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O Faisão no Entre Douro e Minho
 

     

Autor: Ricardo Carvalho

08-12-2004 10:00:00

 

Faisão comum macho
   
Paisagem típica da serra no EDM – Serra de Santa Luzia, Viana do Castelo
   
Paisagem típica da veiga no EDM – Veiga de Deão, Viana do Castelo
   
   
Ninho de faisão – ZCA de Vila Nova de Anha, Viana do Castelo (2004)
   
Numa região onde as espécies autóctones se encontram em regressão, ou pelo menos com níveis populacionais bastante baixos, o Faisão Comum poderá ser uma alternativa válida para um fomento e exploração racional dos recursos cinegéticos.

Origem e Distribuição
Originário da Ásia, o Faisão Comum (Phasianus colchicus) foi trazido para a Europa pelos Gregos na antiguidade. Actualmente podemos encontra-lo na Europa, América do Norte e Nova Zelândia gerando uma fonte de riqueza nos países o­nde é explorado de forma racional.

Morfologia e Biologia da Espécie
Esta é uma espécie com um marcado dimorfismo sexual. O macho é vivamente colorido enquanto a fêmea possui uma coloração muito mais discreta.

É uma espécie de planície e de baixa altitude, gostando de meios diversificados que comportem culturas, bosques e zonas húmidas.

Os adultos são polifagos, consumindo uma enorme variedade de plantas e pequenos animais (vermes insectos moluscos e pequenos vertebrados). Os jovens nas primeiras semanas de vida são essencialmente insectívoros.

É uma ave diurna, procura o alimento à vista, é portanto pouco activo nas horas crepusculares.

Aptidão do Habitat
As Zonas de Caça do Entre Douro e Minho (EDM) apresentam na maioria dos casos dois tipos distintos de habitat e com potencialidades diferentes.

- A Serra, normalmente zonas mais ou menos pedregosas, com declives acentuados e vegetação do estrato arbustivo composta principalmente por tojo, giesta, urze ou carqueja. Neste habitat, procedendo-se à sua melhoria principalmente através da recuperação de antigos terrenos de cultivo, há um forte potencial para o Coelho bravo e Perdiz Vermelha.

- A Veiga é uma zona de várzea o­nde predomina a Agricultura convencional, os terrenos de cultivo estão intercalados por parcelas incultas e pequenos bosques de folhosas com Amieiros, Salgueiros e Carvalhos infestados de silvas. Esta distribuição das parcelas forma uma paisagem denominada de mosaico. São zonas bastante húmidas, por vezes alagadas no Inverno.

Considerando então estes dois tipos de habitat distintos, entendo que a veiga terá melhor aptidão para o faisão. Este tem melhor poder de adaptação ao meio e defende-se melhor dos predadores e do homem por procurar como refugio o denso coberto vegetal que encontra nos bosques. Por vezes é possível vê-los empoleirar-se para passarem a noite em maior segurança a salvo das raposas e cães assilvestrados.

O faisão parece ter também maior resistência às agressões causadas pela agricultura convencional, nomeadamente pelas utilizações indiscriminadas de fitofármacos.

A veiga tem ainda como desvantagens para a Perdiz o facto de por ser plana não permitir o seu esquema de defesa preferido, que é procurar pontos mais elevados para ao menor sinal de perigo poderem voar. A vegetação dos bosques por ser tão densa acaba por proporcionar mais abrigo aos seus predadores que à própria perdiz, e o facto de não tolerar zonas com terrenos alagados.

A elevada influência humana nestes meios parece-me ser mais um ponto a favor do faisão.

Após várias tentativas falhadas, ou pelo menos com resultados muito pouco satisfatórios de repovoamento de Perdiz Vermelha nas veigas, verificou-se em algumas Zonas de Caça do EDM que ao realizar-se largadas mistas (de Perdiz Vermelha e Faisão) para exercício de tiro em campos de treino de caça, os faisões remanescentes destas largadas se adaptaram bem aos terrenos de veiga, tendo-se ai reproduzido com sucesso.

Não quero com isto dizer que se deverá por de parte a Perdiz Vermelha, pelo contrário, há que fazer um correcto estudo dos habitats das zonas de caça, através de estudos HSI (Índice de Adequação do habitat) para ambas as espécies. Podendo assim concluir-se qual a verdadeira aptidão do terreno.

Caso se verifique que existem populações autóctones de Perdiz Vermelha, (mesmo que num local com aptidão para faisão) então penso que por precaução deverá preservar-se esta riqueza autóctone e não proceder à introdução de uma espécie que é exótica.

Quem defende a não introdução desta espécie, poderia utilizar o argumento de que o faisão vai ocupar o território da perdiz. Na realidade isto não acontece pois tratam-se de dois tipos de território diferentes. O faisão se for solto na Serra rapidamente procura as zonas mais baixas, as de veiga para ai se estabelecer.

Potencialidades da Região
Segundo o PROF (Plano Regional de Ordenamento Florestal) a distribuição das espécies cinegéticas que podemos encontrar na Região de Entre Douro e Minho, localizam-se de acordo com as exigências das mesmas, as quais se encontram espelhadas no quadro seguinte.

Habitat

Campos de cereais rodeados por bosques de folhosas diversas

Tipo e capacidade de uso do solo

Variados, Agrícolas e Florestais

Altitude

100m aos 700m

Temperatura média

10ºC a 15ºC

Pluviosidade

800mm a 1500mm

Alimentação

Variada de frutos secos e carnudos, rebentos, insectos

Segundo ainda o Plano Regional de Ordenamento Florestal, de uma maneira geral esta região apresenta algumas condições para a presença desta espécie, nomeadamente em zonas interiores de altitudes médias o­nde existem campos de cultivo intercalado com algum coberto arbóreo. Apenas a área metropolitana do Porto e Entre Douro e Vouga não apresenta condições para esta espécie.

Actualmente a sua presença é escassa em todos os Concelhos da Região de Entre Douro e Minho exceptuando-se alguns Concelhos da área Metropolitana do Porto e Entre Douro e Vouga o­nde a sua presença é nula.

Num estudo Britânico citado por Pascal Durantel, (1995) é nos habitats compostos por terrenos de cultivo e pequenos bosques de folhosas que se podem obter maiores populações de faisão cerca de 25 a 40 faisões em 100 ha, pode então verificar-se que o tipo de habitat disponível no EDM é o adequado e esta espécie e poderá ser mais uma fonte de riqueza que o campo nos pode proporcionar.

Numa região o­nde se encontram cerca de 20% dos caçadores portugueses e não sendo uma das melhores regiões de caça do pais, esta espécie poderia vir a trazer um novo alento à região.

Realidade actual
Actualmente o faisão por ser uma espécie exótica (embora presente na Europa já à alguns séculos) não está a ser autorizada a sua introdução em zonas de caça.

Segundo o nº 1 do Art.º 5º do Dec-Lei 202/2004 de 18 de Agosto, só é permitido efectuar repovoamentos, reforços cinegéticos e largadas com espécies cinegéticas identificadas em portaria do MADRP. No entanto não tenho conhecimento da publicação da mesma.

O que acontece então normalmente é que os repovoamentos não são autorizados (o que já acontecia quando vigorava o anterior diploma de regulamentação da Lei da Caça).

De salientar ainda que no caso de largadas de faisões em campos de treino, caso este se encontre dentro de áreas classificadas, por carecer de parecer do ICN, normalmente também não são autorizadas.

Conclusões
- Segundo o Plano Regional de Ordenamento Florestal existem na região boas condições para esta espécie.

- É de fácil introdução

- Existem em Portugal criadores devidamente credenciados, que apresentam garantias de bom estado sanitário e pureza genética.

- Há vontade por parte das zonas de caça em proceder à sua introdução.

- É uma boa alternativa para os caçadores, sendo a sua caça de salto com cão de parar de elevado valor desportivo.

- Exerce-se menor pressão sobre as outras espécies sedentárias, uma vez que as atenções passam a estar viradas para o faisão, estas podem assim mais facilmente recuperar.

- Porque o habitat preferido é muito semelhante, serve de complemento na caça à galinhola.

- Mesmo que esta espécie possa competir por território (o que não está provado) não vai haver interferência porque estou a falar de espaços diferentes.

- Outros países cinegeticamente mais avançados já o introduziram à muito tempo e obtiveram bons resultados.

Porque não se autorizar a sua introdução de uma forma racional e parar-se assim com as introduções disfarçadas de largada para tiro?

Agradecimentos

Ao M. Barreto por gentilmente nos ter cedido algumas imagens.

 

 
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