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Histórias de Caça

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As perdizes de ao pé de casa
 

     

Autor: Paulo Farinha Pereira

09-07-2009 23:23:46

 

   
Quinta-feira.
Corria o mês de Outubro, quente e seco este início de Outono.
Da janela da sala de aulas podia ver as encostas na outra margem do Tejo. As mesmas que, quando miúdo, calcorreei vezes sem conta, pressão de ar debaixo do braço, em busca das amoreiras, figueiras e outras árvores que, com seus doces frutos, se tornavam irresistíveis para papa-amoras, melros e outra passarada a que dei guerra sem quartel. Para lá destas colinas ficava a minha aldeia.


O antigo colégio “La Salle”, à data já transformado em Liceu Nacional de Abrantes, era naquele momento o meu cárcere e observatório. A aula, dada naquele monocórdico tom próprio da primeira aula pós-almoço, permitia a minha divagação e projectos, escudado na simples simulação de meditar na matéria que nos era servida, de forma pouco empolgada, diga-se, por aquela alma que tinha assumido a função de professor porque aguardava a entrada na faculdade, ele também, provavelmente, divagando noutras matérias que não aquela que, lacónica e mecanicamente, distribuía.

A aula ir-se-ia arrastar até às 15.00 horas o que em Outubro me deixaria muito pouco tempo para tentar o praticamente impossível, que seria regressar a casa e conseguir, ainda, caçar nessa tarde.

Só a idade e o vício arquitectariam plano tão insano e esforçado.

A cinco minutos do final da aula já tudo estava arrumado e pronto, os minutos arrastavam-se penosamente e a ansiedade subia proporcional à lentidão dos ponteiros do relógio que, sobranceiro ao quadro de lousa verde da sala de aulas, pautava o correr do tempo.

Finalmente “o toque de saída”, a sirene assinalava o final da aula. O pós-revolução e a “qualidade” da docência permitiam a debandada sem regra nem decência. A libertinagem substituía a liberdade, com alguns prós para a miudagem, como no caso.

A pé, a carreira pelas veredas das encostas de olival até ao rio e pela margem deste até à ponte para o Rossio, eram a parte fácil. Cruzada a ponte e sempre atalhando, alcançava o túnel da estrada do Tramagal. Daqui, pela estrada de alcatrão até à pedreira e daí, subir a atalhar até ao Campo de Tiro, “campo da bola” e finalmente, S. Miguel do Rio Torto, minha aldeia natal (de facto nasci em Abrantes, mas foi S. Miguel que me criou).

A “viagem” roubara-me uma hora, apesar de efectuada em passo de corrida, eram agora 16.15 e a celeridade impunha-se.

Chegado a casa a minha mãe interroga-se, “como é que já aqui estás, com quem vieste?”, “apanhei boleia com o Quim” menti, sabendo que não lhe agradava a ideia de que tivesse vindo a “corta-mato” ainda por cima em traje de estudante. Estou certo de que sabia a verdade mas, assim, vincava a sua posição e ambos ficávamos satisfeitos.

Trocadas calças e botas, retirada a “20” do armeiro e posta a cartucheira que fora de meu avô, restava agora recolher o meu Setter irlandês do quintal e rumar ao terreno.

A travessia da aldeia foi feita em corrida, espingarda aberta sobre o antebraço esquerdo, sem fundas nem cadeados. O cão, alegre à minha frente, festejava a liberdade rodopiando de contentamento enquanto desafiava um que outro parceiros de espécie.

A descida até ao “Fundo da Horta” foi feita num ápice. Estava agora em terreno de caça, tinha uma hora e pouco de luz e era necessário aproveitar.

Subi pela ladeira de seixo rolado e descaindo sobre a esquerda, comecei a bordejar os matos do “Vale do Ligeiro” preocupando-me em manter as cumeadas à vista pois, dado o tardio da hora, as perdizes estariam já a caminho destas procurando os últimos insectos e algum que outro grão enquanto se dirigiam para os locais de dormida.

Estes eram conhecimentos já solidamente absorvidos, ganhara-os nas inúmeras vezes que, desde os meus sete anos, seguia nos calcanhares do meu irmão mais velho e meu mestre nestes misteres, enquanto ia de mochileiro e aspirante a caçador.

Sabia por isso que, quando sentissem a minha presença ou a do cão, retornariam e se encostariam na orla dos matos, tentando passar despercebidas.

Não tardou que o Bright, me confirmasse o acertado da estratégia. O acelerar do ritmo da cauda e o deslizar felino diziam-me que as “vermelhudas” por ali tinham passado havia pouco tempo. Deslocavam-se ao longo dos matos, pelo exterior para serem mais rápidas, tentando aumentar a distância aos seus perseguidores.

Um pouco mais à frente e aproveitando a travessia pela vereda de um silvado, tentei ganhar-lhes o terreno e surpreende-las. Calculei que teriam ido até ao final do valado pois sabiam que, seguindo sobre a esquerda, ganhariam de novo o coberto. Ao cortar pela vereda cortar-lhes-ia o passo, surgindo-lhes pela frente onde não me suporiam.

Tendo, temporariamente, ficado fora do rasto, o Bright cruzava agora mais largo, de cabeça alta, trabalhando “a ventos”, eu sigo-o rápido não perdendo o mais pequeno detalhe, adivinhando o lance iminente.

Quando nos aproximamos da curva de mais um valado que, perpendicular ao vale principal, penetra nas zonas mais planas, já com o alaranjado no horizonte relembrando que era preciso ser rápido, vejo-o subir na emanação ficando “parado” entre os tojos, carquejas e rosmaninhos, daquela dobra de terreno.

Ao sentir-me aproximar desliza um pouco e assume aquela posição de “sentado” que a genética lhe recomendava e que me garantia que as tinha na sua frente.

Com a chã abrindo-se até ao horizonte, sabia que o bando tentaria alcançar os vales que estavam agora nas minhas costas. Naquelas zonas o cerrado do montado, nos vales, obrigava a atirar rápido, chofrando. Assim, esta seria uma oportunidade de excepção, pois bloqueadas em plena limpa teriam que se mostrar.

Tento adivinhar a saída. Coloco-me à direita do cão e vou subindo, a arma firme, ainda que suavemente, segura. Coronha no sovaco para garantir o encare, olhos postos no terreno à minha frente, avanço prudente enquanto, de soslaio, controlo os movimentos e expressão do cão que me garantem estar a tomar a opção correcta.

Com um rufar de asas e o cacarejar do medo, o bando levanta partindo-se. Três de elas cruzam pela minha direita e os 24 gramas do “20” fazem da primeira uma bolinha.

Ao tiro, o resto do bando, umas cinco ou seis, levanta quase na vertical para me sobrevoar, vejo-lhes as cores das penas e o medo estampado nos olhos e no cacarejar aflito.

Num golpe de rins, na vertical, consigo retirar mais uma ao bando, ficando a ver a “nuvem de penas” que chovem sobre mim.

Olho à direita e vejo que me traz a primeira. A um metro de mim olhando-me cúmplice, larga-a para se lançar sobre o mato nas minhas costas.

Apanho a perdiz do chão e alinho-lhe as penas delicadamente, é uma fêmea, colorida, preciosa. Coloco-a no cinto-perdizeira por sobre a cartucheira para que, mais altas, não bamboleiem tanto.

Viro-me para onde o Bright desapareceu, assobio-lhe e incentivo-o “cobra cão, boniiiito” alguns segundos depois vejo que regressa. Porque o alfange da sua cauda sobressai sobre o mato rasteiro, sinal de orgulho e contentamento que reconheço, sei que me traz a perdiz.
Assim é, desta feita demora um pouco a entregar-ma, contente com a posse da sua presa. Deixo-o recrear-se um pouco e então peço-lha, “dá cá boniiito, larrrga”. Este é um perdigão, grande, forte, de esporões crescidos e pintas na cauda, talvez um chefe de bando.

Olho a poente, o Sol já toca a Terra.

Afago a cabeça do meu companheiro que intui o fim da jornada e não se afasta de mim.
Jogámos e ganhámos, quantas vezes não me enganaram elas, ganhando-me, é esse o sal, os condimentos.

Desço ao vale por um trilho de tractor e iniciamos o regresso a casa, anoitece.

Depois de passar pela fonte para nos refrescarmos, entro na aldeia pelo lado do “bairro novo”, o cão segue agora a meu lado, tranquilo, satisfeito. Também eu vou feliz, cheio, preenchido, o resultado era parco mas o lance valera o esforço, esforço aliás já esquecido e ressarcido.

Cruzo-me com algumas pessoas, todas me conhecem, eu conheço todas. Alguns, que me haviam visto cruzar a aldeia, comentam “ainda te safaste, já tens para jantar, sortudo”, “pois foi e foi só uma voltinha”, devolvo feliz e com o orgulho próprio dos caçadores, mais ainda depois de um lance bem resolvido.

Entro em casa pelo portão do quintal, mostro as perdizes ao Toy, o perdigueiro de meu irmão que, amuado (o perdigueiro, claro) por o não ter levado comigo, demonstra-o com umas quantas rosnadelas ao meu Setter, seu subalterno hierárquico. Deixo-os a resolver esta matéria, que não passará das ameaças e vou colocar as perdizes por baixo da mesa da cozinha, no frescor do chão, onde sempre deixamos a caça quando regressamos.

Sirvo a comida aos cães, reponho-lhes a água e volto a casa.

Uma limpadela rápida na arma, ela que também foi de meu avô e vou guardá-la no armeiro de grandes portas de vidro que nos permitem partilhar com elas os momentos de descanso e família.

Depois de um banho e ao jantar, conto ao meu Pai e irmãos o episódio e com ele relembram-se outros, como sempre acontece onde estão mais que um caçador. Amanhã, ao almoço, será a vez de contar ao meu avô a breve jornada, ele já tinha ligado para casa quando cheguei, pois sabia que eu iria caçar.

Mais tarde na noite, no café e porque os amigos caçadores já sabem que saí a caçar, de novo o relato, os detalhes “quantas ficaram?” ” Esse é o bando das figueiras?! eu vi-as ontem à tarde quando vinha com o gado, eram nove” diz um deles e assim, de forma simples e despretensiosa, ia-mos caçando as perdizes ali mesmo ao pé de casa….
 

 
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