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Na última década decresceram 31%
Licenças de Caça em declínio
 

     

Autor: Luis A. S. R. Ferreira de Paiva

28-05-2009 17:04:21

 

   
Há, na fria análise dos números referentes às licenças de caça emitidas nos últimos dez anos, uma certeza indesmentível: estas diminuíram em cerca de 30%.

A forma mais correcta de quantificar o número de praticantes no sector, será esta mesmo; a avaliação do número total de licenças emitidas para cada época de Caça em questão.

O que é que se passou, então, nos últimos dez anos?








Pois o que aconteceu é que, desde 1999 aos dias de hoje, há menos cerca de 30% de potenciais caçadores (portadores da Carta de Caçador) que se resolvem a caçar efectivamente. O que vai de século 21 viu, assim, desaparecer à volta de 1/3 daqueles que caçavam no final da última década do século anterior.


 

2008 – 153.000 licenças vendidas


Variação em percentagem de época para época

99/00-00/01 à +0,69%

00/01-01/02 à -2,48%

01/02-02/03 à -4,90%

02/03-03/04 à -3,82%

03/04-04/05 à -8,66%

04/05-05/06 à -6,33%

05/06/-06/07à +0,12%

06/07-08/09 à -10,60% (2 anos)

Variação no período 99/00 – 08/09: -31,18%




É muito, é um facto incontornável, mas não se trata da metade dos caçadores, como se diz, muitas vezes erroneamente, porque se compara o número de licenças que vão sendo emitidas com o das Cartas de Caçador existentes. E sempre houve muitos titulares destas que, na verdade, não caçavam.

Número total de portadores de Carta de caçador em 2008: +/- 297.000


E o­nde é que estará mais justificado o fenómeno? Sobretudo na desistência dos que caçavam ou mais no não aparecimento de novos caçadores?

Olhando de novo para os gráficos a resposta está lá. Se é verdade que há uma tendência mais ou menos constante, no abandono por parte dos que já eram caçadores (podendo isto dever-se a toda uma série de factores, desde a desmotivação até à impossibilidade física por razões de saúde ou etárias), não menos verdade é que, o número daqueles que se querem tornar caçadores (ver gráfico com as estatísticas sobre o exame para Carta de Caçador), está em regressão. Positiva mesmo, só a melhoria da percentagem das aprovações naquele exame.


Será a mudança de regime, com o Ordenamento crescente e a tendência para nele englobar a totalidade dos terrenos com potencial cinegético, prevista na actual Lei, a responsável em ambas as situações?

Na minha opinião, não será assim tão simples e não negando que essa mudança, bem marcada, na facilidade do acesso, físico e económico, às zonas com capacidade cinegética e, consequentemente, ao acto de caçar, tenha tido influência no fenómeno, tampouco me parece que a questão se reduza e encerre aí.

Olhando de novo para os números, verificamos que, mesmo quando ainda havia dois terços do total nacional do terreno com potencial cinegético em Regime Livre, já o somatório das licenças de caça emitidas, decrescia num rácio considerável.

Evolução da área cinegética ordenada em percentagem



Onde devemos então procurar as restantes razões para a redução sistemática dos caçadores?

Pois parece-me que é em algo mais subjectivo de detectar e mais difícil de quantificar; a falta de renovação “geracional” do gosto pela Caça. Será esse o factor mais condicionante.

Analisando o número de Cartas de Caçador emitidas anualmente e que representa o potencial de novos praticantes, comparando as razões entre esse número e o total de praticantes na mesma época (via licenças emitidas), fácil é concluir que este passou de uns, já por si reduzidos, 2,5% para pouco mais de 1,5%.

O que, simplificando, significa que actualmente, para cada 100 caçadores, todas as épocas desistem, em média, cerca de 5 para menos de 2 que surgem de novo.

Não tenho dados para saber se os 5% de taxa de abandono (em média e considerando que nas novas licenças tiradas entraram todos os que são caçadores pela primeira vez) neste período correspondem a um número dentro do expectável, numa actividade em que se podem, por razões naturais, ou perder efectivos ou perder a capacidade para alguns deles poderem continuar a caçar.

Já estou inclinado a considerar que é muito baixa a taxa de renovação.

Mais a mais quando esta, está em queda permanente e consistente, no período em análise.

Eu acredito que a questão maior, aquela que é independente do tipo de regime de Caça que vigore, é a falta de motivação para as actividades ligadas ao Campo, por parte da população mais jovem e nos tempos que correm.

A urbanização da população e o consequente abandono das zonas rurais o­nde, por tradição, sempre decorreu a prática da actividade, constituirá a espinha dorsal do problema. A quantidade de estímulos a que estão sujeitos os jovens hoje em dia, com a grande variedade de oferta de distracções e ocupação dos tempos livres (e até é desnecessário enumerar estas, comparando-as com as de, apenas, uma geração atrás), deu uma forte contribuição para esta tendência.

Para caçar, usam-se quase sempre armas e há, nos dias de hoje, uma forte pressão para não as tolerar, de todo, nas mãos da sociedade civil, ainda que perfeitamente legalizadas e com fins lúdicos ou desportivos, dificultando-se a sua compra e detenção.

Finalmente, a Caça não está na moda nos meios a que os jovens mais facilmente acedem, sendo aí até, vista, geralmente, com censura e como uma actividade retrógrada, cruel e desnecessária.

Ao contrário do que já li, não é verdade que lá por fora, o número de caçadores esteja a aumentar ou o número de jovens que entram na Caça se tenha incrementado. Pelo menos, não em todo o lado.

Em Espanha, e analisando os números que conheço (de 1990 até 2006), verifica-se que nos seis primeiros anos do século, de 2000 a 2006, o número de licenças de caça emitidas passou de 1.200.875 para 924.524 o que representa um decréscimo de 276.351 (23 %) em seis anos, e é exactamente o mesmo, em termos percentuais, do que se passou por cá nesse período.

Licenciamento em Espanha

Ano

Número de Licenças de Caça

1990

1.443.514

1991

1.440.562

1992

1.356.553

1993

1.332.252

1994

1.342.603

1995

1.320.315

1996

1.298.860

1997

1.268.057

1998

1.253.105



Nos EUA o número de caçadores tanto do “upland” (espécies de caça menor não aquáticas) como das aquáticas tem-se vindo a reduzir, causando preocupações no sector. Em França há, por parte da federação, um plano de apoio e incremento aos jovens que se iniciem na Caça, tentando inverter uma tendência e mostrando uma preocupação de louvar, com o futuro da actividade.

Este “envelhecimento” do caçador, é um fenómeno que podia e deveria ser alvo de uma terapia bem estudada, planeada e aplicada, por parte das OSC. Cuidar desta questão será cuidar do futuro e na Natureza o futuro é a razão de ser do presente.

As condições de acesso à Caça (físicas e económicas) justas e equilibradas são, igualmente, um factor importantíssimo a ter em consideração para conservar os praticantes actuais e motivar o potencial futuro. E de novo, é aqui que todas as organizações da Caça mais têm falhado.

Nos últimos anos, a luta terá ido no sentido de não acabar com as espécies, a de hoje terá que passar muito, por preservar os caçadores.

Infelizmente não vejo estas questões a ser resolvidas com voluntarismos individuais e desorganizados, por mais bem intencionados que possam ser.

Só lá iremos, razoavelmente unidos e muito melhor representados e a nossa representação deve ser a que nós quisermos, e não aquela que quiserem para nós.

Não vejo nada a melhorar substancialmente, neste particular, sem corporativismo e boa organização.


Luis Paiva



Fontes estatísticas:
- Fencaça - Portugal
- Anuário de estadística Florestal 2006 – Ministério de Medio Ambiente e Medio Rural e Mariño – Gobierno de España

 

 
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Comentário(s) (2)   Comentário(s) (2)    
    Excelente trabalho !    
    Tiro-lhe o chapéu Luís Paiva    
   
     
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