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«Os fluxos migratórios têm vindo a decrescer de forma assustadora»
Tordos: A alarvidade de um limite
 

     

Autor: JOAQUIM MIRA DOS REIS

Autor Fotos: Joaquim Mira dos Reis

14-10-2008 20:00:00

 

Tordo
   
A medida agora preconizada dos 50 tordos por dia de caça é completamente desajustada da realidade. Seria lógica aqui há 40 anos atrás, actualmente é completamente utópica. Se bem que não acredito muito no cumprimento da lei dos limites, contesto veementemente a medida agora alterada pelo Sr. Director Geral dos Recursos Florestais com o aval de Sua Exª. o Sr. Secretário de Estado.

Porquê esta alteração? A espécie está em expansão no nosso país? Que estudos científicos houve nesse sentido? Na minha óptica foi mais uma daquelas medidas tão ao jeito dos nossos políticos, tomadas no recato dos Gabinetes e que visam agradar a todos. Refiro-me aos caçadores distraídos ou egoístas e àqueles que da caça migratória, qual benesse que lhes cai do céu, fazem negócio chorudo e que deviam ser os primeiros a proteger ciosamente a galinha dos ovos de ouro. Porque ao contrário do que se deduz da medida agora preconizada, as populações de tordos que nos visitam, estão em acentuado declínio. Claro que não tenho bases científicas para apoiar o que afirmo, mas qualquer caçador com mais de 30 anos de prática cinegética, pode afirmar de forma empírica que os tordos têm vindo a diminuir drasticamente ano após ano. E porquê? Essencialmente porque não têm sido devidamente protegidos por quem tem responsabilidade na gestão e no desenvolvimento sustentável dos nossos recursos cinegéticos. Assim sendo, tem havido uma pressão cinegética sobre a espécie dificilmente mensurável. Senão vejamos: 
   
 Alguns até nos dão a entender que as migratórias são inesgotáveis. Outros dizem que os fluxos migratórios se deslocaram para outras paragens, como se as aves de um ano para o outro tivessem a percepção (inteligência) de mudarem as rotas migratórias conforme as conveniências. 
   


Quando comecei a caçar, há mais de 40 anos, poucos eram os caçadores que se dedicavam à caça destas simpáticas e especialmente saborosas aves. Razões para que assim fosse não faltavam: ou económicas, ou pela dificuldade nas deslocações (poucos carros e piores estradas) ou porque havia, com relativa abundância, outras “peças” mais atractivas ou ainda por uma questão de mentalidade, arreigada em grande parte nos caçadores de então que consideravam pouco aliciante e até um desperdício atirar aos referidos pássaros. Fosse como fosse, o certo é que nesses tempos os tordos eram super abundantes, ou não tivéssemos nós a sorte de albergar no Outono/Inverno uma boa parte dos bandos provenientes dessas enormes vastidões da Europa além Pirinéus. No entanto a partir de meados da década de 70, as “coisas” como se sabe mudaram e os caçadores portugueses começaram desenfreadamente a caçar tordos, apoiados numa legislação extremamente permissiva. Enquanto que dantes, só se caçavam depois da época geral fechar e era vulgar fazer um cinto de 40 ou 50 tordos agora, assim que chegam, começa a matança e o resultado está à vista. Os fluxos migratórios têm vindo a decrescer de forma assustadora. Resumindo, quebrou-se o equilíbrio essencial para a preservação de uma espécie, isto é, os reprodutores não chegam para repor os que se abateram. A sustentabilidade foi-se. É pura matemática que se aplica não só às espécies indígenas como também às migratórias. Ao contrário do que pensam muitos dos nossos dirigentes, gestores, legisladores e também caçadores, que acham que esta regra não tem que se aplicar às espécies migratórias. Desculpam-se dizendo que não vale a pena implantar medidas conservacionistas quando depois os espanhóis, franceses e demais, não as seguem. Alguns até nos dão a entender que as migratórias são inesgotáveis. Outros dizem que os fluxos migratórios se deslocaram para outras paragens, como se as aves de um ano para o outro tivessem a percepção (inteligência) de mudarem as rotas migratórias conforme as conveniências. Contaram-me que esta tese foi há pouco tempo defendida numa revista de Caça por uma figura pública ligada às questões cinegéticas, embora no respeitante às rolas. Parece que estas, segundo a sua opinião abalizada, são cada vez em menor número em Portugal porque ficam pelo Norte de África. Inteligentes estas rolas que resolveram trocar o Alentejo para irem nidificar para Marrocos!

Mas voltemos aos tordos. Sabem caros confrades o que sucedeu aos tordos que migravam para Itália? Foram caçados até à exaustão de tal forma que agora temos cá os italianos a caçá-los.

Dirão os caçadores mais novos que estou a exagerar, que sou pessimista ou até da “protectora”. Então vou-lhes dar exemplos:

Como sabem o período actual de caça aos tordos estende-se desde 26 de Outubro a 28 de Fevereiro. Quatro meses, pasme-se! Se considerarmos que do universo de caçadores apenas 40.000 vêm praticando este género de caça e se cada um vier à abater uma média de 100 tordos por época, o que não é nada do outro mundo pois bastará caçar, apenas 10 dias a 10 tordos, chegamos facilmente ao astronómico número de 4 milhões! Vou dar outro exemplo elucidativo: aqui há vinte anos atrás houve uma entrada muito significativa de tordos, provavelmente porque após o acidente na central nuclear de Chernobil (Abril de 1986), houve muitos caçadores que em épocas posteriores deixaram de caçar aves migratórias com receio que estivessem contaminadas com radioactividade, o que se reflectiu num aumento das suas populações. Pois nessa época esgotaram-se temporariamente, nas espingardarias de Lisboa e Margem Sul, os cartuchos de chumbo miúdo (7, 8 e 9). Nessa altura tive a curiosidade de perguntar a um conhecido armeiro/carregador de cartuchos quantas munições do tal chumbo miúdo vendeu; a resposta foram 5 milhões! Multipliquem este número várias vezes e traduzam isso em termos de mortandade que temos vindo a infligir aos nossos tordos. Extrapolação dirão alguns. Pois é, nunca ouviram alguns caçadores/matadores gabarem-se dos seus recordes: mais de mil tordos por época ou 150 ou 200 tordos num só dia? Claro que estes números são agora difíceis ou impossíveis de alcançar por esses pseudo-caçadores.

Concluindo. A medida agora preconizada dos 50 tordos por dia de caça é completamente desajustada da realidade. Seria lógica aqui há 40 anos atrás, agora é completamente utópica. Caros confrades o que vos parece um rebuçado é antes um presente envenenado. Assim sendo, os nossos filhos e netos não vão poder repetir aqueles dias solarengos de Inverno, em que a geada persiste por baixo das oliveiras e os tordos entrando do montado o¬nde pernoitaram, nos proporcionavam tiros bonitos especialmente quando vinham nas alturas e se “faziam” em voo picado passando que nem foguetes por entre as oliveiras e em muitos casos por entre os tiros. E a caçada não acabava aqui, continuava mais tarde no prato: grelhados, fritos, estufados, com arroz, são sempre uma delícia, com um bom tinto...

Não sei se ainda estamos a tempo de inverter a situação. Mas nunca é tarde para reparar o que está errado. Assim houvesse visão e discernimento por quem tem a responsabilidade no sector. Impunha-se de imediato o seguinte: reduzir o período de caça para dois meses (Dezembro/Janeiro ou Janeiro/Fevereiro) com o máximo de dois dias de caça por semana e só até ao meio-dia, voltando a impor, pelo menos no papel, o anterior limite de 30 tordos, em todo o território nacional, sob pena de continuarmos a delapidar um património que é de todos os europeus.

P.S.- Corroborando o que atrás foi dito, vem agora transcrito neste site o parecer técnico-científico ao calendário venatório elaborado pela LPN e SPEA, emitindo a opinião de que “deve ser reposto o limite de 30 tordos, considerando ter-se verificado um declínio das populações invernantes”...
 

 
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Comentário(s) (15)   Comentário(s) (15)    
    Os tordos    
    uma pequena discordancia    
    O que era um tordo pai    
    Tordos    
    Tordos    
    Não concordo!!    
    Requiem para os Tordos    
    Há mais qualquer coisa...    
    há que poupa-los    
    Mais umas pequenas palavras......    
    Caça/Matança    
    fiscalização    
    De acordo    
    Tordos / Europa    
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