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O Atômico, o Ecológico e os Antis
 

     

Autor: Sérgio Corrêa de Siqueira

Autor Fotos: Diversos

04-08-2009 11:00:00

 

O Atômico - Edsel 1958, uma notória banheira. Fonte: www.edsel.com/pages/e58cit2h.gif
   
O Eco: Carvão ecológico, marca brasileira. Será que sua queima produz O2? Fonte: http://www.scambo.c
   
Spray vegano para cães e gatos, site português http://pt.efeitoverde.com/index.php?img_src=images/pr
   
Campanha da PETA - vale tudo, sexo também. Fonte: nudism.blogs.sapo.pt
   
Countryside rally: pode ser a nossa festa. Fonte: alisonbattisby.files.wordpress.com/2008/12/ch
   
Já é hora dos portugueses marcharem pelo direito de caçar e possuírem armas; as alternativas não são muito boas.

Creio que muitos dos confrades são quarentões como eu ou cinqüentões; a maioria, portanto, deve lembrar-se dos carros rabos-de-peixe e de uns aspiradores de pó cilíndricos e de aço cromado, semelhando naves espaciais ou mísseis.

Para que, afinal, servia o rabo-de-peixe? Sem dúvida era um detalhe estético bonito (pelo menos de um ponto de vista saudosista) e parecia aerodinâmico. Lógico que não era, ligado como estava a uma enorme banheira quadrada como eram os carros americanos de então; mas que parecia “veloz” e mesmo “espacial”, parecia. E foi exatamente por isso que o rabo-de-peixe foi parar lá, numa estratégia combinada de desenho e marketing para associar um carro beberrão e lento a um caça supersônico ou a um míssil intercontinental.

E foi na mesma linha mercadológica que naquela época surgiu um monte de produtos tentando pegar carona nas virtudes da nascente energia nuclear, que parecia ser a solução do futuro, e também na era espacial que engatinhava. Tudo era “atômico” ou “espacial”: o desenho dos eletrodomésticos (nossa antiga geladeira parecia capaz de voar até Marte, mas eu nunca descobri o botão secreto), os produtos de limpeza, até a escova de dentes elétrica. Isso sem contar estabelecimentos e produtos batizados com o nomes de ícones daquela novel tecnologia: de quantas lojas ou produtos chamados “Sputnik” ou “Apolo” os leitores conseguem se recordar? Espero que algum deles ainda esteja por aí, firme e forte depois de quarenta anos e agora com a dignidade de “De Pai para Filho desde...”, mas a maioria foi parar no lixo da História.

O charme do “Atômico” desapareceu quando se percebeu que a energia nuclear não era só poderosa, mas também perigosíssima; já o “Espacial” foi se desgastando aos poucos, depois que a o fim da Guerra Fria deixou de colocar combustível no sonho humano de ampliar as fronteiras do Universo. E por anos os marqueteiros preguiçosos ficaram sem um rótulo fácil mas que garantisse a simpatia do consumidor para com o produto (por algum tempo o mote foi “Sexual”, mas fica difícil vender, por exemplo, Batatinhas Sexuais – a não ser em formato de falo, o que certamente não agradaria a todos os consumidores). A salvação surgiu quando a preocupação do homem com o destino do planeta mostrou que os recursos naturais não eram eternos nem substituíveis, e que um crescimento da humanidade em proporção geométrica iria esgotar tais recursos em velocidade cada vez maior. Acabou a Era Atômica e começou a Era Ecológica.

Estabelecendo uma data mais ou menos arbitrária para o início da Era Ecológica, diria que ela começou aí por meados dos anos 90 do século passado; até então (e desde os anos 70) o destino do planeta e a preservação das espécies era uma preocupação, mas sem contornos apocalípticos nem histeria coletiva. Também pudera, porque naquela época havia uma preocupação coletiva bem mais concreta e real: meia dúzia de políticos de nacionalidades e ideologias diversas com o dedo no gatilho de um arsenal nuclear capaz de pulverizar o mundo diversas vezes. A Queda do Muro e o fim da URSS deram cabo deste medo, mas a natureza repele o vácuo e a natureza humana faz com que quando uma preocupação desapareça ela seja substituída por outra, ao invés de deixar no lugar uma mente tranqüila e despreocupada. E o medo do apocalipse do Armageddon Atômico foi substituído pelo Aquecimento Global, e o Pacifismo deu lugar ao Ambientalismo.

Vamos primeiro definir ecologia e ecologista – de verdade, sem aspas – em oposição a “ecologia” e “ecologista”. Ecologia é o estudo das relações entre os organismos e o meio ambiente, pelo menos na definição da obra panfletária usada pelo caçador que vos escreve – no caso, a Encyclopaedya Britannica. Ecologista, por conseqüência, é quem se dedica à ecologia – como o maior de todos eles, o caçador Charles Darwin. O termo foi tão abusado que hoje se prefere usar “conservadorista”. Já a “ecologia” é aquele conjunto de simpatias aleatórias, coincidentes com a de certa parcela da imprensa, e vagamente relacionadas a um animal ou planta, ou um conjunto deles, vistos isoladamente. O “ecologista”, por sua vez, é o detentor dessas simpatias, e as expressa ou na frente das câmeras ou nas páginas dos jornais, quando tem seus quinze minutos de fama. Ultimamente, tem sido também chamado “ambientalista”, termo tão vago que pode ter qualquer significado ou não ter significado algum. Por exemplo, leiam depois meu opúsculo “Pela preservação do dry Martini e da música de Cole Porter na voz de Ella Fitzgerald no contexto ambiental do bar de jazz” – quando eu o escrever. Ambientalismo, por sua vez, é o credo do ambientalista – algo fluido e esotérico, e tão passível de definição quanto a Santíssima Trindade.

Longe de ser um conclave de Homens Bons e Sábios, o Ambientalismo virou tábua de salvação de muita gente esquisita: políticos de esquerda que não conseguiam mais vender o peixe fedorento da Revolução Operária Mundial jogaram fora os cachecóis vermelhos e se tornaram Verdes de carteirinha; malucos que mal atraíam uma audiência de dez pessoas falando do alto de uma caixa de sabão vazia se viram de repente cegos pelas luzes dos flashes e dos refletores. E, dentro de algum tempo, ricos – riquíssimos. Não se iludam: só em 2007 o Greenpeace teve uma renda declarada de 212.316.000 Euros (1), muitos deles provenientes de empresas que se “converteram” na esperança de acalmar a fera – um cínico poderia dizer que este método de coletar dinheiro é semelhante ao de certas antigas e “honoráveis” organizações do sul da Itália ou da Córsega.

Às vezes é tanto dinheiro que ele cai do céu a bem dizer por milagre: tenho um primo que abandonou o cargo de Editor na revista brasileira de maior circulação – a Veja, mais de um milhão de exemplares semanais – para escrever para um sítio de uma o¬nG ambientalista. O novo emprego pagava até mais do que o antigo, apesar da página na Internet ter no máximo dois mil acessos mensais. Boa parte do dinheiro vinha de fora, via Fundação Rockfeller – a mesma que já financiou indiretamente diversas operações da CIA no passado. Generosamente regada a dólares e euros a o¬nG cresceu e desabrochou, e hoje é a Fundação Boticário – nome de uma marca de cosméticos brasileira que se faz presente também em Portugal.

E porque o Boticário e outras empresas investem em tais organizações? É só se lembrarem do nosso marqueteiro preguiçoso: o Eco de hoje é o Atômico de outrora. Agora Eco nada mais é do que um sufixo ou prefixo destinado a vender, e, como dizia Mestre Yoda (que como vocês se lembram é verdinho), um poderoso aditivo mercadológico ele é. Um automóvel tão poluente e consumista quanto os outros se chama Ford Eco Sport; saiu o rabo de peixe, entrou o pneu à mostra na traseira, para que o urbanóide possa viver sua aventura na floresta tropical entre os Jardins e Maresias ou entre o Restelo e São Rafael. No Brasil temos carvão ecológico, detergente ecológico, biscoito ecológico (porque traz figuras de “espécies em extinção”, a maioria delas facilmente encontrável na fazenda da família, a meros oitenta quilômetros da megalópole mais próxima), água mineral ecológica (como seriam as outras marcas?); a lista é infinda. E em Portugal não parece muito diferente, pelo menos depois de uma rápida pesquisa na Internet. Sorte do pessoal do design, que ao invés de ter que se esmerar num acabamento futurista pode colocar somente um arremedo de um tosco toco e mesmo assim vender horrores.

Noventa e nove por cento ou mais dos produtos “ecológicos” é tão “ecológica” como os de antanho eram “atômicos” – estes eram pelo menos formados por átomos, enquanto os predicados dos outros podem ser mais duvidosos. Pelo lado otimista todos reagem com os organismos e o meio ambiente de alguma forma, fatal ou não; um bom e bizarro exemplo é o Bon Appetit, aroma artificial de galinha em spray oferecido pelo sítio português Efeito Verde para “cães e gatos vegetarianos”. Presume-se que tais totós ou bichanos tenham optado voluntariamente pelo vegetarianismo depois de se filiarem à PETA e lerem a extensa literatura da nomeada o¬nG; Deus me livre de tal vegetarianismo ter sido imposto a espécies naturalmente carnívoras por seus donos neuróticos. Num país sério isso até poderia atrair a fúria de uma também séria sociedade protetora dos animais, quando nada por seres humanos alterarem artificialmente a dieta natural de espécies naturalmente carnívoras (ressalvo que a bula original do produto em inglês anuncia que o spray foi desenvolvido para tornar mais palatáveis remédios e rações, mas o sítio português o anuncia como “Para cães e gatos. Vegano” – ou seja, para vegetarianos radicais). Mas “ecologistas” e ambientalistas têm a proverbial licença para matar de James Bond, e mais um olho preguiçoso da imprensa e quiçá das autoridades – para que mais?

E então chegamos ao anti, nosso arquiinimigo por natureza. Posso me gabar de ter mais experiência com antis do que a imensa maioria dos brasileiros ou portugueses – encontrei os meus primeiros no início dos anos 80, ainda na Cambridge University Hunt (que não existe mais; em tempos politicamente corretos restou o Cambridge University Horse Club). Os antis daquele tempo eram um bando indisciplinado e que poderia mesmo ser considerado sinistro, gente da esquerda rude e belicosa que se opunha à caça principalmente por motivos ideológicos – caçar era para eles um resquício de hábitos aristocráticos. Até as táticas deles não eram nem um pouco politicamente corretas: envolviam produtos tóxicos para envenenar os cães, estacas pontudas para espetar os cavalos, chamados falsos em gravadores para desorientar a matilha a afogá-la em alagadiços e charnecas. Freqüentemente os embates terminavam em porradas mútuas e acusações trocadas de grievous bodily harm, que geralmente não davam em nada mas esquentavam a caçada e a tornavam inesquecível. Ao lado destes antis veteranos se alinhavam às vezes alguns membros da League Against Blood Sports, em geral duas velhinhas de tênis brancos e três pálidos, cabeludos, despenteados epacíficos estudantes de língua inglesa ou sociologia, que se limitavam a desfraldar cartazes na hora do “stirrup cup” e a cair fora quando o confronto passava de retórico a físico.

Mas o background do Eco e do Ambientalismo virou de repente um mar no qual os antis podiam surfar com naturalidade e desenvoltura, e eles se aproveitaram: de repente, e mesmo sem querer, eles são os “mocinhos”, os “do Bem”. Não é nada nem científico, nem lógico, tampouco razoável. Simplesmente eles têm uma enorme sustentação por detrás deles, e nós não. Tal sustentação implica num imenso guarda-chuva: vejamos uma organização como a PETA.

Fundada em 1980, a PETA ocupou recentemente as manchetes por censurar o Presidente Obama por matar uma mosca em público. Um bando de malucos, não? Talvez, mas malucos organizados, ricos e bem apoiados: a PETA coletou 34 milhões de dólares em 2008 (2), e é apoiada por diversas celebridades em busca de mais algumas fotografias (de modelos internacionais como Pamela Anderson a atores como Alec Baldwin). A PETA também financia grupos como o MATP (Movimento Anti Touradas de Portugal), a ALF (Animal Liberation Front) e a ELF (Earth Liberation Front). Tanto a ALF como a ELF são listadas nos EUA como grupos terroristas; a ALF envenenou chocolates na Inglaterra em 1982 para proteger macacos usados em testes de produtos dentais, enquanto a ELF costuma incendiar concessionárias de veículos 4X4 em nome do meio ambiente.

A PETA é contra o consumo de carne, o uso de peles, animais em circos (no Brasil eles venceram a batalha; circos com animais estão banidos em quase todos os estados), rodeios – a lista é infinita. Às vezes o amor deles pelos animais é meio Dr. Strangelove; de 2.138 animais entregues à o¬nG no Estado americano da Virginia em 2005, a PETA sacrificou 1.946 (3). Contrariando o “Ético” do próprio acrônimo (PETA significa People for Ethical Treatment of Animals, Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais), as carcaças foram jogadas sem qualquer cerimônia no lixo.

Quais as razões do sucesso da PETA? Em primeiro lugar, vejamos as táticas: muita, muitíssima exposição na mídia – desproporcional ao tamanho e alcance da organização. Discurso tradicional da esquerda, com uma pitada de Marxismo Cultural (o pai do politicamente correto) versão Escola de Frankfurt, via Instituto de Pesquisas Sociais. Some-se a isso um uso inteligente e extensivo de técnicas de marketing e propaganda, com apelos de todos os tipos, inclusive sexuais – ou alguém acha que uma modelo nua sob o slogan “I´d rather go naked than wear fur” (Prefiro andar nua a vestir peles”) não causa nenhuma associação na cabeça de ninguém? Ou que as “esculturas vivas” de jovens militantes nus protestando contra as touradas ou o uso de peles não serve, dentre outras coisas, para transmitir a mensagem de que trata-se de um movimento jovem e belo, em oposição a senhores de meia-idade carecas, bigodudos e barrigudos?

A pergunta é: porque uma organização como a PETA ganhou subitamente tanto destaque? Em primeiro lugar, assinalo que a escolha da PETA e não de outra o¬nG semelhante foi mais ou menos arbitrária e emblemática; mas mesmo assim julgo que o adubo que a faz crescer é o mesmo que nutre suas irmãs: a idéia de Era Ecológica. Sem essa psicose coletiva tais organizações radicais continuariam confinadas a uma garagem e a um mimeógrafo. Em síntese: a credibilidade da PETA foi emprestada de outras organizações, mais antigas e moderadas, e inflada por uma idéia constantemente martelada na cabeça do público: se um ambientalista é bom, um ambientalista radical é melhor; quase um Super Ambientalista.

E a PETA e outros radicais têm aproveitado essa respeitabilidade para consolidar e ampliar a sua posição, infiltrando-se em velhas e respeitáveis organizações de defesa dos animais e de defesa do meio ambiente que antigamente eram pelo menos neutras com relação à caça e ao abate de animais e cooptando sua direção para uma posição de completa hostilidade. Isso aconteceu não só com as venerandas RSPCA (Real Sociedade de Proteção e Cuidado aos Animais) e sua congênere americana, a SPCA, como com o WWF (dirigido oficialmente por um caçador, o Príncipe Phillip de Edimburgo; infelizmente, Sua Alteza é mais uma figura decorativa) e até o Sierra Club americano. Acredite ou não, mesmo os Escoteiros estão na mira.

Paradoxalmente, isso ocorre num momento em que é impossível para uma mente racional e bem informada discordar do fato de que a caça esportiva controlada pode ser extremamente benéfica ao meio ambiente. Na África do Sul e no Zimbábue (descontadas as tribulações políticas do último) fazendas de agricultura e pecuária estabelecidas em ecossistemas frágeis foram transformadas em fazendas de caça e reservas naturais, com a flora e a fauna nativas vicejando novamente. Nos Estados Unidos, o¬nde caça e conservação ainda estão intimamente ligados, o nível de população das espécies cinegéticas atingiu o nível mais alto nos últimos duzentos anos, com benefícios estendidos a espécies protegidas. O próprio programa de repovoamento em Portugal é um sucesso. Qual a causa, então, para tanto antagonismo?

Simples: a batalha não é ambiental, é ideológica; e corre o risco de ter contornos de conflito de gerações. Pode chegar o dia em que o maior elemento de censura politicamente correta esteja não numa lei ou regulamento, mas nos olhos dos seus filhos ou netos. Nesse dia a batalha estará perdida. Como outras pessoas antes deles, os antis sabem que se uma mentira for repetida muitas vezes ela adquire contornos de verdade.

Para um português deve ser particularmente difícil conviver com essa nova ordem de coisas: até recentemente, Portugal tinha uma das mais liberais legislações de caça do planeta. Como se opor a gente que não tem limites nas táticas e no ataque, recorrendo inclusive a expedientes indiretos para atingir seus fins, como controle de armas? (Uma coisa que sempre me veio à cabeça: se a violência é o problema, porque ninguém fala em proibir a venda e posse de armas curtas e permitir as demais? Nunca vi ninguém circulando nas ruas com um rifle de caça à tiracolo).

Pessoalmente, sou extremamente cético com relação a expedientes como esclarecimento do público através de anúncios pagos e debates em rádio e televisão. Posso não ser nenhum Von Clausewitz ou Sun Tzu, mas me parece no mínimo imprudente lutar no terreno escolhido pelo adversário e com as mesmas armas dele. O poder econômico deles é infinitamente maior, e num debate televisivo existe o risco de dois sensatos porém barrigudos senhores de meia-idade encararem duas lindas estudantes de filosofia com fúria nos olhos jovens e faiscantes, e com muito maior potencial de empatia. Isso sem contar que o lobby do outro lado junto à mídia é antigo, eficiente e estabelecido.

Então só resta erguer a bandeira branca? Não. A solução para mim está num expediente já testado e aprovado na França e na Inglaterra, e já sugerido na Campanha da Abolição pelo poeta brasileiro Castro Alves: a praça é do povo, como o céu é do condor. Em síntese: vamos às ruas.

Nas conversas de dia-a-dia fica fácil perceber que nossa batalha este longe de ser perdida: quantos interlocutores comuns dos leitores na convivência diuturna têm efetivamente uma antipatia profunda da caça? Nas minhas observações pessoais, muito poucos. Pois eles são o nosso alvo, e só a voz das ruas pode atingi-los. Façamos como os antis e usemos as armas deles: o objetivo não é formar uma população de caçadores, mas sim mostrar que somos pelo menos uma minoria organizada e que deve ter seus direitos respeitados para exercer uma antiqüíssima atividade humana. Afinal de contas, o respeito às minorias consta exatamente da cartilha deles, não?

Funciona assim: Portugal tem duzentos mil caçadores registrados. É pouco? Talvez, mas num universo de o¬nze milhões de pessoas é um número mais do que razoável, quase dois por cento da população. Pois bem: escolham uma data apropriada – a abertura da temporada ou o dia do nosso Padroeiro, 3 de novembro – e façam uma marcha por Lisboa. Suponhamos que só se consigam mobilizar dez mil caçadores; se eles levarem a família, serão trinta ou quarenta mil manifestantes. Para uma cidade como Lisboa, é mais do que razoável: quantas manifestações reúnem por aí tanta gente?

Impossível? Ora, os ingleses reuniram por diversas vezes meio milhão de pessoas nas marchas da Countryside Alliance (e as estimativas de público são da grande imprensa; portanto... conte alguns milhares a mais) (4). Os franceses fazem desfiles regularmente no início da temporada, ostensivamente para fins de congraçamento mas conseguindo uma demonstração de força e presença de quebra (por outro lado, só na França se consegue fundar um partido de caçadores, o CPNT).

Um pessimista poderia dizer que o exemplo inglês não é lá muito encorajador, porque por lá a caça à raposa foi proibida. Foi mesmo? Apesar dos antis terem se apressado em cantar vitória, a lei promulgada tem tantos buracos e há tanta má vontade em sua aplicação que a caça continua bem, obrigado (a lei permite, por exemplo, que os cães persigam a raposa se ela for abatida a tiros posteriormente). O número de clubes permanece estável, e alguns relatam um aumento significativo dos membros. (5) Pergunto: isso teria acontecido sem a Countryside Alliance e as suas marchas? Duvido.

Só mais um conselho: façam um encontro no mesmo estilo dos ingleses e dos franceses – festivo, alegre, bonito. Deixem os cartazes mostrando cenas judiciosamente horríficas e os gritos histéricos para os antis; ao invés disso enverguem suas melhores roupas de caça, tragam a família e passeiem orgulhosamente, porque há motivos para tanto. Eu estive no Country Rally em 1998 (a única manifestação política da qual participei na minha vida), e isso era uma das coisas que mais chamava a atenção no público que assistia: o bom astral dos manifestantes, se contrastado com o ar de permanente constipação intestinal dos antis. Cavalos e cães são ótimos aliados nessa hora, principalmente entre a criançada. E já que a caça de corso não é muito popular em Portugal (acho que existe apenas um clube de caça à raposa, o Santo Huberto), porque não convidar os adeptos das touradas e seus lindos cavalos Alter Real? Eles também estão na linha de fogo, e sob os mesmos argumentos do outro lado. Outra coisa: é preciso conseguir uma boa escolta policial, e resistir à todo custo às provocações dos antis, que serão poucos mas melhor preparados e mais experientes. Deixem os ataques de nervos só para eles.

A organização de uma marcha tem outras vantagens sobre outras formas de se demonstrar insatisfação: sendo a caça em princípio uma atividade que reflete um modo de vida arredio às multidões e independente, reunir caçadores numa mesma associação é mais ou menos como arrebanhar gatos – uma tarefa espinhosa. Mas um encontro pode ser organizado em conjunto por diversos clubes e associações, e ser aberto mesmo aos não filiados. E – quem sabe? – pode dar origem a uma Confederação a nível nacional, que represente poderosamente os interesses da classe.

Basta um dia. Talvez dois: se a iniciativa der certo, repitam a manifestação no Porto. Façam dela um evento anual, ou bienal. É antigo, mas nem por isso menos verdadeiro o adágio de que o preço da liberdade é a eterna vigilância.

Finalizo com duas experiências pessoais, uma otimista e outra pessimista: quando houve no Brasil o Plebiscito pela proibição da venda e posse de armas de fogo, tudo parecia estar do lado dos antis. Para começar, eles tinham o apoio irrestrito da mídia – incluindo a poderosa Rede Globo. Modelos e atrizes mostraram seus rostos e corpos bonitinhos em intermináveis anúncios, financiados não se sabe por quem; do outro lado, pessoas comuns mas sensatas mostraram o risco de ficar desarmado num lugar o¬nde o Estado é absolutamente incapaz de garantir a segurança dos cidadãos. Os anti-armas inventaram até um imaginário “lobby da bala” (isso num país o¬nde existem apenas duas pequenas indústrias de armas e munições), sentando-se confortavelmente no próprio rabo de polpudas doações internacionais em dólares e euros.

No final, venceu o bom senso, e os anti-armas abaixaram o facho e saíram redigindo artigos acadêmicos sobre “manipulação da democracia” – aparentemente esta é um privilégio exclusivo deles. E venceu a lógica, pelo menos até...

A outra experiência é mais triste: desde os anos 80 os caçadores brasileiros começaram a ter seus direitos diminuídos, quando os diversos Estados da federação deixaram de estabelecer as temporadas de caça (exceto, diga-se, o Rio Grande do Sul). Em 1988 a Constituição do Estado de São Paulo baniu a caça, e não fizemos nada. Até que em 96 veio a Lei 9.605, considerando “espécies brasileiras” até mesmo as exóticas que tinham sido introduzidas para aproveitar a brecha da falta de legislação anterior. Foi aí que quisemos protestar... mas era tarde demais.


(1) Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Greenpeace

(2) e (3) Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/PETA

(4) Fonte: http://www.countryside-alliance.org/

(5) Fonte: http://www.telegraph.co.uk/comment/personal-view/3918865/Has-the-hunt-outfoxed-the-law.html , 25/12/2008. “Quite possibly, there will be more people out at this year's meets than ever. It is o¬ne of the ineffable paradoxes of British life that hunting has actually become more popular, in terms of numbers of participants, than it was before the 2004 Act that sought to ban it. Far from dying, the sport now attracts droves of young people – 19,000 of them aged under 19, according to the Countryside Alliance.”
 

 
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Comentário(s) (9)   Comentário(s) (9)    
    Excelente    
    Muito bem dito!    
    Excelente Reflexão    
    Excelente,    
    Uma boa lição    
    Muito bom!    
    Brilhante    
    Brilhante!    
    Tal e qual!!!!!    
   
     
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