| | 623 Utilizadores on-line |    

Login [Entrar]

 
   
 
 
Histórias de Caça

Início

Anterior

Próximo

Fim


Cães Inesquecíveis
 

     

Autor: MIGUEL PEREIRA

03-07-2009 11:00:08

 

   
   
O cão, além da beleza das suas formas, da vivacidade, da força e da agilidade, possui todas as qualidades intrínsecas que podem atrair o olhar de um homem. De uma natureza ardente, a ira feroz e sanguinária faz do cão selvagem um adversário temível para outros animais, e cede no cão de companhia aos mais ternos sentimentos, ao prazer de se afeiçoar e ao desejo de agradar.

Vem depor aos pés do dono a sua coragem, a sua força, os seus talentos; espera pelas suas ordens para as cumprir, consulta-o, interroga-o, basta um simples olhar, para entender os sinais da sua vontade. Sem possuir como o homem a luz do pensamento, tem todo o calor do sentimento. A mais do que ele tem, a fidelidade, a constância dos seus afectos. Sem qualquer ambição ou interesse, nem qualquer desejo de vingança, nem medo algum senão o de desagradar, é, todo ele, zelo, ardor e obediência.

Os cães vêm-nos acompanhando ao longo de tempos imemoriais. Do fundo dos séculos, fazem ouvir a sua voz primitiva, ladrando ou uivando à lua, como se quisessem do céu se aproximar com esse eco profundo, repercutindo no infinito as nossas pulsões, incertezas e sonhos.

O homem corre como eles, assusta-se como eles, apressando-se com eles em direcção aquilo que, lá longe, espreita, treme e se consome para que se celebrem enfim as núpcias selvagens do homem, da terra e do animal, no eterno ritual de sangue consagrado.

Cumplicidade alguma pode comparar-se a esta temível amizade, esse extaordinário misto de dependência e de liberdade, no qual, inúmeras vezes, os papéis do dono e do escravo se trocam. Não há palavras para relatar esse olhar do tamanho do mundo do cão para o homem e do homem para o cão, no qual se exprime o universo abissal da única verdadeira linguagem muda, digna desse nome: a alegria compartilhada.

Encontramo-nos na abençoada terra alentejana, na doçura mágica e murmurante dos pastos e estevas aquecidos pelo sol de Outono; um cão de parar, o mais capaz de distinguir e isolar cada perfume do mato para nele descobrir esse cheiro único, sem igual e inconfundível da peça de caça matreira, acompanha o seu dono adorado. Tal é a procura e a lei desta matilha ancestral : o amor do homem, inacessível estrela tão cobiçada pelo coração fiel e generoso do cão. É juntos que funcionam bem e se completam. Separá-los é quebrar um elo natural e cometer um crime, porque dessa união depende a sua felicidade e mútua realização. Por isso se estimam e ligam numa associação nobre que só se quebra no dia em que um deles perece.

Lá em casa tivemos alguns cães que nos marcaram em diferentes fases da nossa aventura cinegética. Obviamente que tivemos desde eleitos a «desgraças». Não aprendemos menos com os segundos do que com os primeiros. Mas quando de facto aparece aquele cão especial, o fora de série, o líder incontestado, o que tem a capacidade de reagir e antecipar muita coisa que possa ocorrer num dia de caça para alertar, cooperar e interagir permanentemente com o dono, aí então, começam a acontecer aquele tipo de coisas e demonstrações que ficam para a história.

É importante perceber que, no que aos cães diz respeito, aqueles que veêm ao mundo com uma personalidade e temperamento para serem distintos dos outros da sua condição, não o são apenas na caça. No tempo que passam em casa com as outras pessoas, de preferência soltos, as suas demonstrações e comportamentos inteligentes continuam e são uma constante.

Outra característica muito típica dos bons cães é a sua afinidade e natural tendência para procurarem estar com as crianças. A sua grande inteligência dá-lhes toda a sensibilidade para rapidamente perceberem a importância que as crianças representam para os humanos. Eles actuam instintivamente em conformidade com tal e isso faz com que se sintam igualmente bem com a preocupação e protecção que, voluntariamente, lhes dão. Ora, parece-me que estes comportamentos são algo bem mais elaborado do que simplesmente pretender agradar ou obter reconhecimento dos donos.

De algumas dezenas de cães que houve em casa do meu pai ao longo de mais de duas décadas, apresento os três que mais me impressionaram pelas suas personalidades e feitos, e uma matilha invulgar (sempre mais difícil de conseguir por a funcionar a grande nível) pelo espírito de cooperação e entreajuda dos seus cães, que tinham tantas diferenças físicas e de personalidade entre si.


Bugui

Foste o cão de infância destinado a acompanhar os projectos de caçador que estavam para vir, o primeiro de alguns engeitados que acolhemos com toda a compaixão. Mas soubeste retribuir tudo até nos deixares de vez.

Apareces-te certo dia lá por perto de nossa casa. Por seres tão meigo depressa nos afeiçoamos a ti e tu começas-te a montar guarda à porta do prédio o­nde vivíamos. Mal os teus dois protegidos transpunham a porta não nos largavas mais. Na brincadeira interminável desse tempos, vestia-te peças de roupa velhas que acentavam que nem uma luva e que deixavam os vizinhos embevecidos de graça e ternura. Pena não termos uma só fotografia de todas as deliciosas horas que passámos a brincar naquele pedaço de jardim em que havia todo o tempo do mundo para sermos grandes companheiros.

Um dia metemos-te no carro para uma viagem que nunca mais esqueceste. A família estava de mudanças, havia uma nova casa à espera e com muito mato em redor. Vomitas-te por todo o lado e a tua expressão de calvário ao saires finalmente do carro atestava o bocado que tinhas passado.

Sem o imaginares, tinhas acabado de chegar ao paraíso e aí virias a descobrir a tua verdadeira vocação. Antes, só tinhas conhecido cidade, brigas frequentes com outros da tua condição, maus modos de quem não te conhecia, essas coisas muito típicas dos locais que os homens constroem e habitam em massa...!

De repente, cais num espaço natural, ainda relativamente preservado e com uma diversidade de criaturas vivas e fugidias cujo rasto começaste a farejar timidamente. Apenas precisas-te de acompanhar algumas vezes o dono mais velho ao mato para perceberes que algumas daquelas criaturas podiam ser capturadas e que até era um desafio interessante conseguir fazê-lo. Nunca mais ninguém te parou nesse percurso. Foi um ápice passares de ingénuo a mestre. Natural, foi também assumires a liderança incontestada da matilha.

No teu «pelotão» respeitavam-te pelos feitos da venatória mas igualmente porque o teu génio para brigas era para ser levado muito a sério. Perdias completamente o controlo nessas lutas. Era preciso assistir a algumas delas para poder acreditar como conseguias vencer adversários de maior porte. Até num pastor alemão dum vizinho deste, e mais do que uma vez, uma bela coça. O desgraçado, com aquele corpanzil todo, após essas lições, até já se encolhia e baixava submissamente a cabeça e as orelhas quando te aproximavas dele. E tu pouco maior que um podengo de médio porte.

Inesquecível a tua figura após essas lutas de grande intensidade. A língua resvalava, frouxa e pendente, qual lesma rosada por entre os caninos. A barriga pulsava, quase colada às costelas vãs. A respiração sempre ofegante mas controlada. O teu pulmão é que nunca mais acabava. Vencias invariavelmente pela duração das contendas, a tua resistência ia–se progressivamente impondo até à vitória final. Eras um rafeiro, mas não traias a tua origem, nem negavas a sua ancestralidade. Cão de valor sem dúvida, por tradição e raça, lembranças inconscientes de algum sangue Terrier pela fogosidade e bravura como te entregavas às contendas.

Foste deixando alguma descendência em conjunto com a «Catita». Alguns mereceram ficar no registo, mas ao teu nível é que nenhum chegou. O problema não era deles, tu é que eras fora de série, invulgarmente inteligente, e contra os fora de série perde-se quase sempre nas comparações.

Quando o teu nariz já adivinhava a caça ali por perto parecias uma mola a libertar toda a energia contida. Não interessava se tinhas mato alto ou raso à tua frente, levavas tudo à frente. Tinhas no entanto um grande inconveniente para quem te acompanhasse de espingarda na mão : não laticavas. Até parece mentira como é que não desenvolves-te essa parte encantadora em qualquer bom cão de coelhos. Por isso tinhamos de te seguir sempre com o olhar, mesmo conhecendo bem todos os sinais do teu comportamento a anunciar a eminência do acontecimento.

Eras um trabalhador e lutador incansável pela caça. Tal não acontecia só com os coelhos, nas perdizes exibias a mesma postura. Tudo era resultado de um vício que já te estava no sangue até à última gota.

Decerto te lembras daquelas vezes em que o Mestre lá de casa ficava absolutamente fulo da vida contigo. Pois era. Não podias sentir cadela com cio, nem a largas centenas de metros. A caçada acabava logo ali para ti. As prioridades passavam de imediato a ser outras. Nessas alturas eras especialista em sair disfarçadamente da matilha para logo a seguir darmos contigo atrelado nalguma cadela. O dono que fosse caçar... Mas não era só isso que deixava o capitão com vontade de te esgalhar um ramo pelo lombo abaixo. Cadela saída que estivesse nalgum carro, atrelado, ou em alguma casa que passassemos durante a caçada, era fatal que conseguisses arranjar maneira de abrir as portas ou rebentar alguma coisa para de seguida consumares o acto com a tua nova amiga. E essas maluqueiras o capitão não tas perdoava, já bastava não poder contar contigo na matilha durante a caçada, quanto mais provocares danos e transtornos.

Eras um rebelde incorrígivel. A nós, restava-nos ter a capacidade de te entender e perdoar estas fraquezas da carne, quantas vezes embaraçosas perante desconhecidos. Mas acho que sabias que todas essas travessuras em que eras pródigo não faziam com que deixássemos de te admirar e gostar muito de ti. Durante anos a fio foste a vedeta lá de casa.

Não tiveram conta os coelhos que achas-te e perseguiste naqueles matos que conhecias como ninguém. Pena não teres conseguido ir ao Alentejo tantas vezes como outros que vieram depois de ti.

Deste-nos a primeira grande tristeza das nossas vidas quando se cumpriu o inevitável, foi o meu irmão quem acompanhou o teu último suspiro de vida. Ficou-nos no entanto a consolação de te ter permitido uma velhice calma, farta de comida e confortos, nada te faltou. Tu e as tuas façanhas é nos fizeram muita falta nos anos que se seguiram.


Lord

Meu rico Lord, éramos duas crianças a começar na caça. Tu com a tarefa espinhosa de tentares suceder à tua mãe, e eu como o tipo inesperado que aparecia fora do tempo e do lugar.

Só tu e eu sabemos o que vivemos juntos e com que intensidade. Não conseguiste o nível da tua mãe. As tuas características não davam para tal. Tiveste muito menos caça para aprender e eu espetei uma data de anos contigo naqueles intermináveis eucaliptais de Monte Claro, lá para os lados de Nisa. E se aquilo era castigo bastante para homens e cães que se dignassem, mas ali encontramos um cantinho com meia dúzia de bandos de perdizes que durante alguns anos constituiu a nossa ”quinta”, como dizia um dos confrades nossos amigos. Só hoje, à distância dos anos me apercebo, verdadeiramente, do nível que conseguimos atingir ... e que eu nunca mais consegui voltar a igualar! Hoje já não sou indivíduo para conseguir repetir algo do género, pese embora a maior experiência e conhecimento entretanto acumulados. Há coisas que só conseguimos fazer em determinadas fases da nossa vida, e nesta tu estiveste lá comigo. Fomos, assim, dois felizardos a quem concederam fazer e guardar consigo algo de especial.

As senhoras de pé vermelho davam-nos uma luta tremenda, mas foram sempre disputas justas e leais. Valia-nos sermos uma boa equipa, especialmente a partir do nosso terceiro ano, quando também percebes-te que não ganhavas nada em te afastares mais do dono do que devias. Caçavas muito mais de rastos do que de ventos o que não sendo «tão académico» na tua raça, te permitia uma boa fiabilidade no dia a dia, como só alguns pointers cruzados conseguem.

Fizeste-te um belo cão de cobro, muito perspicaz a ver o­nde a caça caia e conseguias estar sempre no sítio e no momento certo quando chegava hora de abocanhar. Dei muitos segundos tiros a levantes porque sabia que me podia dar ao luxo de não ter de me preocupar aonde é que elas caiam ao primeiro, redondas ou não, porque tu tratavas sempre do assunto. Poucas ficavam por lá. Quantas vezes vieste entregar-me perdizes a mais de 100/150 metros do local inicial de tiro porque sabias que não podia parar a ver delas. Ainda tudo se passava no terreno livre e havia sempre algum desavergonhado a tentar chegar-lhes antes de nós. A forma como ainda conseguiamos voltar a pisar no acelarador, tantas vezes quantas fosse ainda preciso, era fenomenal.

Valeram a pena todas as bolas de trapo que tive de atirar para te ensinar a trazer à mão. Tiveste sempre a suavidade e cuidado adequado no abocanhar da caça, mesmo quando estavas no limite da tua resistência física. Esse limite, como tão bem sabias, que nunca era para nós claro nem bem definido. Nunca me estragaste uma peça de caça. Nem daquelas que pontualmente ficaram desfeitas com os tiros.

Corajosas caminhadas fizemos e grandes segredos guardamos entre nós. Não tinhamos dois dias iguais. Mandavam as tais senhoras e nós iamos sempre atrás delas. Que magnetismo aquele. Só o teu porte e constituição para aguentar aquelas heróicas tiradas. Quando à hora do almoço já coxeavas ligeiramente por teres as patas tão moídas, de tanto correres e resvalares por aquelas encostas pronunciadas de xisto, regos desnivelados e eucaliptos, tal constituia o indicador seguro do que já tinha sido o nosso dia. Na opinião sempre bem humorada do António Honório Ferreira, ficavas «com os sapatos apertados».

Não foste um cão de paragens magníficas, mas tiveste também as tuas para brilhar. Com a práctica também aprendeste a melhor seguir a caça e algumas gracinhas dignas de registo fizeste ao saber convenientemente ludibriar daquelas malinas que sprintavam por ali fora sem ferimentos mortais.

E os outros desavergonhados dos teus dois donos que andavam sempre a cortar-te na casaca...! Mas quando espetavam com alguma daquelas senhoras no chão, gritavam logo por ti quando precisavam de ajuda, muito antes de me chamarem a mim. E nas lebres não era muito diferente, eles sabiam bem o que valias a cobrar. Hoje, se te apanhassem novamente ao lado a bater terreno e a pegar em rastos, como tanto gostavas, já se sentiriam por certo mais confiantes e reconfortados.

Foste um grande companheiro e foi bonito acompanhar, durante 12 anos, não só, a tua evolução, mas também o teu inevitável declínio. O nosso primeiro companheiro de verdade nestas andanças é insubstituível. Nunca te pude dizer, mas não imaginas o que me custou deixar-te as primeiras vezes em casa quando já não tinhas condições para vir conosco. A tua expressão de incompreensão e angústia deixava-me também tão sentido como impotente, porque, em boa verdade já não te podia ajudar, e tu, no teu íntimo talvez até o soubesses.

Magra compensação, quando chegavam aqueles dias que tão bem sabias pressentir, e ainda te vir apresentar alguma peça de caça para poderes voltar a tragar e sorver o cheiro daquelas penas e pêlos, quando já mal te conseguias levantar da tua palha e do teu caixote. Era o que de melhor sabia e podia fazer por ti. E quando a tua respiração começou a alterar-se e a fazer-se com mais dificuldade, tive imediatamente a noção de que estavas a percorrer aquele último trilho do teu caminho, no qual a minha companhia já não seria tolerada. Dessa injustiça inconveniente guardo memória triste, assim como da lágrima traiçoeira que não consegui evitar, quando fechas-te os olhos pela última vez.

Despedimo-nos numa tarde de verão, foste poupado à agrura de mais um inverno. Ainda bem. Antes assim. Sei que vais esperar por mim com toda a tua dedicação e docilidade. O teu dono guarda de ti eterna e justificada gratidão. A grande caçada das nossas almas, a mútua homenagem suprema, ainda está por se realizar. Um dia voltaremos a sair e a caçar juntos.


Perdido

Quanto mais tempo estivemos juntos na caça mais semelhanças encontrei entre nós. Eras a minha alma gêmea na forma de cão. Curiosa esta coisa da personalidade similar dos homens e dos cães. Estou a ver-te quando um dia apareceste lá por casa, vindo sabe-se lá de o­nde. Por isso o nome «Perdido» e se acaso deves, em tempos, ter tido outro nome, o certo é que depressa assimilaste o que te demos. Parecia mesmo que nunca tinhas conhecido outro.

Não terias mais de um ano ou ano e meio. Eras lá figura que se apresentasse. Cão de caça muito menos, isso então nem pensar. O teu aspecto, mesmo considerando seres um rafeiro, era tal que, mais do que uma vez, o capitão imediatamente te corria à pedrada do jardim, assim te visse. Se ele nessa altura imaginasse o que dali ainda ia sair, não iria olhar ao peso da penitência. O que tinhas de feio por fora contrastava em beleza e qualidades por dentro.

Mas tu também voltaste sempre, a persistência era um dos teus sinais distintivos. O teu instinto não te enganava sobre a casa e as pessoas. No primeiro dia em que não foste espantado, soubeste logo que tinhas finalmente ganho um lar e amigos de verdade. E olha que os bons amigos são sempre aqueles que mais custam a conquistar.

Na altura, sei lá porquê, fui dos teus novos donos aquele que menos reservas te tinha. Já aí começava a nossa especial e deliciosa cumplicidade. Mas não podias exigir muito. O teu corpo sob comprido, as patas curtas (e as dianteiras todas tortas), um focinho completamente desproporcionado, comparativamente ao tamanho da cabeça, deixavam qualquer um apreensivo. A tua pelagem que misturava um tom de castanho escuro com a cor mel era igualmente intrigante.

A outra rapaziada lá dos canis também precisou do seu tempo para te aceitar. Então aparece por ali um vagabundo daqueles, com um aspecto que não engana ninguém, e vai de lhe fazer logo grandes festas? Nem pensar. E o tipo ainda por cima passava o tempo todo à solta...!

Os teus primeiros tempos foram de cão de guarda, ainda faltavam uns meses para a abertura da caça. Já mais integrado com os outros cães, acabamos por te levar a uma caçada aos coelhos perto de casa. Não estavamos à espera de grande coisa, mas daí a chegar ao ponto de não nos largares os pés e até te deitares, inclusive, enquando os outros laticavam atrás dos coelhos, maior ultraje não nos poderias, ali, ter feito. Até um pontapé levas-te para se conseguir atirar a um coelho, tal era o estorvo.

Naquele dia de Julho em que me sentei a recuperar o fôlego de uma volta de bicicleta, em que tu, como sempre me acompanhavas em trote rápido, iria ser a primeira de muitas revelações tuas. Alguma vez me passou pela cabeça que ao saires de ao pé de mim para a barreira de estevas ao lado irias achar o teu primeiro coelho, e saias dali a laticar que nem um doido. Lá em casa até pensaram que lhes estava a meter o barrete do ano, e ainda nem a época de caça tinha começado.

Nas tuas primeiras saídas ao Alentejo, descobres as perdizes, as codornizes e aquelas que viriam a ser a tua expressão maior de arte na caça, as lebres. Isso é que tu sabias achar e seguir lebres. Era difícil a outro cão achá-las primeiro do que tu mal o teu «radar» começava a funcionar. Que fabuloso nariz tinhas! Manhãs de geada, cacimbo, ou calor de fazer estalar vagens, com vento ou sem ele, tinhas sempre forma de conseguir achá-las. Até parecia fácil...

Alturas houve em que perdias literalmente a cabeça com a tua típica teimosia de nunca largar o rasto da lebre ou de um coelho enquanto sentisses a mais leve emanação proveniente do terreno ou da vegetação. Chateava-me ter de ficar á tua espera, era o pior que podias fazer a um caçador como eu.

Com a tua grande inteligência também aprendes-te, sozinho, a cobrar e trazer caça à mão. Lá em casa ninguém te ensinou, já eras um adulto quando apareceste...

O teu pequeno corpo tinha também uma resistência invulgar. Eras rijo como poucos do teu porte, a tua energia quase inesgotável. A piada que eu te achava quando, de permeio nalgumas das faenas que tanto nos entusiasmavam atrás de alguma peça em campo aberto, ainda conseguia olhar para o pormenor do movimento electrizante das tuas pequenas pernas. Como é que umas pernas tão pequenas, podiam correr tanto?

E não menos deliciosa, a forma como quase partias o rabo de tanto dar, quando as emanações já te prometiam, com toda a pujança, o prémio almejado. Nas zonas mais densas e sujas de vegetação só te faltava nessas alturas arrancar o mato, com as grandes «porradas» que aplicavas a preceito. Seguia-se aquela gritaria do costume, na qual eras convenientemente acompanhado pela restante malta do canil.

Tiveste o condão de com as tuas grandes qualidades, me fazeres de novo despertar para a caça aos coelhos. Logo eu que sempre fui um inveterado caçador de perdizes. Olha que valeu bem a pena abdicar de algumas caçadas às minhas meninas para melhor te poder desfrutar naquela caça. Apesar de teres óptimos desempenhos nas restantes espécies, ali era realmente o teu palco de eleição, pelas tuas características físicas, pelo teu temperamento.

Proporcionaste-nos momentos que não voltamos a viver. Até o ilustre capitão na sua práctica sossegada, quando se referia aos bons cães que lhe passaram pela vista, teve de te destinar um pedestal à parte. Foste o cão de caça mais completo que já pude avaliar. E como surgiste na altura da “Matilha dos Castanhos”, o­nde tinhas grande concorrência na arte de bem caçar aos coelhos, as tuas maravilhosas qualidades foram cabalmente afirmadas.

Recordo também outra maravilhosa característica da tua personalidade. Eras de uma tocante afeição para com as crianças lá de casa. Tinhas grande prazer em conviver e até brincar com elas, transbordavas nessas alturas de carinho e entusiasmo. Tomavas, à tua maneira, conta delas. Sabias bem o quanto eram preciosas para nós...!

Infelizmente, não eras criatura para poder estar preso. As duas ocasiões em que ainda te metemos no canil mostraram que se não te voltássemos a abrir a porta, morrias lá de tristeza. Até nisso eras especial. A vida para ti tinha de ser vivida com inteira liberdade. Aquela liberdade que todos os seres eleitos com alma de caçadores nunca conseguem privar-se. De vez em quando até tinhas de ir também dar umas voltas nas redondezas à cata dos favores e caprichos de alguma gaiata da tua preferência.

E os nossos vizinhos que tanto te elogiavam pela maneira inteligente como andavas pela berma da estrada, ficaram também chocados quando um dia, pela manhã, deram contigo atropelado na valeta. O desfecho totalmente inesperado da tua existência. Perdido, quem me dera poder ter-te acompanhado mais alguns anos. Tantas jornadas e lances ficaram ainda por cumprir. Uma injustiça o que o destino nos tinha guardado. Nem com a tua linhagem conseguimos ficar. Mas a tua liberdade jamais seria moeda de troca neste mundo. Sozinho apareceste, sozinho te foste embora, doces memórias e grandes jornadas nos deixas-te. Até um dia grande amigo.


Matilha dos Castanhos

Titó, Jóia, Fiel, Patusca, Faísca, Rabina e... Perdido. Sete cães e nomes para recordar. Dois excepcionais, uma muito boa, dois bons, duas assim-assim, todos de pelagem castanha, em diversos tons. Esperamos quase 15 anos para ter companhia deste nível. A matilha ideal de coelhos. Até o Perdido aparece na altura certa para se lhes juntar,... a cereja em cima do bolo. Nem grande nem pequena, suficiente e completa para o nosso grupo, uma máquina bem oleada e muito eficiente para achar e perseguir coelhos. Os dias monótonos de caça já não existiam. Aquilo é que era um gozo...

Sempre em alta rotação, sempre em grande nível, sempre... bons. Que cães danados para caçar. Uns melhor a achar, outros a seguir no rasto, todos a fazerem a diferença. Entreajuda do melhor, quantas vezes a dinâmica deles era tanta que nós os três nos víamos e desejavamos para conseguir cercar convenientemente alguma mancha maior de mato, sem deixar “buracos” por o­nde os coelhos pudessem passar-se. E o complicado que era aquela malta dar-nos tempo para o fazer apropriadamente? A rapidez com que achavam os coelhos e estalava logo grande reboliço deixavam-nos com as pulsações sempre em alta. Obrigavam-nos realmente a correr de forma obstinada e a manter todos os sentidos alerta sem baixar a guarda, e, se não assim fosse, com grande probabilidade poderiamos perder as oportunidades de tiro.

Quando aquele conjunto conseguia ter em rodagem permanente 2 ou 3 coelhos em simultâneo, a faena era do melhor. Os poucos coelhos que lhes conseguiam realmente fugir, ou nós acertar-lhes, bem mereciam ficar a transmitir os seus genes às gerações vindouras. O autêntico crivo que aqueles gandulos todos formavam era terrível. Alturas houve, que até dentro de água nas ribeiras, ou nas pequenas ilhotas de terra, faziam sair coelhos.

Alguns dos confrades conhecidos que encontravamos regularmente no terreno deliciavam-se a ouvir aquela sinfonia de latidos. Muitas vezes paravam à distância a observar os cães naquele carrocel endiabriado para cima e para baixo, até que, inevitavelmente, ouviam um tiro que punha termo a mais um lance.

Sempre soubemos avaliar devidamente aquele «património». Sabiamos bem que aquilo iria durar 3/4 anos em pleno e que tinhamos de o saber aproveitar até ao limite. Quem daquele sabor tragava, outra coisa já não queria.

Foram estes cães os responsáveis por atingirmos o nosso melhor patamar de sempre na caça aos coelhos. Caçadas verdadeiramente animadas. Mais méritos lhes temos de dar porque caçavamos ao pé de casa e numa zona que não tinha densidades de coelhos por aí além. Nalgumas zonas do Alentejo ou das Beiras, em verdadeiros «santuários de coelhos» nem quero pensar. Rebentavam todos atrás deles, tal já era o seu vício.

Era difícil matarmos menos de cinco coelhos por jornada. Quantas vezes a caçar atrás de outros grupos, cujos cães passavam os matos sem nada de realce, eles chegavam lá e começava logo a gritaria. Que saudades de chegar a qualquer zona de mato, encostar-nos simplesmente a uma árvore ou algum arbusto e deixar o resto acontecer, naturalmente, por conta deles. Quase nem era preciso falar ou incentivá-los.

Um coelho mais velho e batido, furava e conseguia afastar-se para fora do cerco. Não importava. Se o Perdido, o Tító ou a Jóia lhe pegavam no rasto era uma questão de tempo até, de tão perseguido, e à falta de algum buraco para desaparecer, regressar à zona do arranque inicial e... nós já à espera dele!

Ironicamente, com poucos meses de diferença, os testas de ferro, Perdido e Titó (uma estampa de podengo nacional puro de pêlo liso) desaparecem. O Perdido atropelado, o Titó com uma horrível doença que lhe paralisou progressivamente os membros anteriores até morrer. A Jóia, metida nestas cavalarias já com 8/9 anos, morre também no ano seguinte. A Patusca, num dia em que consegue soltar-se, vai logo caçar para um mato próximo e nunca mais apareceu. Do mais estranho que nos aconteceu, não foi certamente por não saber o caminho para casa...

Assim se foi apagando a “Matilha dos Castanhos”. De tempos a tempos fomos vendo bons cães de caça aos coelhos noutros grupos e zonas de caça o­nde eramos sócios, mas uma matilha homogénea como eles e daquele nível é que nunca mais vimos. O resultado, como não poderia deixar de ser, foi a dada altura perdermos algum do interesse pelas caçadas de coelhos e regressarmos em força para as perdizes e lebres.

Aqueles cães, no seu conjunto, marcaram-nos indelevelmente. Cada um com as suas características bem distintas, mas que tão bem «casavam» uns com os outros. O seu espírito de grupo era tal que mesmo nos encontros com outras matilhas, não passavam «cartão» a ninguém e assim seguiam imperturbáveis na sua vida, na sua forma e no seu ritmo de caça. Nada de confusões com outra malta.

E é curioso como aquele grupo surge de repente, sem nenhum ensino especial, sem nenhum grande potencial que fosse, ao tempo, detectado. Subitamente, todos se alinham, os mais novos com os mais velhos, os «rodas baixas» com os de maior porte, os rufias com os mais pacatos, e tudo começou a funcionar como um relógio suiço. A nossa intervenção dava-se de uma forma muito limitada e comedida. Na maior parte das vezes era mesmo só metê-los e tirá-los do atrelado. E tirá-los só podia ser um de nós depois dos outros já estarem colocados e de armas carregadas. Pode parecer exagero ou fantasia, mas era a mais pura realidade.

Hoje quando falamos neles e recordamos tantos e tantos lances, caímos numa inevitável romaria de saudade. A saudade típica dos caçadores relativamente aos seus grandes e bons companheiros, um aceno que nos faz bem à alma recordar. Por enquanto as doces recordações não pagam imposto e podem ser lembradas tantas vezes quantas quisermos. O raio do sentimentalismo é que dá mesmo cabo de nós...
 

 
Imprimir   Imprimir
     
     
     
     
 
 
 
Votos (30)    
 
     

Comentário(s) (2)   Comentário(s) (2)    
    Eles nuncam nos rejeitam    
    Fieis amigos    
   
     
  Voltar

 
 

| Ficha Técnica | Aviso Legal | Política de Privacidade |

 

(TES:1s) © 2004 - 2017 online desde 15-5-2004, powered by zagari