| | 847 Utilizadores on-line |    

Login [Entrar]

 
   
 
 
Histórias de Caça

Início

Anterior

Próximo

Fim


Peredo dos Castelhanos
A magia de um lugar
 

     

Autor: AGOSTINHO BEÇA

08-02-2008 2:54:42

 

O rio que nos separa do resto do Mundo...
   
Rex - Um excelente Setter Gordon
   
Sempre a subir em ziguezague
   
Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar perdizes. Mas dá.
   
Um lugar mágico
   
«Ouvimos em surdina que Miguel Torga teria comentado para o Doutor Urbano, um médico local que foi seu colega em Coimbra e partilhava com ele a paixão da caça, que "não há coisa mais bonita do que uma perdiz derrubada de asa nas ladeiras do Peredo". (…)»

 

Assim, tal e qual, é o que se lê numa página informativa-divulgativa (http://www.cm-moncorvo.pt/freguesias) sobre Peredo dos Castelhanos, relativamente ao tema “Tempos Livres/Caça”! Lê-se também que sempre foi «terra com caçadores afamados» e acerca da abundância de caça menor «quando se semeava até nas ladeiras do Douro»; no mesmo texto, entre outras coisas, dizem-se ainda verdades irrefutáveis quanto aos excessos cometidos nas últimas décadas, das incursões de numerosos grupos de caçadores, causadores de excessiva e desregrada pressão sobre a fauna e não só…, ao uso de formas, métodos e modos de caçar menos próprios, que levaram ao quase completo esgotamento das espécies. Dito de outra maneira: até “bater no fundo”…

 

Fala-se, porém, com optimismo, de como as coisas estão agora a melhorar, por força do ordenamento cinegético. De facto, as populações autóctones de caça menor têm esta espantosa capacidade de facilmente recuperarem, desde que lhes sejam proporcionadas condições adequadas e disponibilizados os recursos necessários; a própria Ciência, nos compêndios de Biologia, caracteriza esses organismos como estrategas com este tipo de particularidade. É tempo, portanto, de compreender a essência dos ecossistemas naturais, aceitar e interiorizar, definitivamente, a importância das relações equilibradas entre presas e predadores.

 

Motivo de satisfação é também que nem tudo se perdeu neste entretempo. Hoje existem espécies que, pelas mais diversas razões, seria impensável proliferarem há 25 ou 30 anos atrás. O crescimento progressivo das populações de javalis e igualmente de corços, embora estes ainda de forma algo incipiente, traduz, só por si, uma importante melhoria da biodiversidade e deixa antever um sem-número de oportunidades. Haja a suficiente lucidez e bom senso para a sua gestão e exploração sustentada.

 

No entanto, os problemas não estão terminantemente erradicados (nem nunca estarão, talvez…). Outro tipo de perigos existe no actual contexto. As “incursões” de grupos de caçadores menos escrupulosos assumiram novas formas. A sua irreprimível vontade de caçar com o menor custo possível, levam alguns a usarem expedientes que, além de pouco éticos e legais, são verdadeiramente injustos e lesivos para quem, honestamente, se esforça por cumprir e fazer cumprir as leis dos homens e as da Natureza. Tais atitudes dificultam seriamente o bom funcionamento e o êxito do ordenamento cinegético, podendo até fazer perigar a viabilidade do sistema. Contudo, porque este sistema se quer auto-construtivo e auto-crítico, será indispensável estimular e fortalecer o espírito associativo, disciplinar comportamentos, sensibilizando, no interesse de todos, para o cumprimento dos regulamentos internos e das normas legais, colocar os valores da colectividade acima dos individuais, anulando egoísmos e pugnando por um bem que é de todos e a todos deve favorecer.

 

Fundamental é também a harmonização de interesses entre os diferentes utilizadores do território, indutora de benefícios não só materiais e directos, mas também de grande valor estético e lúdico. Nesse sentido, pode afirmar-se que a gestão cinegética racional e sustentada, além de contribuir significativamente para a economia local, gera ainda importantes amenidades, tão relevantes como outras externalidades positivas resultantes das actividades agrícolas no espaço rural, já que o papel do agricultor-caçador-gestor-da-caça não se esgota na manutenção da paisagem bem cultivada, agradável à vista, de amendoeiras em flor, vinhedos, olivais e outras, tem continuidade na conservação e aumento da diversidade biológica, em consequência das boas práticas de fomento da fauna bravia em estado natural.

 

Mas, pensando noutros aspectos igualmente importantes – com ou sem perdiz derrubada de asa, é impossível ficar indiferente perante a grandiosidade da paisagem! Não é preciso ser-se poeta ou literato. Mesmo o espírito mais rústico e empedernido, ali, solta por vezes um simples “é bonito isto…!”, que tem igual força e o mesmíssimo valor das palavras mais eloquentes de um erudito quando procura exprimir este tipo de emoções.

 

Para um caçador de perdizes, Peredo dos Castelhanos é um lugar de certo modo mágico. Um caçadouro extraordinário. Talvez dos melhores lugares do país para caça de salto à perdiz. Isto, naturalmente, para quem gosta do desafio de voos picados que o acidentado destes terrenos proporciona. Olhando para a carta militar da zona logo vemos que os desníveis são assustadores e o dobrado do terreno exigirá uma táctica bem pensada, ou bom conhecimento das querenças dos bandos, sob pena de a caçada ser um fiasco e uma canseira inglória.

 

Se porventura o leitor entender tomar o caminho com início na barragem do Pocinho, subindo pela margem direita do Douro – “o rio que nos separa do resto do Mundo...” – chegará a um entroncamento e deverá continuar pela direita, passando a pequena ponte sobre a Ribeira do Arroio. Se seguisse em frente encontraria a interessante aldeia da Açoreira e daí poderia ir para Maçores ou para Torre de Moncorvo, sede do concelho. Mas tome o caminho certo... Hoje encontra-se asfaltado e, apesar de só caber praticamente um carro, circula-se com relativa comodidade. Na época era em terra batida, cheio de pedregulhos que iam caindo dos taludes rasgados pelas máquinas da Engenharia Militar. A partir da dita ribeira, é sempre a subir em ziguezague, desde a cota dos 200 metros, até quase 500. Em certos lugares é tenebroso imaginar o que seria a queda. Não tinha “rails” nem qualquer tipo de resguardo, exigindo do condutor grande atenção.

 

À esquerda, em toda a imensa encosta do monte oposto, inúmeros pequenos muretes de xisto seguram o solo que alimenta mirradas amendoeiras, no limiar da sobrevivência, semi-abandonadas, mas que na Primavera florescem ainda, oferecendo um espectáculo ímpar e desconhecido dos “amendoeiros” – romeiros que invadem a região em Fevereiro, de autocarro e garrafão, farnel, concertina e cavaquinhos. Supostamente vêm ver as amendoeiras em flor, mas acabam por se limitar a percorrer as EN’s e ocupar ruidosamente os espaços públicos das nossas vilas e cidades. Em autênticas hordas de espírito tribal, armam por vezes violentas zaragatas com os autóctones, resultantes, é certo, de inoportunas provocações de parte a parte. Emprestam animação e deixam bom dinheiro, principalmente nas casas de enchidos e outros produtos profusamente publicitados como “regionais”...

 

Lugar inóspito, seco, crestado, com pouca vegetação arbórea e arbustiva, apenas pontilhado de zimbros, solos esqueléticos, o­nde até as estevas e arçãs têm dificuldade em vingar. Parafraseando mestre Miguel Torga, apetece dizer: Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar perdizes. Mas dá. Perdizes boas e selvagens. Por serem bravas e darem luta, sabem a suor. É por isso que cada uma é um troféu inigualável.[1] Verdejam algumas – muito poucas e pequenas – parcelas de cereais e forragens. Aparentemente, olhando em volta, parece inexplicável como em quase todas as épocas se criam tantos e tão grandes bandos destas aves essencialmente granívoras. Por isso e pelo facto de existirem algumas preciosíssimas vinhas com “benefício” e providenciais laranjeiras em recantos o­nde menos se espera, é um lugar mágico. Com efeito, bastaria uma pequena ajuda à natureza para que as densidades populacionais, mesmo assim habitualmente acima da média, pudessem ser muito mais interessantes. É absolutamente desnecessário – até indesejável, para não dizer mesmo que é má prática de gestão cinegética – “experimentar”, ano após ano, repovoamentos com espúrias perdizes criadas em cativeiro; o assunto resolve-se facilmente com algum engenho, semeando mais e mais cereais, pastagens, consociações forrageiras, instalando bebedouros e melhorando o acesso aos pontos de água naturais, vigilância e contenção nas capturas, ou seja: com efectivo e eficaz acompanhamento no ordenamento do habitat e na exploração das espécies.

 

À medida que subiam, com dificuldade para a velhinha Renault 4L, relembravam anteriores episódios e lances de caça, alguns já um pouco difusos na memória – há mais de vinte anos que percorrem estes sítios atrás das perdizes...


Amanhecera quando chegaram à estrada que liga a Urros pelo planalto. Como habitualmente estacionaram no lado direito e, também como sempre, a costumada demora do companheiro com os preparativos, superior a meia hora. Abre porta, fecha porta, tira objecto, põe objecto...

Parece que te agarras ao carro! Anda lá. Elas já estão ali à nossa espera...

 

De modo intraduzível, resmungou alguns impropérios e continuou nas suas operações, voltando ainda a abrir e fechar o carro.

Olha o­nde é que já estão os cães...! O que te falta ainda? Vamos lá.

 

Por fim iniciaram a caçada, pelos altos do lado esquerdo, planeando seguir em direcção a Urros, um à vista da estrada e o outro mais por baixo.

 

Aqui também pode caçar-se para o lado direito, o­nde todos os vales e linhas de água terminam no Douro, numa paisagem extraordinariamente difícil para caçar, mas igualmente fértil no que respeita a perdizes. Esta “volta” tem ainda a vantagem de permitir, nalguns pontos, chegar ao rio para dessedentar os cães e, se o tempo o permitir, dar um mergulho retemperador, recuperando forças para o regresso, que não é nada fácil. Na outra margem fica o Vale do Côa, povoado das memórias e marcas indeléveis de caçadores do paleolítico, hoje justamente classificado Património da Humanidade. Ocorreu-lhe que deste lado os mesmos homens também viviam e caçavam, pela simples e lógica razão de as características biofísicas do lugar serem exactamente as mesmas. Caçar nestas terras faz-lhe sentir mais uma vez a intemporalidade do acto venatório e perceber perfeitamente as razões que levaram aqueles seres humanos a fixarem-se nestas paragens.

 

Nesse dia, porém, foi seguido o plano mais habitual, que é avançar, paralelamente à estrada, até próximo da aldeia, regressar por uma cota inferior e seguir os bandos que entretanto foram sendo levantados no trajecto inicial. Depois é a hora de caminhar lentamente, pelas linhas de água, deixando os cães cumprirem a sua função de animais de mostra, obrigando ao espectacular levante das que ficam pregadas.

 

Não tinham passado cinco minutos e, como já imaginava e o Rex anunciara, o primeiro bando levanta na orla da vinha que fica na dobra do terreno, a escassos cem metros da estrada. Dois tiros em vão.

 

A jornada continuou, sem grandes atropelos ou episódios dignos de registo, com a relativa normalidade de um dia de caça às perdizes, se bem que cada um é sempre diferente de qualquer outro. Um bando aqui, duas ou três ali, outro bando mais à frente, enfim, um número razoável de perdizes foi mexido, encaminhando-se para o­nde as queriam – nos fundos, junto aos ribeiros por o­nde haviam de regressar.

 

Não correu muito bem esse regresso. Avistaram algumas, distantes e certamente atentas. De tão massacradas, a meio da época já “sabem ler”! Alguns tiros falhados e poucas oportunidades de atirar limpo. o­nde se teriam metido foi pergunta que ficou sem resposta. Resolveram subir novamente até às proximidades do ponto de partida, estratégia que muitas vezes dá bons resultados, especialmente neste sítio.

 

Passava da uma hora da tarde quando chegaram ao meio do caminho por o­nde, pela manhã, tinham vindo de carro. A curta distância, um volumoso perdigão salta, estrondosamente, como que impulsionado por uma potentíssima mola, quase na vertical. Aquele rufar inconfundível provoca sustos tremendos aos principiantes e faz igualmente estremecer o corpo inteiro de qualquer um, por muito experiente que seja. O primeiro tiro, certeiro, fá-lo abanar, mas não cair. Acusou nitidamente o segundo tiro, este com pouca precisão... não cai de imediato, só depois de alguns segundos que pareceram intermináveis. Tombou a uns 30 metros, parecendo fulminado, redondo.

Busca lá, Rex! Busca...

 

Cão experiente, rapidamente chegou ao ponto da pancada. Seguindo-o, viu o perdigão imóvel no chão e confiadamente deixou que o abocanhasse. Sentado, o Rex, com aquele belíssimo exemplar atravessado na boca, que se percebia ser uma ave de tamanho respeitável, provavelmente um macho com três anos, ou mais, olhava, aguardando que lhe dissesse alguma coisa.

Dá cá, lindo... dá cá.

 

Aproximando-se, foi estendendo a mão na direcção daquele conjunto divino – o cão sentado com a perdiz na boca. Bonita imagem, cena de encher as medidas a qualquer caçador de perdizes!

 

O inesperado aconteceu! No preciso momento em que alivia ligeiramente os maxilares, o perdigão estrebuchou e, sem dar tempo a mais nada, eleva-se no ar num torvelinho. Precipitadamente, tentou o terceiro e último tiro da Saint Étienne semi-automática, falhando. Embevecido com a cena, não tinha recarregado arma!

 

Inacreditável! Incrível! Nunca tal lhe tinha acontecido em muitos anos de caça! O cão até costuma segurá-las bem..., mas desta vez... estava tão espantado como o dono! Incrédulo, gritou:

Oh! Oh! Saiu-lhe da boca...!

 

Aí vai ele...!!!

 

Não refeito da surpresa, boquiaberto, seguiu-lhe o voo, de asas abertas, obliquamente em direcção ao vale, enquanto gritava a plenos pulmões para o companheiro, naturalmente proferindo todos os palavrões conhecidos e usados em tais circunstâncias.

Chiiicooo....., aí vaiiiiiii...!

 

A distância que os separava era enorme e nem sequer o via, embora soubesse que seguia junto ao ribeiro. Fixando o olhar naquele “míssil” animado de uma velocidade estonteante, viu que, depois de descer um desnível apreciável até quase tocar nos arbustos da linha de água, sem bater as asas, só com o balanço da velocidade conseguida na descida, subia na encosta em frente e, repentinamente, caiu. Assinalou o ponto da queda: uma amendoeira que lhe pareceu diferente das demais, por ser mais grossa e retorcida.

 

Desceu a direito, em passo-corrida, sem ver muito bem o­nde punha os pés, procurando não perder as coordenadas do ponto marcado. Em poucos minutos, apesar dos tropeções nas pedras soltas e em todos os obstáculos que se lhe deparavam, pulando paredes, troncos, giestas e estevas, cai aqui, cai ali... chegou ao ribeiro.

 

Entretanto o companheiro, alertado pelo enorme alarido, acorreu ao local. Esbaforido, melhor dizendo, com os bofes na boca, numa curta pausa, mal conseguindo respirar e falar ao mesmo tempo, explicou rapidamente o que se tinha passado. O Rex, respirando também com dificuldade, pela corrida e excitação de semelhante episódio, estava visivelmente extenuado. Arfava e babava-se como nunca.

Onde está?

Mais ou menos nesta direcção, p’ra cima. Vamos lá c’os dois cães. Deve estar redondo. É mais difícil pr’a eles!

 

Subiram juntos. Os cães, apesar de exaustos, sabiam bem o que havia a fazer. Metiam dó. Línguas de fora, arfando ininterruptamente, buscavam. Afinal, de perto, as amendoeiras eram todas iguais. A única referência certa era que tinha caído junto ao tronco de uma delas.

 

Apesar de ser um dia de Inverno, o calor do fim da manhã apertava e a subida parecia mais íngreme do que era na verdade. Com grande esforço, foram progredindo no terreno, conduzindo os Setters ao lugar. Relativamente afastados um do outro, subiram uns bons 150 metros até que o Rex, parado, estático, siderado, apontava para o toro da dita amendoeira – era aquela! O perdigão não se tinha mexido.

Boca lá, lindo...

 

Numa fiada repentina abocanhou-o, com semelhante raiva que as tripas esguicharam.

Dá cá, Rex.

 

Custou-lhe a largá-lo, como quem diz:

Hás-de-as pagar!

 

Apertando-lhe os cantos da boca com os dedos e pisando-lhe ligeiramente uma mão, largou-o por fim. Avaliou-lhe o peso e observou-lhe outros pormenores: cabeça enorme, perfil maciço, patas e bico grossos, dois esporões num tarso, três no outro. Utilizando a ponta de uma pena comprida da asa – velha técnica ensinada por caçadores de outras gerações – acabou de o estripar e pendurou-o na cartucheira, com o respeito que merecem as perdizes autênticas, bravas como esta. Nada que se pareça com outras que agora é hábito introduzir nalgumas zonas de caça, nem se chega a perceber bem para quê...

 

Belo animal! Deve ter na zona muita e boa descendência.

 

Depois de breve descanso, para eles e os cães, seguiram ribeiro abaixo, esgotados fisicamente, mas com a alma reconfortada e num estado de espírito elevado, envolvidos pela paisagem, comentando a rijeza destas aves, questionando do que se alimentam aqui, sem cereais, como é possível que sobrevivam e procriem... e que momentos invulgares proporcionam... 


[1] Refere-se ao belíssimo trecho de “Um Reino Maravilhoso”: «...Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Pão de milho, de centeio, de cevada e de trigo. Pão integral. Por ser pão e por ser amassado com o suor do rosto, sabe a trabalho. Mas é por isso que os naturais o beijam quando ele cai no chão …»

 

 
Imprimir   Imprimir
     
     
     
     
 
 
 
Votos (134)    
 
     

Comentário(s) (6)   Comentário(s) (6)    
    saudade    
    MAGIA DE UM LUGAR    
    A magia de um relato...    
    Que Bonito!    
    Bravo!    
    excelente    
   
     
  Voltar

 
 

| Ficha Técnica | Aviso Legal | Política de Privacidade |

 

(TES:1s) © 2004 - 2017 online desde 15-5-2004, powered by zagari