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Histórias de Caça

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Entre estevas e barrancos
 

     

Autor: Paulo Farinha Pereira

16-11-2009 18:26:12

 

   
A possibilidade de caçar animais em plena liberdade é uma benção que devemos agradecer e enaltecer, o que vos descrevo é a descrição de um desses momentos.

Aguardamos que se faça de dia enquanto, em silêncio, maldizemos a sorte. Parados, olhando os “cachafundos do Carvão” que o pálido clarão do nascer do dia ainda não permite apreciar, tentamos ouvir os berros roucos da peça que procuramos e sabemos ali existir. Mas nada, só vento.

Nos últimos dias sempre um calor de esturra e brisa fraca, hoje há humidade e levantou-se um vendaval que tudo silencia excepto o ruído das árvores que se entrechocam e o silvo do vento que lhes alisa as folhas e verga os troncos.

Nestes últimos quinze dias é a terceira vez que me desloco à ZCA de Salavessa para avaliar a berreia.

O tardio das primeiras chuvas fê-la arrancar titubeante, tímida e soluçante. Nos últimos dias, por fim, estabilizou, permitindo um elevado grau de sucesso nas aproximações que, a diário, estamos a efectuar aos veados.

A mim, permitiu-me registar algumas imagens preciosas dos nossos galãs enquanto guardam territórios e fêmeas, avisando com os seus berros a concorrência, da sua vontade de os defender e as guardar.

Desta vez não venho para captar apenas imagens, por capricho da sorte e infortúnio de um amigo que não podia vir, troquei com este e venho no seu lugar. Assim, de bandoleira ao ombro e binóculos ao peito, vou “acertando” estratégias com o Fernando Rosa (nosso Guarda) e com o meu irmão Fernando, que vem de repórter para além de companheiro.

Parece-me impossível mas é verdade, o Sol já nasceu e apenas um veado nos brinda com seu canto e este, fora dos limites da nossa ZC, na Serra, ao abrigo do inoportuno vendaval que se instalou.

Depois de uma volta pequena pelos eucaliptais da encosta, onde apenas surpreendemos uma promessa de veado que, com o vento a nosso favor, se deixou registar para a posteridade por um período largo enquanto, de narinas fremitantes, tentava perceber o que eram aqueles vultos que ele sabia não deviam ali estar, decidimos abandonar a zona.

Discutimos as hipóteses e decidimos que iríamos fazer uma incursão aos fundões do ribeiro, onde, abrigados pelo vento, poderiam estar os “grandes machos” daquela zona. Não nos deteríamos por muito tempo, se não berreassem por ali, tornaríamos ao carro e arrancaríamos rumo ao outro extremo da ZC onde o vento se faria sentir menos.

Esta zona é de um bravio deslumbrante, o acidentado do terreno protege-a das incursões dos turistas passeantes e a desarborização das encostas, cobertas apenas de estevas, “charas” como por ali lhes chamam, giestas, carqueijas e tojos, não permitem aproximações fáceis e, assim, ali se sentem e estão protegidos os bichos mais velhos.

Enquanto nos vamos aproximando o som da berreia começa a fazer-se sentir, vão-nos chegando os berros que sobem desde os vales mais fundos. Nas encostas, porque o vento vai perdendo intensidade à medida que nos vamos afundando naqueles terrenos, vão começando a responder alguns bichos que por ali se dissimulavam, deitados entre os matos, num descanso forçado pelo vento, das disputas da época de cio.

Lentamente, vamos apreciando os troféus que vamos descobrindo e tentando adivinhar onde estarão os outros que vamos ouvindo para lá dos acidentes do terreno.

Com mil cuidados, evitando que qualquer animal nos detecte e na fuga arraste outros, vamos eliminando hipóteses e avançando para novas oportunidades.

Um macho de dezasseis pontas e grado de “lenha” deixa-nos de “àgua-na-boca”, infelizmente ultrapassou a nossa extrema e apesar de “a tiro”, está agora sob jurisdição dos nossos vizinhos. Ainda aguardamos a ver se torna ao nosso lado mas, seguindo uma fêmea, não se desloca no nosso sentido e decidimos deixá-lo.

Mais uma vez parece que a sorte está do lado das presas, assim, continuamos afundando nos terrenos. Ao dobrar uma cumeada, Fernando o Guarda, tomba sobre os seus passos e aponta-me lá ao longe, no fundo do barranco, um bom veado. Quieto, tento apreciá-lo. Subo lentamente os binóculos enquanto também me baixo e começo a avaliação. A nossa posição, recortados sobre a cumeada, desfavorece-nos muitíssimo e impede grandes manobras.

O meu irmão detém-se antes mesmo de alcançar o viso e poder avistar o veado e o guarda nem pestaneja, apenas o oiço sussurrar “é bom Paulo, chega-lhe, chega-lhe que se abala”. Efectivamente o veado vai-se afastando, procuro um apoio, essencial nesta altura dada a distância a que estamos, deito-me e tento o apoio num cêpo de pinheiro que ficou dos incêndios de 2003, este, ao apoiar a arma, desfaz-se e quebra-se em pequenos torrões de carvão.

O veado parece intuir o perigo e afasta-se cada vez mais célere, na ausência de melhor apoio, sento-me no chão e abraçando com a mão a rama de um pinheirote verde e de pouco mais de meio metro, dele faço “vara”. O parco apoio não me estabiliza a arma de forma óptima, mas é o que há, quando o retículo deixa de sair do veado e o imagino no sítio, primo o gatilho.

O projéctil encontra o alvo e, apesar de não no sítio pretendido, o tiro alto e um tanto traseiro apanha-lhe a coluna, “secando-o” no sítio.

Uma armação de respeito balança no estertor da morte, levantando o pó.

Cumprimentamo-nos todos, mais uma vez este trio de caçadores, obtém a recompensa do esforço e perseverança colocados nesta empresa.

Tornamos ao carro e descemos ao ribeiro, a partir deste, subindo um pouco, chegamos onde o “nosso” veado jaz. É precioso, altivo até na morte. Durante alguns minutos afagamo-lo, avaliamo-lo e prestamos-lhe homenagem, é uma dádiva dos Deuses, um precioso fruto da Criação de que também fazemos parte e ali o sentimos, num misto de júbilo e respeito pelo glorioso animal a que tomámos o fôlego.

Não sem dificuldade deslocamo-lo até um local onde o carregar, depois, entre sorrisos e um copo de tinto para celebração, imortalizamo-lo numa série de fotografias, mesmo aí, no momento de celebração, o animal ainda nos infunde respeito e assim fazemos, respeitamo-lo.

No regresso uma paz de espírito invade-me, comento com o meu irmão a dádiva que é poder apreciar estes animais no seu estado mais puro e selvagem e a sorte de os poder caçar ali, livres para se defenderem e assim darem outra dimensão ao acto de caçar.
 

 
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Comentário(s) (5)   Comentário(s) (5)    
    Excelente veado...    
    Belo veado    
    Todos os condimentos    
    E magnífico relato!    
    Magnifico animal    
   
     
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