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Histórias de Caça

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«a Janota foi um daqueles exemplares que só se possuem uma vez na vida»
A propósito de Teckels
 

     

Autor: José Manuel Paulino

12-07-2008 10:00:00

 

A Janota
   
Ara de Ourém, a minha primeira braco
   
Diana e Escrava do Chança, filha e neta do Baruck, o melhor braco que conheci
   
Sempre gostei de cães, principalmente os de caça, e de entre estes os de parar. Comecei a caçar há cerca de trinta e cinco anos, nesse tempo raramente se viam cães de raça pura numa aldeia do Alentejo, havia bons cães de caça, bons coelheiros e bons perdigueiros, mas tudo de raça indefinida, cruzava-se bom com bom e valorizava-se primeiro que tudo a eficiência.

Na verdade os tempos eram outros, nem melhores nem piores, eram diferentes. Não havia computadores, não se via tanta TV, gastava-se o tempo livre de maneira diferente, resumindo havia mais tempo para os nossos “fiéis amigos” que não sabiam o que era um canil e estabeleciam connosco uma relação mais próxima, tornando mais fácil o mútuo conhecimento. Não havia vedações, havia codornizes nos restolhos quase junto às últimas casas da povoação e era um prazer juntarmo-nos dois ou três amigos e, nas alturas adequadas, sairmos com os cães, principalmente os novos, para apreciarmos as suas capacidades venatórias e, mais tarde, à volta da mesa redonda na Sociedade Recreativa, em alegre camaradagem, antevermos as suas façanhas de caça.

Como tive o privilégio de estudar foi-me mais fácil o acesso à literatura canina e, sempre que saía da aldeia, note-se que nesse tempo os automóveis eram escassos, e me deslocava à “cidade” geralmente para tratar de assuntos relacionados com a escola, procurava com avidez algum livro ou revista sobre caça ou cães. Assinei a revista “Diana” que aguardava mensalmente na expectativa de trazer mais qualquer coisa de novo sobre cães. Caçador de perdiz, nunca me interessei muito pelos cães pequenos.

Entretanto os javalis que eram raros na região, começaram a aparecer por todo o lado, e eu tornei-me num entusiasta das esperas. Para mim foi mais um pretexto para passar largas horas no campo a observar e conhecer os hábitos desta nova espécie. Nesta altura tomei conhecimento da existência da raça teckel (cerdoso de caça) que segundo a literatura, reunia um vasto leque de qualidades onde se destacava o interesse pela caça grossa.

Durante alguns anos alimentei o desejo de adquirir um exemplar desta raça, até que um amigo que possuía uma fêmea e fez criação me ofereceu uma cachorrinha, a “Janota”. Aos dois meses, quando a levei para casa, era muito pequenina, a mais pequena da ninhada. Na minha família, tanto a minha esposa como os meus filhos, gostam de animais, e a Janota tinha um olhar tão meigo, tão expressivo, que mereceu um estatuto especial, não foi para junto dos outros cães, ficou em casa connosco. Ambientou-se lindamente, nunca me lembro de a ouvir “choramingar”, era vivaça e muito esperta, se a deixávamos subir para o sofá olhava-nos como que a dizer-nos: “deixa-me partilhar o teu assento que eu porto-me bem”, e era capaz de levar horas ali sentada a olhar para nós com aqueles olhos que só os teckels têm.

Era muito brincalhona, tinha uma pele de javali no escritório à qual ela se encarregou de arrancar as castanholas; por vezes levava-a a um espaço em frente à minha casa onde tinha uma galinha com pintos, um belo dia pôs-se na brincadeira com eles e matou um, zanguei-me com ela e dei-lhe uma palmada, nunca mais ligou aos pintos, passava por eles e ignorava-os. Este pequeno episódio revelou uma importante qualidade “capacidade de aprender”. Tornou-se no mimo da família e começamos a recear que lhe acontecesse algum acidente nas funções a que se destinava.

Aí por volta dos três meses, numa das primeiras vezes que saiu ao campo, vi um bando de perdizes levantar sem que ela se apercebesse, curioso de ver a sua reacção dirigi-me lá. Logo que se aproximou começou a dar sinal dos rastos e entusiasmada esqueceu-se de mim e deu voltas e mais voltas à procura do que tinha deixado aquele odor que ela tanto gostava. Aproveitei para fazer mais um teste, afastei-me uns cem metros dando algumas voltas e subi para uma árvore sem que ela se apercebesse. A Janota quando se convenceu de que as autoras do cheiro que a fascinava se tinham evaporado, procurou-me, deu uma pequena volta e ao encontrar o meu rasto não me perdeu uma única pegada até chegar à oliveira onde eu estava empoleirado, pondo-se a abanar a cauda em sinal de contentamento. Eu fiquei deslumbrado com este palmo de cão que acabava de me demonstrar possuir mais duas qualidades indispensáveis num bom cão de caça, “paixão e nariz”.

O tempo foi passando e a Janota tornou-se num lindo exemplar e sempre que a levava ao campo era raro que não encontrasse alguma peça de caça, começou a revelar uma persistência extraordinária e carácter bastante forte.

Iniciei-a nos coelhos e para ela não havia sítios difíceis, por vezes em silvados enormes, podia levar meia hora se fosse preciso, mas se houvesse lá um coelho ele tinha de dar a cara. A sua paixão exacerbada pela caça deu-me algumas dores de cabeça, pois se uma peça de caça se afastava ela seguia-a até onde fosse preciso.

Algumas vezes a caçar aos coelhos levantava-se uma raposa e ela fazia quilómetros no seu encalço. Tinha uma resistência espantosa e se a deixasse caçava até à exaustão.

Nunca a meti nos javalis com receio de que o seu temperamento destemido lhe trouxesse algum percalço o que seria um grande desgosto para a família.

Uma vez ao atravessar uma pequena mancha na companhia do meu filho que teria na altura os seus oito ou nove anos, hoje tem vinte e três, levava comigo a Janota, duas filhas já adultas e dois ou três podengos, levantaram um javali que correram, ao fim de algum tempo apareceram as podengas, depois as filhas da Janota, mas ela nada. Esperei cerca de meia hora e de vez em quando ouvia-a a ladrar cada vez mais longe, não largava o porco de maneira nenhuma, tive de ir prender os outros cães, pegar no jipe e dirigir-me ao outro lado da mancha onde por sorte a localizei pelo guizo e consegui apanhá-la a perseguir o porco.

Deu-me bastantes alegrias, caçava a tudo com o mesmo entusiasmo fosse codornizes ou javalis, a sua enorme paixão e talvez um ensino menos correcto da minha parte, tornava-a demasiado independente criando em mim uma certa angústia por perdê-la.

Penso que era uma verdadeira teckel, depois dela tenho possuído vários exemplares, bons caçadores, mas nenhum como ela. Normalmente temos tendência para sobrevalorizar o que já não temos mas a Janota foi um daqueles exemplares que só se possuem uma vez na vida.
 

 
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Comentário(s) (3)   Comentário(s) (3)    
    Senhor PCruz... teckel Pituxa    
    Teckel cerdoso - Pitucha    
    Grato...    
   
     
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