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Histórias de Caça

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A Espera
 

     

Autor: José Neves

15-11-2009 19:00:52

 

   
A solidão redentora de uma espera aos javalis, numa remota aldeia despovoada de Trás-os Montes.

O charivari orquestrado pela passarada enchia os ares num louvor ao sol poente. A luz difusa da lua, poalha branca e inerte, pouco iluminava a obscuridade progressiva do crepúsculo. Das bandas da aldeia distante, na margem do rio, chegava o falatório de gente recolhendo da jorna. Os cães do rebanho ladravam, açulados pela chinfrineira do tractor desconjuntado. No posto, o murmúrio da brisa nas ramagens percorria a floresta e abafava os passos furtivos dos animais.

Sentado numa cadeira instalada sobre uma pequena saliência rochosa, a prumo sobre o trilho de acesso ao cevadouro, Artur, sob a escassa sombra projectada pelo arvoredo que o rodeava, bem agasalhado na velha samarra que pertencera ao avô, segurava com firmeza a semi-automática de calibre trinta zero seis municiada com duas balas de duzentos e vinte grãos. Com a mira telescópica espiou a comida colocada a algumas dezenas de metros e, silenciosamente, aconchegou a manta que protegia as pernas da frialdade da noite.

Em jeito de balanço evocou os episódios marcantes do seu percurso venatório e meditou acerca das múltiplas razões que ali o tinham conduzido. Caçador há quase cinquenta anos, recordou, nostálgico, esse longínquo início, quando, com a espingarda de pressão de ar, substituta da fisga engendrada de uma forqueta de marmeleiro, esperava os pardais na borda da eira coberta de espigas de milho-miúdo a secar. Mais tarde, inexperiente e ingénuo, procurara os coelhos com a paixão de um adolescente. Nos breves intervalos dos afazeres escolares acompanhara os caçadores da aldeia, manejando habilmente o varapau e contribuindo, generosamente, para o bornal colectivo. Depois, com a espingarda que o pai nunca utilizava, em segredo, abatera a primeira perdiz em voo e, desde aí, definitivamente, fizera-se caçador.

Na povoação um cão uivou. Perto, pareceu-lhe escutar um suave restolhar de folhas e um discreto pisar de cascos. Sobressaltado, mas vigilante, esquadrinhou o engodo com a mira, vagarosamente, durante longos minutos analisou o ambiente, a atenção dominada pelo velho instinto, mas nada descobriu. O sossego do silêncio rumoroso produzido pelos habitantes do bosque regressou, envolvido no piar aflautado e monótono de um mocho.

Há mais de vinte anos que participava em montarias. Nas tertúlias os companheiros relatavam peripécias entusiasmantes sobre as esperas à noite. Os convites repetiam-se, e, invariavelmente, eram cortesmente recusados. Sem nunca revelar o verdadeiro motivo, nem aos mais íntimos, Artur evitava o assunto, negando-se a emboscar os javardos. Embora esporadicamente, as reminiscências de alguns episódios nocturnos da guerra africana em que participara há muitos anos moíam-no. Ensimesmado, achava desnecessário despertar fantasmas, pois as consequências, segundo ouvira de entendidos, poderiam ser ainda mais traumáticas. Ou seria o contrário, interrogara-se, confuso mas resoluto, no dia em que decidiu enfrentar aquela servidão interior…

O estrépito de calhaus a rolar sobre a vegetação ressequida no solo interrompeu abruptamente os seus pensamentos. Tenso, sentiu-se invadido pelo calor de uma forte descarga de adrenalina, excitante e avassaladora. Era perceptível o tropel de diversos animais descuidados, as correrias endiabradas por entre as carvalheiras, o roçar dos corpos volumosos pelos caules duros das ervas, os estampidos das pedras entrechocando-se, tudo denunciava a aproximação de javalis. Nas cercanias do aguardo o movimento aumentou. Inquieto, imaginou até que poderia ser molestado pelos bichos. Mas, após recuperar o auto domínio, já tranquilo, sorriu com a ideia. As mãos agarraram melhor a carabina, os cotovelos fincados nos joelhos, enquanto, espevitado, perscrutava as origens do bulício. Subitamente, do seu lado direito, a não mais de dez passos, no recato da escuridão projectada por um renque de estevas sobre a vereda, o inesperado som de alguns fortes assopros quase o fizeram de novo perder a compostura. Nada viu, pois o crescente da lua estava velado por uma nuvem solitária. Outro par de grunhidos intimidantes seguido pelo estropear acelerado de patas galgando o monte atabalhoadamente indicaram que fora aventado.

Recostou-se. Compassadamente respirou fundo para recuperar da emoção e normalizar o ritmo cardíaco, bruscamente alterado por aquele lance inesquecível. Que fantástica experiência pensou, surpreendido, enquanto com a luva limpava a testa húmida de suor. Regozijou-se pela decisão de avançar sem a consulta de outras opiniões, finalmente sentindo dominados os temores antigos que o atormentavam. Uma redentora sensação de liberdade e de íntima satisfação inundou-o. Obrigou-se a relaxar e, pachorrento, bebeu um pouco de água, espreguiçando-se, descansado. Brevemente retomaria a introspecção, mas noutro local. Agora estava ali só para caçar!

Lembrou-se então dos requisitos inegociáveis que tinha estabelecido com a organização. O posto seria obrigatoriamente implantado no chão, ao relento, sem recurso a abrigos fechados ou palanques, a carabina equipada com mira de abertura máxima de cinquenta e seis milímetros, sem qualquer iluminação artificial. Gostava de jogo limpo e minimamente equilibrado entre a caça e o caçador. O objectivo era abater um macho, o melhor possível, e, em caso de dúvida, não disparar.

Vislumbrou o esvoaçar espectral de uma coruja em patrulha silenciosa, pressentindo os musaranhos a roer os grãos de cereal no cevadoiro e, deliciado, aspirou os aromas inebriantes da alfazema, da urze e do alecrim, precocemente floridos. Enfim, as delicadas fragrâncias, únicas e insubstituíveis, da natureza.

Ocorreu-lhe pela primeira vez que o êxito do empreendimento podia estar comprometido. A partida repentina da vara, apesar de já terem decorrido mais de duas horas, por certo alertara a bicharada das redondezas. Contudo, até o virem recolher, permaneceria de atalaia.

A frescura da orvalhada, embora ligeira, arrefecera rapidamente o corpo. Levantou a gola do agasalho, em pele de raposa, mantendo-se desperto. Contemplou os astros brilhantes no firmamento, e, rememorando a meninice, observou detalhadamente algumas constelações, as Ursas, a Cassiopeia, o Oríon. A brancura do luar imenso, belo e frio, tudo envolvia, facilitando uma boa visibilidade, como comprovava amiúde. Suave, o tempo escorria sem pressa. A terra repousava, levemente adormecida. A aragem amainara deixando um rasto de calmaria. Apesar do repelente, os mosquitos intensificavam os ataques, indiferentes aos voos persecutórios dos morcegos.

Então, lembrou-se dos primeiros javalis que observara. No Gerês, ainda miúdo, num cercado estreito, vira alguns espécimes de aparência grotesca, acantonados junto ao comedouro, indiferentes à curiosidade dos visitantes domingueiros. Nos anos setenta, enquanto preparava os expedicionários madeirenses da companhia de caçadores que comandara, num exercício sobre emboscadas para os lados do Pico do Areeiro, presenciara ao cair da tarde, estupefacto, uma dezena de javalis a invadir o terreiro em vez do inimigo previsto. Finalmente, em Angola, na M’pala, estreara-se com um enorme porco avermelhado, caçado com estilo, pois fora o ricochete da bala no chão que o abatera.

No princípio foi alertado por um ligeiro estalar de madeira no fundo da encosta, talvez o calcar de um ramo caído. Depois sentiu um andar leve de animal cauteloso, a tactear, com paragens prolongadas. Empunhou resolutamente a arma, escrutinando com o óculo e a ajuda do luar todos os recantos possíveis. De repente, por entre duas filas de eucaliptos descarnados, a cerca de oitenta metros, avistou o avanço vagaroso de um porco pequeno, ruço, estacando nas sombras, de focinho levantado a inalar demoradamente os ares. Não, assentou, a este não atirarei. Só para treinar o movimento, continuou a apontá-lo. A distância encurtara talvez para metade, quando, mais atrás, numa aparição súbita, irrompendo do negrume de um silvado, um vulto preto e fantasmagórico, com as orelhas hirsutas, sorrateiro, deslizou cuidadosamente pela clareira onde estivera o escudeiro. Chegara a hora! Artur, determinado, enquadrou o animal no retículo da telescópica e, sem precipitação, acariciou o gatilho. O estrondo ofendeu a tranquilidade da noite e o clarão do tiro ofuscou-o por instantes, mas a bala atingiu o alvo que gemeu sumidamente, tombando, moribundo. O outro fugiu espavorido. O caçador levantou-se devagar, sempre mirando aquele volume maciço e imóvel.

Porém, num impulso inconcebível e de todo inesperado, o javali saltou, aparentemente recomposto apesar de trespassado, e, numa corrida curta e desnorteada, a morte nas entranhas, foi baquear a poucos metros do esperadouro, sucumbindo, por fim, abafado no próprio sangue.

Junto à presa, Artur, curioso mas pensativo, desfrutou aquele instante. No sítio de entrada da bala desabrochava a flor rubra da morte.

Um cortejo de memórias desfilava pelo seu espírito. Persistente, a imagem antiga dos contornos magros do corpo de um jovem negro, cingido por uma esfarrapada farda de caqui amarelo, as sandálias de plástico a brilhar, prostrado sobre a picada luarenta. Perturbado pela visão, estremeceu, amparando-se na arma. Oprimido pela recordação terrível de uma época cada vez mais distante, impotente para alterar o curso da história, suspirou.
Não pode haver indiferença perante a morte.
Levantou a cabeça, determinado, e olhou em frente, muito para além dos montes próximos. Era um homem coerente e tanto a vida como a morte integravam a realidade do seu mundo.

Naquele lugar, numa lua de Abril, a CAÇA aconteceu e uma antiga assombração foi esconjurada.


José António Neves
 

 
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Comentário(s) (9)   Comentário(s) (9)    
    é o q´eu digo...    
    As esperas    
    Confrade José Neves    
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