasil.
O resto? É história: deixei as carnes por lá, a não ser nas tripas: lembro-me de ter comido uns pedaços temperados com zimbro, que estavam bem gostosos. No mais, só trouxe os chifres que adornam a minha churrasqueira.


 
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