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Tributo ao Coronel Júlio de Araújo Ferreira
No meu Concelho... como em tantos outros 70 anos de caça
 

     

Autor Fotos: Júlio de Araújo Ferreira e família

Fonte: A caça... uma Saudade

19-01-2009 10:35:00

 

“Feras” daqueles tempos, no nosso concelho
   
Éramos assim... há anos
   
Adeus Caça
   
Assim fomos acabando com as perdizes
   
Notável artigo escrito há quase vinte anos, com muitas referências às vivências de há quase um século. Impressionante de actualidade, por um dos maiores caçadores portugueses de todos os tempos.

Quando comecei a caçar, ainda Deus Nosso Senhor andava pelo mundo. A minha terra, Tomar, era por essa altura uma cidade pequenina, como que uma grande aldeia, sossegada... o­nde todos nos conhecíamos. A gente era pouca, os automóveis raros, as motorizadas ainda não infestavam as ruas, o rádio e a televisão estavam por nascer... Não existia, portanto a infernal e agressiva barulheira que hoje é o pão-nosso de cada dia. A música era outra: - um ou outro cão que latia, uns passos de cavalo na calçada, o canto dos pássaros e dos galos, e, no rio, o coaxar das rãs ao desafio com o “choro” das rodas. Enfim, uma doce e santa paz!...

Vivíamos mais perto uns dos outros. Fraternidade e calor humano, sentimentos hoje tão apregoados mas de que andamos tão arredios, eram então uma realidade. As pessoas respeitavam-se mutuamente, os velhos e as mulheres ainda eram alvo de especiais atenções, ninguém se cruzava nos caminhos, fosse com quem fosse, que não desse alegremente os bons dias, as boas tardes, ou as boas noites. Bonitos costumes que se vão perdendo, infelizmente. Eram outros tempos, outras maneiras!

Ainda vinha longe “a sociedade melhor” para o­nde dizem temos vindo a caminhar!...

A Caça não destoava daquele sereno ambiente. Os velhos caçadores eram mais comedidos, menos gananciosos, caçavam com calma, sem pressas, sem exageros, sabiam caçar e divertir-se, demoravam-se a comer os farnéis.

Em 1920, ano em que tirei a minha primeira licença de caça, os velhos caçadores por essa altura ainda em actividade, podem considerar-se os últimos representantes dessa antiga época, em que o estilo de caçar era mais repousado, mais sensato, mais recomendável... e em harmonia com o sentido de conservação das espécies que deveria existir profundamente gravado no íntimo de cada caçador.

Nos anos 20, os caçadores eram relativamente poucos, ainda não se atropelavam uns aos outros... e a caça era muita. Conhecíamo-nos bem, éramos amigos, acamaradávamos, vivíamos com maior intensidade as proezas de cada um. Grandes e saudosos tempos aqueles!...

Ainda reinava a pólvora negra. E não tínhamos razão de queixa contra ela. O pior defeito que lhe encontrávamos era o do fumo que fazia. Não era tão melindrosa de manipular, o que tornava mais fácil e menos perigosa a operação de carregamento dos cartuchos, que nesse tempo cada um de nós tinha de efectuar. E com certa solenidade, acrescente-se, um verdadeiro ritual... de mistura com umas tantas barbaridades: - chegámos a meter 40 gramas de chumbo em cartuchos calibre 16.

Nas mãos dos caçadores do meio rural ainda se viam algumas espingardas de carregar pela boca. E foi mesmo com velhos arcabuzes destes que um dos meus melhores companheiros de caça fez o seu agitado tirocínio, e que um outro amigo matou a sua primeira peça de caça, nada mais nada menos que uma lebre na cama, façanha que tanto o entusiasmou e que durante muito tempo ele nunca se cansou de contar... nem nós de o ouvir.

As espingardas de então, não eram, na sua maioria, garantidas para o uso da “pólvora branca” que começava por essa altura a aparecer entre nós. O calibre 16 estava muito em voga, disputando a primazia com o calibre 12.Mas viam-se também, embora em menor número, espingardas de calibre mais reduzido, o 20 e o 24. Nos meus primeiros anos de caçarreta, cacei com espingardas emprestadas de todos estes calibres. Só em 1926 consegui comprar a minha espingarda, uma FN calibre 12, canos laterais, que me custou, novinha, 950$00. Bons tempos!...

Começaram também a aparecer, ainda a medo, algumas automáticas. O facto de poderem dar 5 tiros de enfiada, deu-nos logo volta ao miolo. Eram espingardas americanas, ainda demasiado pesadas. Saí uma vez a caçar com uma delas e não gostei, tirei daí o sentido por muito tempo. A melhor proeza que nesse tempo vi fazer com uma automática, foi ao meu amigo Américo Casquilho, que no alto dum cabeço, deu cinco tiros num mocho que descreveu uma circunferência completa à sua volta... e se foi embora.

A aprendizagem, tanto da caça como do tiro, era feita muito à sorte, “ao Deus dará”, apenas com algumas esporádicas ajudas dos mais velhos... como aliás ainda continua a acontecer, diga-se de passagem. A nossa ciência limitava-se, pode dizer-se, à que íamos “bebendo” no celebérrimo catálogo da Manufacture Française de Saint’Etiene.

No entanto, muitos de nós já entrávamos na caça a valer com uma preciosa preparação, conseguida nos anos da meninice a calcorrear os campos, o rio e as ribeiras, caçando pássaros, peixes, grilos, cágados, cobras, etc... e manejando, com maior ou menor habilidade e desembaraço, os “elásticos”, a espingardas de pressão de ar e as “flauberts” de 6 e 9 milímetros. Alguns mesmo – como por exemplo o meu irmão Fernando, mais novo do que eu 8 anos – habituados a acompanhar caçadores na sua qualidade de “meninos-secretários”, quando por sua vez começavam a caçar, nem já as perdizes, os coelhos e as lebres, tinham muitos segredos para eles.

Eram tempos heróicos, de andar a pé. Os automóveis eram raros e não se encontravam tão facilmente como hoje à nossa disposição para nos transportarem aos terrenos de caça e nos trazerem de volta para casa. E as estradas, para os poucos que existiam, eram um inferno de pó ou de lama... e de buracos. Também ainda não tinham nascido as estradas alcatroadas. O que nos valia é que tínhamos a caça perto.

Mas, frequentemente, éramos obrigados a saltar da cama a altas horas da madrugada, para palmilharmos a estrada ainda de noite, a tempo de começarmos a caçar ao romper do dia em terrenos que ficavam a 5 ou 10 quilómetros da cidade, senão mais. E, por vezes, de todo arrasados, não havia outro remédio do que fazer, já de noite novamente, os mesmos quilómetros de regresso, fazendo das tripas coração, para vencer a estrada interminável, e, ainda por cima, nos dias de sorte, carregando alguns 10 ou mais quilos de peso no cinto. Hoje, que já não posso com uma gata pelo rabo, tais proezas até se me afiguram impossíveis.

Éramos caçadores caseiros; nos anos 20 pode dizer-se que só caçávamos no nosso concelho, embora transbordando amiúde em mais profundas digressões, para os concelhos vizinhos, de Ferreira do Zêzere, Torres Novas, ou Ourém. Não havia necessidade de grandes voos, tínhamos a caça ao pé da porta. E não se ia para mais longe com a mesma facilidade com que se vai agora.

Cito, a propósito, e como exemplo, uma caçada em 1928, a primeira que fui fazer sozinho às codornizes da Golegã, que alguns de nós já tinham descoberto. Partida de Tomar, na véspera, no carro da carreira, puxado a mulas, que me levou até Paialvo; de comboio até ao Entroncamento; a pé, carregado de cartuchos, até ao campo da Golegã; dormida em pleno campo, no barracão, numa manjedoura, embrulhado na palha e embalado pelos chocalhos do gado; caçada no dia seguinte; embarque ao fim da tarde, no comboio, em Mato Miranda; viagem de comboio até Paialvo; mais 7 quilómetros a pé para Tomar. Enfim, uma pequena aventura!...

Hoje vamos comodamente ao campo da Golegã em meia hora, damos meia dúzia de tiros – quando damos – e vimos almoçar a casa. Tudo muito prático e cómodo, na verdade. Mas é preciso reconhecer que, com tanto progresso, a caça perdeu muito do seu antigo sabor.

As saídas para o “estrangeiro” só começaram a ser mais frequentes nos anos 30 – Bemposta, Benedita, Sertã, etc... mas mesmo assim, apenas uma ou outra vez, por festa. Em 1931 e 1932 descobrimos a Beira Baixa, em duas aventurosas caçadas em Malpica do Tejo e Monforte da Beira, que ficaram célebres. Íamos dando em doidos com tanta perdiz!... Mas era um “estrangeiro” ainda demasiado longe para nós.

A Caça viria porém a sofrer uma considerável modificação que principiou a processar-se – pelo menos no nosso concelho – nos primeiros anos da década de 20. Os hábitos moderados dos velhos caçadores, começaram a ser postos de lado. As duas, três ou quatro peças com que eles em geral se contentavam, passaram a ser poucas para a rapaziada de então. A febre dos grandes cintos, o espírito de competição e a mania do record, começaram a apoderar-se de nós. Em vez de nos limitarmos – como seria racional e desejável – a um duelo desportivo, leal e comedido, entre caçadores e bichos, que é a própria essência da caça, passámos a lutar uns contra os outros, num louco e permanente desafio, a ver quem matava mais.

Até chegamos a disputar, em 1926/27, um animado campeonato, cujo objectivo era ver quem conseguia a melhor média de peças abatidas por dia, na totalidade da época. Estava assim oficializada a guerra entre os caçadores. Guerra amigável, entenda-se, mas nem por isso menos prejudicial. Ainda tivemos no entanto o bom senso de não querer mais campeonatos.

A coisa foi-se agravando progressivamente. Já não nos sentíamos inteiramente felizes senão com a cintura rodeada de perdizes. Se um matava 6, o outro procurava logo matar 8; atingidas as 8, de imediato aparecia quem quisesse chegar às 9. E, assim, sucessivamente, se foi chegando às 10, às 15, às 20 e às 30... enfim uma barbaridade!... e o nosso concelho não era nenhum Alentejo ou Beira Baixa, note-se bem!...

Mal se parava para comer os farnéis, se é que se parava. Muitas vezes, principalmente no Inverno, nos dias pequenos, comia-se a andar, todo o tempo era pouco procurar mais uma perdiz ou uma galinhola. Aligeirámo-nos, atirámos fora os casacos, as botas altas, as polainas ou as grevas dos antigos... e alguns até as calças, passando a enfrentar estoicamente, de perna nua, tojos e carrascais. Quanto mais leves, melhor... tínhamos muito que andar.

Sou o primeiro a reconhecer e a condenar as exageradas matanças a que levianamente procedíamos, sem ter na devida conta a indispensável garantia de sobrevivência das espécies, mas, apesar de tudo, volto a afirmar: - foram maravilhosos tempos aqueles. O período aúreo da caça!...

Havia caça com fartura, o terreno era livre, caçávamos o que queríamos o­nde queríamos, e quando queríamos. Podíamos caçar com inteira liberdade, os caçadores pouco ou nada se estorvavam uns aos outros, havia dias em que não encontrávamos nos campos outro caçador, era como se cada um de nós tivesse todo o terreno e todos os bichos por sua conta.

Fazíamos grandes explorações antes da abertura, para saber o­nde havia mais caça e não irmos à sorte para o primeiro dia da festa.

Vivíamos a caça com uma paixão indescritível. As “feras” caçavam em geral completamente sós ou aos pares, três já era gente de mais. Nunca nos entendemos com as “linhas”, queríamos liberdade de movimentos. E os nossos terrenos pareciam ter sido propositadamente talhados para o caçador solitário, ou para o par, a caça de salto em toda a sua pureza. Mas havia também, claro, a rapaziada de pé mais pesado, que ia à caça mais para se divertir do que para se esfolar, mais a pensar na hora do farnel do que nas perdizes ou nos coelhos. Estes caçavam em grupos mais ou menos numerosos, para terem mais parceiros com quem larachear. Era a grande ala dos moderados, da qual fazia parte um afamado e pitoresco grupo de coelheiros que deu brado na terra. Excelente rapaziada que já de há muito nos deixou!...

De uma certa altura em diante começamos a lançar mão de ajudantes para nos auxiliarem nas lides da caça e carregarem com as peças abatidas. Estas por vezes pesavam bastante e nós tínhamos de andar leves. Alguns destes “secretários” ficaram célebres deixando o seu nome ligado a milhentas peripécias da caça daquele tempo, bons rapazes, malta fixe, óptimos companheiros! E rijos!... Tinham de andar tanto, ou quase tanto, como nós. Mas a alguns, por serem ainda muito meninos, ou demasiado carregados, tínhamos de os poupar, deixando-os de tempos a tempos “pendurados” num pinheiro ou numa azinheira, enquanto dávamos mais umas voltas, até que voltávamos para os recolher e lhes pespegarmos com mais umas peças em cima do lombo.

A Caça tinha nesse tempo outra graça, outro colorido, o regresso dos caçadores, a pé, atravessando pelas ruas da cidade, fazia parte do folclore da terra. Mesmo os não caçadores se divertiam com isso. E, nos dias de sorte, esse desfile de “heróis” rodeados de caça era para nós um dos momentos mais felizes da caçada. Nesses dias, ainda que não calhasse em caminho, dava-se um jeitinho para passar pelas ruas principais, as mais concorridas. Mas, nos dias de azar – confessamo-lo também – havia até quem desse a volta pela estrada do Convento de Cristo, para poder entrar em casa sem que ninguém o visse a arrastar penosamente a “grade” ou o “badalo”.

Fraquezas humanas, ou como lhes queiram chamar, mas que não faziam mal a ninguém, tinham a sua piada e serviam até de pretexto para mais nos desfrutarmos mutuamente.

E nem de noite deixávamos de caçar. Caçadas que se efectuavam por regra em determinado cantinho do Café Paraíso, o­nde a tais horas se reunia a fina-flor dos caçadores. Reuniões de alto nível, como não podia deixar de ser, o­nde se comentavam os acontecimentos do dia e dos dias anteriores, e se recordavam façanhas recentes e antigas e se discutiam os problemas da Caça... por vezes até com mais calor do que seria de desejar.

Nos dois ou três primeiros anos da década de 20, quase ninguém se preocupava senão com a caça “grossa” – perdizes, galinholas, lebres, coelhos – mas com o andar dos anos fomos descobrindo o prazer da caça às outras espécies – rolas, codornizes, narcejas e tordos. A Caça passou assim a ter outra dimensão. E, como é evidente, passamos também a dar mais tiros. O pior é que isso veio tornar ainda mais aflitiva a necessidade de arranjarmos dinheiro para os cartuchos. Para muitos de nós, estudantes, era na verdade um problema bicudo. A melhor solução que para ele encontramos, foi de ir vendendo algumas peças de caça – perdizes e coelhos a 5$00 cada e lebres a 7 e 8$00... conforme o “calibre”. Com o que, aliás, nenhum de nós sentiu manchados os seus pergaminhos de caçador. Mas nem por isso deixámos de andar sempre mais ou menos em apuros... e com dívidas nos armeiros da terra.

Tínhamos no concelho terrenos maravilhosos, o­nde apetecia caçar e tanto para isso se prestavam. Terrenos que na sua maioria se encontram hoje muito modificados, com matas de eucaliptos a substituir pinhais e a invadir todos os recantos, com vastas zonas de matos impraticáveis, com estradas e casas o­nde não havia nem uma coisa nem outra...

Terrenos que tão bem conheci, encontram-se agora por completo desfigurados, já não os conheço. Fazem-me pena!...

E é chegada a altura de enviar também daqui um aceno de saudade aos inseparáveis companheiros e fiéis amigos daqueles já remotos tempos, os cães. Recordo com emoção muitos deles, tanto os meus como os da outra rapaziada: - o Lord, o Fixe, as Guinés, o Pigarço, a Beata, a Lira, a Diana, o Barué, o Top, a Diná, as Bonecas, o Jau, o Pininha, a Ligeira, a Violeta, etc..., etc...

A grande reviravolta que se operou na nossa maneira de caçar e que aqui em Tomar se começou a fazer sentir nos primeiros anos da década de 20, como atrás referi, foi uma calamidade geral que atingiu todo o país. O espírito de competição, a cegueira dos grandes cintos e a preocupação do record, transformaram por completo a mentalidade dos caçadores. A sábia e prudente escola dos antigos foi praticamente posta de parte, somente um ou outro raríssimo confrade lhe continuou fiel. Os velhos bem nos advertiam contra a insensatez de tal procedimento, mas nós não lhes dávamos ouvidos. E foi o que sabemos e já aqui deixei relatado por alto.

Note-se porém, que apesar dos nossos condenáveis excessos, as espécies foram aguentando ainda durante muito tempo. Éramos relativamente poucos, de princípio havia pouca facilidade de transportes, as estradas más, os terrenos magníficos e não estavam ainda envenenados. Nos anos 40, e mesmo nos 50, ainda havia muita caça.

Lembro-me aqui no concelho, caçando isolados e a salto, passámos das 100 perdizes no conjunto. Até custa a crer!...

Por essa altura, os caçadores dos anos 20, embora já um tanto usados, continuavam a mexer-se bem, não deixando os seus créditos por mãos alheias, mas tinham entretanto entrado na liça novas “feras” porventura ainda mais assanhadas.

Mas tudo se foi agravando daí por diante, a passos agigantados. Boas estradas, facilidade extrema de transportes, caçadores em muito maior número e bem armados, caça desregrada e campos a serem sistematicamente envenenados pela praga de pesticidas empregados na agricultura... tudo contribuiu para ir destruindo implacavelmente as espécies cinegéticas e não apenas estas. A caça no nosso concelho foi rareando a olhos vistos. A salvação, para caçadores insaciáveis como continuávamos na maioria, passou a ser o “estrangeiro”, o­nde se mantinham ainda óptimas regiões de caça. Na última metade dos anos 60, pode afirmar-se que as “feras” já praticamente não caçavam no concelho. As explorações alongaram-se.

Antes das aberturas já a rapaziada tinha vasculhado todos os recantos do Alentejo e da Beira Baixa, para ficar a saber por o­nde melhor lhe convinha começar.

Até que chegámos à tristeza dos tempos que vão correndo. Caçadores cada vez mais numerosos e indisciplinados, caça dizimada, liberdades a mais, incompatíveis com a sobrevivência das espécies e a dignidade do acto venatório, uma lei incapaz, de todo ultrapassada... Resumindo: - degradação total, uma autêntica vergonha nacional!...

Que Diana e Santo Huberto nos valham, já que da parte dos homens que nos têm governado, se não vê, por enquanto, nem cabeça nem garra para opor um dique eficaz à o¬nda destruidora e erguer de vez a caça do caos em que se encontra.

As “feras” actuais, rapaziada agora de sangue na guelra, nem já no “estrangeiro”, segundo parece, encontram caça que se veja. Não há cantinho do país que tenha escapado à louca destruição. Regiões que foram outrora verdadeiros paraísos de caça, são hoje duma constrangedora pobreza. Os campos do meu concelho estão quase totalmente despovoados de perdizes e há anos que neles não vejo uma lebre.

Os caçadores dos anos 20 já se foram quase todos embora. Restam pouco mais do que dois ou três sobreviventes que por cá continuam a arrastar-se, carpindo saudades de bons tempos e a contar melancolicamente os dias que lhes faltam para irem fazer companhia às minhocas.

Caçadores do passado!... estou a vê-los ainda, tal como eram, vibrantes de vida e de entusiasmo, a palmilhar matos e restolhos e alqueives, a galgar ásperas encostas, ou a “catar” os pinhais das galinholas... E sabe Deus com que saudade recordo aquelas distantes madrugadas de Setembro, antes de partir para a caça e oiço de novo, vinda dum outro mundo, a música daquele tempo e daquela hora: - as botas ferradas dos companheiros chiando a calçada, o cantar dos galos, o coaxar das rãs e o gemer das rodas no rio!...

Adeus, Caça!...

Cheguei ao fim... o conto acabou!... A vida passa depressa!...
É certo que ainda não deixei de todo os tiros, mas hoje apenas finjo que caço. Uma tristeza sob vários aspectos. Os anos não perdoam.
E uma saudade, como digo. Uma febre que se apagou!...
Como eu gostaria de percorrer de novo os vários cantinhos por o­nde andei caçando. E que bom seria poder voltar aos meus 20, aos 30, ou aos 40 anos!...
Sim, que bom seria, se tudo pudesse voltar também a ser como era: - os campos da minha terra, a África, os animais bravios... a mesma gente.
Mas voltar de repente só eu a ser novo nos tempos de agora, creio que não valeria a pena, sentir-me-ia um estranho. Não... nem pensar!...
Este mundo já não é o meu!...

In “A Caça... uma Saudade”, Júlio de Araújo Ferreira (Coronel), 1989




Enviado por Miguel Pereira em 22-11-2008

 

 
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