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A Hunter and a Gentleman
 

     

Autor: Sérgio Corrêa de Siqueira

Autor Fotos: Vários

26-08-2009 11:00:00

 

Winston Churchill - ´After the fox, gents!´ (domínio público)
   
Um pescador e um palpiteiro - FDR e Churchill. (domínio público)
   
Outro ´cavalheiro-caçador´, muito conhecido. (Mail&Guardian, 1991)
   
O Conde de Yebes (fundacionjuandeavalos.com)
   
Pais do Amaral: fidalgo, empresário, gentleman - e caçador (www.agenciafinanceira.iol.pt/...)
   
Já é hora de louvar os caçadores - cavalheiros.

Quando escrevi meu livro (ainda inédito) biografei apenas caçadores profissionais, ainda que alguns o fossem pela força das circunstâncias, e apenas dois aventureiros-caçadores: Roualeyn Gordon Cumming e John Henry Patterson, o dos leões antropófagos do Tsavo.

Fiz isso principalmente por falta de espaço e para obedecer a um critério pré-estabelecido, mas hoje percebo que há outra categoria de caçadores que merece elogio e biografia: os caçadores – cavalheiros.

Quem são eles? Eu os definiria como pessoas de notável destaque em outras áreas de atuação que elegeram a caça como uma paixão para além da atividade profissional, e que dedicam a ela a maior parte ou pelo menos uma parcela considerável de seu tempo livre, que com toda probabilidade deve ser escasso.

São gente que quando não está caçando está fazendo uma infinidade de coisas, sempre de forma invejável: são estadistas, artistas, arquitetos, chefes de cozinha, empresários, editores...

Daí algum confrade mais democrático pode perguntar: mas em que esses almofadinhas merecem mais destaque do que nós, amadores como eles e às vezes mais talentosos? Ora, se eu tivesse um décimo do dinheiro ou do poder deles eu também...

Para acalmar os ânimos jacobinos desses hipotéticos confrades, eu diria: saber que os inteligentes, os hábeis, os bem sucedidos e os cultos também podem ser caçadores em suas horas de lazer não faz nenhum mal à classe – pelo contrário. E sei por experiência própria que a caça pode ser uma grande niveladora social: conheci na Irlanda caçadores de sangue mais do que azul que eram companheiros de caçada simplíssimos, desde as roupas gastas e coçadas (mas sobretudo veteranas e confortáveis), os cavalos difíceis e refugadores, até a hora de entornar uma plebéia Guinness ou mesmo uma Murphy’s no pub depois da caçada... Aliás, davam de dez (como dizemos no Brasil) em muito executivo americano com muitos dólares na carteira e poucas maneiras no currículo.

Para não ficar no campo abstrato, vamos a alguns exemplos: quem não gosta secretamente de saber que um anti levou uma surra de um caçador e de um pescador? Fica melhor ainda se a causa for nobre, o anti for Adolf Hitler, o caçador for Winston Churchill e o pescador Franklin Delano Roosevelt, não? A propósito, a caçada preferida de Churchill na juventude era o “pig-sticking”, o perigoso lanceamento de javalis a cavalo, mas ele também caçou raposas até a velhice, e mais um cervo ou outro – sempre no corso, porque quando jovem foi um hábil cavaleiro e mesmo depois de idoso não perdeu o dom. (Aqui, um parêntese meio envergonhado: no final eram dois caçadores e um pescador contra um anti, porque Stalin também gostava de caçar - mas isso fica entre nós).

Os dois estadistas mais próximos da santidade que conhecemos são Ghandi e Mandela; o primeiro nunca caçou por motivos óbvios – quando nada porque era infenso aos seus princípios religiosos – mas o segundo foi à caça tão logo quando libertado, e confessou ser umas das coisas que mais falta lhe fizera enquanto estava encarcerado.

Cientistas? Dizem os intelectuais que três mentes do século XIX moldaram o século XX: Marx, Freud e Darwin. Duas foram mais do que contestadas e desmentidas ao longo dos anos, mas uma vem se afirmando mais e mais com o progresso científico: a do fanático caçador Charles Darwin, cujo “olho clínico” ao observar a natureza pode ter nascido – eu arrisco – das práticas cinegéticas da juventude...

E existem outros caçadores - cavalheiros que deixaram sua marca no passado, marca esta que se projeta no presente: François Mitterrand, primeiro presidente socialista francês, Paul Bocuse, o Chef dos Chefs, uma lenda viva; e... Mas quando chegaremos nos exemplos ibéricos?

Primeiro, vamos escolher um caso “clássico” de cavalheiro-caçador: D. Eduardo Figueroa Y Alonso-Martinez, o 8º. Conde de Yebes. D. Eduardo pode ser entre os leigos um personagem secundário, vítima do seu próprio prefaciador: quem hoje não conhece mais “Sobre a Caça e os Touros” de Ortega y Gasset do que “Veinte Anos de Caza Mayor”? Apesar disso D. Eduardo bem que merecia um pedestal maior na historia da caça (não encontrei nenhum sítio espanhol sobre caça que lhe desse o merecido destaque, o que é uma pena): arquiteto, fotógrafo, historiador, polímata, admirado por H. Frank Wallace (ele mesmo um pintor-aventureiro-caçador, e membro proeminente do Shikar Club), escritor amador de talento...

Um português? Como observador externo – e quiçá mais neutro – eu pessoalmente escolheria Henrique Galvão como arquétipo. Nem tão velho para interessar apenas aos arqueólogos nem tão recente de forma a merecer apenas seus cinco minutos de fama, Henrique foi um revolucionário romântico e moderado, um oficial numa época em que o termo era automaticamente um sinônimo de cavalheiro, um aventureiro audacioso, um escritor com um admirável título (“Da Vida e da Morte dos Bichos”), e, sobretudo, um jogador que soube perder com invejável classe. (Característica maior de um Gentleman).

E os nossos contemporâneos merecem igual louvor, quando nada só por sua sinceridade de – usando outra expressão brasileira – darem sua cara à tapa mesmo sob o fogo cerrado dos antis. É preciso no mínimo uma razoável dose de coragem para alguém como Miguel Paes (Pais) do Amaral - empresário muitíssimo bem sucedido a quem coube também involuntária fidalguia- assumir seu lado caçador perante a mídia, acrescentando, para sua maior simpatia, que prefere atualmente as temporadas portuguesas de caça menor aos safáris africanos. (Que para o seu bolso não devem custar mais do que alguns trocados). Não sei se algum dos confrades topa com D. Miguel na faina, nem se – quem sabe? – ele também se esconde atrás de um pseudônimo e dá seus palpites no Santo Huberto. Se os fizer, merece não só minha já declarada admiração como – usando outra expressão brasileira, ando muito regionalista – minha tietagem irrestrita e absoluta.

Por outro lado – e infelizmente – existem caçadores que ocupam posições de admiração ou de destaque na sociedade, mas que por timidez ou por medo ocultam seu hobby do público. Desgraçadamente, conheço alguns assim no Brasil (que devem ter seus congêneres em Portugal): banqueiros de destaque, um chefe de cozinha de fama internacional, industriais... Por que o fazem?

Se for por discrição é perdoável, mas frívolo: quando seus companheiros estão sobre ataque, cada um deve – e é mesmo obrigado – a dar o melhor de si. Se for por medo, então são caçadores só pela metade, ou menos ainda. Se for porque se julgam imunes ao assédio ao que os seus colegas mortais se submetem, já que têm dinheiro para caçar na África ou ilegalmente em áreas imensas o¬nde nenhum fiscal ou guarda põe o pé, então podem até serem caçadores, mas definitivamente nunca cavalheiros...

Resta a hipótese mais otimista, à qual me apego por afinidade: são tímidos demais. Ora, senhores: usando uma expressão em voga, é hora de sair do armário e assumir – seus colegas menos conhecidos necessitam do seu apoio. Mesmo que a caça para vocês seja um vício, um verdadeiro cavalheiro vitoriano (o magistrado Sir Chartres Biron, citado pelo caçador-cavalheiro H. Frank Wallace) já disse apropriadamente que “A condução dos seus vícios é o que distingue um gentleman de um canalha” (*).



(*) “The conduct of his vices shows the difference between the gentleman and the cad” (in WALLACE, H. Frank; PLEASE RING THE BELL; Eyre & Spottiswoode, London, 1952, p. 115).
 

 
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Comentário(s) (5)   Comentário(s) (5)    
    “Nodding by Yeats fire”    
    Caçadores Cavalheiros    
    Próprio de um Gentleman    
    Artigo interessante!    
    Eterno Tabu    
   
     
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