Caça Menor      

 

 

''Extermínio decretado'' de javalis no Brasil  23-11-2009 20:17:08 Escrito por hernethehunter  (10 Respostas)  

 

Erradicação do javali.  23-11-2009 20:49:33 Resposta por Luis Paiva   

 

Não exterminem é os ''veados''  24-11-2009 23:11:57 Resposta por flecha   

 

Caríssimo Hermethunter  13-11-2010 15:10:22 Resposta por joaoacabado   

 

Liberação da caça de javalis no BR  08-11-2010 18:37:50 Resposta por Susscrofabrasilis   

 

Confrade Suscrofabrasilis...  14-11-2010 15:01:38 Resposta por hernethehunter   

 

Batalhão de ''Colaboradores'' I  14-11-2010 0:00:22 Resposta por erresse1   

 

Nem mais...  14-11-2010 21:44:26 Resposta por alectorisrufa   

 

Nuno...  14-11-2010 22:15:57 Resposta por velhomurtigao   

 

Como diz o outro:  14-11-2010 23:36:51 Resposta por alectorisrufa   

 

Vamos lá  16-11-2010 8:05:13 Resposta por alentejanito   

 


''Extermínio decretado'' de javalis no Brasil 

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hernethehunter  23-11-2009 20:17:08
 
 

O Confrade Luís levantou a questão do “extermínio” decretado pelo governo brasileiro com relação aos javalis, assim

“P.S. Ouvi que o Governo Federal brasileiro quer extinguir o javali no território por ser uma espécie exótica e nociva ao meio ambiente.”

É, existe um programa de erradicação de javali, e eu faço parte dele. É a única forma (ou umas das pouquíssimas) de se caçar legalmente por aqui.
Daí para aproximadamente cento e cinquenta caçadores "colaboradores" (o custo das licenças e a dificuldade de porte de arma inviabilizaram a caça mais do que qualquer outra coisa) conseguirem extinguir os javalis numa área de aproximadamente 1.462.000 km2 – ou seja, mais ou menos 15 vezes a área de Portugal – vai longe, muito longe :) ...
O que acontece é o seguinte: hoje o javali é mais ou menos endêmico nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, mais ou menos do Rio Grande do Sul a Minas Gerais. Diz a lenda que ele invadiu a partir da Argentina e do Uruguai e foi subindo, o que é ridículo. O que aconteceu foi culpa do governo (que hoje se lamenta e toma “enérgicas providências”) e foi mais ou menos assim:
Antigamente – até 1998 – era impossível achar um javali de verdade fora do Rio Grande do Sul. No Paraná, estado onde moro – que faz parte da região Sul, mas dista uns 2.000 km do Rio Grande – “javali” até 94, 95 era sinônimo dos sobreviventes dos “porcos safristas”, ou seja, varas de suínos ferais muito semelhantes ao porco preto português ou espanhol. Os “porcos safristas” ou “porcos monteiros” (assim são chamados no Mato Grosso do Sul, especialmente no Pantanal) são descendentes de porcos que eram criados extensivamente nos anos 10, 20 e 30 e que sobreviveram, em pouquíssimo número no Paraná e em maior quantidade no Pantanal. Era esse porco que eu caçava antigamente, e que só era “javali” na hora de impressionar as namoradas.
Nos anos 80 e 90 alguns fazendeiros caçadores soltaram alguns machos e umas poucas fêmeas de javalis puros na minha região, mas o número ainda era muito pequeno: eu mesmo caçava numa propriedade de 4.500 ha. onde não havia mais de quarenta, cinqüenta. Em três dias de caçada via-se quando muito um javali, e era melhor não errar.
A desgraça do agricultor (e a bonança do caçador) começou em 1996, com a Lei do Meio Ambiente. A carne de javali tornou-se popular nas churrascarias nos anos 90, e as exigências para a criação eram tão grandes e burocráticas (e as conseqüências leves) que todo mundo comprou um “terno” (um macho e duas fêmeas) no chiqueiro do vizinho e começou a própria criação. Mas a Lei 9.605/96 punia a criação de animais exóticos em cativeiro com prisão e multas (coimas), e de quebra os policiais podiam aparecer sorrindo na TV como “defensores do ambiente”. Resultado: o pequeno agricultor matou quantos javalis podia, e depois abriu a porta do chiqueiro e soltou os sobreviventes.
Por uns anos tudo se acalmou; e os mais valentes ou imprevidentes continuaram com seus javalis ilegais; especialmente os sem-terra*, porque em invasão de sem-terra a polícia não entra (é o “Estado Burguês”, dizem eles). Mas em 2003 o preço da soja foi aos píncaros, e plantou-se soja onde se podia; e como faltou espaço para o milho, eliminaram-se pastos e outras terras menos férteis para plantar milho.
Foi a vez da “Geração 98” de javalis explodir: comida fácil e farta, nenhum predador. E o que fez o IBAMA? Ao invés de reprimir e autorizar o extermínio dos que estavam soltos, avançou mais uma vez nos chiqueiros, com mão de ferro. Sobrou até para os sem-terra: quem fosse autuado perdia o direito aos empréstimos sem juros, que são no Brasil exclusivos deles.
Bom, daí a turma abriu outra vez a porteira e soltou o restante, em terras que de pastos tinham passado a milharais. Foi uma farra: em três dias de caçada em 2005 eu contei 24 javalis ao alcance do rifle, entre filhotes e adultos, e pude escolher judiciosamente um pequeno que cabia no meu forno e um monarca enorme (as fotos estão no Sto. Huberto) para abater. Nesse mesmo ano eu vi um fazendeiro arrancando os poucos cabelos que lhe restavam (e como o sujeito fosse anticaça, rindo no meu íntimo) com o espetáculo de um enorme bando de javalis devastando o seu milharal; pareciam pulgas num rafeiro. De binóculo, eu contei cento e vinte e calculei uns duzentos e cinqüenta.
Então, finalmente, neste ano – 2009, Anno Domini – o IBAMA acordou e autorizou o abate em cinco estados, ampliando a Resolução 20, que era exclusiva do Rio Grande. Mas as exigências são tantas que o número de caçadores continua o mesmo: são quatro ou cinco matilhas, todas gaúchas – a Arroio Grande é a mais famosa – e o resto (como eu) vai a pé, no rastro ou na espera.
Ora, mesmo somando os ilegais – que devem ser quatro ou cinco vezes mais numerosos que os legais – quinhentos caçadores vão levar uns três milhões de anos para extinguir os javalis (que agora são abundantíssimos) em quinze Portugais. Isso se caçarem todos os dias, mas nós “colaboradores” (bonito título, não?) somos todos rigorosamente amadores, caçadores de fim de semana. No meu caso, e de três amigos “colaboradores” da região – os únicos, pelo que sei – só caçamos para encher o freezer, ou seja, duas ou no máximo três vezes por ano. E todos os outros são mais ou menos assim, de modo que na atual taxa de fertilidade a extinção do javali no Brasil se dará quando as galinhas criarem dentes, o Sol esfriar e o Inferno congelar. Principalmente porque não só não recebemos um centavo pela “colaboração” como ainda gastamos horrores, como já postei alhures.
Mas existe uma vantagem em ser “Colaborador”: você deixa de ser um chato antiecológico para ser “Sua Majestade, o Caçador”. Andei sumido nesses dias porque fui cometer um porquicídio a pedido de uma Fazenda Experimental Universitária aqui perto. Ganhei café, hospedagem, uísque, rapapés e agradecimentos (o que nunca aconteceu antes) para assassinar um macho velho (que eu saiba, criado em chiqueiro pelos sem-terra). Já que tinha mandado a ética às favas, usei a luneta na .375 H&H (Confrade Phantom, meu capetinha, venceste!) para liquidar o coitado a uns cento e cinquenta metros quando ele vinha namorar as porcas no cio, bem na beira do chiqueiro. Contei uns dezesseis machos junto com ele, que contrariando as recomendações do IBAMA de aguardarem estoicamente o extermínio decretado se escafederam com o barulho do tiro, voltando para umas tantas mais fêmeas e machos mais prudentes (porque nascidos em liberdade) nas proximidades. Por uns dias, a Fazenda vai ficar tranqüila; depois, this gun’s for hire. Deixei a carne lá, porque era um velho barrão, e logo publico as fotos, porque como minha mulher não foi (só ela sabe mexer na digital) levei só a minha velha Leica C2 (Confrade Phantom: procure “Leica C2” no Museu de Arqueologia Fotográfica).
Como vocês vêm, tem suas vantagens. Mas no todo eu mesmo concordo e afirmo que a introdução do javali no Brasil foi um péssimo negócio – noutro post explico porque, pois este está longo demais.
Saudações em Santo Huberto do,
Sérgio.

* Mesmo contra a gramática, não dou aos sem-terra a dignidade de uma inicial maiúscula.

 
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