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O Corço (Capreolus capreolus)
 

     

Autor: Rita Maria Tinoco da Silva Torres

Co-Autor: Carlos Fonseca (Departamento de Biologia/CESAM, Universidade de Aveiro)

11-01-2009 16:55:15

 

Agrupamentos de corço em zonas de planície, centro da Europa
   
Duas crias
   
Macho a montar a fêmea
   
Macho a perder o veludo
   
Macho em veludo
   
Durante as últimas décadas, a densidade e distribuição do corço tem aumentado por todo o hemisfério Norte, sendo actualmente dos mamíferos mais amplamente distribuídos pelo continente Europeu. A plasticidade ecológica e comportamental deste pequeno herbívoro são a chave do seu sucesso, permitindo a sua fácil adaptação a uma enorme diversidade de habitats. Em Portugal, até à década de 80 (séc. XX), a sua presença foi bastante discreta. Contudo, nos últimos 25 anos, esta espécie tem vindo a expandir-se, ainda que lentamente.
Felizmente, o crescente interesse por esta magnifica espécie deixa antever um futuro bastante promissor.


por Rita Torres e Carlos Fonseca

Departamento de Biologia/CESAM

Universidade de Aveiro


 

 

Nome comum: Corço

Nome científico: Capreolus capreolus

Peso: 16-30 Kg

Longevidade: Média 8-9 anos, sendo superior nas fêmeas.

Comprimento: 95-135 cm

Altura ao garrote: 65-75 cm

 

 

 

Descrição geral

 

O corço europeu, o menor dos cervídeos europeus, possui um aspecto gracioso e esbelto. Os seus membros posteriores são mais alargados e elevados que os anteriores, sendo especialmente adaptados ao salto. Da sua morfologia, destaca-se a extremidade negra do focinho, com os lábios e queixo brancos, grandes orelhas e um escudo anal branco que contorna uma cauda curta e rudimentar. O dimorfismo sexual é pouco acentuado e as principais características distintivas são a presença de hastes no macho, durante a maior parte do ano e a forma do escudo anal que, nos machos, se parece a um rim e, nas fêmeas, a um coração invertido.

 

Os machos, à medida que envelhecem, adquirem uma morfologia trapezoidal, com altura maior na parte anterior do corpo, conferindo-lhes um aspecto robusto e potente. Já as fêmeas apresentam uma morfologia inversa, possuindo uma altura maior na parte posterior que está relacionada com a maternidade.

 

As populações de corços da Península Ibérica, quando comparadas com as do norte e centro da Europa, apresentam diferenças em tamanho e peso, sendo, de uma forma geral, mais pequenas e magras.

 

O corço possui duas épocas de muda de pêlo, variando de castanho-acinzentado no Inverno a castanho-avermelhado no Verão. No Inverno, os pêlos são mais grossos e compridos e, no Verão, são curtos e finos. As crias apresentam uma pelagem diferente da dos adultos, com pêlos mais escuros e com manchas brancas, o que lhes confere um grande mimetismo. As manchas desaparecem no Outono.

 

Durante todo o ano mas principalmente na altura da reprodução, os adultos emitem um som rouco, alto e seco, bastante semelhante ao ladrar de um cão, daí possuir o nome comum de “ladra”. De um modo geral, este som é repetido em intervalos regulares e pode transmitir inquietação e perturbação ou ameaça e perigo. Os machos assinalam ainda a sua presença através de secreções das glândulas cutâneas, localizadas na base das hastes e entre as unhas e através de marcações na vegetação e de esgaravatadelas, efeito de rasparem o solo com as patas anteriores.

 

Este cervídeo caracteriza-se por uma excelente e selectiva capacidade auditiva e uma boa capacidade olfactiva, sendo capaz de detectar o mais ténue movimento físico. A visão, monocromática, é limitada, com melhor capacidade para a detecção de movimentos do que de formas.

 

O corço é um animal crepuscular, sendo mais facilmente avistado durante as primeiras horas do dia e ao anoitecer. É tímido e esquivo, aparecendo e desaparecendo rapidamente entre a vegetação, motivo pelo qual tem sido apelidado de “o duende da floresta”.

 

A determinação da idade através de observação directa é difícil. No entanto, a observação atenta de vários aspectos morfológicos, tais como o tamanho das hastes, a forma corporal ou seu comportamento permite definir três classes etárias: crias, juvenis e adultos. A correcta avaliação da sua idade baseia-se na erosão do padrão dos dentes e no grau do seu desgaste.

 

 

Desenvolvimento das hastes

 

As hastes são, como nos restantes cervídeos, de natureza óssea. Presentes unicamente nos machos, são compostas por três pontas: a ponta central, a anterior e a posterior. O tronco central insere-se no crânio através das rosetas e atinge 25 cm de comprimento máximo, terminando na ponta central. A ponta anterior ou lutadeira, encontra-se direccionada para cima e para a frente. Na última parte do tronco central, surge a ponta posterior ou contralutadeira, direccionada para a parte traseira da cabeça. O tronco caracteriza-se por possuir um abundante perlado na base, podendo revestir quase toda a haste. A função do perlado não é totalmente conhecida, todavia pensa-se que serve para conferir às hastes um maior volume do que aquele que na realidade têm. Um aspecto curioso é a enorme variação de formas e volume das hastes, por vezes entre indivíduos da mesma população, sendo comum encontrar pontas adicionais e modificações à conformação descrita. Estas variações poderão estar relacionadas com a densidade populacional, tipo de alimentação disponível, tipo de habitat, sanidade do animal e mesmo com componentes genéticos inerentes ao próprio indivíduo. 

Esquema de uma haste de corço
 
Mapa de distribuição do corço na Europa (Andersen, 1998)
 
Ciclo reprodutivo do corço (Adaptado de Pedro Carvalho, 2007)
 
Marcação de um corço num pilriteiro
 
Excrementos de corço
 
Corça
 
Grupo familiar tradicional: Corça e as duas crias
 
Pegada de um corço
 
Macho e fêmea de corço
 
Corço macho num campo de trigo
 
 
 

 

As hastes começam a desenvolver-se a partir dos três meses de idade, atingindo o apogeu do seu desenvolvimento entre os três e cinco anos. À medida que os animais envelhecem, as hastes engrossam, podendo ocorrer uma regressão no número de ramificações e na sua conformação.

 

Tal como acontece com os restantes cervídeos, as hastes são renovadas anualmente, caindo entre Outubro e Novembro, e começando a crescer quase de imediato. Um aspecto bastante interessante e que distingue o corço de outros cervídeos, é que o corço perde e desenvolve as hastes durante o Inverno, quando a disponibilidade de alimento é baixa. Durante o seu desenvolvimento, as hastes estão cobertas por uma membrana protectora altamente vascularizada, denominada de veludo. Se durante o desenvolvimento das hastes o veludo é danificado, podem ocorrer deformações.

 

Normalmente, as hastes encontram-se totalmente desenvolvidas entre Março e Abril, ou mesmo mais cedo no caso de animais mais velhos. É nestes meses que os dias se tornam mais longos, o que provoca um aumento dos níveis de testosterona, com a consequente cessação da irrigação do veludo, acabando este por secar e cair. Para remover os restos desta película, o animal esfrega as suas hastes na vegetação.

 

Distribuição

 

O corço é o cervídeo com maior distribuição na Europa, encontrando-se em países tão diferentes como a Noruega, Turquia, Inglaterra e Portugal. Ocupa a região Paleárctica do continente Euroasiático, com excepção das ilhas do Mediterrâneo e Irlanda. Está presente em quase todos os habitats naturais europeus, incluindo bosques de folhosas, coníferas, florestas mediterrâneas e campos agrícolas. Está também adaptado a sobreviver em condições climatéricas extremas, desde as florestas mediterrâneas, quentes e secas, às florestas boreais e frias. Porém, nas altas zonas alpinas a sua distribuição está limitada ou é quase nula. A sua tolerância à actividade humana permitiu-lhe ocupar também habitats alterados pelo Homem, como zonas de repovoamentos florestais, campos agrícolas e, inclusivamente, jardins suburbanos.

 

Na Península Ibérica o corço passou por várias etapas de ocupação, desde uma presença marginal em muitas zonas até ao recente crescimento quase explosivo. Em Espanha distribui-se de forma homogénea pelos Pirenéus, País Basco e Cordilheira Cantábrica até à Serra de Los Ancares, em Lugo, e os Montes de León, a partir dos quais terá colonizado grande parte da Galiza. Ao contrário do que acontece no resto da Europa, em Portugal, a expansão desta espécie é bastante limitada devido sobretudo à incorrecta gestão das suas populações e à fragmentação dos habitats.

 

Existem dois grandes núcleos de distribuição geográfica nacional do corço, localizados a norte e a sul do rio Douro. As populações naturais desta espécie estão confinadas ao norte deste rio, mais concretamente nas Serras da Peneda-Gerês, Amarela, da Cabreira, do Marão, do Alvão, de Montesinho, da Coroa e da Nogueira. Estas populações são provenientes de outras do noroeste de Espanha que, por processos naturais de dispersão, colonizaram o norte de Portugal. Por outro lado, as populações de corço a sul do rio Douro, resultam de processos de reintrodução, iniciados há cerca de 15 anos, com objectivos conservacionistas e/ou cinegéticos. Contudo, nos últimos anos, o abandono generalizado das terras aráveis, o êxodo das populações rurais para as grandes cidades litorais e o consequente abandono de algumas actividades tradicionais, como a agricultura, têm contribuído para uma melhoria gradual das condições necessárias à rápida fixação e expansão das populações desta espécie, nomeadamente em algumas zonas de montanha com baixa perturbação e elevada percentagem de coberto florestal.

 

 

Habitat

 

Esta espécie ocupa preferencialmente habitats do tipo "mosaico” que se caracteriza por ser composto por áreas florestadas (com folhosas e resinosas) e áreas com estrato herbáceo ou arbustivo, alternadas com clareiras ou campos cultivados. Apesar da preferência por manchas florestais, o­nde encontra abrigo e alimento, o corço pode também explorar meios agrícolas.

 

 

Hábitos alimentares

 

O corço é considerado um herbívoro generalista, sendo capaz de se alimentar de uma grande variedade de plantas, chegando a consumir centenas de espécies diferentes das quais aproveita todos os seus tecidos, desde as raízes até às flores. Contudo, recorre a estratégias de alimentação muito selectivas que lhe permite manter os seus elevados requisitos energéticos e o elevado investimento parental (o corço é um dos poucos cervídeos com mais de uma cria por parto). Esta selectividade deve-se à pequena capacidade relativa do rúmen que faz com que este ruminante consuma porções vegetais pouco fibrosas e ricas em hidratos de carbono, possibilitando a passagem mais rápida dos alimentos pelo tracto digestivo. É espantoso o comportamento alimentar que ele adopta, em particular no Inverno, consumindo plantas com elevado conteúdo em substâncias tóxicas, como os taninos (usados pelas plantas como estratégias anti-herbivoria), e que não lhe são prejudiciais, sendo bastante úteis nalguns processos metabólicos. Esta adaptação evolutiva permitiu a esta espécie desenvolver-se em florestas temperadas, aproveitando salgueiros e loureiros, entre outras plantas. Também fazem parte da sua dieta folhas e rebentos de espécies arbustivas e arbóreas, bagas e outros frutos de plantas lenhosas, herbáceas, flores e, menos comummente, fungos.

 

O tipo de alimentação do corço varia não só com o tipo de habitats mas principalmente com as estações do ano. Durante o Inverno, a disponibilidade de alimento diminui e a sua dieta torna-se menos variada, o que promove o consumo de matéria vegetal mais concentrada como sementes e frutos.

 

Estudos realizados na Serra da Lousã e no Parque Natural de Montesinho evidenciam a variação sazonal na dieta deste cervídeo. Ao longo de um ano foi constatado que os itens mais consumidos pelo corço na Serra da Lousã foram: folhas jovens e rebentos das dicotiledóneas arbustivas do género Rubus (silvas) (36,7%), dicotiledóneas arbóreas, como o castanheiro (Castanea sativa)(15,3%) e carvalhos (Quercus spp.) (13%). A carqueja (Pterospartum tridentatum) é também consumida (9%). Fazendo igualmente parte da dieta do corço na Serra da Lousã, embora de uma forma residual estão as seguintes espécies: Hedera helix (hera), Pinus spp. (pinheiros), Fraxinus angustifolia (freixo), Acacia melanoxylon (acácia), urzes como Calluna vulgaris, Erica australis, Erica arborea e Lonicera periclymenum (madressilva), que não atingem 5% da sua dieta.

 

 

Biologia reprodutiva

 

Desde o início da Primavera (Março/Abril) até ao fim da época reprodutiva, denota-se nos machos uma forte atitude territorial, em que o seu território é marcado e patrulhado. É no final do Verão, entre Julho e Agosto, que esta espécie inicia o ritual de acasalamento.

 

As fêmeas apresentam uma particularidade fascinante e única entre os cervídeos europeus, a diapausa embrionária ou gestação suspensa. Através deste comportamento, o embrião fica “adormecido” durante cerca de 5 meses, até Janeiro, iniciando-se só nesta altura o “verdadeiro” desenvolvimento embrionário, que se prolongará por mais 4 meses. Desta forma, a gravidez dura 10 meses, contrariamente aos cerca de 7 meses que se verificam nos restantes cervídeos, e as crias nascem no final de Maio, início de Junho. Esta estratégia tem a vantagem de fazer coincidir os nascimentos no início do Verão, quando a disponibilidade de alimento é máxima. As fêmeas parem entre uma a três crias. Vários estudos demonstraram que o número de crias depende do peso da mãe.

 

Outra particularidade interessante é que as fêmeas são sexualmente activas apenas uma vez por ano, tendo um estudo numa população selvagem demonstrado que 98% das fêmeas adultas são fertilizadas nesse curto espaço de tempo.

 

A mortalidade infantil é bastante elevada, e verifica-se principalmente no primeiro ano de vida, variando entre 40-50%. As crias permanecem a maior parte do tempo escondidas na vegetação, imóveis entre as ervas altas, passando despercebidas e são bastante dependentes do leite materno. As mães, por sua vez, aproximam-se periodicamente para lhes dar de mamar e para as limpar, evitando assim que os seus odores possam atrair predadores. Por estarem sozinhas e pelo seu ar inocente, muitas pessoas julgam-nas abandonadas e são tentados a levá-las para casa. Contudo, este comportamento é, quase sempre, letal para a cria. Por isso, sempre que se encontra uma cria sozinha, não se deve tocar ou tentar movê-la, pois a mãe anda por perto e mais tarde irá ter com ela.

 

É possível que a intervenção do macho no desenvolvimento das crias não seja relevante, visto que os grupos familiares sem machos possuem o mesmo sucesso reprodutor daqueles que possuem macho.

 

 

Organização social e comportamento

Tradicionalmente, o corço foi descrito como uma espécie de pequeno-médio porte, própria de zonas de bosque, de comportamento solitário e que vive em pequenos grupos familiares, muito selectivos na sua alimentação. Isto terá levado ao desenvolvimento da territorialidade nos machos e um elevado grau de estabilidade espacial. No entanto, nos últimos anos, ao colonizar novos habitats, desde bosques a montanhas sub-alpinas, até ecossistemas agrícolas mediterrâneos com pequenas manchas florestais, esta espécie demonstrou uma elevada plasticidade na sua estrutura social e espacial em função das características do território que ocupa.

 

O comportamento social do corço passa por diferentes períodos ao longo do ano e varia também com a idade e sexo.

 

As populações de corço estão estruturadas em redor da unidade familiar: a corça, as suas crias e, ocasionalmente, um macho.

 

As fêmeas adultas apresentam grande fidelidade à sua área vital e vão permanecer por vários anos nessa mesma área. As fêmeas jovens dispersam ou formam o seu território a partir do primeiro ano de vida, sobrepondo-o ao da sua mãe. Enquanto que as áreas vitais de várias fêmeas se podem sobrepor, os machos obtêm um território através de confrontos bem sucedidos com outros machos possuidores de territórios. Os machos são extremamente territoriais, marcando e defendendo um território que varia entre 10 e 50ha. O território do macho é normalmente maior do que o das fêmeas e ocupa frequentemente a área vital de várias fêmeas.

 

Durante o Inverno, a acentuada territorialidade diminui, avistando-se grupos em zonas favoráveis de alimentação, normalmente fora dos limites territoriais. Esta estratégia funciona como um mecanismo de sobrevivência invernal, mas é também adoptada para limitar o efeito da predação, uma vez que limita o risco de serem surpreendidos. Em zonas de planície no centro-norte da Europa é comum, no Inverno, o aparecimento de grandes agrupamentos, por vezes com 20 ou mais indivíduos.

 

Contudo, com o final do Inverno e o início da Primavera, a organização social muda dramaticamente: os grupos de Inverno dissolvem-se e é nesta altura que os machos começam a definir o seu território, roçando a suas hastes em árvores e arbustos e emitindo vocalizações.

 

Poucas semanas antes das fêmeas darem à luz, os juvenis desse mesmo ano abandonam as suas “casas”, dispersando à procura de novos territórios o­nde se possam estabelecer. É por isso bastante comum nesta altura encontrar-se animais solitários, sobretudo machos e jovens dispersantes.

 

A época de reprodução tem lugar nos meses quentes de Verão, normalmente entre meados de Julho e meados de Agosto, apesar de haver relatos de cópulas até ao final de Agosto. Iniciado o cortejo, o macho segue a fêmea mantendo a cabeça baixa, tentando cheirar a sua zona genital. Esta perseguição torna-se depois mais frenética até que o macho finalmente copula a fêmea.

 

Com o fim do cio a territorialidade diminui, os machos começam a perder as hastes, tornando-se mais tolerantes uns com os outros, formando grupos.

 

 

Indícios de presença

 

Devido ao facto de o corço ser um animal tímido, de hábitos florestais e crepusculares, as observações directas são difíceis e casuais, razão pela qual se recorre frequentemente ao registo de indícios de presença, tais como:

Pegadas – com dimensões inferiores às dos outros cervídeos, apresentam um tamanho médio de 3 x 2,3 cm;

Trilhos – caminhos abertos na vegetação, ao nível arbustivo e do solo;

Excrementos – a forma e cor dos excrementos pode variar com o tipo de alimentação mas geralmente apresentam uma cor muito escura (quase negra), de forma cilíndrica, afilada numa das extremidades (em forma de uma pequena azeitona) atingindo, em média, 1 a 2 cm de comprimento e 0,5 cm de espessura. Encontram-se geralmente em grupos de cerca de 40, ao longo de trilhos e em zonas usadas pelos animais;

Camas – depressões ovais, geralmente em solo descoberto, com uma área aproximada de 50 x 60 cm, que resultam do comportamento específico do corço em esgaravatar cuidadosamente o local com as patas anteriores, antes de se deitar. Por vezes, as camas apresentam pêlos e/ou excrementos, e funcionam como áreas de repouso e de abrigo;

Vestígios alimentares – vegetação consumida, detectável pelo facto de o corço exibir um comportamento característico, de entre o qual se destaca a descontinuidade entre especímenes consumidos num mesmo local. A forma serrilhada e em meia lua das folhas, o facto de arrancar apenas a parte terminal destas e o aspecto desfiado de caules de espécies lenhificadas são outras particularidades dos seus vestígios alimentares;

Marcações – remoção da casca de uma área vertical e contínua do tronco, resultante dos animais esfregarem a região frontal das hastes contra a vegetação. As marcações de corço atingem normalmente uma distância máxima ao solo de cerca de 60-70 cm, sendo o seu comprimento aproximadamente de 30-40 cm. A existência de glândulas odoríferas junto à base das hastes permite que as marcações constituam marcas não só de natureza visual mas também olfactiva. Estes indícios de presença parecem permitir o reconhecimento entre indivíduos e é provável que sejam utilizados para delimitação de territórios. Por vezes, podem observar-se esgaravatadelas no solo, junto dos locais marcados.

 

 

Predação

 

O pequeno tamanho do corço favorece o número de potenciais predadores, comparativamente com outros cervídeos de maior tamanho. Uma das estratégias do corço consiste em permanecer oculto e imóvel, mas se esta táctica não for suficiente, a fuga dar-se-á em forma de grandes saltos.

 

Na Península Ibérica, o lobo-ibérico (Canis lupus signatus) é considerado o maior predador do corço em zonas o­nde estas duas espécies co-habitam. A raposa (Vulpes vulpes) ataca de forma particular as crias nos primeiros dias de idade. Os ataques por cães assilvestrados ou não assilvestrados, o furtivismo, e os atropelamentos contribuem também para a considerável mortalidade desta espécie.

 

Factores de ameaça e medidas de gestão

 

Na Europa, o corço é uma espécie de elevado valor económico, quer pela comercialização da sua carne, quer pela caça. A nível europeu, este cervídeo é o que tem mais procura entre os praticantes de caça maior; na Noruega e na França são caçados cerca de 28.000 e 400.000 indivíduos por ano, respectivamente. A sua importância gastronómica não é de desprezar, sendo das carnes de caça mais apreciadas e também cujo preço é mais elevado. Assim, acaça representa uma importante actividade humana, com consequências directas no curso evolutivo das espécies cinegéticas, e não pode por isso ser menosprezada. Contudo, desde que devidamente regrada e enquadrada em Planos Globais de Gestão, poderá contribuir para a gestão sustentada das populações de corço.

 

Como não é uma espécie ameaçada, a transladação não controlada de exemplares com a intenção de efectuar repovoamentos pode conduzir à perda das características genéticas e ecológicas próprias de populações autóctones.

 

Nos últimos 40 anos foram elaborados muitos estudos sobre a biologia deste magnífico animal, contudo os estudos concentram-se em populações com densidades médias e altas do centro e norte europeu, portanto, fáceis de estudar. Novos dados de populações com densidades baixas, como as que habitam o nosso país, poderão completar esta visão tradicional da biologia do corço.

 

 

 

Bibliografia e algumas leituras recomendadas:

 

 

Andersen R., Duncan P. & J.D.C.Linnell (1998). The European roe deer: the Biology of Success. Scandinavian University Press, Oslo.

 

Barroso, I. M. (1994). Bases para a conservaç‹ão e gestão do corço (Capreolus capreolus Linnaeus, 1758) no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Relatório de Estágio para a obtenção da licenciatura em Recursos Faunísticos e Ambiente, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

 

Benito, M. D. Morfología, Reintroducción y Caza. El corzo. Ávila. 1994.

 

Blanco J.C. (1998). Mamíferos de Espanha. Editorial Planeta. Volume 2. 385pp.

 

Braza, F., San José, C., Aragón, S., Delibes, J.R. (1994). El corzo andaluz. Junta de Andalucía, Cádiz.

 

Braza F., San José C. & M. López (2004). El Corzo en los Alcornocales: mapa de calidad de habitats. Junta de Andalucia, Sevilha.

 

Cabrera, A. (1914). Fauna ibérica. Mamíferos. Museo Nacional de Ciencias Naturales, Madrid.

 

Carvalho, P., Nogueira, A., Soares, AMVM and Fonseca, C. (2008). Ranging behaviour of translocated roe deer in a Mediterranean habitat: seasonal and altitudinal influences o­n home range size and patterns of range use. Mammalia. 72: 89-94.

 

Faria A. (1999). Dieta de corço (Capreolus capreolus L.) no centro e Nordeste de Portugal. Tese de Mestrado. Universidade de Coimbra.

 

Ferreira, J. 2000. Distribuição e Densidades de Corço (Capreolus capreolus) no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Relatório de Estágio da Licenciatura em Biologia Aplicada. Universidade do Minho.

 

Fonseca, C. e P. Carvalho (2005) – Biologia e Gestão do Corço (Capreolus capreolus L.). Santo Huberto. Boletim da Confederação Nacional dos Caçadores Portugueses. N.º 2: 14 – 18.

 

Gaillard JM, Sempéré AJ, Boutin JM, Van Laere G, Boisaubert B (1992) Effects of age and body weight o­n the proportion of females breeding in a population of roe deer (Capreolus capreolus). Can J Zool. 70:1541–1545.

 

Mateos-Quesada, P. 2002. Biologia y comportamiento del corzo ibérico. Universidad de extremadura. Cáceres.

 

Mysterud, A. 1998. Large male territories in a low density population of roe deer Capreolus capreolus with small female home ranges. Wildlife Biology, 4: 231-235.

 

Ratcliffe P.R. & B.A. Mayle (1992). Roe deer biology and management Forestry Commission. Surrey.

 

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San José, C., Braza, F., Aragón, S., Delibes, J. R. (1997). Habitat use by roe and red deer in southern Spain. Miscellania Zoologica, 20 (1): 27-38.
 

 
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