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Javali (Sus scrofa)
 

     

Autor: António Heitor

18-10-2004 11:30:00

 

   
Mamífero originário do Norte de África e sudoeste da Ásia. A sua área de distribuição estende-se por quase toda a Europa (à excepção das zonas mais a Norte – Islândia, Noruega, Finlândia e das Ilhas Britânicas onde se extinguiu por volta do século XIV), pela Ásia e pelo Norte de África. Foi introduzido nos E.U.A. e Austrália (onde se tem verificado com alguma frequência o cruzamento com outros porcos, quer domésticos quer assilvestrados).

Nome comum: Javali

Nome científico: Sus scrofa

Outras designações:Porco-montês, javardo, porco-bravo

Peso: 250 Kg macho, e 150 Kg a fêmea

Comprimento:1 – 1,5 metros

Altura máxima do garrote: 1 metro

Nos últimos anos as suas populações têm aumentado consideravelmente. A recente evolução das populações ibéricas é um bom exemplo desta tendência, pois é comum um pouco por toda a Península, mesmo nas zonas o­nde há muito não era avistado. Nalguns países do Centro e Norte da Europa o­nde se encontrava extinto, como a Suécia (subsistindo apenas alguns indivíduos dentro de áreas cercadas), podemos hoje encontrar algumas populações selvagens.

Esta expansão foi resultado não só da mudança radical na paisagem das zonas de montanha (de pastorícia extensiva) e das zonas agrícolas europeias no geral, mas também devido à sua elevada adaptabilidade a novas condições, à sua biologia reprodutiva (espécie prolífica) e alimentar, à maior disponibilidade de alimento nas zonas agrícolas e à diminuição das populações dos seus principais predadores, como o lobo, Canis lupus, o lince, Lynxsp., e a águia-real, Aquilla chrysaetos.

O êxodo de grande parte da população rural para as grandes cidades, conduziu ao abandono progressivo das práticas agrícolas ancestrais e a uma diminuição do número de cabeças de gado, causando mudanças drásticas no uso do solo e na estrutura da vegetação (muitas vezes tornando-se mais favoráveis para o javali).

O javali foi desde sempre um troféu bastante apreciado pelos caçadores, e actualmente, graças ao aumento das suas populações, é uma das principais, senão mesmo a principal, espécie de caça maior de muitas regiões europeias.

Em Portugal é comum em quase todo o território continental, e na Madeira existe uma população resultante do cruzamento entre o javali e o porco doméstico.

Pertence à família dos suídeos. Tem pêlo acastanhado quando adulto, e os juvenis são listados, de preto e castanho-amarelado (protecção contra predadores – mimetismo), escurecendo com a idade. Nos adultos o pêlo é forte e costuma partir nas pontas, e podem ser considerados dois tipos de pêlos, uns mais rijos, as cerdas e outros mais macios.

Pode viver entre 20 a 25 anos, embora no estado selvagem não costume viver tanto tempo.
 

É essencialmente de hábitos nocturnos, podendo ser avistado com maior frequência ao nascer e ao fim do dia. Na altura da reprodução, ou quando existe fraca disponibilidade alimentar, são mais facilmente observáveis, pois os animais são obrigados a percorrer maiores deslocações.

Tem na maxila superior dois dentes salientes que se costumam designar por “amoladeiras”, enquanto na inferior possui dois dentes, ainda de maiores dimensões, as navalhas (razão para a designação de “navalheiros” dos grandes machos).

De compleição forte, de perfil afilado, com membros forte e bastante ágeis. Os machos adultos podem chegar aos 250 Kg, enquanto as fêmeas não ultrapassam em média os 150 Kg.

Os animais do Norte da Europa tendem a ser maiores e mais pesados do que os do Sul do Continente. O dimorfismo sexual (traduzido por uma diferença de tamanho entre o macho e a fêmea e pela dimensão dos dentes) é maior nas classes etárias mais velhas (mais acentuado a partir dos dois anos).

Nas nossas latitudes a gestação dura cerca de quatro meses, nascendo as crias entre Fevereiro e Abril (com um pico de ocorrência em Março). Uma fêmea pode ter 8 a 10 leitões, embora o número médio se situe entre os 3 a 6, sendo a ninhada maior nas populações do Norte da Europa. A fêmea esconde normalmente a sua ninhada em zonas de densos matagais.

As diferenças na fertilidade das fêmeas, traduzidas no tamanho da ninhada, podem ser explicadas não só por factores fisiológicos da própria fêmea, pois as fêmeas reprodutoras são normalmente maiores que as não reprodutoras e pela idade das fêmeas (normalmente as primeiras ninhadas são sempre menores), mas também pela densidade populacional, pelo fotoperíodo e pela qualidade e disponibilidade de alimento.

Pensa-se que os nascimentos estarão condicionados pela ocorrência de condições climatéricas extremas. Assim, em locais de fortes nevões e baixas temperaturas, de Inverno mais rigoroso as crias nascerão entre Abril e Junho, enquanto nas zonas com estação seca bem marcada e prolongada, como a Península Ibérica nascerão o mais cedo possível, no começo da Primavera, aproveitando os novos rebentos.

Em zonas de elevada disponibilidade de alimento e com Inverno ameno, os nascimentos podem ocorrer mais cedo. No caso de se fornecer alimentação artificial, os nascimentos podem começar em Dezembro e durar até Junho (havendo alguns registos de nascimentos entre Novembro e Março).

É omnívoro, sendo a sua lista de alimentos grande e diversa. Os alimentos de origem vegetal são a base da sua dieta, que pode ser composta por plantas (ou parte delas), frutos (como a castanha, as bolotas e azeitonas), insectos, moluscos, pequenos mamíferos, aves (ovos) e, por vezes, carne em decomposição. A componente animal é sempre menor que a vegetal, e complementa esta, pois é rica em proteínas.

No geral, o javali come o que estiver mais disponível, tendo no entanto preferência por alimentos ricos, como os frutos e algumas plantas agrícolas. A sua alimentação varia de local para local, e durante o tempo. Esta variação parece ser o reflexo de diferentes disponibilidades de alimento.

Em resumo podemos dizer que em resposta às variações espaciais e temporais na variabilidade e abundância de alimento, o javali come aquilo que o meio lhe oferecer, empreendendo por vezes grandes deslocações (que podem chegar aos 250 Km) para encontrar o alimento que deseja, e aqui reside talvez uma das principais razões para o sucesso desta espécie.

Por se alimentar de plantas agrícolas, é responsável por danos avultados na produção agrícola. Contudo, uma boa parte dos estragos são resultado do atropelamento e destruição quando se desloca e quando desenterra as plantas para se alimentar das raízes. Os estragos atingem maior dimensão na Primavera e Outono, e são ainda maiores quando existe menor quantidade de frutos silvestres.

Assim, a disponibilidade de alimento é um dos factores chave para a dinâmica populacional do javali e para o sucesso reprodutivo.

A importância da alimentação advém do facto desta ser essencial para a manutenção do bom estado físico dos animais. Este pode ser avaliado pelo Índice de Condição (IC) e/ou pelo Índice de Gordura Renal (IGR).

O IC dá-nos uma relação entre o peso e o comprimento do animal, e foi definido tendo em conta o facto das variações de peso estarem relacionadas com o estado nutricional, permitindo desta forma avaliar a condição física do indivíduo. O IGR quantifica as reservas energéticas acumuladas (método bastante usado para os cervídeos).

Em relação à variação do IC ao longo do ano, podemos dizer que, de uma forma geral, ele diminui, tanto nos machos como nas fêmeas, do Inverno até ao Verão (altura em que são verificados os valores mínimos) começando a aumentar outra vez no Outono. Assim, os javalis apresentam melhor estado físico na no início da altura reprodutora (acasalamentos) e na altura dos nascimentos.

Vários estudos na Europa sobre preferências alimentares e sobre os danos na agricultura, apontam para uma preferência pelo milho (Zea mays), sendo também a cultura em que se verificam os maiores prejuízos. Os estragos assumem também proporções consideráveis em vinhas (embora neste caso fruto de destruição enquanto procura por raízes e rebentos tenros) e nos cereais. Em pastagens, o­nde o javali procura invertebrados, revolvendo a terra, foçando, deixando marcas bem características, os estragos são de maiores dimensões em zonas de pastagens melhoradas, mais comuns no Norte e Centro da Europa, do que em regiões de pastagens naturais, como é o caso Mediterrânico). Há também registos de danos em arrozais.

Estes estudos sugerem ainda que a disponibilização de suplemento alimentar, provoca desequilíbrios na alimentação dos javalis, pois normalmente são fornecido alimentos ricos em energia, a que os danos nas culturas agrícolas sejam maiores, pois os javalis vão procurar com maior insistência alimentos ricos em proteínas nestas áreas (normalmente em pastagens).

Por forma a evitar danos, podem ser usadas redes eléctricas, avisos odoríferos, sonoros ou visuais, e obstáculos físicos.

O javali pode também constituir uma ameaça para alguns vertebrados, principalmente para as aves que fazem ninho no solo (quer por destruição de ninhos, consumo de ovos ou juvenis) e mesmo em alguns roedores. Na bibliografia disponível sobre o assunto são relatados os casos da galinhola (Scopolax rusticola), do faisão (Phasianus colchichus) e do coelho (Oryctolagus cuniculus) (em França), e na Península Ibérica a perdiz (Alectoris rufa), a lebre (Lepus capensis) e o coelho. Este efeito será tanto maior quanto maior a densidade de javali.

Existem também alguns registos de mortes de animais domésticos (embora com pouca expressão). A relação entre esta espécie e o Homem nunca foi pacífica, e o problema do cruzamento com porcos domésticos, a transmissão de doenças aos animais domésticos e os estragos na agricultura têm contribuído para que as queixas contra este animal aumentem.

As densidades de javali são normalmente da ordem dos 10 animais por 100 hectares. A sua área de acção (não é um território no sentido normal, pois não existem marcações) pode variar entre os 4 e os 22 Km2, e em zonas de caça pode chegar aos 26 Km2. Apesar de não demarcarem um território, parecem ter preferência por certos locais de dormida (descanso ou reprodução) que mantém ao longo de vários anos.

A proporção de machos e fêmeas é de cerca de 0,8 – 1:1, pois há uma tendência para existirem mais fêmeas que machos, pois este têm uma mortalidade elevada até aos 4 anos de idade, devido à maior competição entre machos adultos e os mais jovens (estes são expulsos assim que atingem a maturidade e podem mesmo ser mortos) e à dispersão destes em busca de novos territórios.

Contudo, a razão entre machos e fêmeas varia consoante a classe etária. Considerando apenas os indivíduos com idade inferior a 1 ano, a razão entre machos e fêmeas é de sensivelmente 1:1 (como nos mamíferos em geral), enquanto nas classes mais velhas o número de fêmeas tende a ser ligeiramente mais elevado (1:1,5 – 2).

A dificuldade de se calcular com maior exactidão este valor prende-se com o facto de a grande maioria dos dados dizer respeito a métodos de captura que tendem a preferenciar uma das classes (a recolha de dados tendo em conta o resultado da actividade cinegética, não nos dará resultados sobre a classe etária inferior a um ano, e se usarmos armadilhas, teremos uma maior proporção de jovens do que adultos).

Para manter a sua pele livre de parasitas costuma tomar banhos de lama (chafurdar) em locais que podem facilmente ser identificados, roçando-se de seguida nas árvores próximas.

Anda normalmente em grupos, constituídos pela fêmea e sua prole. Estes grupos (varas) são normalmente liderados por uma fêmea, que pode ser acompanhada também por outras fêmeas reprodutoras, embora apenas a líder procrie. Podem também pertencer às varas um ou dois machos mais jovens. Estes abandonam o grupo quando atingem a idade sub-adulta (normalmente expulsos pela fêmea reprodutora ou pelo macho dominante), podendo juntar-se a um macho mais velho (solítário) passando a designar-se por escudeiros. Contudo, os grandes machos passam a maior parte do tempo sozinhos.

É uma espécie bastante apreciada pelos caçadores, constituindo uma fonte de rendimentos importante em muitas zonas. Um grande macho é um troféu importante.

A carne de javali é também muito apreciada (pois tem menos gordura, quase não tem colesterol e é bastante rica em proteínas e sais minerais), sendo a sua criação para consumo directo uma actividade que vai crescendo de importância. Este tipo de actividade tem alguns constrangimentos, como a menor taxa de ganho de peso, a baixa taxa reprodutiva (quando comparada com outros animais domésticos) e a dificuldade de obtenção de animais puros. O nosso conhecimento sobre o modo de criação deste animais em cativeiro tem dificultado a sua exploração.

A gestão das sua populações assume importância fundamental, pois pode dar um contributo importante para a manutenção do tipo de zonas florestais mediterrâneas que também lhes são favoráveis, mas também conservando o habitat de outras espécies com maior risco de extinção (como a águia-imperial, Aquila adalberti).
 

Ao gestor cinegético cabe a escolha do número de acções cinegéticas, e de caçadores e cães que nelas participam, de modo a que a pressão cinegética seja adequada à dimensão e estrutura da população a gerir. É necessário ter sempre em mente a necessidade de garantir bons resultados na época de caça, mas também nas do futuro, pois não podemos por em risco o potencial reprodutivo das populações de javali quer em quantidade quer em qualidade dos troféus produzidos.

O combate ao furtivismo, actividade que tem um grande impacto nas nosso dias nas populações selvagens desta espécie, assume também uma relevância grande, e, infelizmente, temos de disponibilizar mais meios para a erradicação dessa prática, apostando não só na fiscalização mas também na prevenção.
 

António Heitor - Departamento Técnico da CONFAGRI

Leitura recomendada

Boitani, L., Mattei, L., Morini, P. & Zagarese, B. (1995). Space use by pen-raised wild boars (Sus scrofa) released in Tuscany (Central Italy) – I: daily movement patterns. IBEX, 3, 108 – 111.

D’Andrea, L., Durio, P., Perrone, A. & Pirone, S. (1995). Preliminary data of the wild boar (Sus scrofa) space use in mountain environment. IBEX, 3, 117 – 121.

Fernández-Llario, P., Carranza, J. & Hidalgo de Trucios, S.J. (1996). Social organization of the wild boar (Sus scrofa) in Doñana National Park. Misc. Zool., 19(2), 9 – 18.

Fernández-Llario, P. & Mateos-Quesada, P. (2003). Population structure of the wild boar (Sus scrofa) in two Mediterranean habitats in the western Iberian Peninsula. Folia Zool., 52(2), 143 – 148.

Fernández-Llario, P., Mateos-Quesada, P., Silvério, A. & Santos, P. (2003). Habitat effects and shooting techniques o­n two wild boar (Sus scrofa) populations in Spain and Portugal. Z. Jagdwiss., 49, 120 – 129.

Fonseca, C.M.M.S. (1999). Ecologia de Javali (Sus scrofa Linnaeus, 1758) no Centro de Portugal. Dissertação de Mestrado em Ecologia, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade de Coimbra, Coimbra.


Agradecimentos

Ao Pedro Fernández-Llario, ao Laurent Schley, ao Michel Leytem e ao Josef Hlasek, por gentilmente nos terem cedido algumas imagens.

 

 
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