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A caça ao javali em Portugal: aspectos reprodutivos desta espécie
 

     

Autor: Carlos Fonseca

23-01-2008 23:28:47

 

   
O conhecimento das características reprodutivas de uma população animal é um dos aspectos mais importantes a ter em conta na gestão dos recursos cinegéticos, já que é o mecanismo responsável pela reposição dos níveis demográficos populacionais. Em suma, o número potencial de animais disponíveis para a actividade cinegética, em cada ano, depende do sucesso reprodutivo de uma população.

por Carlos Fonseca

Departamento de Biologia/CESAM

Unidade de Conservação e Gestão de Vida Selvagem

Universidade de Aveiro

3810-193 Aveiro

E-mail: cfonseca@bio.ua.pt

 

 

 

Comparativamente a outros ungulados europeus de peso semelhante, o javali (Sus scrofa L.) é uma das espécies mais prolíficas, isto é, que procria abundantemente. Esta característica é conferida não só pelo grande número de crias por ninhada como também pela possibilidade de haver três períodos de reprodução em dois anos, tal como foi já descrito por alguns investigadores. Para além destes aspectos, esta espécie apresenta outras particularidades no que respeita a parâmetros reprodutores: a primeira reprodução é relativamente precoce (fêmeas com cerca de 33 kg podem entrar em ovulação), o período de cio é longo e irregular, podendo ocorrer um período de repouso sexual e o período de gestação é relativamente curto (cerca de 120 dias).


No sentido de se obter informação mais precisa e real sobre as características reprodutivas da população de javali em Portugal, procedeu-se a um estudo a nível nacional promovido pela Direcção-Geral dos Recursos Florestais em parceria com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (equipa da Doutora Aurora Monzón), da Universidade de Coimbra (equipa do Doutor Carlos Fonseca, actualmente na Universidade de Aveiro) e da Universidade de Évora (equipa do Doutor Pedro Santos). Este estudo tinha como principal objectivo avaliar o impacto do período venatório no ciclo reprodutivo do javali em Portugal. Foram amostradas populações provenientes de 12 concelhos de Trás-os-Montes e Alto Douro (Região Norte), 16 concelhos das Beiras Litoral e Interior (Região Centro) e de 9 concelhos do Alentejo (Região Sul). No campo, procedeu-se à recolha dos embriões/fetos de javali em duas épocas venatórias (1999/2000 e 2000/2001, com especial incidência entre Outubro e Fevereiro), bem como de informação relativa às fêmeas abatidas (peso, idade, estado reprodutivo, etc.). No laboratório efectuou-se a contagem dos embriões/fetos, determinou-se o seu sexo e a sua idade através da fórmula:

T = Ps1/3 + 2,3377/0,097

 

na qual T é a Idade do embrião/feto (em dias) e Ps é o Peso Fresco Médio da Ninhada (em gramas). Usando a idade do embrião e considerando o período de gestação de 120 dias, calculou-se a data de concepção e a data em que ocorreriam os nascimentos.

Em todo o país foram analisadas 374 fêmeas e 956 embriões/fetos.

 

Verificou-se um maior número/percentagem de fêmeas adultas (com mais de 2 anos) prenhes, quando comparado com as subadultas (entre 1 e dois anos de idade) e as juvenis (com menos de um ano de idade). Estas diferenças observaram-se particularmente nas fêmeas da Região Norte, o­nde 97% das fêmeas adultas se apresentavam prenhes, e nas da Região Sul, o­nde nenhuma fêmea juvenil se encontrava prenhe (Figura 1). Grande parte das fêmeas adultas estão em avançado estado de gestação e bastantes pariram, encontrando-se a amamentar em meados de Janeiro e Fevereiro.

 

 

 

Figura 1 – Percentagem de fêmeas (juvenis, subadultas e adultas) prenhes e não prenhes na Região Norte, Centro e Sul de Portugal.

 

Em termos de tamanho médio das ninhadas de javalis, observaram-se diferenças nas várias regiões, havendo mesmo uma ligeira tendência para o seu aumento das populações mais a Norte para as populações do Sul (Figura 2). Enquanto que na Região Norte as populações de javali possuem ninhadas com 3,96 crias (valor médio), no Centro e no Sul esse valor situa-se nos 3,94 e 4,37 crias por ninhada, respectivamente. A nível nacional, isto é, considerando todas as fêmeas amostradas neste estudo, independentemente da região de proveniência, a média do tamanho das ninhadas situa-se nas 4,17 crias/ninhada (± 1,48).

As ninhadas oscilaram entre uma a seis crias em Trás-os-Montes, uma a oito crias nas Beiras e uma a nove crias no Alentejo, reforçando o gradiente vertical verificado para outros parâmetros reprodutivos.

 

 

 

Figura 2 – Tamanho médio das ninhadas de javalis em Trás-os-Montes (Norte), Beiras (Centro) e Alentejo (Sul).

 

Quanto à época de cópulas e de nascimentos das crias de javali vs época venatória em cada região, verificou-se a ocorrência de uma grande sincronização das datas de concepção com as datas de nascimento (120 dias após) e da sua repetição nas duas épocas amostradas. Os picos (da cópula e dos nascimentos) variaram de região para região (Figura 3). Assim, na Região Norte do país, a cópula ocorreu mais tarde e, consequentemente, os nascimentos também, com os maiores picos a ocorrerem nos meses de Março e Abril. No Centro do país o cio ocorreu um pouco mais cedo e a maioria das crias nasceram em Fevereiro e Março, com picos bastante acentuados. No Alentejo, os nascimentos ocorreram praticamente durante todo o ano, com um ligeiro aumento em Janeiro e Fevereiro. Foi também no Sul do país o­nde se verificou uma maior sobreposição (em termos temporais) da época de caça ao javali (pelo processo de Montaria, que ocorre entre Outubro e Fevereiro, com especial incidência nos meses de Janeiro e Fevereiro) com a época de nascimentos das crias de javalis, confirmando a ocorrência de nascimentos durante praticamente todo o ano nesta região.

 

Tais resultados têm por base não só os aspectos naturais intrínsecos aos habitats dominantes em cada região (clima, disponibilidade alimentar, coberto vegetal, etc.), como também os aspectos relacionados com a gestão das populações deste ungulado que variam consideravelmente de região para região e, em muitos casos, de zona de caça para zona de caça, sendo a alimentação suplementar (fornecida pelos caçadores e gestores durante alguns meses) um dos factores que mais influência tem na biologia desta espécie.

 

 

Figura 3 – Dinâmica reprodutiva das fêmeas de javali nas regiões Norte, Centro e Sul de Portugal, com destaque para o n.º e período das cópulas e dos nascimentos vs período das montarias ao javali.

 


TA informação obtida neste estudo permite, de forma sustentada, proceder-se a uma gestão e exploração mais adequada das populações de javali no nosso país. De forma a evitar desequilíbrios populacionais acentuados, nomeadamente grandes e rápidas diminuições populacionais, sugere-se a antecipação da caça ao javali através do processo de Montaria, em algumas zonas do país (especialmente do Norte e Centro), dentro do período legalmente previsto (Outubro a Fevereiro), evitando-se o abate de fêmeas gestantes, prontas a parir ou a amamentar nos meses de Janeiro e Fevereiro. Na realidade, as fêmeas neste estado são mais vulneráveis ao abate durante processos de caça como a montaria, uma vez que possuem uma maior massa corporal (estão mais pesadas e com maiores dificuldades de movimentação) e são mais reticentes ao abandono do local que seleccionaram para parir o­nde, muitas vezes, já construíram as suas camas. O abate destas fêmeas, para além de levantarem alguns constrangimentos éticos, conduzirá a uma diminuição da produtividade da população de javalis nesse ano. Contudo, é uma medida de gestão levada a cabo quando se tem em vista a diminuição da população de javalis, especialmente em situações em que o elevado número de indivíduos está a causar avultados estragos nas culturas agrícolas ou mesmo a provocar acidentes rodoviários. A realização de mais montarias em Outubro e Novembro irá reduzir a pressão cinegética ao javali em Janeiro e Fevereiro, de modo a salvaguardar as fêmeas em estado avançado de gestação ou já paridas e a amamentar. Contudo, tal medida implicará um reajuste de outras tradições venatórias em algumas regiões do país (sobreposição com a caça menor) e uma adaptação das matilhas a condições climatéricas por vezes adversas, nomeadamente devido ao calor em excesso.


Cada vez mais é fundamental que o gestor de caça tenha um verdadeiro conhecimento da população de javalis que gere, não só da sua tendência demográfica, produtividade anual, picos anuais de cópula e/ou nascimentos, como também dos habitats que a suportam, de modo a poder implementar as medidas de gestão mais adequadas e proceder a uma calendarização das actividades venatórias de uma forma mais ajustada em cada época venatória.

 

 
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