| | 1032 Utilizadores on-line |    

Login [Entrar]

 
   
 
 
Artigo

Início

Anterior

Próximo

Fim


Alguns apontamentos sobre a perdiz vermelha
 

     

Autor: José Manuel Paulino

19-12-2009 0:57:22

 

   
   
   
Alguns arrumaram os apetrechos da caça e perderam a vontade de aproveitar a oportunidade que a caça lhes proporcionava para recarregarem baterias, fugindo ao bulício da cidade e arejando os sentidos no fragor das frescas madrugadas embebidas nos mais diversos aromas da natureza.

O que é a caça?

Basicamente é um tributo que cobramos a determinadas espécies, pela ajuda que lhes prestamos. É uma espécie de negócio que a natureza apadrinhou mediante algumas regras essenciais.

Recuemos até ao tempo em que o homem vivia da recolecção e deambulava de um lado para o outro conforme as suas necessidades, as perdizes vermelhas certamente eram poucas e muito bravias para se poderem alimentar e escapar a um elevado número de predadores.

Com a sedentarização dos nossos antepassados nasce a agricultura, que século após século, vai aumentando e aperfeiçoando a cultura dos cereais, oferecendo assim à perdiz um habitat mais favorável, uma alimentação mais fácil, de melhor qualidade e em maior quantidade. Ao mesmo tempo alivia a pressão dos predadores, pois ao desbravar novas terras para semear vai destruindo os seus refúgios.

É natural que tais condições levem a um aumento no efectivo cinegético, agora em parte dependente da agricultura. Pelas leis da natureza, este aumento deveria ser aproveitado pelos predadores, que com mais alimentação também deveriam aumentar a sua população. É aqui que entra o homem, que, competindo com os predadores naturais, controla os seus efectivos, através de práticas diversas dirigidas ao indivíduo e não à espécie, o que lhe permite cobrar uma fatia do efectivo cinegético sem desequilibrar o sistema.

Assim durante muito tempo, sob o olhar vigilante da mãe Natureza que umas vezes castigava outras ajudava, de modo a fortalecer as espécies, os mais vocacionados, na medida das suas possibilidades ou necessidades, desfrutavam deste belo desporto que é a caça.

Com o início de uma nova era em que aparece o “tempo livre” e se generaliza a palavra “lazer”, ao mesmo tempo que se aperfeiçoam os meios de captura, armas e cartuxos cada vez mais potentes, surge, não por vocação, mas talvez por falta de outras opções, um batalhão de caçadores que rapidamente invade todo o terreno perseguindo até à exaustão a nossa descuidada perdiz vermelha.

Isto passa-se em Portugal na década de oitenta.

A legislação que regulamenta o acto cinegético é um descalabro e com tristeza assiste-se ao denegrir da palavra caçador, pelas acções de bandos de recolectores que, já nada tendo para matar, confundem alguns animais domésticos com espécies cinegéticas.

Este período difícil, em que na minha zona só restaram meia dúzia de casais de perdizes entrincheiradas nas margens do Vidigão e do Chança por terem desenvolvido um sentido extraordinário de conservação (fazem-me lembrar a população da minha aldeia no período conturbado das lutas entre liberais e miguelistas que tinham sempre vigilantes no Eirado e ao menor sinal de perigo refugiavam-se na serra de Ficalho), olhos vigilantes, asas musculadas e, ao menor sinal da presença humana, largos voos que punham pelo meio dois ou três daqueles cabeços que nem os mais audazes se atreviam a percorrer.

Muitos pensaram que era o fim daquela peça que tão bem decorava a nossa paisagem.

Alguns arrumaram os apetrechos da caça e perderam a vontade de aproveitar a oportunidade que a caça lhes proporcionava para recarregarem baterias, fugindo ao bulício da cidade e arejando os sentidos no fragor das frescas madrugadas embebidas nos mais diversos aromas da natureza.

Felizmente, os mais cépticos enganaram-se. Com o surgir de legislação que regulamentou o ordenamento de grande parte do território, a tal meia dúzia de casais, física e geneticamente robustos, voltaram a confiar na proximidade humana e regressaram aos seus terrenos de nidificação, locais onde abundava a comida e afrouxava a pressão dos predadores. Assim em poucos anos pudemos ter a alegria de ver novamente os nossos campos povoados por esta bela espécie. Algumas zonas com mais aptidão tornaram-se verdadeiros santuários para a perdiz vermelha, era um gozo poder desfrutar da observação daquelas “polladas” como dizem “nuestros hermanos”.

Estamos na viragem do século e sou sócio de uma ZCA que está cheia de perdizes, grande parte da sua área apresenta as condições ideais para a sua criação. Situa-se no começo da Serra de Serpa, parte norte. Pequenas propriedades organizadas em talhões de mais ou menos dez hectares, com um monte, na maior parte dos casos ainda habitado, cultivo de diversos cereais em pequenas parcelas, pequenas hortas, charcas para o gado beber, algum gado, não muito. Este tipo de exploração da terra oferece à perdiz as condições ideais para uma forte concentração de casais em pequenas áreas, abundância e diversificação de comida, água e territórios de nidificação com fronteiras fáceis de estabelecer. Dada a variedade de culturas e a existência de pequenas linhas de água que só correm no Inverno, sêsmos, vedações, caminhos e pequenos arrifes de mato, é fácil aos casais nidificarem relativamente próximo uns dos outros sem que haja querelas que ponham em causa o êxito da reprodução.

De um modo geral, apesar da recuperação da perdiz, o seu efectivo é insuficiente para a enorme procura que tem, principalmente em determinadas ZCT. A caça é um acto social que promove o estatuto de determinadas pessoas ao mesmo tempo que se torna um espaço onde se podem criar boas condições para óptimos negócios. Começa a aparecer um grupo de pessoas com um certo poder de compra, que não tendo nada a ver com a caça como acto desportivo, frequenta assiduamente as batidas às perdizes e as montarias. Os gestores das ZCT, que têm como primeiro objectivo a rentabilidade da caça, introduzem um novo elemento no espaço cinegético, a perdiz de cativeiro e o javali puro ou cruzado criado no cercão, os clientes não são exigentes, querem é dar tiros e matar javalis grandes, não fazem distinção entre espécies autóctones criadas em liberdade e as de cativeiro (fazem-me lembrar um episódio passado perto de Moscovo que teve como protagonistas: um diplomata ocidental que, depois de algumas reticências, aproveitando a oportunidade, resolveu caçar um urso; dois burlões que frequentavam o mesmo hotel à caça de incautos; um velho urso de circo que estava à beira da reforma; e um carteiro que se deslocava de bicicleta a entregar o correio em casas de campo). A nossa perdiz vermelha, possuidora de um forte índice selvagem, não se adaptava facilmente ao cativeiro, assim introduziu-se no ciclo reprodutor a perdiz grega, bastante mais fácil de manejar e, que à segunda ou terceira geração não se distinguia com facilidade da nossa perdiz. São criadas milhares de perdizes, umas com mais qualidade, outras com menos, mas são todas de “aviário: genes modificados, geradas sem o calor da mãe, não comeram ovinhos de formiga. Não tiveram como casa a imensidão dos campos que tanto lhes proporciona enormes prazeres, pitéus variados, banhos no pó dos caminhos ou na terra fresca da horta, como grandes sustos no contacto com os predadores. Não fizeram com a mãe o curso básico de sobrevivência nem desenvolveram a linguagem da comunicação, vital para quem vive em sociedade.

É assim, que camufladamente, “o vermelho vivo da nossa perdiz vai debotando”.

Criadas e alimentadas em pouco espaço, num ambiente artificial tornam-se presa fácil de doenças que com o tempo e a ajuda dos criadores vão suportando sem que sejam totalmente irradiadas.

Umas vezes transportadas para o cimo do monte em caixas de papelão, de onde são atiradas ao ar para tomarem mais embalagem e fazerem as delícias dos atiradores que as esperam mais abaixo, ou que com o rótulo de primeira qualidade atraem os responsáveis por zonas delapidadas, que as introduzem na esperança de recuperar os efectivos de outrora. Apesar da maior parte delas terem uma vida curta, uma boa parte vai parar à barriga dos predadores que acodem das zonas limítrofes ao fácil banquete criando-lhes assim novos hábitos de predação.

Sobre os predadores, muita gente tem uma ideia errada, é ainda vulgar atirar sobre as rapaces que conjuntamente com a raposa são destacadas como os principais predadores da perdiz. Nada mais errado! Só apanharão animais doentes ou deficientes ou então as tontonas do aviário. Contribuem sim, para o fortalecimento da espécie. A raposa não costuma propriamente caçar, normalmente desloca-se por caminhos ou veredas visitando os locais onde habitualmente lhe é mais fácil arranjar alguma coisa para comer, frutos, ratos, coelhos doentes, galinhas, borregos recém-nascidos ou até girassol como observei há poucas noites num comedouro das rolas.

Os verdadeiros predadores da perdiz são aqueles para os quais a nossa perdiz não está ainda alertada e como tal tem dificuldade em defender-se. Durante o dia ela sabe defender-se de um pointer que a descobre mas não a consegue apanhar. Os javalis, organizados em companhias, passam as noites a bater o terreno, qual jolda de caçadores em linha, passam a pente fino grandes áreas de terreno para saciarem o seu apetite devorador de hominídeos. Quem passa muitas noites no campo está familiarizado com o chiar das perdizes ao levantarem aflitas. Quando levantam não as apanham, mas quantas não partem asas ao embaterem em árvores ou vedações e se tornam presas fáceis? Quanto às pegas, destaca-se a pega lilás, vulgar rabilongo, organizadas em bandos, patrulham os campos atacando selvaticamente os pequenos perdigotos que não conseguiram esconder-se atempadamente, fazendo autenticas razias nas ninhadas.

Na associação a que pertenço, felizmente grande parte dos sócios são proprietários, gente simples do campo, excelentes companheiros com um óptimo convívio, habituados ao trabalho e que durante gerações tem mantido um sábio relacionamento com a terra, respeitando o que ela produz e construindo um saber baseado na observação do repetir das coisas tal como os meses ou as estações do ano que por vezes fica perpetuado nos provérbios ou ditados populares.

Nos dias de hoje somos confrontados com uma dinâmica que temos dificuldade em acompanhar, tal é a rapidez com que as coisas evoluem, que o que era ontem já o não é hoje.

Para que possamos continuar a desfrutar das boas jornadas de caça a que estamos habituados, é necessário tornarmo-nos mais observadores, mais interventivos, não deixando ao acaso a resolução dos problemas.
 

 
Imprimir   Imprimir
     
     
     
     
 
 
 
Votos (25)    
 
     

Comentário(s) (2)   Comentário(s) (2)    
    GESTORES DE CAÇA    
    GESTÃO DE CAÇA    
   
     
  Voltar

 
 

| Ficha Técnica | Aviso Legal | Política de Privacidade |

 

(TES:1s) © 2004 - 2017 online desde 15-5-2004, powered by zagari