Caça Menor      

 

 

Enquanto uns batem o mato, outros apanham a caça..  25-05-2012 20:56:16 Escrito por Gonçalo Roquette  (1 Respostas)  

 

Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!  26-05-2012 0:10:09 Resposta por joseneves   

 


Enquanto uns batem o mato, outros apanham a caça.. 

Visualizações 865

Gonçalo Roquette  25-05-2012 20:56:16
 
 

Esta história tem a sua dose de exagero, mas também o seu inegável traço de verdade.
A jornada começou com um taco servido no campo.
Não terá sido seguramente um taco qualquer. Umas perdizinhas de escabeche, bem provável.
Lascas de presunto pata negra, mais do que seguro. E depois lá estariam aqueles pratinhos minorcas, mas muitos, com rações castelhanas que ele nunca ouvira pronunciar, nem fazia puto ideia o que fossem: filetes de boquerones de vinagrete, chipirones à andaluza, gambitas de playa, rabas de calamarcitos, pescadito frito, sepionas, navajas a la plancha, mijillones, beberechos galegos ao vapor, perceves, gamba blanca, salpicón de marisco, langostinos …
E sabe-se lá o que mais.
O campino só mirava. Bem, mirava e por certo salivava como um basset houd. Estava parvo com tudo o que havia em cima daquela mesa tão farta. E tudo aquilo para ser regado com tinto à vontade do freguês.
Só aguardava pelo sinal do patrão Infante da Câmara para se atirar àquele “comer”.
Em Vale Figueira não havia nada parecido com aquilo.
E se ele era perdido por comer… E beber? Isso nem se fala.
Às duas por três o patrão Zé ter-lhe-á feito sinal com a mão, discretamente, para que ele fosse com calma e se servisse devagar, como mandam as regras da boa etiqueta, para que os “senhoritos” anfitriões espanhóis não ficassem mal impressionados.
O campino entendeu esse gesto como o podia ter entendido, não importa agora se o entendeu bem ou mal: - Vá goela abaixo até acamar bem no bucho. Ou seja, entendeu, e muito bem, que estavam abertas as hostilidades e só tinha de ter cuidado para não se engasgar.
Com sofreguidão pegou num caneco e bebeu-o de penalti, pensando alegrais-vos tripas que aí vai vinho e este é só o primeiro, para matar o bicho e criar lastro como manda o patrão Zé.
Depois foi um nunca mais parar de dar ao dente. Diante dos pratos levantava as ventas como um perdigueiro, marrava e depois dava uma estocada rápida com as unhas em jeito de volapié (dir-se-ia que com medo que alguém quisesse abocanhar o mesmo pedaço).
Quando, já algo incomodado, o patrão Zé lhe fez sinal com a cabeça para parar e ir buscar as fundas com as Purdeys, já o campino tinha a barrica inchada com os botões da camisa a brigar com as casas que se viam aflitas para os aguentar. Ainda assim partiu bastante contrariado, com tanta coisa boa que ficava por morder.
Regressou num ápice, na mira de ainda poder trincar um último acepipe. Constatou, porém, com tristeza, que já não havia tempo para petisqueiras. Ia dar-se início à primeira enxota e os secretários já se dirigiam em passo acelerado para as respectivas portas.
Arre … tanta pressa para quê? – terá ele pensado.
Chegou esbaforido à porta 7 do patrão Zé, que era a ponta e ficava num barranco fundo, onde ele o aguardava. Mal ali chegou apressou-se a carregar as duas espingardas, que colocou no espigão de apoio. E quando se dobrou, para colocar os cartuchos nos orifícios do escaparate de metal, sentiu uma enorme pressão na tripa e veio lhe à ideia quantos pitéus teriam ficado na mesa por experimentar… Que desperdício!
Como bom escalabitano que era: … antes fazer mal do que sobrar…
Sentou-se e ficou a remoer naquela ideia.
Nisto ouviu-se um batedor gritar em plenos pulmões: “…PAJARO A LA PUERTA”.
O campino fez um sorriso de orelha a orelha e olhando para o patrão Zé sentenciou:
- Ai vem pargo senhor Infante!

 
                                >> Responder