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Histórias de Caça

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A partida da Zabala...
 

     

Autor: MIGUEL PEREIRA

11-02-2010 10:00:00

 

   
Vai para mais de uma década vi à venda uma reedição de um modelo original, de há 50 anos atrás, da Hernanos Zabala que me deixou embevecido. Tratava-se da clássica justaposta em calibre 12, com cães, platina inteira gravada, charme e bom gosto a um preço aliciante. No entanto, mesmo com tantos predicados o momento financeiro da altura não era o melhor para mim e as coisas ficariam por ali... não fosse ter comentado tal visão e preço com meu irmão.

Dois ou três dias depois dessa rápida conversa liga-me meu irmão com uma novidade totalmente inesperada:

- Olha estive a pensar no que me disses-te acerca da espingarda e decidi comprá-la para mim. Podes lá ir buscá-la? Mando-te os meus documentos por fax e faço transferência.
- Tens a certeza? Tu nem viste a espingarda ...!
- Epá, se gostas-te da espingarda é porque vale a pena e realmente avaliando pelo preço parece-me uma oportunidade a não desperdiçar.”

Fiquei sem palavras, mas obviamente que lhe disse que trataria do assunto. No fim-de-semana seguinte lá lha levei.

- Realmente é bonita. Valeu a pena!

Curiosamente a estreia da Zabala nesse ano só aconteceu pela minha mão em duas manhãs de espera aos tordos. Serviu bem para lhe espetar com cerca de duas centenas de tiros e iniciá-la nas lides. Outros pormenores interessantes é de que realmente me ficava bem no encare e balísticamente parecia também ter tudo no lugar, quer para tiros de média ou longa distância. Nesses dias os tordos não levaram a melhor, houve só que reaprender a rotina de armar e desarmar os cães entre tiros e recarregamento.

No entanto estava reservado à Zabala um longo descanso. Meu irmão só pegou nela episódicamente para uma caçada aos coelhos e foi tudo. Assim foi ficando abandonada e esquecida no armeiro porque meu irmão também é tradicionalmente um bocadinho avesso a mudar de rotinas e de armas. Um dia ainda lhe perguntei se a desgraçada estava condenada a apodrecer arrumada no armeiro.

O tempo foi passando e a Zabala volta a ter uma oportunidade de regressar ao campo novamente por meu intermédio. Tinha de ser eu a ir-me lembrando dela. Desta vez numa manhã às lebres. Mas, coitada, deu dois tiros e acabou-se. No entanto era para mim um prazer renovado tocá-la e olhar para ela durante um dia de caça. É realmente um tipo de arma com uma mística inigualável, e o facto de nos darmos bem entre nós quando chegavam os momentos da verdade também ajudava o seu bocadito.

Ouvi algumas vezes dizer a certos Confrades mais idosos que algumas espingardas são como as mulheres. Porque sem muita racionalidade, ou se gostam ou se detestam, por razões que nunca sabemos verdadeiramente explicar. Talvez nessa lógica, fui criando alguma cumplicidade manhosa com esta Zabala, e como, ainda por cima, o dono não lhe ligava a mínima ... a ocasião fez a traição!

Só que chegou o dia em que os nossos “namoros idílicos” se estragaram. No início desta época de caça condicionada em parte pela minha ausência por terras africanas, decidi, com alguma nostalgia, caçar sempre com a Zabala nos poucos dias que pude, como que a dar-lhe finalmente a oportunidade que ela nunca tinha tido a sério.

Nos dois primeiros dias de caça ela assegurou em pleno e mais não concretizou por mera culpa do utilizador. Mas no terceiro dia de perdizes e lebres, as coisas complicaram-se inesperadamente. A minha menina bonita resolveu amuar e em vez de dançar o que o povo dança e gosta no meu país, começou a ter um inoportuno e perigoso problema com o cão do cano esquerdo. Numa fase da jornada em que caminhava entre estevas altas que lhe iam dando leves vergastadas nos canos disparou-se subitamente e uma das nossas cadelas não foi atingida por sorte. Curioso como na altura elas se aperceberam que aquele tiro para o chão não era natural ...! E, para ajudar, levantam-se perdizes pouco mais à frente assustadas com aquele tiro. Sem isso esperariam por mim, que ainda nada trazia à cintura.

Meu irmão que seguia um pouco mais ao lado, no nosso inconfundível estilo de anos e anos de caça de salto, nem se chegou a aperceber bem do que tinha acontecido. E eu próprio considerei na altura ter sido um mero acaso, uma coincidência.

Substituí o cartucho deflagrado, armei o cão desse cano, pacientemente respirei fundo para mais uma caminhada atrás da perdizes.

Duzentos metros mais à frente volta a acontecer o mesmo. Já não facilitei mais. Mas que raio se passa com a espingarda?

Junto-me a meu irmão que também me dá a novidade de que não sabe do telefone. Não sabe se o deixou no carro ou se lhe caiu do bolso das calças? Uma maçada e arrelia porque tem lá mais de trezentos contactos. Diz-me que vai já para o carro tentar encontrar o telefone, que logo virá ter comigo. Eu que continue por ali e não interrompa a caçada que ele logo tornará e, nisto, se vai ligeiro e carrancudo.

Quando volto a colocar novo cartucho no cano esquerdo e faço o gesto de rearmar o cão é que me apercebo que há por ali um problema com o mecanismo que é suposto segurar a mola em tensão. O cano não se volta disparar porque seguro o cão com o dedo. Confirma-se mais uma contrariedade e eu sem poder falar com meu irmão para me trazer já outra espingarda do carro, vou pensando alto.

- Raios me partam. Agora só me faltava ter de andar a caçar com uma monotiro.

Afastar-me muito dali também provocaria o nosso desencontro caso ele não encontrasse o telefone. Ok, vamos fazer as voltinhas do empata. Volto a passar perto do local o­nde as perdizes se levantaram e sou surpreendido por novo Prrrrrrr. Já se eleva ligeira no ar a cerca de 30 metros, volto para lá a monotiro improvisada, o tiro parte sem qualquer fé, e a perdiz atirada de rabo cai com aparato contra a espessa massa de estevas.
Corro apreensivo para o local. Nestas alturas e nestas condições a confiança é zero. Esta desgraçada não se chegou a levantar com as outras, correu para se afastar e julgou que podia ficar descansada por ali. Mais tarde chamaria pelas outras e a elas se juntaria, mas a Zabala e o telefone desaparecido trocaram-lhe completamente as voltas.

- Ferida, Boneca. Ajuda também Rubi, ferida. Está por aqui, ferida.

Afinal é tudo muito rápido. A perdiz está realmente redonda, e eu preocupado porque no meio de tanta esteva também só lhe poderia fazer um único tiro para a segurar se ainda conseguisse correr por ali fora. Como custa nestas alturas de grande precipitação carregar rapidamente a arma e voltar a rearmar o cão. A nostalgia paga-se cara agora.

Tento ligar a meu irmão, mensagem de desligado. Continua sem ter o telefone consigo. Se calhar não está mesmo no carro e foi perdido! A ser assim meu irmão terá seguramente uma parte do seu dia já estragada.

Gostaria de procurar o bando das perdizes mas continuo dependente de meu irmão e sem comunicações para combinar o nosso reencontro. Ponho-me a pensar em como irei fazer a próxima volta para passar tempo quando sou subitamente arrancado dos meus pensamentos pelos latidos aflitivos da Boneca. Achou uma lebre nas estevas. Olho para todo o lado mas não consigo vislumbrar qualquer movimento a não ser o da Rubi, lançando-se em corrida para ajudar a companheira. Só que no local em que ela entra, sai a lebre em sentido contrário mais alguns metros adiante na borda das estevas. A malina já tinha enganado completamente a Boneca, aguardando junto à extrema a melhor altura para sair ao caminho e por-se a andar.

Segue em corrida a uns 25 metros de o­nde estou. Vejo-a bem correndo pelo meio do caminho, tenho tudo do meu lado para concretizar o lance. A Zabala sobe rapidamente para o encare e quando a tensão do dedo indicador pretende fazer libertar a energia do seu cano esquerdo, segue-se um silêncio arrasador. O cano não dispara e a lebre já desaparece na dobra do caminho.

- Adeus, passem bem ...!

Entrei em “fusão”. Baixo a espingarda e olho incrédulo a tentar perceber porque é que agora nem este cano dispara. Não posso acreditar. Não dispara porque simplesmente o cão repousa em descanso em cima do percutor, não foi armado. Eu próprio, por uma questão de segurança, o tinha deixado assim antes de telefonar a meu irmão. Quando guardei o meu telefone não me lembrei de voltar a puxar o cão ao reiniciar a marcha. Só me faltava mais esta. Bolas!
Chamo as cadelas para ao pé de mim, enquanto me sento a recuperar do “feito”. Boa hora para comer a sandes, que bem mal me sabe ainda debaixo da sugestão e desalento com o que tinha acabado de suceder. A sandes vai quase toda para as cadelas. Caçador que se preze não consegue “engolir” bem certo tipo de coisas, e eu não fujo à regra.

Tento encontrar algum consolo mirando as penas do peito da perdiz que já trago à cintura. Mesmo sem vida continua magnífica e altiva. Se pudesse, de pronto lhe restituiria a vida, a tal contradição que só os próprios caçadores conseguem entender!

Finalmente meu irmão surge. Confirma-se a perda do telefone que não está no carro. Está inconsolável e diz-me que a sua manhã de segunda-feira será muito complicada com coisas que tem agendadas e sem possibilidade de contactar as pessoas porque tem obrigatoriamente de arranjar outro telefone e 2ª via do cartão. Diz-me que não está com cabeça para andar à caça.

- Vou para o carro. Espero lá por ti, deixa-te andar à vontade.
- Ok. Mas tenho um problema num cão da espingarda. Só dispara um tiro. Podes trazer-me a outra espingarda de reserva? Vou ter contigo daqui a meia hora lá em baixo ao portão junto à estrada alcatroada.
- Ai sim? É estranho, uma espingarda com tão pouco uso! Tá bem, buzino quando chegar lá.

Assim aconteceu. Mas quando abro a funda para tirar a espingarda de reserva descubro nova contrariedade. A espingarda de sobrepostos que lá está dentro é afinal a Franchi de meu irmão que é esquerdina. Pois, meu irmão é esquerdino...! Por algum motivo fortuito aconteceu esta troca sem que desse por ela, é o que faz tantos dias chegando a correr de Lisboa para arranjar as coisas para a jornada do dia seguinte.

Lá vou pensando para mim próprio como este dia está de facto a ser fantástico! Que mais faltará acontecer? Agora estou condenado a ir caçar com uma esquerdina, vai ser bonito. Salto de uma monotiro para uma esquerdina. Ainda bem que ando sozinho.

Volto a chamar e incentivar as cadelas, parto para mais uma volta. Vou até à ribeira que costuma ser tão boa para a caça espantada de diversas procedências se encostar. Daí facilmente também consigo bater as margens da barragem do Monte das Agulhas, outro local pelo qual a caça tem sempre uma apetência especial quando a obrigamos a mexer-se. Há calor, o calor de alguns Outubros declaradamente quentes, que nos fazem estoirar o físico durante o dia mas que à noite nos dão brisas serenas e agradáveis. As cadelas acusam-no também. Terei de lhes dar alguma água quando passar à barragem, não teremos mais de hora e meia para continuar a caçar sob estas condições.

Avanço agora por terrenos mais abertos, algumas baixas com pastos e fenos apelam à lebre ou alguma das codornizes que restam, mas continuo sem um salto. Até que junto a uma ribeira seca ladeada por giestas se dá novo Prrrrrrrr. O primeiro tiro parte e nem lhe toca. O segundo espeta com a senhora de pé vermelho no chão, mas aparentemente de asa.

Lá vai ela a correr junto a um alqueve no inconfundível estilo “cabeça erguida”. As cadelas já se aproximam a encurtar distâncias. A perdiz tenta voltar para o lado da ribeira o­nde terá a coberta vegetal a seu favor para se esconder. As cadelas entram exactamente o­nde a vi meter-se. Mas dá-se o inesperado. A perdiz consegue levantar novamente, quase na vertical, mesmo com a asa partida e segue num vôo trapalhão para o lado do alqueve. Sigo-a com os canos, para a tentar segurar, mas volto a baixar a arma, é evidente que não conseguirá ir longe. Cai já vinte metros dentro do alqueve, provavelmente quando o osso da asa se parte de vez. As cadelas rapidamente tratam do assunto.

Mas o movimentado do lance acabou com as poucas reservas que elas ainda tinham, as línguas arfantes penduradas dizem tudo. Novamente em marcha já não me querem largar as botas.

Tiro uma linha recta para ir já direito ao carro. Terei de passar o montado o­nde ainda consigo cobrar um torcaz. Quem diria uma perdiz e um torcaz com uma espingarda que não está alinhada para o meu encare? E tanta gente que anda constantemente a alterar coronhas e nunca acerta com nenhuma.

E a perdiz com a Zabala monotiro? Um dia diferente em tudo, e uma grande azelhice minha não me deixa trazer também uma lebre num dia caçado até às 11:00h. Para além da birra da Zabala, perdoe-se também ao caçador a falta de jeito nalguma ocasião menos feliz. Décadas a caçar com espingardas “mochas” não permitem milagres.

Curiosa também a reacção de Mestre Fernando, meu espingardeiro de sempre das Lapas, ao rever a Zabala após vários anos, quando lha deixo para reparar aquele cão.

- Gosto muito de voltar a ver uma destas. Já aparecem tão poucas. Sabia que quando abrimos um exemplar destes, temos lá 30 ou 40 peças nos mecanismos?

Sei, claro que sei. Por isso são especiais e eternos clássicos. Afinal não sou o único a deixar-se levar também pelos ares da menina caprichosa. Mas, cá para mim, ainda serão precisos mais alguns dias de caça para tornarmos a fazer as pazes entre nós, sem lugar a mais amuos nem birras.

 

 
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Comentário(s) (8)   Comentário(s) (8)    
    Parabéns Miguel    
    Muito boa    
    História muito gira    
    Parabéns Miguel    
    Grande GRALHA    
    Deliciosa descrição    
    As armas    
    Uma curiosa e certeira...    
 
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