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Histórias de Caça

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Uma realidade diferente de ver a caça
 

     

Autor: Gilberto Fernandes

03-06-2009 10:45:04

 

Primeira batida, esperando que algo atravessa-se o caminho e atravessou!
   
O meu grande amigo Joaquim com um “navalhinhas”.
   
A porca que parecia um porco. Ficou na memória o lance, mas com multa!
   
Não sou muito apreciador, mas que estavam boas estavam!
   
Apesar dos muitos tiros, foram poucos os animais abatidos na ultima batida.
   
Após ter estado durante o início do verão do corrente ano a caçar corços pelo processo de aproximação, foi-me proposto (em cima da hora) pelo meu grande amigo Joaquim rumar novamente até França e fazer uma perninha de dois dias na Bélgica aos javalis. Prontamente coloquei tudo o que tinha estipulado para estes dias e disse “ claro que sim!”.

Porém, esta viagem foi verdadeiramente inédita sobretudo porque tudo aquilo que tínhamos previsto fazer não fizemos, mas como estava entre amigo e pessoas que sabem verdadeiramente de caça, foi o que menos me incomodou.

Como disse quase tudo alterado, e infelizmente as batidas na Bélgica foram anuladas, tive um contratempo no dia da viagem (estive mesmo para não apanhar o avião), ficamos impossibilitados de caçar num dos melhores coutos de caça menor, enfim… um cem número de situações imprevistas mas nem mesmo assim deixamos de ter vontade em ir.

Obviamente que não vou relatar todos os dias de caça porque na verdade foram super intensos, caçando desde faisões, perdizes cinzentas, javalis, galinholas etc. Dormir, não era permitido.

O que vou relatar, são apenas três situações que me deixaram a meditar, sobretudo na forma de pensar, nas mentalidades, na ética e por fim sobre os conceitos de gestão.

No primeiro dia de batida e após uma viagem não muito curta, encontramo-nos com o Sr. Boissy, pessoa extremamente simpática, recebendo-nos de braços abertos naquele grande couto de caça perto da cidade de Reins.

Apresentou-nos á entidade gestora do dito couto, e a única coisa que posso dizer é que me senti verdadeiramente honrado pela forma como nos trataram, disponibilizando tudo o que fosse necessário para que saíssemos com vontade de voltar. Não tenho palavras!

Após algum tempo, lá fui observando os muitos troféus expostos e foi então que fiz a minha primeira questão relativamente a um bonito veado que se encontrava exposto na parede (entre outros). “Foi abatido aqui neste couto?”, perguntei eu imaginando que podia ter a possibilidade de abater um igual!

A resposta foi então a seguinte. “Este veado que está o senhor está a ver, foi confiscado numa caçada em dois mil e cinco, porque o caçador simplesmente não respeitou as regras de segurança, disparando-lhe e consequentemente abatendo-o quando este se encontrava a atravessar o caminho na linha dos caçadores. Ninguém se magoou-o (à excepção do veado), mas as regras é para serem cumpridas. Só se pode disparar, após estes atravessarem a linha de caçadores e consequentemente ter saído fora da batida, e como não o fez foi-lhe aplicado uma coima de muitos euros, o troféu foi confiscado e exposto (com o dinheiro da coima) para que sirva de exemplo. Estes troféus não passam nada mais, nada menos de maus exemplos de caçadores que não respeitam a caça e os caçadores”.

Os dois dias que se seguiam iríamos estar a caçar com duas organizações diferentes, em quatro batidas, sendo que as regras eram precisamente as mesmas. Era permitido abater um veado C1 (por batida), corços, uma fêmea de veado ou cria (por batida), javalis de qualquer peso à excepção das javalinas com pesos compreendidos entre os sessenta e os noventa.

Dava direito a multa!

Certamente muitos perguntarão qual a multa aplicada nas diferentes espécies, mas está tudo pensado!

Pois bem, quem abater qualquer animal que não esteja estipulado nos planos de gestão, são confiscados os animais (corços e veados) e uma coima. No caso das javalinas, seguem a regra dos três euros o quilo, ou seja, se o animal abatido tiver um peso compreendido entre os sessenta e os noventa quilos de peso, então a coima será três euros vezes o peso do animal. Confesso que nós portugueses vemos com maus olhos estas situações, mas outra questão me surgiu relativamente aos veados. Como só é permitido o abate de um veado por batida (C1), como é que eu sei que o veado foi abatido?

É simples!

Com a corneta de caça vai-se sinalizando através de toques previamente estipulados, o que acabou de se abater, o que se errou, o que se viu, ou o que vai á frente dos cães. Não há que enganar!

Se por exemplo errar um corço, apita-se duas vezes. Se abater um veado, apita-se quatro vezes, e os restantes caçadores da batida irão passar a palavra entre eles (posto por posto), através dos tais toques de corneta. Desta forma, todos vão sabendo que se passa ao longo de toda a batida.

Apenas tenho a dizer que é fantástico toda a organização e por fim os sons que dão emoção a toda uma batida Francesa. Refiro-me aos batedores ao cantarem com as suas cornetas de caça, os postos assinalando o que vai passando, enfim, um cem número de situações que dão um encanto completamente diferente da montaria ibérica.

Voltando aos pormenores, com tanto preciosismo, confesso que até tive medo de caçar (para não fazer nenhum erro) porque não somos máquinas e erramos como qualquer ser humano na apreciação dos animais, sobretudo nos javalis. Os corços estão ainda no veludo (poucos centímetros de veludo acima do crânio), e as javalinas nem sempre parecem fêmeas! Os veados, apenas são permitidos como disse anteriormente o abate de C1 (veados sem coroa) e agora imaginem decidir em fracções de segundo avaliar um corço, veado ou javali quando vos entra pelo posto dentro!

Com tanta regra, não é nada, mas nada fácil.

Na primeira batida fazia-me acompanhar no meu posto com o meu grande amigo Joaquim Junqueres.

Chegamos, colocámo-nos e após ter carregado a Express com duas “mensagens” da 9,3x74, oiço imediatamente algo a vir na minha direcção. Escuto, preparo-me e observo por entre os galhos da floresta um corço em corrida desenfreada (macho).

Instintivamente fecho a carabina, mas foi quando oiço uma voz ao meu lado dizendo: “atreve-te, a batida ainda não começou, NÃO ATIRES!!!!”.

O corço em corrida rápida mal chega a não mais de três metros de mim, dá meia volta assustado por ter encarado aqui com o Gilberto Fernandes (não sabia que era tão feio ah ah ah) e volta para trás. Acompanho o som da sua corrida e eis que o companheiro do lado incentivado pelo posto vizinho (estamos todos muito próximos) dispara e abate aquele corço jovem. Olho para o meu amigo, e este diz baixinho “está tudo lixado, mas tu procedeste bem”.

Bem a batida lá continuou, e após vários tiros e alguns lances lá acabou. Esperamos pelo “postor” e eis que se gera a confusão. No meu Francês meio macarrónico, lá fui entendendo a mal disposição do director da batida que estava fulo! Não se podia disparar para dentro da batida e como tal gerou-se a discussão.

Na verdade não sei o que foi aplicado ao dito “chasseur”, mas há que dizer que toda a gente o olhava deforma discriminativa, criticando o seu acto. Caladinho, fui escutando e aprendendo! Aquela malta não é para brincadeiras e eu por cada minuto que passava ficava com mais receio em disparar!

Por fim, a última situação que me deixou completamente desolado.

Foi na última batida perto da localidade de Epernoy numa lindíssima floresta.

Encontrava-me numa floresta lindíssima, e ao contrário dos outros postos que me caíram em sorte (bonitos também, mas muito fechados), encontrava-me num local perfeito, podendo observar para dentro da batida uns 30/40 metros por entre as árvores.

Vou apreciando os sons, os tiros e o anunciar dos diferentes abates ou “falhanços”, quando oiço um porco a partir lenha na minha direcção. Olho atentamente, escuto e ai vem ele! Negro, com a orla do focinho completamente branco, redondo, só podia ser um macho, só podia! Observo-o mais uma vez, tento ver o “pincel” mas por entre os ramos era impossível.

Entretanto meu companheiro diz-me, “prepara-te que é um macho!”.

Calculo o peso que rondaria os sessenta e cinco quilos esperando-o enquanto agarrava fortemente a Express. O porco não nos sente, sai da floresta, passa o valete, a seguir passa o caminho e após os primeiros passos fora do caminho (na entrada da outra floresta) enviei-lhe o primeiro projéctil. Não acusa, corrijo o tiro e com mais calma disparo novamente, mas continua o seu caminho. Observo o animal sem possibilidade de carregar novamente a 9,3x74, mas por entre os ramos vejo-o cair de morte.

Cumprimentos do meu companheiro por ter cumprido com todas as regras, restando-nos apenas esperar pelo final da dita batida. Após uma hora, soaram as trompetes e estava na hora de ver o nosso porquinho negro, um macho, e quem sabe, até podia já ter uns dentinhos!

Indico aos meus companheiros que ia sair do meu posto e pouco depois, a minha boca abriu-se. Era uma porca!!!

“Como pode” exclamei. Redonda, com os membros posteriores descaídos, negra… como errei na decisão!

Enfim são coisas da caça, e por mais que tentemos aprender, por mais que nos certifiquemos para não errarmos é impossível. Fiquei triste e tentei redimir-me perante o director da batida, não como forma de atenuar o meu erro (falo de euros), mas um pedido de desculpa da minha parte porque não cumpri com a minha obrigação.

Depois de uma longa conversa ao jantar comendo umas belas ostras, um belo galo capão e muito vinho espumante pela noite dentro (estava na região do vinho espumante, mas infelizmente pouco bebo), senti que o meu erro foi desculpável, mas a multa não! Ai não!

Antes de se compor o fraco “Trableu de chasse” (muitos tiros mas pouca caça abatida), pesou-se o animal e não errei por muito. Sessenta e oito quilos, a multiplicar por três euros o quilo, deu a modesta quantia de duzentos e quatro euros de multa, por um simples erro de identificação (macho/fêmea).

Tinha que “destrocar a nota”!

É assim! Prontifiquei-me a pagar tal como tinha que fazer, mas por incrível que pareça o senhor Boissy recusou.

Olhou-me nos olhos e disse no seu português meio espanholado “não se preocupe. É meu convidado e como tal, sinto-me no dever de pagar”.

De olho arregalado imediatamente recusei, mas após muitas, mas muitas insistências e do meu amigo Joaquim me dizer “Está calado”, tive que me conter e deixar o nosso amigo pagar por um erro que não era dele. Enfim, atitude que nos ficam no coração, fazendo-nos ter vontade de voltar mas com pouca de disparar.

Após o jantar já todo o quadro de caça se encontrava exposto, e foi então que começaram a tocar as trompetes de caça com todos os caçadores escutando os honores. Primeiro em honra dos corços, seguindo-se a dos veado, passando à honra do javali e por ultimo em honra da caça e dos caçadores. Sinceramente foi das coisas mais bonitas que tive o privilégio de assistir.

É sem duvida um espectáculo de grande beleza.

Com todo este relato, não pretendo incutir as mesmas ideias, os mesmos pensamentos visto que Portugal e França são dois países completamente distintos a todos os níveis. Porém, apenas gostaria de reforçar um pouco mais aquilo que muitos aqui têm feito (e bem) no sentido da mudar um pouco a mentalidade e sobre a necessidade de educação não só de nós caçadores, como de todos aqueles que directamente ou indirectamente intervêm no mundo da caça. Erros acontecem, mas temos que ter a consciência dos nossos actos.

Como dizem os franceses “C´est lá Chasse” e como tal, temos que a respeitar.

Veado abatido por um “Chasseur” e confiscado pela entidade gestora, porque simplesmente o abateu no caminho, não cumprindo com as regras de segurança estipuladas. Observe-se o papel na tábua (por cima), indicando quem o abateu, o ano e porque foi confiscado.


 

 
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Comentário(s) (4)   Comentário(s) (4)    
    Boas fotos e letras giras    
    Ok...    
    cornetas    
    ja chegou...    
   
     
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