Caça Menor      

 

 

A minha afilhada  09-05-2012 16:06:12 Escrito por Luis Paiva  (8 Respostas)  

 

gostei,Luis Paiva...  09-05-2012 18:45:49 Resposta por velhomurtigao   

 

Mas na verdade ...  09-05-2012 22:36:18 Resposta por Luis Paiva   

 

Mestre…  10-05-2012 0:07:47 Resposta por JulioSousa   

 

Julio Sousa,companheiro de ....  10-05-2012 0:14:17 Resposta por velhomurtigao   

 

José Neves,tá aí?  10-05-2012 0:16:20 Resposta por velhomurtigao   

 

tá bem visto....  10-05-2012 0:31:03 Resposta por JulioSousa   

 

pronto,tá bem...  10-05-2012 0:12:36 Resposta por velhomurtigao   

 

Digno CAÇADOR...  10-05-2012 8:25:31 Resposta por franciscoleitao   

 


A minha afilhada 

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Luis Paiva  09-05-2012 16:06:12
 
 

Para motivar o Confrade Vellomurtigão (eu não me vou esquecer do relato prometido) e para entreter a malta que tiver tempo para matar, deixo aqui o relato de uma jornada curiosa de Caça que tive a oportunidade de viver há uns tempos e que já inseri aí noutro espaço de debate como este, mas que alguns dos que aqui vêm ler, ainda não conhecerão:

A minha afilhada

Foi no Verão de 2005.
Se estiverem bem recordados, a estiagem tinha sido severa e o campo estava, todo ele, muito seco e poeirento por força de meses sem chuva e de índices de humidade muito baixos.
Como habitualmente, lá na Z. C. Transmontana, tínhamos reservado dois Domingos de Setembro para a Caça à codorniz. E aquele era o primeiro deles.

Se já tenho por hábito começar a caçar à codorniz muito cedo no Verão, naquela ocasião tinha essa preocupação redobrada pois que a partir das dez e pico da manhã, se tornaria penoso (para não dizer também que seria escusado) para os cães.
Tínhamos dois cães connosco, o meu e um Bretão veterano do meu companheiro de viagem. E não éramos muitos a tentar entalar as pequenas galináceas, apenas um ou dois dos locais e um par de forasteiros mais, cada qual com os seus canitos.

Recordo-me sobretudo do calor e do pó que o cão levantava, mesmo nos restolhos quase carecas, como se fosse um tractor de rastros e da imperiosa necessidade que eu tive de, aí de meia em meia hora, procurar água (a que levava, cedo se acabou) para manter o animal em condições. Valeu-me o profundo conhecimento da área e da localização das nascentes e das charcas que a pudessem conservar.

Não foi um dia de dar com muita Caça. Nem poderia sê-lo, pois estava tudo contra o cão; a temperatura, o pó e a falta de coberto com condições propícias a abrigar as aves.
Por isso, procurei-as, sobretudo, nas vinhas, e nas culturas de regadio que encontrei.
Dei apenas aí com umas quatro ou cinco.

Mas o que me fez a jornada ficar na memória, passou-se já quase no seu final.
Vinha em direcção do automóvel, sozinho e já depois das dez da manhã, quando resolvi fazer um último desvio de caras a umas vinhas pequenas e pouco cuidadas que se mantinham perto do Povo e onde existia um par de charcas que eu sabia terem, ainda, alguma água.
A intenção era dar de beber ao meu cão e levá-lo a cobrir os vinhedos na ida e na vinda, na tentativa de descobrir alguma codorniz mais serôdia.
Estava já na vinda depois do meu animal se ter regalado com a pouca e barrenta água que fomos descobrir quando, ao percorrer paralelamente às fiadas uma dessas pequenas parcelas de vinha (gosto de o fazer pela fiada do meio, quando a vinha não é larga), o canito, depois de uma ameaça de paragem, começou numa guia rápida e aos arranques que me deixou adivinhar o que não demoraria a se seguir. E assim foi; da ponta de lá da vinha, junto ao termo limpo que lhe sucedia, saltaram às duas e três de cada vez, um dezena boa de perdizes, com aquele alvoroço sonoro reconfortante que todos nós conhecemos. Ficamos os dois a olhar para elas, eu e o cão, sendo que só um sabia porque não tinham sido atiradas, enquanto voavam, baixas, na direcção de um murito e de um lameiro próximo.
Achei o episódio digno do encerramento da jornada e, uma vez tomada essa decisão, tomei também a direcção do automóvel, que coincidia com a que as aves tinham escolhido.
Não teria andado ainda cem metros, quando o meu cão, que, de baterias carregadas pela água e ânimo levantado pelo encontro com as perdizes, seguia a caçar à minha frente como se não houvesse amanhã, ficou completamente parado, amarrado a uns silvados junto às pedras de um muro meio caído, na saída do lameiro.
Fui-me dirigindo para ele e, quando estava aí a umas duas dezenas de passos, de junto às pedras, em aflição e esforço, uma perdiz tentou levantar uma e outra vez, caindo a cada tentativa num largar de penas desesperado.
Vi-me e desejei-me para manter o cão afastado, mas lá o consegui e, agarrada finalmente a ave, pude verificar que tinha uma das patas completamente enredada numa ponta de arame farpado ferrugento que teria servido, há muito tempo já, para coroar as pedras que limitavam o lameiro. Tratava-se de uma fêmea novita, com umas dez ou doze semanas, e tinha a pata presa completamente cortada, quase decepada pelos repetidos arranques feitos na ânsia de escapar. Sangrava um pouco dessa ferida e quando a soltei do arame, sempre com a dificuldade de manter o cão à distância, ficou-me nas mãos quieta e com o membro ferido preso apenas pela pele.

Fiquei sem saber o que fazer. Soltar a pobre ave, significava condená-la, pois não escaparia ao primeiro predador que aparecesse e mesmo que assim não fosse, não teria condições de procurar sustento, sem poder andar. Tirei o colete e, cuidadosamente, enfiei-a no bolso das costas, procurando aconchegá-la o melhor que podia. Fechei o bolso apenas parcialmente e vesti de novo o colete.
Daí até ao automóvel, tardei bem uns quarenta minutos em que devo ter levado as mãos às costas umas cinquenta vezes, tentando sentir se a ave estaria ainda viva. Não se mexeu e apenas senti o sangue que ia empapando o fundo do colete à medida que o tempo passava.

Quando cheguei ao carro, já sabia o que ia tentar fazer com a perdiz.
Como era costume, iríamos almoçar a casa de um companheiro local, ele também caçador e cuja mulher nos preparava a refeição a mim, ao meu parceiro e aos dois forasteiros que por lá andavam, também, nesse dia.
Ora, um deles, precisamente, tinha uma aves em casa (perdizes e codornizes) e, para além disso, uma filha veterinária, pelo que me parecia a solução ideal para o problema que eu transportava no bolso das costas do colete.

Mas só por volta da uma hora é que pude estar com ele. Fomos então os dois ver da ave, que continuava viva – apesar do muito sangue perdido – no bolso do colete que eu conservara debaixo do banco do automóvel. Dali, passámo-la para uma caixa de cartão com ventilação e para um canto fresco da sala onde almoçámos e, finalmente, para a viatura do seu novo “senhorio”.

Quando cheguei a casa, no Porto, ao fim da tarde, a primeira coisa que fiz foi telefonar a saber da ave. Foi-me dito que tinha chegado viva, que, examinada pela filha, tinha sido necessário amputar-lhe a pata (o que não me surpreendeu, de todo) e que estava agora numa gaiola junto a duas ou três outras que por lá já tinha.
De tempos a tempos, até porque nos encontrávamos ao fim de semana, quase sempre, na Caça, ia sabendo da perdizita. E ia-me sendo dito que ela passava razoavelmente, não acusando em demasia a amputação e que se alimentava bem e se deslocava, sem excessiva dificuldade, saltando numa pata só.
Meses depois, soube que tinha feito uma postura de treze ou catorze ovos mas que não tinham vingado a maioria dos perdigotos.

Dois anos mais tarde, já eu não me recordava tão frequentemente da ave, durante uma almoçarada que fizemos juntos, após uma caçada da geral, esse companheiro que lhe tinha dado abrigo, de repente e sem que eu lhe trouxesse o assunto, disse-me:

“É verdade!, Sabe? A perdiz que me entregou com a pata decepada, a sua afilhada, morreu há duas ou três semanas. Apareceu morta, na gaiola uma manhã”.

Saudações.
Luís Paiva

 
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