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Histórias de Caça

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«Ele ficou com o troféu, eu fiquei com as memórias!»
Um corço velho que levou a melhor
 

     

Autor: Gilberto Fernandes

21-10-2008 9:26:28

 

Velho e sabido
   
Um corço jovem observado na orla da floresta
   
À procura de rastos de javalis no interior da floresta densa
   
Meu companheiro e amigo Joaquim com o seu velho corço. Observem a satisfação!
   
A história que vou contar, relata alguns dias de caça de aproximação aos corços, espécie pouco conhecida pela maioria dos caçadores portugueses, mas com grande futuro no nosso país, sobretudo no norte do nosso país onde já se avistam alguns bons exemplares.

Na verdade sempre fui um apaixonado pelo caça aos javalis e sempre serei, mas não sei porquê, sinto-me atraído por este pequeno animal que tanto aparece como desaparece sem deixar qualquer rasto. É simplesmente fantástico caça-los de aproximação, sobretudo porque não é nada, mas nada fácil quando se tem pela frente um corço velho e sabido.

A história passou-se a milhares de quilómetros de Portugal, numa floresta maravilhosa e mágica, cuja periferia se encontra cultivada de trigo, milho e colza. Estou a falar de uma área (cultivada) de cerca de 500 hectares, sobretudo de trigo, em parcelas de cinquenta hectares por cultura, algumas zonas de prado e uma enorme floresta com muitos hectares. Aqui os corços alimentam-se tranquilamente sem sentirem uma pressão excessiva da actividade cinegética, e os poucos corços caçados anualmente, são abatidos exclusivamente pelo processo de aproximação como selectivos, ou como troféus.

Como disse, o meu principal objectivo eram os corços, e durante cerca de vinte dias, acordava às quatro da manha, bebia um café e imediatamente começava a caçar mal saia da porta de entrada. Estava nas minhas sete quintas, sobretudo porque o ambiente vivido com aqueles que me receberam, era de verdadeiros caçadores, onde a caça é uma paixão e uma razão de viver. Para a família Jonquéres, o meu verdadeiro apreço por me terem recebido e proporcionado dias inolvidáveis, caçando e vivendo momentos de caça verdadeiramente intensos.

No primeiro dia, saímos cedo e pelas cinco e meia estávamos à beira de um lindíssimo prado, esperando ver algum corço que merecesse a aproximação e consequentemente o abate. Numa análise cuidada verificamos duas corças, uma delas a cerca de cinquenta metros no pasto (apenas conseguíamos ver as pontas das orelhas) e a outra calmamente comia a pouca erva verde que ainda existia.

Relativamente aos machos, apenas um jovem, mas tínhamos a sensação que mais cedo ou mais tarde iria aparecer algum exemplar digno de registo. Infelizmente tal não aconteceu, e com o passar do tempo, uma das corças caminhou até bem perto de nós e detectou-nos, dirigindo-se até à floresta, levando a outra de “reboque”, tal como o macho pequeno.

Enfim, esperamos mais um pouco e à excepção de algumas perdizes cinzentas e de uns faisões, nada mais conseguimos observar com os nossos Zeiss.

Foi então que o meu companheiro e guia, me desafiou para entrarmos na floresta e tentar um velho corço já seu conhecido. Olhei para ele, e imediatamente exclamei “só agora é que dizes?”.

Tratava-se de um corço velho, que durante dois anos tinha escapado ileso à morte, e certamente ainda estaria por ali.

Entramos, e pé ante pé por entre as picadas na floresta, dirigimo-nos para o local referenciado pelo meu companheiro, exclamando constantemente pelo caminho “não vai ser fácil!”.

Se fora da floresta já é difícil, então lá dentro, com tanto ramo, tanta árvore, confesso que não é pêra doce, mas estava a ser fantástico, sobretudo pela dificuldade e beleza. Nem imaginam o espectáculo de cores sobressaído pelos raios de sol que rompiam das copas das árvores. Só visto!

Não tinha pressas em caçar, visto que ia com tempo e possibilidades para o fazer, e talvez por isso tenha sentido sensações únicas, sem pressas e sem outras preocupações.

Cacei, vi caça e só abati o que me encheu o olho. É assim que gosto de caçar…

Como disse, embrenhamo-nos na floresta e a passo muito lento, fomos observando todos os cantos e recantos, em busca do tal corço velho, que ano após ano tinha enganado o meu companheiro. Este ano, e como prova da nossa grande amizade, o corço seria oferecido a mim, e sinceramente NÃO ME IMPORTAVA NADA!

Tratava-se de um corço escorraçado pelos mais novos, sendo raramente observado nos prados, vivendo em absoluta solidão. Eu queria aquele macho, independentemente da qualidade do troféu, e o meu companheiro estava disposto a dar-me algumas oportunidades para o fazer.

Uma hora depois obtivemos o primeiro encontro. Sem que nada o fizesse prever, saltou-nos à nossa esquerda a cerca de vinte metros de mim, e apesar de não o conseguir ver bem, tinha a certeza que era um macho, tal como pudemos mais tarde comprovar pelos seus latidos de forma a alertar os seus congéneres.

Estava na hora de abandonar o local e deixar o animal ganhar tranquilidade, para que no dia seguinte tentássemos novamente, e assim foi.

No dia seguinte, passou-se exactamente o mesmo, e mais uma vez, não o consegui abater. Vê-lo foi apenas num ápice, mas pude claramente ver que se tratava de um macho bom. Parecia fotocópia do dia anterior, saindo a correr do seu “esconderijo”.

No terceiro dia, pela manha, decidi que as coisas seriam de maneira diferente, e teríamos que usar uma técnica nova, ou seja, “sem botas”.

Muitos até se podem rir, mas resulta!

Pé ante pé, parando de seis em seis passos, aproximamo-nos do local. Não conseguíamos visualizar mais do que trinta metros à nossa frente, e houve alturas em que não conseguíamos ver viva alma a mais de dez metros, mas tinha que ser assim, com muita calma e sempre, mas sempre atentos e sem efectuar qualquer ruído. O corço certamente estava por ali, e tínhamos que o surpreender, antes que ele mais uma vez nos surpreendesse a nós.

O meu companheiro, com um olhar de lince dá um passo e para, e imediatamente tiro a carabina da segurança. Tinha a certeza que ele tinha visto algo, e em milésimas de segundo, já a vara estava montada, observando algo que caminhava da direita para a esquerda muito calmamente. Era ele, e que animal… simplesmente soberbo!

Não se tratava de um corço muito alto (uns cm acima das orelhas), mas era extremamente grosso, e era este o troféu que pretendia, era aquilo que tanto ambicionava.

Há muito tempo que o meu coração não batia de tanta emoção, tal qual o de um menino que tenta pela primeira vez abater o seu primeiro animal. Sentia-me um verdadeiro “gaiato”, a pontos de ter que baixar a cabeça para respirar, procurando a calma e o sangue frio que sempre tive nestes momentos.

O coberto vegetal era imenso e a vinte e poucos metros mais à frente, apenas o conseguia visualizar por entre as arvores, no seu passo lento e cabeça baixa (prova de que se tratava de um animal velho).

Preparo-me, e espero pela oportunidade de ter uma “janela” de forma a conseguir disparar a 7x64 no local mais apropriado, mas…

Infelizmente tal não aconteceu, e repentinamente muda um pouco a sua trajectória, deixando-me impávido e sereno olhando por entre as duas árvores.

Não sei quanto tempo tive naquela posição, só sei que senti o meu companheiro a bater-me no ombro dizendo “desiste, já se foi, desiste”.

Eu não queria, mas tinha que ser. Não valia a pena estar ali mais tempo, tínhamos que avançar e procura-lo novamente.

Tentamos caminhar um pouco mais, mas mais uma vez, não conseguimos ver nada, até que desistimos, porque o animal tinha seguido o seu caminho, embrenhando-se ainda mais no coração da floresta.

Infelizmente os dias seguintes foram destinados para outros locais em busca de outros corços, ficando-me na memória a imagem daquele animal, da dificuldade em conseguir aproximar-me TÃO perto, tal como uma panóplia de situações que não consigo descrever. Os cheiros, os sons, as imagens, os poucos raios de luz que batiam no solo ou nas plantas rasteiras, aquele nevoeiro típico que sai do solo da floresta pelas primeiras horas da manhã… Ahhhhhhh fantástico!

Mais tarde e como prova de amizade e carinho, decidi que não voltaria a tentar aquele corço, deixando-o para o meu companheiro. Quem merecia caçar aquele corço era ele e não eu.

Tratava-se de um corço muitíssimo velho em regressão, com os molares roçando no palato. Estava cego de um olho provavelmente nalguma luta de território, era velho e sabido, tendo acabando a sua vida na parede de um jovem caçador de corços, cujo nome é Joaquim Jonquéres.

Ele ficou com o troféu, eu fiquei com as memórias!
 

 
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