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Uma caçada…, no Ardila
A caça aos javardos
 

     

Autor: João Santana Fialho Acabado

02-01-2010 14:35:00

 

   
A história que se segue, bem como outras que contarei, passaram-se há alguns anos, bastantes já, no entanto em tempos ainda recentes e apesar de tudo bem diferentes dos actuais. Tendo como pano de fundo o “P.R.E.C.”, com as ilusões, loucuras e desmandos que marcaram a época.


Breve Introdução


Aqui, no cenário o­nde se desenrolaram estas caçadas, Moura-Barrancos e mais tarde Alqueva-Portel, sentiram-se e viveram-se estes tempos com especial intensidade. De tal enquadramento político e social resultaram situações hoje impensáveis, inimagináveis mesmo, para quem quer que não seja da região. Naturalmente, a caça não fez excepção e foi englobada neste fenómeno. Tudo se passou durante muitos anos, sem sobressaltos, e tudo acabou do mesmo modo, tranquilamente, com o início das montarias, com a devolução da terra aos legítimos donos, com o progressivo ordenamento e com o aparecimento das novas coutadas. Da mesma maneira se deu também o desaparecimento da grande maioria das empresas agrícolas, ou de qualquer outro tipo, que sofreram colectivização, o que levou à posterior e inevitável venda e mudança de mãos da maioria das propriedades em cuja terra assentavam tais empresas, que foram deste modo completamente arruinadas e desmanteladas. Um desastre completo! Entretanto, aqui em Espanha, faz-se uma transição pacífica e tranquilamente a sua economia passou de um destroço, que era, ao que se vê…! Tivemos azar com os caminhos então escolhidos. Uma infelicidade!

Tomemos então isto que se conta, à conta das loucuras da época e não mais, pois tudo, disso não terá passado.

Faço esta introdução, como forma de esclarecimento e não como desculpa de nada, nem por sombras…! Se de alguma coisa me arrependo sinceramente é de não ter caçado mais, mas desgraçadamente na altura cada dia tinha apenas 24 horas e uma noite, e os anos não mais de 365 dias… Esta apresentação, eventualmente estranha, tornará claro muito do que se dirá, do que se passou e por que se passou assim e não de outro modo. Deixo ao critério dos confrades darem ou não crédito ao que se diz, pois como todos sabemos, nós caçadores, temos justificada e merecida fama de mentirosos, de gabarolas até…

Ficam então umas historietas e umas coisas ditas por um caçador… Um testemunho, portanto, mais que duvidoso!

Que não se perca, isso sim, nem a memória dos excessos e ilusões desses tempos, nem tão pouco caiam no esquecimento as formas de caçar antigas que se retomaram e reinventaram. Pode não haver, tão cedo, oportunidade para tal…!

Tendo começado a caçar javardos com vinte anos, sózinho, pertenço no entanto, não à primeira, mas à segunda geração de caçadores que, por aqui, retomaram este tipo de caça em consequência do reaparecimento em força dos ditos bichos. Note-se que em 1968 já havia em Santo Aleixo da Restauração cães apartados, só para os javardos. Em Safara foi logo a seguir, e daí em diante por toda a região começaram então a separar-se os cães que demonstravam especial aptidão para este tipo de caça. Alguns caçadores mais afortunados puderam caçar não só cá, mas também em Espanha, aqui por perto. Alguns destes caçadores já desapareçam, pois teriam actualmente, entre oitenta a noventa anos de idade, se fossem vivos.

Deste modo quando fiz a minha primeira espera, no Natal de 72, já havia grupos locais estabelecidos, joldas de caçadores, fechadas e discretas, com cães escolhidíssimos, que dedicavam boa parte das suas jornadas a esta caça. Eram os “javardeiros”. A falar com maior exactidão, a caça maior por aqui não terá chegado a desaparecer de todo, pois até meados de 70 as batidas e a caça aos lobos foram correntes e consideradas necessárias pelos prejuízos causados pelos mesmos. Assim, só na geração do meu pai e dos seus coetâneos rarearam, a ponto de quase terem desaparecido, tanto os javalis como os veados. Mas mesmo assim sempre se ia assinalando ou mesmo abatendo algum, aqui ou ali, muito poucos e muito à socapa. Lobos, como digo, houve sempre. Poucos já, nos anos 70. Nas batidas às raposas, o­nde com frequência se abatiam dez, vinte, até trinta peças, lá iam estes bichos aparecendo de vez em quando, sobretudo javalis, bem como alguns linces e gatos monteses, ditos por aqui de “cabeçudos” ou “cabeçanas”. Como curiosidade, viu-se que à medida que a população de lobos foi diminuindo, foi aumentando de igual modo a população de javalis, até que nos princípios de 80 prevaleceram estes. Este facto foi seguido com grande interesse e motivo de muitas conversas e “teorias”, no mundo dos caçadores locais.

A geração do meu pai, no geral, já não se interessou mínimamente pelos javardos quando estes tornaram a ser abundantes, pois viveram em pleno uma vida com fartura de perdizes, de lebres, de coelhos, de pombos, de rolas e de toda a sorte de caça miúda. Considerando, muitos deles as batidas aos lobos como um grande aborrecimento, por demoradas que eram, e o­nde iam apenas por obrigação para com parentes e amigos que tinham gados. Eu por mim, desde muito pequeno, agarrei-me sempre a quem gostava deste tipo de caçadas, companheiros do meu pai, e estando de férias não perdia uma. Já rapaz cheguei a vir de propósito de Lisboa e a regressar às aulas, acompanhando caçadores amigos. O vício começou cedo, pois aos três anos, nem dormi…! Fui à minha primeira batida às raposas, na Russiana, levado pelo meu pai, claro está, e com quatro lá voltei, desta vez já “aos lobos”. Bons tempos…!

Muitos desta geração, mais tarde nos anos 70 e 80, irónicamente referiam-se a nós como “caçadores de porcos” e achavam, lá na sua maneira de ver, que a mostravam claramente, ser de todo impróprio “dar um tiro num porco”, algo só comparável à indignidade de abater a tiro “um burro albardado”! Este remoque, ouvi-o eu vezes sem conta apresentado umas vezes de forma directa, outras de modo mais suave e discreto, mas não menos devastador, a caçadores veteranos, perdizeiros empedernidos, da linha dos Chicos, a que pertenci. Bem em vão tentava eu argumentar, mostrar as dificuldades e emoções deste tipo de caçadas… Bem longe se estava de sonhar sequer, a o­nda de paixão que esta caça viria a despertar! Bem longe estávamos então, tanto das montarias, como do necessário enquadramento legal para este tipo de caça.

Curiosamente, na geração dos nossos avós, a da Grande Guerra, houvera grande entusiasmo pela caça maior, a avaliar tanto pelas histórias que contavam os mais velhos, com pormenores de lances, de quem estava e não estava, de quem era bom atirador ou nem por isso, até mesmo dos nomes de alguns cães mais distintos, etc., bem como pelos atafais que até nós chegaram, espalhados por partilhas e heranças. Armas, cartucheiras próprias, facas, baleiros e moldes de zagalotes, chamarizes, cartuchos de bala velhíssimos, alguns com duas balas esféricas sobrepostas, etc. … Enfim os utensílios próprios dessa época, usados para este tipo de caça.

Estamos então, na altura das caçadas que descrevo, em pleno “PREC”, as nacionalizações e ocupações estão no seu auge, desmantelando todo o aparelho produtivo. Ocupam-se as terras, as casas, as empresas, mesmo empresas minúsculas, com três ou quatro empregados são “ocupadas” pelos funcionários em nome da “progresso e do fim da exploração capitalista”… E o patrão posto a andar! As rupturas no tecido social são dramáticas e exacerbadas pelo discurso político. Por aqui vive-se um clima de pré guerra civil… Chega-se ao ponto, aqui na Amareleja, de um grupo de jovens e de outros menos jovens, mas por certo igualmente tontos, tentarem ocupar uma casa, um casarão antigo, e expulsar os proprietários e moradores, para aí se vir a instalar e ensaiar, “sem incomodar a vizinhança”, um conjunto musical de rock, a formar a partir do distinto grupo de ocupantes...

Entretanto, neste longo entretanto, nós caçamos javardos, discreta e furiosamente, noite e dia, nas terras e matos imensos do “nosso bom tio Álvaro”… Tristemente, à época, só a caça junta gente de diferentes cores e sensibilidades políticas. De resto… Nem no barbeiro!

Uma caçada…, no Ardila


Estamos no Verão de 78 ou 79, um ano mau, seco. Daqueles em que até o Guadiana deixa de correr. Soa-se que os javardos aparecem já pelos campos de Mértola e de Portel, e que lá também já os vão caçando, sobretudo à espera.

O Ardila, o nosso Ardila está completamente cortado. Os pegos estão separados por cascalheiras e areais com centenas de metros. Só resta água nos fundões... No Ardila, ainda teremos que esperar uns bons anos até que os achigãs, que já fizeram morada em todos os rios vizinhos, se resolvam a instalar-se. Parece não gostarem desta ribeira… Isto apesar de terem sido trazidos para a barragem da Russiana, logo na sua introdução, para aclimatação e observação. Caramba… Já passaram muitos anos…!

Entretanto eu dou grandes passeios de mota e a pé, pelo leito da ribeira. Também sou pescador… A caça e a pesca são as minhas entretengas, a que dedico quase todo o meu tempo livre. Assim, com estes passeios, e por que gosto, vou sabendo de tudo ou quase tudo o que mexe e vai à àgua, numa extensão de muitos quilómetros, das Tojeiras à Coitadinha.

Entretanto, ali para os lados do Porto do Gola vêem-se umas boas patas de porco, macho de certeza, que as unhas das mãos, redondas, não enganam... Assenta a patorra toda, deve ser velho…! Não se consegue perceber se anda sózinho ou acompanhado pois a ribeira está toda ela marcada com o rasto de porcos e demais bicharada, que acodem em força ao maná que a ribeira seca, moribunda, lhes oferece. Estamos já na época das rolas, e nestes anos ainda vão aparecendo umas rolas boas… Decido, portanto, uma bela tarde, ir aos patos “de pêlo áspero”...

Preparados os atafais, junto uma sólida bucha e um cantil com água. Vou com o meu Pedro, ao tempo um rapazote. Ele por vezes acompanha-me ao campo. Estou a ver se se entusiasma pela caça, e se segue a linha da família. Abalamos cedo apesar do sufoco do calor, e por que gosto de ir cedo, bem cedo…! Entre outras coisas para dar tempo a que desapareça o rasto dos nossos pés, pois vamos ter que atravessar terra que obrigatóriamente será cruzada pelos bichos que vamos caçar. E por que gosto de assistir aos fins de tarde, ao beber e sossegar da bicharada diurna e ao aparecimento furtivo e cauteloso dos que andam de noite… O cair da noite é um momento único, mágico… É a transição subtil entre dois mundos que mal se tocam… Vale sempre a pena!

Vamos então para um rochedo, sobranceiro a um pego raso e largo, cheio de juncos e vegetação, vimeiros, loendros e tamujos. Está tudo volto! Do lado de lá, à nossa frente, na Botefa, estende-se uma imensa cascalheira, de cascalho miúdo misturado com nata e areão. Mais abaixo, fica a foz do barranco do Gola, e mais para baixo ainda, o porto do mesmo nome. Por cima de nós, ficam a Talisca e o porto do Carvalho. A zona é excelente, isoladíssima e linda!

À tardinha, com o Sol já baixo, lá vai aparecendo quem por lá mora… Ao fim do dia, com a quebra do calor, vem tudo a beber e a banhar-se, a passarada primeiro, depois os coelhos e o resto da bicharada. Devagarinho a pouco e pouco, uns por aqui, outros por ali. Alguns têm que esperar a sua vez… De o­nde estamos dominamos toda a cascalheira, bem como os piçarros mais salientes da enorme fraga em que nos encontramos. Por baixo fica-nos o pego principal, o mais querençudo e rasteado, cheio de poças e meandros, tapado de morraça. Uma maravilha!

Próximo deste local, mais tarde, virei a achar um patamar de rocha, ainda melhor colocado e com melhor cómodo, a que chamarei “a Rocha do Rei”. Um posto deveras excepcional!

Tem que se ter muito cuidado, que é zona de muitíssimos lacraus e de “ferropeias”. Nada de mexer ou de sentar em quaisquer pedras, sem primeiro ver bem o que está debaixo! E as calças bem fechadas… Bem metidas nas meias!

Ao pôr-do-sol, do lado da curva, subindo o rio, aparecem duas águias grandes, das escuras, são Reais, a patrulhar a ribeira, vêem de recolhida... Vivem na fraga do Grifo, estão no seu território. A comida abunda. Para que o Pedro as veja melhor, chamo-as, imitando a pega aflita… Seguimo-las com o binóculo. A mais próxima, agora mesmo por cima de nós, deita-nos um olhar frio, longo e inquiridor, enquanto nos sobrevoa em círculos cada vez mais apertados. O casal por fim junta-se-lhe… E eu calo-me com aquilo, que não é a melhor altura para chiadeiras... Desaparecem, rio acima, no seu voo lento e majestoso… Imponentes! Na sua presença tudo se aquieta e desaparece… O Pedro está encantado, e eu também!

No sossego, ainda com um ar de dia, lá aparece a raposa. Bebe, e volta a beber. Coça-se! Coça-se e volta a coçar-se…! Com energia e desespero. Deve estar cheiinha de pulgas…! Sorrimos ambos, enquanto ela se afasta, ligeira, cheirando e metendo o nariz por aqui e por ali, nas junças. De vez em quando pára, escuta, e nova coçadela... Coitada…! Logo a seguir vêem os texugos, um casal que vive ali, na texugueira que fica por cima da Talisca. Dão volta a tudo, metem-se nos juncos e na água, fungam, viram pedras, empreendem grandes esgravatações... Ouve-se o seu tasquinhar, rápido e miúdo… São de boa boca! Seguem para baixo, devagarinho, com avanços e recuos. Por fim, ao longe, deixa de se ouvir o seu resmalhar… O que se ouve agora, mesmo por baixo de nós, são as lontras, chiam e silvam, ainda não começaram a sua faina da pesca. Estão ainda na soleira do seu esconderijo, debaixo dum enorme vimeiro. Quando saem a caçar, já é necessário o binóculo para as vermos claramente. É noite a sério. A Lua ainda está baixa, e elas movem-se nas sombras por baixo dos juncos e dos arbustos. Quando por acaso as perdemos de vista, um ocasional rebolhar da água indica-nos a sua exacta localização. As poucas rãs que ainda não foram comidas pela bicharada, uma aqui, outra ali, só começam a cantar após passar tudo isto e de refrescar um pouco. A vida é dura por aqui!

Aproveito a relativa calma para comermos, só se ouvem as rãs e o mexer ritmado dos peixes na água. Ao longe, o grito da garça. Assim ficamos, um bom bocado. Devagarinho, arrumamos as coisas da comida e esperamos. Esperamos umas boas duas horas… O miúdo está quase dormido e eu, embora alerta, estou perdido noutros pensamentos. De repente como que acordo e tomo consciência do tempo que está a passar. Por que raio não terão vindo os javardos logo à ribeira? Possívelmente foram primeiro ao restolho que está lá para cima, nos assentos de terra de melhor qualidade. A comida aí não será muita, não pode ser muita, pois o gado tem tudo apurado, mas eles sempre se arranjam… E não se devem arranjar mal, pois se não, já cá estavam… Águas, mesmo poucas também não lhes faltam e eles conhecem-nas melhor que ninguém. Deste lado, haverá duas, se tanto… Os porcos que frequentam este troço da ribeira dormem, os do lado de cá, na encosta do “Cabeça de Madeiro”, bem por trás de nós, e os do lado de lá têm os encamadoiros na Cerca do Javali, à nossa frente, ou estarão aquartelados nos silvões do barranco da Botefa, que vem desaguar ao Vau do Gola. Na Botefa também há um restolho, lá para cima junto à barragem… Acordo o Pedro e digo-lhe o que penso. Ele está mesmo cansado, ouve-me pacientemente, acha que já não virão... O rapaz só já vê a cama…! Pois a mim, parece-me que não hão-de demorar! Se a volta foi essa, devem estar a aparecer para a sobremesa… De qualquer forma vamos arrumando devagar o estojo para nos virmos embora. Estamos nisto quando se ouve um guincho, à direita, bem por cima de nós! Estão lá em cima, vão descer a fraga! Ouvem-se agora pedras a rebolar e grande resmalhada. São muitos e vêem à vontade…

O sono e o cansaço desaparecem como se nunca por ali tivessem passado. Os porcos descem, uns cem metros à nossa mão direita. Por grande sorte nossa, o vento Norte, mal um sopro que corre ribeira abaixo, parou há bocado, de modo que descem, apressadamente, sem nos sentirem. Chegam à água em grande rebuliço, espalham-se e começam a comer. Raios! Ficou-se um ou dois para trás, a meia fraga. Desses me receio eu…! Ao mínimo bufejo de ar darão o alarme! Agarro o braço do meu companheiro e aperto-lho, ao que ele assente com a cabeça… Percebe perfeitamente o que se passa! Ficamos estáticos, até que os sentimos baixar… Por fim vemos duas sombras a entrar nas trafeiras… Ainda há milagres!

Agora dominamos por completo a situação, estamos uns bons quinze metros acima do leito do rio… Temos todo aquele rebuliço por baixo de nós. Corra o vento como correr, para baixo não irá, e os porcos têm tudo o que lhes possa interessar bem lá em baixo. Estão espalhados e completamente à vontade, revolvem tudo…! Ouvem-se pedras a ser voltas, água a ser violentamente mexida, patadas para cá e para lá, no cascalho… Ouve-se o tasquinhar estralado e guloso, bem como um ou outro grunhido, abafado, de satisfação. Os vultos custam a ver-se, aparecem e param, mexem-se aos poucos… Apesar de a Lua estar alta e claríssima não é fácil vê-los, os juncos têm a minha altura, poderão esconder até uma manada de vacas... A vara tem mais de vinte bichos. Por fim lá vou percebendo o­nde estão os maiores. São três. São três marrãs grandes, a maior deve ter para cima de cem quilos, deve dar sete arrobas… Atirar, a estas horas, cansados como estamos, nem pensar! Quem depois terá de puxar, arrastar até à carrinha, carregar, e depois esfolar e esquartejar algum bicho que se venha a matar, serão os criados presentes…! É que nem pensar tal coisa!! Portanto gozamos calmamente a estadia desta boa rapaziada que, pouco a pouco se vão deslocando rio acima, para a nossa esquerda, sempre com o vento no focinho, até que quase uma hora depois deixamos de os ouvir, bem para lá da Talisca. Devem ter subido pelo passo da fonte da “Água de Todo o Ano” e irão, por esses matos, direitos ao barranco do Bonito…

Está feito! Feito e bem feito! Foi uma bela espera, do melhor para encigueirar o Pedro, que está tão contente como cansado… Dará um bom caçador! Eu por mim estou mais do que satisfeito…, parece-me que arranjei companheiro efectivo, para estas voltas. É uma excelente companhia!

Enrolamos o estojo, descemos do nosso posto e vamos direitos ao carro, no Gola. De caminho, como sempre, mesmo em passo descansado, vou parando e escutando ao mesmo tempo que dou uma vista de olhos com os binóculos. Nada, e o sono já pesa... Dobramos a curva da ribeira com todo o vagar e, chegando ao carro, vamos já de conversa comentando o que se passara… Nisto, lá longe, muito lá para diante… O grito estridente da garça! Está espantada e zangada…!! Grita e volta a gritar! Rápidamente, num instante, deixo a mochila encostada ao pé de uma azinheira e seguimos ribeira abaixo. O Pedro vai um pouco contra vontade, para ele já chega... Mais e maior gritaria das garças…! Já não é só uma, são duas ou três…! Vou andando à pressa, páro, espreito pelo binóculo, e com as mãos atrás dos ouvidos tento ouvir o mínimo barulho que me possa indicar o que possa ter espantado assim as garças que, cada vez mais longe, ainda protestam enérgicamente. Continuamos, andamos mais e paramos. Mais um pouco… Parece-me ouvir a água... Ouço mexer a água! Serão lontras…? Quase corremos, para baixo, sempre para baixo… Direitos ao barulho que mal se distingue. Paramos, nada vejo, nem com binóculo, nem sem binóculo…! Mas ouço agora, longe e distinto, o som surdo e abafado do cascalho a ser pisado, de mistura com o mexer da água. Estão na água! Mais passos, e água a rebolhar… São porcos de certeza! Um ou dois…! A brisa, Norte, como sempre, corre para baixo encanada pelo vale da ribeira e segue direitinha a eles… Se ficamos especados sentem-nos não tarda… Nem os chegaremos a ver…! Toca a andar para a encosta da esquerda! Para cima, para cima… Bem para cima, para lhe sairmos do vento! Paramos a meia barreira. Com o binóculo, com calma, vou batendo todos os recantos e sombras. Nada… E nada! De repente, lá adiante, à direita, na imensa cascalheira que brilha à Lua, materializa-se uma sombra. Minúscula…! Depois outra, ainda mais pequena. Raios…! Parece que nasceram do chão! Subiram de um fundão e dirigem-se num chouto rápido para o lado de cá, o­nde desaparecem no meio das trafeiras, antes da margem. Novamente o barulho de água... Entrego o binóculo ao Pedro, que fica ali e sigo ligeiro, sózinho, direito a eles. Apanho as veredas das vacas, que se estendem à meia barreira e estão feitas em pó. Vou, num passo largo, rápido, inclinado, quase a correr, pisando leve… Não há um segundo a perder! Páro, e volto a escutar. Estou agora a uns oitenta ou cem metros. Ouço claro o borbulhar da água e um estralejar rijo e inconfundível… Estão a comer ameijoões, de que são muito gulosos. Sempre em completo silêncio, sigo, com os maiores cuidados, mas sem perder tempo, até que me sinto bem emparelhado com eles. Só me movimento, agora, quando ouço bem distinto o seu barulho… Continuo mais um pouco, passo além do ruído… Desço agora a barreira com todo o cuidado possível, vou parando e andando. Mais parando que andando. Torcendo-me para evitar toques nos ramos… Cautela, que o mato está seco e duro… Nem um roçar! Chego à várzea um pouco por baixo da mexida que se ouve. Como deve ser…! Contornei-os, e estou agora por baixo do vento que os serve. Estão fritos!! Lenta e cuidadosamente, acompanhando sempre o botão entre os dedos, destravo a minha belíssima e fiel Remington 1100. Agora, com a aragem já fresca na cara, aproximo-me por trás, dobrado e tenso, devagarinho… Páro, de cócoras, que a silhueta direita, com a Lua que está, é fatal…! Se eles param, eu paro! Levanto-me, dobrado, dou mais uns passos… Nem toco no chão! Agacho-me e assim fico... Estou em cima deles! Mesmo em cima deles! O mais próximo tenho-o a menos de oito metros, está todo dentro da água, para a direita, parado, quarteado, quase de costas… Encostado a uma rocha comprida que segue d'enquilhado e que quase o tapa. Está meio escondido. Não me parece ser o maior… o­nde andará o outro…? Nisto, um rebolhar violento vindo de trás da rocha, e vejo então erguer-se, escorrendo água, a cabeçorra, as orelhas e o cachaço do porco que tenho quase de baixo de mim, no seguimento do lombo que já estava vendo…! É o grande!! Estava de cabeça mergulhada à busca do petisco! Ao sacudir as orelhas, saltam salpicos e brilham-lhe as facas… Meto a arma á cara, mas atirar não posso, que ele dá dois passos arrastados adiante enquanto mastiga, tarrincando horrívelmente, e ainda se me tapa mais com o raio da rocha… O rilhar da casca das amêijoas é aflitivo, arrepia…! Como conseguem…!!?

Tiro do cinto a lanterna, é uma novíssima “Nuova Neptun” de caça submarina, e pouso-a suavemente ao meu lado. Aqui não me faz falta, pelo contrário, o Luar é tal e estou tão feito à sua claridade, que a fraca potência do foco só iria atrapalhar, borrando tudo. Só funciona bem em pleno no escuro. Aí sim!

Estamos nisto quando sinto barulho no cascalho, mesmo adiante de mim…! É o outro, que das tamujas, vem descendo, escorregando, para o fundão. Pára, já com as mãos dentro de água, funga e mete o focinho… É bem mais pequeno, será metade do que tenho adiante, não chegará às cinco arrobas... Fica mesmo por baixo de mim, um pouco sobre a esquerda, e vai na direcção do outro.

Concentro-me então no grande, que continua do lado de lá da rocha, vai andando e parando, aos poucos, mas desgraçadamente a rocha vai alteando. Atirar nem pensar, já mal lhe vejo o espinhaço... Levantar-me não posso… Com o outro ali mesmo, virado para cá, não me atrevo! Espero… Ele segue ao longo da rocha, agora completamente tapado…Sai da água… Continuo sem o conseguir ver… Pára! Funga, dá duas valentes tossidelas, volta a fungar… Mexe-se! Parece que vai subir… Vai, pois! Sobe a parede de cascalho… Começo a vê-lo… Sobe com dificuldade, os bolegos rebolam e não lhe dão firmeza. A meio pára, continua quarteado, dá-me agora as costas. É grosso…! Rodo nos pés, devagar, e meto a arma à cara, já o trago apontado… Estará agora a uns quinze, dezasseis metros… Está de nalgas! Que raio de tiro tão manhoso…! Bem…! Bem, só lhe vejo a massa dos presuntos e o lombo! A mão esquerda essa mal aparece, quase tapada… As orelhas mal assomam por cima da cachaceira… Se o deixo meter-se nas tamujas vai-se-me embora…! Fecho-me mais com a arma. Sinto-a no seu lugar… Apuro-me, tenho que lhe dar mesmo adiante da bacia. Tenho que o desquartilhar…! - O tiro estala! E é um pandemónio!

Aquilo parece um carrossel descomandado…! O porco atingido, dá urros de dor e fúria, e vem às reboletas por aí abaixo, pataleando que nem um demónio! O outro, desorientado, corre em redondo, fazendo saltar água e pedras…! À segunda volta sai do pego e passa disparado por trás de mim. Sobe a barreira a direito, nem busca caminho! Ouve-se o estralejar do mato a partir. Lá em cima, pára e fica-se… Está a orientar-se e à escuta…!

O meu, esse, ouço-o a mexer e não pára… desandou para trás da parte mais alta da rocha. Está no fundão, no seco. Dá dois ou três solavancos e pára… Está derreado! Em três saltos estou emparelhado com ele, páro, vejo-o sentado quase encostado à rocha, dali já não sai! Desço, quase escorregando, pela barreira de cascalho abaixo… Páro! A faca fica na mão, estamos a uns quatro ou cinco metros um do outro… É maciço! Entre nós, a água do bico do pego. Avanço! O porco, firme só nas mãos, roda, tenta subir e afastar-se uma última vez… Contudo não sai do sítio, não consegue…! Encosta-se mais à parede de rocha, vira-se de esguelha para mim, de boca escancarada… O olho rebrilha! Hesito uns instantes… Credo…! À faca não…! P’ra trás…!! Para reforçar esta sensata decisão, o porco esboça um arranco direito a mim… Bate-me a matrácula! Espuma…! Voam fios de baba…! O matraquear é sinistro! - Mudo a faca de mão e com ela na esquerda levanto a arma e aponto a paleta, baixo, no exacto alinhamento do coração… Ao estalo do tiro é como se tudo se tornasse lento, inevitável… O fogacho toca-o! Dá volta e cai inteiriço, de patas hirtas, direitas a mim, a cabeça esticada, a boca arreganhada… Amolece… Está morto! Aproximo-me, toco-lhe rijo com o cano… Não se mexe.

Lá no alto, ouço o outro abalar…

Agora, sim a faca! Uma afiadíssima ICEL de 21 centímetros... Uma pinchoada e dois valentes sacões… Pouso a arma e viro-o, para ir sangrando… Pesa…! Tiro-lhe os túbaros e corro a mão na vergalheira, uma, duas, três vezes… Cruz Credo! Que fedor a varrascum…! Levanto-me e estico as costas. Que alívio…! Lavo e esfrego as mãos e a faca, uma e outra vez… Jesus, que fedor!

Na nata da várzea sente-se o bater sincopado dos passos do Pedro, vejo o clarão de uma luz fraca que varre a ribeira… Assobio! A luz fixa-se o­nde estou, e o bater do passo acelera… Dirige-me a luz, que me encandeia, a custo vejo o seu vulto magro, que me pergunta… “Tio!?... Então…?” Aponto-lhe o javardo, junto à rocha… -“IIh…!! É grande!” Rio-me e digo-lhe para descer. De perto, com a luz, miramos e remiramos detalhadamente a nossa presa. É um aroucho… Um enorme aroucho, de cabeça comprida! Deve dar as oito arrobas… Tem as facas inteiras e parelhas. Tivemos sorte!

Para o conseguirmos tirar do fundão teve que ser de madrugada, com a ajuda de um excelente e possante amigo, companheiro destas andanças, e recorrendo ao auxílio de uma corda de carrego, bem comprida, puxando com a carrinha.

Bati à porta do Zé de Santo Amador, eram quatro da madrugada… Ele levantou-se, e perguntou ensonado: “- Então, é algum grande?”… - É, e está mau de tirar!

O Pedro ficou encantado... Donde estava, via intermitentemente os porcos, viu a aproximação e o tiro para baixo. Apreciou tudo… E foi dormir, que bem merecia! No dia seguinte confessou que gostara muito de tudo… Menos da morte do porco!


Atafais - os utensílios próprios da actividade.
Piçarros - picos salientes de rocha.
Ferropeias – escolopendras, enormes, grossas. Com especial tendência para se nos meterem na roupa, talvez em busca do calor.
Junças – juncos.
Assentos de terra – porções planas de terra de melhor qualidade.
Bufejo – sopro de ar muito ligeiro.
Trafeiras – um tipo de arbusto da beira de água.
Encigueirar – encegueirar, tornar cego, entusiasmar.
Encanada – canalizada.
Sair do vento – desviar-se lateralmente do vento que serve um animal. No caso para o lado e para cima.
Chouto – passo muito rápido, usado por alguns animais imediatamente antes do trote ou do galope.
Estar por baixo do vento – estar desemparelhado, para trás, do animal que é servido pelo vento.
D’ enquilhado – de esguelha.
Tamujas, tamujeiras – tamujos, em grande quantidade.
Bolegos – pedras arredondadas, roladas, que constituem a cascalheira.
Desquartilhar - desquartelar, derrear junto à bacia. O animal não consegue mover-se, por falta de controlo dos membros posteriores. Se for sério fica sentado.
Bater a matrácula – bater violenta e repetidamente as queixadas, o que produz um som cavo e seco. Instrumento em madeira que provoca um som seco, estalado e repetido. Era usado nas procissões da Semana Santa, ou nas batidas.
Aroucho – javardo com cabeça comprida, cachaço e quartos dianteiros avantajados e quartos traseiros sumidos, talvez por falta de comida durante o crescimento ou mesmo ainda na barriga da mãe. Pelo contrário quando o animal é grosso e parelho, diz-se “Alvar” ou “Porco-Montês”. Pensa-se serem estas diferenças devidas apenas à abundância, ou falta, de comida ao longo do ciclo anual. Parece tratar-se de adaptação de crescimento à disponibilidade alimentar, não de cruzamento com manso.
Na altura usava balas furadas tipo IDEAL, do Sr. Francisco José Simões, de 32,5 gramas. Muito boas, mas algo frágeis no impacto, sobretudo em tiros perto. No tiro de remate a bala não penetrou na caixa torácica! Explodiu e desintegrou-se na paleta, não obstante o porco ficou fulminado!

Amareleja, 2 de Fevereiro de 2009.
João S. F. Acabado


   
 Esta caçada que se descreve passou-se há muitos anos, logo após o 25 de Abril, com ela e com outras que se seguirão pretende o autor “levar a caçar consigo” o leitor, como fez durante tantos anos com os seus amigos e companheiros. O leitor estará presente, caçará como meu “convidado”, estará a meu lado e a meu cuidado, ir-lhe-ei descrevendo e explicando os comos e os porquês do que se passa. Só não me é possível pô-lo a atirar como dantes acontecia… e como gostaria! O objectivo destas histórias e descrições de caçadas é, continua sendo, o de ensinar e transmitir maneiras de caçar que são nossas, muito nossas, mas penso que do conhecimento exclusivo de muito poucos, uns quantos “privilegiados” e felizardos que nasceram aqui e por aqui andaram calcorreando atrás da caça. Pelo país fora outros por certo haverá, e daqui os saúdo!

Antes com o terreno livre, muito do conhecimento da caça era ciosamente guardado, passava de pais a filhos, a alguns amigos muito chegados e pouco mais. Escondiam-se ou camuflavam-se até alguns procedimentos e saberes, mesmo aos companheiros de jornada. Por isso eram tão fechadas certas linhas e joldas. Os convidados ou acompanhantes ocasionais participavam nas caçadas, por certo que sim, mas de modo algum neste saber. Quantas vezes se deixava de ir aqui ou ali, ou de fazer assim ou assado, por estar presente alguém que poderia “ficar a saber tanto como nós”… Esta atitude era de facto necessária para salvaguarda dos interesses próprios e do grupo… Isto no tempo do terreno livre! Hoje pelo contrário, é tempo, é urgente até, divulgar e se possível ensinar, na esperança que se salve alguma coisa do imenso património de saber cinegético que ainda temos. Se esta divulgação não for feita ficaremos “normalizados”, reduzidos ao saber que veículam vídeos, catálogos e revistas, isto é, viremos a ser obrigatóriamente todos, caçadores e gente da cidade que vai ao campo “exercer o seu desporto, em são convívio e em contacto com a natureza… ”. É, na minha maneira de ver muito pouco… Esta triste situação é consequência do fim das antigas linhas e joldas, coesas durante vidas inteiras, cimentadas pela amizade, por afinidades e cumplicidades várias, em contraposição com os actuais grupos de caça baseados em razões transitórias, de ocasião…

Desta forma o artigo presente é um dos que ilustrarão uma série de maneiras de fazer,” técnicas” chamemos-lhe assim, de aproximação. Pois como veremos, sempre através de exemplos concretos, há muitas outras maneiras de o conseguir, sendo bem distintas umas das outras e sendo algumas bem inesperadas…
No caso da presente descrição estávamos caçando, com Lua, na ribeira, em condições muito adversas, com o vento pelas nossas costas, e claro, direito ao focinho dos bichos. Tivemos portanto que “sair-lhes do vento”, isto é desviarmo-nos do vento que os servia, tivemos depois que contorná-los para lhes entrarmos por trás, “a bons ventos” e “cair-lhes” em cima. Como técnica de aproximação é básicamente o que este relato descreve. É evidente que só não fomos detectados, quando os sentimos e estávamos à sua frente, porque se deu o caso de os porcos andarem comendo nos fundões.

Os termos e conceitos também são nossos, portugueses de sempre, faço este reparo pois estamos a ser invadidos por espanholices mais ou menos tolas.

Faço e farei o meu melhor para pôr à disposição de todos os confrades o que aprendi e fiz, por mim e com outros. Quem tiver o gosto, as condições e a sorte de poder fazê-lo que o faça, para que não se perca a memória da Caça.

João S. F. Acabado
 
   
 

 
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Comentário(s) (14)   Comentário(s) (14)    
    A todos    
    O primeiro de muitos relatos???    
    Só uma palavra:    
    Belo momento!    
    Senti-me bem...    
    Eh!eh!eh! Aí Mestre João!    
    Muito bem    
    Bela prosa!    
    Magistral!    
    A Memória da Caça    
    Não tenho Palavras...    
    Com água na boca ...    
    Confrade João, obrigado pela caçada    
    Espectacular!!!    
   
     
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