Caça Menor      

 

 

As artes tradicionais da caça  23-09-2009 20:53:30 Escrito por MIGUEL PEREIRA  (68 Respostas)  

 

A caça no pio  23-09-2009 22:10:50 Resposta por hernethehunter   

 

Confrade Sérgio  25-09-2009 11:21:04 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

Visco no Brasil  25-09-2009 22:32:56 Resposta por hernethehunter   

 

E... para quem não conhece...  25-09-2009 22:42:16 Resposta por hernethehunter   

 

Caniça .  09-11-2009 20:31:28 Resposta por Ermesinde   

 

Forca ou laço  10-11-2009 21:37:53 Resposta por turra   

 

Forca ou laço  10-11-2009 21:41:41 Resposta por turra   

 

Forca ou laço  10-11-2009 22:03:34 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

Anzol...  10-11-2009 23:28:37 Resposta por António Luiz Pacheco   

 

Laço para galinha do mato (caca e cololo) e gazela  10-11-2009 23:42:59 Resposta por António Luiz Pacheco   

 

LAÇOS - Ignorem o anterior!!!!  10-11-2009 23:48:40 Resposta por António Luiz Pacheco   

 

Pesca  11-11-2009 11:03:47 Resposta por Luis Paiva   

 

Forca ou laço  13-11-2009 22:16:03 Resposta por turra   

 

E o local?  13-11-2009 22:48:16 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

Forca ou laço  14-11-2009 17:37:33 Resposta por turra   

 

Estrelim  23-09-2009 22:31:06 Resposta por Jaime   

 

Posso dizer-lhe Confrade Jaime  23-09-2009 23:09:27 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

Mais algumas curiosidades Confrade Jaime  24-09-2009 1:04:56 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

Uma maravilha!  24-09-2009 2:02:41 Resposta por joaoacabado   

 

Simplesmente fabuloso...  24-09-2009 9:33:00 Resposta por paulo farinha   

 

Caçadas no Alto Minho  24-09-2009 15:00:42 Resposta por Luis Paiva   

 

Pois é Luis Paiva  24-09-2009 15:32:32 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

a proposito MP  24-09-2009 17:27:22 Resposta por luisnovais   

 

Confrade Novais  24-09-2009 18:29:45 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

Confrade MP  24-09-2009 18:52:07 Resposta por luisnovais   

 

Até aí ...  24-09-2009 19:35:15 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

Um lapso, Confrade Novais  25-09-2009 12:09:39 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

tudo bem MP  25-09-2009 12:34:40 Resposta por luisnovais   

 

Ufff! Confrade Miguel Pereira  25-09-2009 12:49:03 Resposta por paulo farinha   

 

Confrade MP  25-09-2009 14:25:58 Resposta por luisnovais   

 

Caça é TRADIÇÃO....  09-11-2009 13:40:19 Resposta por Miguel Raposo Pedro   

 

Confrades Miguel Raposo e Jorge Rios  09-11-2009 22:46:24 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

O Estrelim...  10-11-2009 16:06:32 Resposta por António Luiz Pacheco   

 

''solitário''  10-11-2009 18:31:22 Resposta por JMestre   

 

Confrade Miguel Pereira  10-11-2009 18:37:40 Resposta por luisnovais   

 

Até que enfim  10-11-2009 19:30:29 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

Pois foi...  10-11-2009 21:02:06 Resposta por Inácio   

 

Laços...  10-11-2009 23:25:21 Resposta por António Luiz Pacheco   

 

Confrade Joaquim Soares...  11-11-2009 14:16:20 Resposta por António Luiz Pacheco   

 

Perdiz escalfada?  23-11-2009 22:10:17 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

O Inácio foi à bola....  24-11-2009 11:28:25 Resposta por António Luiz Pacheco   

 

Hum ...  24-11-2009 11:52:51 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

Escalfadela  24-11-2009 12:20:49 Resposta por Luis Paiva   

 

Ética???? a Escalfadela????  24-11-2009 14:00:51 Resposta por António Luiz Pacheco   

 

Permitam-me intervir...  24-11-2009 17:01:46 Resposta por alectorisrufa   

 

Escalfadas  24-11-2009 19:51:52 Resposta por Inácio   

 

Escalfadelas...???  24-11-2009 22:15:46 Resposta por Pedro Jorge   

 

ora aí está!.. tradições de caça  11-11-2009 2:32:39 Resposta por joaquimsoares   

 

Confrade Joaquim Soares  11-11-2009 9:18:52 Resposta por luisnovais   

 

Sr. Joaquim Soares, faça-me lá um favor...  11-11-2009 10:33:10 Resposta por paulo farinha   

 

Na Pele do Lobo e seu fojo!  11-11-2009 11:12:24 Resposta por luisnovais   

 

Manual do passarinheiro  11-11-2009 11:55:56 Resposta por luisnovais   

 

Confraria, ajudem-me lá a descobrir...  11-11-2009 15:05:08 Resposta por paulo farinha   

 

Confraria, já o descobri,...  11-11-2009 15:24:10 Resposta por paulo farinha   

 

rectificação  11-11-2009 23:40:58 Resposta por joaquimsoares   

 

Desculpa de quê?  11-11-2009 23:59:58 Resposta por António Luiz Pacheco   

 

Sr. Joaquim Soares, faça-me lá um favor...  11-11-2009 15:21:51 Resposta por paulo farinha   

 

Sr. Joaquim Soares, agradecia, mais uma vez...  13-11-2009 14:51:39 Resposta por paulo farinha   

 

ESCLARECER O QUÊ (paulo farinha )?  13-11-2009 15:56:29 Resposta por luisnovais   

 

MIL PERDÔES, Confrade Novais...  13-11-2009 16:20:52 Resposta por paulo farinha   

 

Está desculpado Homem!...  13-11-2009 17:22:24 Resposta por luisnovais   

 

confrade Paulo Farinha  13-11-2009 17:27:04 Resposta por joaquimsoares   

 

Caça com Furão  14-11-2009 14:54:31 Resposta por psilveira   

 

Bela memória da ilhas...  14-11-2009 22:05:25 Resposta por António Luiz Pacheco   

 

Era nisto  14-11-2009 23:14:27 Resposta por psilveira   

 

Excelente descrição e foto  14-11-2009 23:43:01 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

Bela caixa do furão!  15-11-2009 11:45:02 Resposta por António Luiz Pacheco   

 

Coelhos-Aguaceiros-Cartuchame  15-11-2009 16:07:49 Resposta por psilveira   

 


As artes tradicionais da caça 

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MIGUEL PEREIRA  23-09-2009 20:53:30
 
 

Confraria :

Algumas formas tradicionais de caça não devem nunca ser esquecidas, pela tradição, pela sua beleza própria, pela emoção inusitada, pelo seu sabor, pela diferença que permitem nos dias de hoje aos felizardos que as possam praticar e para isso tenham condições, quer na caça menor, quer na caça maior. Formas de caça ancestrais estão geralmente associadas à cetraria, à caça com armadilhas, à caça com arco e besta.
Uma coisa também a desaparecer acelaradamente da vida quotidiana da maioria dos caçadores é o tempo, e o tempo é uma variável imprescindível para aprender e aperfeiçoar estas artes ancestrais de caça. Muitas delas pressupõem uma entrega total e incondicional do homem aos grandes espaços ainda pouco tocados pela mão do homem, e povoados de criaturas ariscas e fugidias. Intermináveis horas de observação gastas na actividade, captando todos os pequenos pormenores da vida animal nos seus habitats, e isto, que não se compadece com pressas, tem um ritmo próprio e pausado para ir ... acontecendo.
Há duas artes tradicionais de caça que ainda pude presenciar aquando dos meus tempos de mochileiro e mais tarde como debutante encartado. Foram elas a caça com furão e o “chiar” – aquela palhinha de erva seleccionada que tão bem imitava um coelho em aflição agonizante e que deixava raposas, sacarabos e outros predadores (cães e gatos vadios, inclusivé) completamente de cabeça à roda, levando-os a comportamentos totalmente à margem daquilo que consideramos normal e estamos habituados a ver.

A caça com furão deve desaparecer para sempre?
Faz parte da nossa história cinegética?
Devia ser legalizada? Se sim com base em que pressupostos?
Os furões deviam ser registados ou terem um chip como os cães?

Espero que gostem do texto abaixo, talvez vos dê algumas idéias.

" O Estrelim

Em certa manhã de Janeiro e de sol rompemos para o monte, meu pai, o Mata-Leões e eu, além do rapaz do furão, que na mesma alombava com os bolos de bacalhau, os bifes panados e o resto, com o reforço dos cartuchos.
De noite chovera. Só por vício, que nem o mais puro sebo-de-holanda (que é manteigueiro) nos livraria de empapar no tojo a vitela das botas e polainas.
Não levávamos cães. Dia resolvido para apenas afuroar a coelhada, certo que sumida nos fragões e covas, guardando enxuto o pêlo, prevenindo possíveis constipações e defluxos.
Manhã de tiroteio, prevíamos, pois que de várias teixugueiras – uns labirintos subterrâneos de muitas saídas – nunca seria de pasmar que desembocasse perto de uma dúzia de coelhos, uns a seguir aos outros, ora por aqui, ora por ali, aterrados e esfogueteados pelo inimigo maligno.
Bom dia para a função, cheira-me! – disse o Mata-Leões, relambendo e reacendendo uma das suas beatas de folhedo de espiga.
- A ver! – trocou-lhe meu pai.
À uma da tarde, pela antiga, ainda não nos tinhamos estreado, e almoçámos no adro de Nossa Senhora da Pégada, resmungões. Quem nos viu, e logo trouxe vinho que emborascaria um batalhão, foi o Martins de Belos Ares, que já morreu há muito, e que também ofereceu marmelada.
Bom dia para a função?! – avinagrou-se meu Pai. – O tanas!
- O raio – corrigiu o Mata-Leões – ora onde raio se meteriam os coelhos?
Chamou, a seguir, uns nomes bastante feios aos coelhos, até que empenhou as suiças que em Fonte Coberta, na cova do penedo, que sempre dava coelhos de morada – com sol ou com chuva – iríamos forrar vingança. Cortassem-lhe o pescoço rente!
Lá, é que sim, com trinta raios.
Ele, cameando abrigueiros, moitas de urze chegadas a lapões côncavos, espreitando-os e varejando-os, esfuracando-os com a boca do cano - e nós sem querer saber das camas, de métodos palúrdios, chegámos por fim a Fonte Coberta, onde na cova do penedo, coelhos às dúzias se abrigariam.
- À risca! Mesmo à risca! – sossegou-nos o Mata-Leões.
– Três saídas, três armas! É certo que ainda sei ali arriba dum suspiro, mas tapa-se.
Dali foi-se uma pilha de roço, já seco, e veio com uma panada dele, atacou-a a tamanco no respiradouro para a qual não havia espingarda.
Meu Pai pôs-se fronteiro à saída mais provável, de Holland atenta e oxidada, luzidia e azul.
Eu, de perna moça, ataquei à desfilada a rampa doutro penedo próximo e estratégico, postei-me lá no cimo, de vigia : um peneireiro de olhos aguçados.
Encarando a terceira boca, ia ficar o Mata-Leões e a sua cahoeira de fósforo : um metro e pico de cano sextavado : uma lazarina.
- Agora faz-se preciso pouco barulho! – comandou o nosso monteiro-mor. – Quando pressentem barulho os coelhos entoam. Vou meter o furão.
Meteu o bicho bravio e tornou às arrecuas, ao mesmo passo que subia o perro. Ouviram-se os dois estalinhos sucessivos, o do descanso e o de fogo, anunciadores de ter aprontado a colubrina.
Só por gestos e sinais, depois, transmitia o que lhe ia palpitando, as esperanças e as dúvidas de que na cova de Fonte Coberta houvesse moradores, mas sem usar dos olhos, que, esses, enluarados pelo vício, queimavam a abertura e a escuridão que podiam entregar-lhe caça.
Um bom quarto de hora correu, e nada. O Mata-Leões, pé ante pé, abeirou-se então da saída à sua conta, estirou-se e deitou a espingarda ao chão, sem que a largasse, e auscultou os possíveis sinais que viriam da catacumba, se o guizo do furão chocalhava.
Pôs-se de gatas, depois, enjeitou a espingarda e ficou de braços arqueados e felinos, de mãos em garra de gavião. Se não fora o chapéu voltado para a nuca, dir-se-ia um homem das cavernas.
- Vai cá por dentro uma barulheira que Deus te livre – Assoprou.
Andava o furão em cima dalgum coelho, de certeza.
Mas sucedia o silêncio às correrias subterrâneas.
Diziam-nos os modos do Mata-Leões, o desandar e a tensão das garras, o olhar que me deitou.
Bem já o sabíamos todos da experiência. O furão alcançara o coelho, abocara-o e encavalara-se nele, chuchava-o.
- Deve ser cousa de poleiro ... – esclareceu o Mata-Leões.
Sabíamos também o que era isso de poleiro : algum ressalto, algum nicho ao desalcance da fera caçadora, que não trepa. E o coelho lá empoleirado, a salvo.
- Isto é que gente anda hoje com uma galinha! – rebentou o Mata-Leões, farto – E então que devia ser um bicharrão de coelho. Santo Nome! Pelas trupas que atirava!
Meu Pai acendeu um cigarro, e eu na mesma. Foi nisto que vimos o Mata-Leões armar de novo as garras. E aquilo pouco durou, coisa de instantes. Um gato não se arrojaria mais felino sobre o rato do que sobre o coelho, que enfim aparecia, se arrojou o Mata-Leões.
- Um Estrelim! É um Estrelim! Um Estrelim, que nem jimento!
De saber, da experiência, que tanto meu Pai como eu íamos impor-lhe que soltasse o prisioneiro – e morresse a tiro, ou fugisse -, o Mata-Leões, à cautela – depois, cevada ao rabo! -, deu rápido a desnocar-lhe a cabeça, atacou-lhe o nó da vida a foiçadas do cutelo de mão. O Estrelim esperneou e atirou dois galões, depois ficou mole e morto.
- Nunca mais caças comigo! Limpa-te! – arremeteu-lhe meu Pai.
- Mas olhe que é um Estrelim, senhor compadre! Olhe que é um Estrelim! O quarto que vejo em toda a minha vida, senhor compadre. Íamos agora sujeitar-nos ao arrisco de que se pusesse no mundo! O senhor compadre há-de perdoar-me, que não são cousas que se queiram dum home como eu! E um Estrelim! Logo um Estrelim!
Os olhos do antigo feitor, aflitos e enternecidos de lágrimas, comiam de amizade o patrão. E seguia :
- O senhor compadre, ao cabo, amanhã já nem se alembra! E torna a caçar com o Mata-Leões, torna que a nossa companhia não pode acabar deste feitio nem de feitio nenhum! Até à morte!
Que falta não perdoaria meu Pai ao velho Mata-Leões?!
- Pois bem, bem, acabou-se, mas não tornes! Com que então um Estrelim! Ora deixa cá ver como é um Estrelim! Tantas vezes me falaste em Estrelim, e eu a pensar que eram fábulas! Um Estrelim! E é um Estrelim! Pelos vistos, é que sempre os há!
Havia realmente Estrelins, havia. Eu é sempre neles acreditara, até da precisão de acreditar no impossível.
- Ora eu não lhe dizia, senhor compadre? A estrela branca na testa! Aqui temos a estrela branca na testa, e veja que bicharrão : do tamanho duma lebre! Digam lá o que disserem, cá para mim ninguém me tira que os Estrelins nascem de coelho e de lebre, ou ao invés, o que vale tudo um!
Meu Pai virava e revirava nas mãos o coelho enorme, convencia-se de que sem dúvida tinha uma estrela branca na testa.
E o Mata-Leões, vitorioso :
- E o senhor compadre não queria crer, até fazia pouco de mim. É que nós cá, os do monte, de certas cousas sabemos às vezes mais do que as pessoas da vila. Se sabemos, se sabemos! E o senhor compadre que se agastou comigo por eu querer mostrar-lhe que a verdade é verdade!
Ali tínhamos, o Estrelim, o tal fabuloso coelho, travesso de coelho e lebre. Com uma estrela branca na testa, como alguns cavalos...
Em Lisboa – e aposto – ainda hoje deve ignorar-se a raridade. E ignoram-na os dicionários : pois claro, pois claro!
Em toda a minha vida, este foi o primeiro e o derradeiro Estrelim que vi, mas vi-o.
Era saboroso de carne e tenro, não do tenro molengão dos coelhos domésticos, e sim do tenro saudável e rijo dos bravos.
Também o derradeiro foi o que o nosso Mata-Leões alcançou ver, que pouco tardou a fechar os olhos – e tanto aos Estrelins como à vida.
Padre-Nosso e Ave-Maria."

In Dicionário Falado, Tomaz de Figueiredo

Saudações,

MP

 
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