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«Podem ser caçadas mas com ética e regras»
Galinholas um Tesouro dos Açores
 

     

Autor: Gualter Furtado

Autor Fotos: Gualter Furtado, Carlos Pereira, D. Carlos de Bragança e Paulo Cruz

01-06-2008 22:59:22

 

O autor durante uma caçada às galinholas
   
Caçada às galinholas na Ilha do Faial realizada por dois membros da família Dabney por volta 1885
   
Galinhola
   
Ilustração de galinhola
   
Ninho de galinhola
   
A caça às galinholas (Scolopax rusticola) é uma prática cinegética muito antiga nos Açores, como demonstra uma foto de uma caçada às galinholas na Ilha do Faial realizada por dois membros da família Dabney, Ralph e Charles por volta de 1885 e publicada no livro escrito por José A. Gomes Vieira com o título “A Família Dabney”.

Durante as primeiras seis décadas do século passado são vários os relatos de caçadas às galinholas nos Açores incluindo na Ilha de São Miguel como escreve João Gago da Câmara no seu livro “Recordações”. No entanto, a regra no passado era a caça a esta espécie cinegética ser exercida por um número restrito de caçadores e pelo processo de espera, isto é, a dama dos bosques como é conhecida a galinhola era atirada na passagem das matas e bosques para o local da comida e durante a paragem nupcial, isto não quer dizer que alguns caçadores açorianos de então também não utilizassem o processo de caça de salto e com cão de parar como é exemplo o próprio João Gago da Câmara, mas esta era a excepção.

A Galinhola é predominantemente uma espécie que vive e se reproduz nos Açores, desconhecendo-se quando foi introduzida nos Açores, ou se veio cá parar na sequência de um fenómeno de dispersão provocado pelo mau tempo. Aliás, esta tese ganha adeptos, pois recentemente foi observada uma galinhola em França que tinha sido anilhada na Ilha de São Miguel, facto do qual os caçadores açorianos tomaram conhecimento através da revista “Chasseur Français” e não pelos serviços oficiais da caça dos Açores como mandavam as boas práticas da parceria e transparência.

A galinhola nos Açores nas décadas mais recentes tem sido uma das principais vítimas da monocultura da vaca e da plantação de criptomérias. As arroteias de milhares de hectares provocaram danos irreparáveis no habitat das galinholas substituindo os musgos e zonas húmidas por pastagens e matas pouco propícias à alimentação das nossas galinholas.

Hoje a Ilha de São Miguel está reduzida a alguns poucos casais de galinholas, a Ilha de São Jorge é um mistério, pois os serviços oficiais da caça não informam o que se está a passar quanto ao numero de efectivos desta espécie e o porquê de estar interdita a sua caça, abrindo caminho a especulações e ao furtivismo, na Ilha do Pico e nas Flores temos um razoável efectivo, embora sujeito a uma elevada pressão, e a um grande descontrolo na sua gestão e fiscalização como é exemplo a Ilha das Flores, onde se pode caçar ao coelho todo o ano e alguns ditos caçadores e sem escrúpulos confundem um coelho com uma galinhola.

Evidentemente que estas práticas menos recomendáveis resultam em boa parte da falta de ordenamento da gestão da caça nos Açores e que será uma realidade depois de regulamentada a nova lei da caça nos Açores já publicada há quase um ano e ainda em processo de regulamentação pela Secretaria Regional da Agricultura e Florestas e não obstante, o parecer atempado da Federação dos Caçadores dos Açores.

Existem dois importantes trabalhos científicos publicados (restritamente) sobre as galinholas nos Açores um da autoria da Dra. Ana Luísa e outro de Carlos Pereira. Ambos estes investigadores cruzaram o seu percurso e trabalho com o Departamento de Biologia da Universidade do Porto. Foi motivador para os caçadores açorianos de galinholas poderem colaborar com estes investigadores até porque temos consciência que a caça e a galinhola só terão futuro e sustentabilidade se tiverem como aliados uma forte componente de investigação e científica.

Com a saída da Dra. Ana Luísa e o “afastamento” de Carlos Pereira tememos que esta aliança e este trabalho tenham ficado fortemente comprometidos.

Hoje a caça nos Açores à Galinhola só é permitida pelo processo de salto e com cão de parar e nos meses de Outubro e Novembro, e apenas em algumas ilhas, evitando-se assim “caçar” na época da reprodução. Quanto à Ilha do Pico, recentemente uma parte importante do território de caça à galinhola foi classificado como paisagem protegida e interdito à caça, como se fossem os caçadores responsáveis pela degradação do meio ambiente e das espécies endémicas, enfim uma tristeza.

Finalmente de referir que quem caça à galinhola com ética e um bom Epagnuel Bretão, um Braco Alemão, um Setter, ou mesmo um Pointer, com paciência e apreciando a paisagem e a arte matreira e sábia de como a nossa Princesa, Dama dos Bosques ou Olhos de Veludo se protege e despista o cão e o caçador – nunca mais se esquece…

Mas se tiver a felicidade de saborear um prato bem confeccionado de galinhola (que sabor magistral), então, é a caça que se transforma em Paixão!

Em síntese, assim como se pode visitar mas não se podem tirar fotos na Capela Sistina que é um tesouro da humanidade para não estragar aquelas pinturas magníficas de Miguel Ângelo, também em relação à Galinhola ela pode ser caçada mas com ética e regras.
 

 
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