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Histórias de Caça

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Como tudo começou!
A Caça – Uma Paixão
 

     

Autor: Luis Augusto Melo Guimarães

17-11-2008 9:27:00

 

Outubro de 1966 – Torre D. Chama. Tudo começou aqui! ... e assim!
   
Outubro de 1966 – Torre D. Chama. Mal a fraca luminosidade da manhã raiou, toca a levantar sorrateiramente, e pé ante pé o Alfredo foi ao quarto do pai “sacar” a velha Victor Sarrasqueta que se quedava encostada à parede, mesmo junto à cabeceira do “velhote”.

Eu tinha sido convidado pelo Alfredo, com a devida autorização dos pais de ambos, para dormir nessa noite lá em casa (mas o plano já há muito que estava traçado).

No entanto, como o nosso quarto estava longe da porta de entrada, e por ali seria seriamente perigoso esgueirarmo-nos, o Alfredo que previamente tinha deixado uma corda pendurada da varanda para o “curral”, incitou-me a descer pela dita cuja.

A medo, nos meus 12 anos (o Alfredo com mais 2 do que eu já era um veterano), lá me lancei na respectiva odisseia que a custo concluí, mas com um queimão no braço feito pela corda, ao escorregar com mais velocidade que a devida.

Desta feita há que desprender o Fidalgo (o coelheiro por excelência do pai do Alfredo), e toca a andar.

O nosso destino, como o de quase todos os caçadores, era o “Vale Martinho”, cerro que ficava logo atrás das casas aonde vivíamos.

Espingarda às costas, 5 cartuchos no bolso (carregados com o maior esmero pelo pai do Alfredo e para os quais fez naturalmente grandes planos) e Fidalgo todo entusiasmado na nossa frente.

Em três tempos estávamos no meio do monte, junto a uma pequena horta com couves mirradas, mas que se sabia por ali rondar um coelho,... ou meio.

A manhã nem estava a correr nada mal, três tiros disparados, um coelho à cinta, e ainda dois cartuchos na arma.

Entretanto, íamos controlando o tempo e a situação.

O tempo, porque este corria depressa, e a escapadela não iria ficar por aí.
A situação, porque tínhamos que estar de atalaia, com um olho no monte para ver se algum coelho se esgueirava, outro no horizonte por causa da Venatória, e todos os outros sentidos alerta,... para a possibilidade de o velhote aparecer.
De facto, como era hábito do velho caçador, pelas 8 horas toca a levantar, meter uma bucha e vestir uma roupa mais gasta, pôr a cartucheira à cinta, arrebatar a arma e desandar para Vale Martinho na companhia de seu cão.

Tudo correria dentro da rotina normal, não fora o caso de, ele já todo artilhado, a espingarda não estar no lugar do costume.
A ausência dos garotos no quarto e a falta de sinal do Fidalgo, em breve o esclareceram da situação.

Pois é, mas o Alfredo mais eu, desta vez não nos quedamos pela caça com pescoceiras e buizes, ou as velhas e gastas espingardas de pressão de ar que só expeliam o chumbo à terceira ou quarta tentativa.

Mas, como referia, os meus sentidos estavam atentos ao máximo, à espera do inevitável.
Pelas 9 horas, senti ao longe um chamamento: Ho Alfreeeeedo. Ho Alfreendo.

Fria e calculadamente, fomos dirigindo a caçada para locais menos visíveis, e sempre a desviarmo-nos do chamamento.

Por vezes, (e essencialmente se não havia sinais evidentes de coelho saltar), o Alfredo emprestava-me por curtíssimos períodos de tempo, a espingarda.

Mas, de quando em vez, lá se ouvia: “Alfre...eedo”, e agora também, “Fidalgo, Fiii...dalgo”.
Mas nem Alfredo nem Fidalgo pareciam ouvir; o Alfredo, porque ainda lhe restavam 2 cartuchos, o Fidalgo, porque o faro lhe dizia que por perto havia coelho.

Meio da manhã, o Sol à apertar e o cão já cansado, mas a voz continuava: “Alfreedo”; “Fidaaalgo”.

Então o Fidalgo, fiel amigo (porque estafado e sem perspectivas de coelhos por perto) decidiu-se a ir ter com o dono, todo lampeiro e todo “sorrisos”.
Nós por sua vez, em cima de uma fraga, ficamos à espera dos acontecimentos, pois sem cão, a caçada estava “feita”.

Daí a pouco lá aparece velhote esbaforido mais o Fidalgo, que porque já tinha levado dois biqueiros, o acompanhava de rabo entre as pernas todo submisso e com ar comprometido (ele deveria saber, lá no seu pensamento de cão, que tinha feito asneira).

“Vais pagá-las seu “lafráu”, tu vais ver o que te espera” ia resmungando o pai acenando para o Alfredo.

“Entrega-me imediatamente a espingarda seu safardana”.

Então o Alfredo, qual senhor da situação, muito direito e descontraído dirige-se ao pai, e, quando este se encontrava à distancia aí de uns 50 metros, pousa a arma no chão, e ala que por aqui é que é o caminho.

Eu, escondido e assustado vejo o percurso que ele toma, e não tardo a seguir-lhes os passos, ao mesmo tempo que vejo pelo “rabo do olho” o velhote resignado, mas curiosamente com algum entusiasmo, iniciar o seu dia de caça.

“Porra”! diz-me o Alfredo quando me junto a ele; “podíamos ter “racozido” mais um coelhote com estes dois cartuchos” (os que havia extraído da arma, não por cuidado, mas sim a pensar na sua utilidade para a próxima).

Estas foram as únicas palavras até casa, e pelo que me pareceu, a única coisa que o “chateou” de facto, nessa inesquecível manhã em que nos tornamos verdadeiramente viciados pela caça.
 

 
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