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Histórias de Caça

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À espera do «macareno»...
 

     

Autor: Ricardo Soares

Co-Autor: Ricardo Almeida

27-08-2008 16:30:00

 

Eu, o mestre e o bicho
   
Estas singelas linhas que vos escrevo ficarão para sempre no meu pensamento e serão recordadas como uma noite de fortes emoções e de boas sensações, aos pés do belo Alqueva.

Fez recentemente 5 anos a história que vos aqui trago. Corria a noite de 18 de Julho de 2003, sexta-feira, noite quente e ainda mal iluminada pela escassa lua.

Coloquei-me no local da espera por volta das 20h30, nada cedo, mas a viagem desde o Porto ao Baixo Alentejo não é propriamente rápida.

Com o cair da noite, e com o Alqueva aos meus pés, observo todo esplendor de uma noite estrelada, calma, em que uma leve brisa soprava na cara. O vento estava de feição e a temperatura convidava ao uso da t-shirt em vez do habitual polar.

Com o cair da noite, ouço ao longe os chocalhos das ovelhas, que recolhiam para mais uma noite. Começam os primeiros barulhos...Um estalar de um pau, mostrava-me a presença de bicheza nas imediações. Pensei ser a vara que por ali costumava andar com uma porca velha, uma fêmea mais nova e os seus listados que por ali costumavam comer e com os quais eu me deliciei durante horas a olha-los pelos binóculos. Era deliciante ver os bácoros a crescerem de mês para mês, como se transformavam e cresciam rapidamente!

Porém esta noite era diferente... A vara não entrou, e o “velho” que nunca dava a cara sempre que as fêmeas estavam no cevadouro, fez-se desta vez ao engodo, desta feita não bufou, não me passou pelas costas para verificar a minha presença como era habitual, entrou descontraído e confiante, seriam 21h40.

Era a segunda vez que o via, da primeira vez, sentiu-me e saiu pelo monte a partir mato como se não houvesse amanhã. Era um animal majestoso! Colocou-se de frente para mim e começou a comer. Tinha uma cabeça soberba, porém o tiro de frente era arriscado. Contive-me, respirei fundo, deitei a mão ao peito para me certificar que o coração não rompera a t-shirt. Como sempre, peguei no telemóvel e avisei o meu pai, que estava noutro cevadouro, dizendo que o porco me entrara ao que ele respondeu: “– Fogo na peça!”. Aguardei mais um pouco, o bicho deu-me finalmente a sua pá esquerda e poderia agora fazer o tiro com mais chance. As mãos estavam húmidas como nunca tinham estado, apertei a arma com força, suspirei e PUMMM!

O porco arrancou numa corrida desenfreada monte abaixo a partir mato, parecia que lhe tinha pegado, porém nunca se sabe. Comecei a receber as primeiras mensagens do meu pai: “– Que tal? Ficou? Ou era magrinho?”. É o que dá ter um pai que é “músico”...

Aguentei no meu posto pois seria o meu pai quem mais tarde me viria buscar, estava ansioso por ver se tinha sangue no cevadouro. Por volta das 23h30, entra-me um novo macho, com cerca de 50 kg, observei mas não fiz fogo, pois o meu objectivo dessa noite estava cumprido (ou não), o meu pai vinha já a caminho para me buscar e o porco teimava em não sair do cevadouro, até que ao chegar do carro desapareceu no mato.

Perguntei ao meu pai que tal lhe tinha corrido a espera, e ele disse que não vira nada. Disse-lhe que tinha estado outro porco no cevadouro depois de atirar ao que ele retorquiu: “– F..., eu nem os vejo, tu atiras e ainda tens que os espantar! Cheiras mesmo a leite!”.Como um dia alguém disse, “Ao menino e ao borracho, deita Deus a mão por baixo!”. Este era sem dúvida o meu caso. Deslocámo-nos ao cevadouro em busca do rasto de sangue e simplesmente NADA, nem pinta de sangue! A desilusão assolou-me, e já seria o segundo porco que falhava nessa lua. Decidimos voltar na manhã seguinte para ver melhor.

Após uma noite mal dormida, em que me “ferrei” todo por nunca mais ser de dia, lá o sol raiou e nos deslocámos ao local do “crime”. Com a ajuda do Alex, empregado da organização lá tentamos pistear o animal e de sangue nem uma gota. Nem no mato por onde ele fugira nem no barranco por onde costumavam entrar, absolutamente nada!

Fiquei triste como a noite! Entrámos dentro do mato a fazer linha, eu numa ponta, o Alex no meio por onde existia um ribeiro, que nesta altura estava seco, e o meu pai na outra extrema. De repente olhei para a frente do meu pai que se encontrava numa encosta oposta à minha, ou seja, do outro lado do tal ribeiro seco e vejo uma enorme mancha negra, 30m à sua frente. Perguntei-lhe o que era pois estava a cerca de 150m de mim e perguntei-lhe se não era o porco.

O meu pai por entre o mato espreitou e disse-me que não lhe parecia, que era uma pedra e se fosse um porco daquele tamanho era carne a mais. O meu pai desceu o ribeiro e juntou-se a mim a procurar. Procuramos por mais 15 minutos e nem rasto. Resolvemos voltar ao carro, tinha que me mentalizar que falhara o porco. Paciência!

Mas como na caça também é preciso ter ponta de sorte, e como que por instinto, decidimos passar pela tal pedra enorme. Atravessamos a ribeira e dirigimo-nos à tal pedra que se encontrava junto a uma azinheira e qual não foi o nosso espanto quando a 5m por entre o mato a pedra começou a ganhar forma e não era nada mais nada menos que um bruto dum porco!

Carreguei a caçadeira, não fosse o animal estar vivo e aproximamo-nos cuidadosamente, até verificarmos que estava morto. “– Que grande navalheiro exclamou o meu pai!”. Fui logo felicitado pelo meu companheiro de muitas (ou melhor todas) andanças, o meu grande pai e pelo Alex no seu português ensaiado (ele é moldavo) “– Parabéns Ricardo!” disseram-me ambos. Agora havia que carregar o porco para a pick-up, mas não o conseguíamos mexer. O mato era alto, e o carro não chegava lá. Até que com a ajuda duma corda, rebocámos aquele “autocarro” e com muitas dificuldades os três, colocámo-lo dentro da caixa da pick-up.

Já dentro do carro eram muitos os prognósticos do peso. Chegados ao monte e pesado o bicho, deu 118 Kg, era um belo animal! Chamei a minha mãe que ainda estava a tomar o pequeno-almoço para vir ver uma “surpresa”. A senhora minha mãe passou-se! Gritou, pulou, beijou-me mais do que no meu dia de anos! Era uma grande alegria para mim, rodeado dos meus e de quem me quer bem! Ao meu grande pai um grande abraço por tudo o que sabe, não só a nível venatório mas como homem de bons princípios os quais tento seguir rigorosamente e que é o meu mestre da caça, que partilha comigo tudo o que sabe, que é o meu companheirão de caça e que me dá muita “música” da qual eu já sei alguns “refrões”, e também à minha mãe que nos acompanha muitas vezes em todo o tipo de artes cinegéticas e que cozinha maravilhosamente, de tal modo que por vezes de tarde já nem saímos para caçar!
 

 
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Comentário(s) (1)   Comentário(s) (1)    
    ..... macareno ....    
   
     
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