Caça Menor      

 

 

A propósito do conto ''Estrelim'' cujo autor  16-11-2009 22:46:29 Escrito por palmeira  (3 Respostas)  

 

Eu só troquei os apelidos para ver se havia  17-11-2009 0:00:02 Resposta por António Luiz Pacheco   

 

Confrade Palmeira  17-11-2009 20:52:07 Resposta por MIGUEL PEREIRA   

 

Caro Confrade Miguel Pereira, para que não haja  18-11-2009 16:00:19 Resposta por palmeira   

 


Confrade Palmeira 

Visualizações 532

MIGUEL PEREIRA  17-11-2009 20:52:07
 
 

Tomás de Figueiredo também não é correcto. O nome correcto é Tomaz de Figueiredo.

Não sei se conhece mas deixo-lhe também dele :

Á TOCA DO LOBO


- Pai, vem da morte e vamos às perdizes, vejo a aurora, que tinge do seu rajo de dente a dente a serra de Soajo…
- Ciprestes, desatai-o das raízes!
- Este inverno as perdizes são em barda: criaram-se as ninhadas sem granizo.
Vamos chumbar dos perdigões o guizo, anda matar securas da espingarda.



A tua Holland…O animal de presa…

O azul brunido…Velha e como nova…

Bem a merecias a alegrar-te a cova.

Penou-te de saudades, com certeza.


Aqui a tens. Porque era ver-te, olhá-la, sequer um dia que não fosse vê-la.

Olha deluz-se a derradeira estrela, já folga a luz no lustre aqui da sala.


Trinta anos depois, caçar contigo,e sempre conversando e á chalaça…

Mais que perdizes, hoje, melhor caça é matar fomes do caçar antigo.



Ver-te sorrir à escapatória sonsa da velha que não viu «perdiz nem chasco!»

E o Lord a anunciá-la sob o fasco, e tu lambendo o cigarrinho de onça…


Ó pai, se não vivias há trinta anos, também há trinta eu não vivia, pai!

O sol reacendido, vem e Vai divagando no aço inglês dos canos.


Ali, agora, o nosso amigo Lord, que tornou da raiz da laranjeira…

Dá aos queixos, marrado, na tojeira.

Vê cinco da bandada.

Cinco morde.


O amigo espera. Vê. Petrificou-se.

Esperam as perdizes que medusa.

Vai lá tu só. Desacolcheta a blusa.

Secundaste a chumbada! Pai, que fouce!


Como na morte nem perdeste a mão

de pôr a Holland à cara e desfechar!

Na mesma o nosso Lord o seu marrar, e a vista, o faro, o tento e a paixão!


Tens sede…Ouço a chamar-nos uma fonte…

Vamos beber de borco, à antiga moda.

Sentemo-nos na relva, amando em roda, ouvindo as idas falas do horizonte.


À moda muito nossa, de poetas…

Eu a falar de bulhas, bofetões, a perdigões contando os esporões e, sob a cauda, as régias pintas pretas.


À nossa moda antiga, e hoje a mesma…

Traz-nos o vento lemes de penisco.

Desce a beber na fonte, agora, um pisco, assustando os pauzinhos duma lesma.


E tu a perguntares dos meus estudos…

Que tal o meu Francês, o meu Latim?

«Ó pai, quanto ao Latim, assim-assim…»

Ah! pai, que somos dois soluços mudos!


Lá vejo a nossa casa. Estás a vê-la?

O nosso tanque, a fonte, o laranjal?

E a Maria Velha, no quintal, com um cesto de roupa e a estendê-la?


Ah! Meu pai, que até vejo pelos muros!

Lá te alcanço, da mesa à cabeceira.

Também deitando achas à lareira (e todos nós, da vida tão seguros…)

A bica ali da fonte era de vento, as perdizes, sequer embalsamadas, o Lord, sombra de asas afogadas, falcão de frio e fome, o pensamento.

Ah! Pai, que me repassam os nordestes, que vejo além ferrugens de mil cruzes: de dia, embora, palpitando luzes e a palma de verdete dos ciprestes.



in POESIA, Tomaz de Figueiredo

 
                                >> Responder