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Histórias de Caça

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Uma «Espera» a um «Velho Artista»
 

     

Autor: JOAQUIM JOSÉ DE OLIVEIRA MOURATO

02-03-2010 13:03:29

 

O «bicho velho e manhoso» e o autor
   
   
O «Faqueiro do artista»
   
Decorria o mês de Agosto de 2006. O calor “apertava” como de costume, mas felizmente esse ano não houve seca. O Inverno, embora não tivesse sido muito chuvoso, deu água suficiente. Os montados carregaram de bolota, que para além de ser muita, estava sadia.

O frio Inverno deu lugar a uma Primavera suave, com alguma chuva e dias solarengos.
Tudo se compunha para que os gados e a fauna selvagem tivessem um ano de abundância. A bolota conservou-se até fins de Maio, o que para os javalis foi uma bênção. Agora, com as novas florestações de sobreiros, grandes áreas ficam preservadas de pastoreio do gado, para não danificar os “chaparrinhos” novos. Como nestas áreas normalmente já existem sobreiros e azinheiras dispersas ficam assim constituídas enormes reservas de comida à mercê da caça. Embora estas florestações sejam vedadas com cercas, a verdade é que os javalis rapidamente abrem “gateiras” por o­nde furam, para ir à procura das saborosas bolotas. Conhecem as azinheiras que dão a primeira “melosa” e as que têm a bolota mais doce, visitando-as quase todas as noites à procura daquele belo petisco. Mais que uma vez, “enganei” alguns esperando-os nesses sítios.

 
   
 «É o “escudeiro”. O porco velho dá-lhe protecção e “escola”, mas em troca é o recruta quem tem que servir de “carne para canhão” nos sítios em que o “patrão” desconfie de algum”problema”. Quando o caçador tem pouca experiência e o “dedo leve”, o desgraçado do escudeiro é que “paga as favas” e o velho manhoso salva-se. Por isso chegam a velhos!» 
   


Bom! Em anos, como aquele, os “esperistas” só podem ter resultados muito magros.
Com a barriga atestada de boa comida, e sem falta de água, os “artistas”carregam-se de cautelas em todos os sítios de “compromisso” tornando muito difícil a missão do caçador. A bacorada “entra”, de qualquer maneira, de dia, correndo “estouvados” pelo campo, fazendo mais algazarra, do que os tendeiros numa feira.

Os porcos velhos, esses têm “gaitas”. De “barriga cheia”, têm vagar para “aguentar”, o tempo que for preciso até estarem seguros de não haver “azar”. Em face deste cenário caçar um porco “bom”, só com muita sorte e “carradas” de paciência.

Tinha visto, por casualidade, numa tarde, uma “passagem” dos porcos numa cerca de arame farpado num local a que chamamos “Tapadão D’Almeida”. Na terra empoeirada, junto dos arames, lá estavam as “marcas” dum porco grande. Pela largura e profundidade tinha que ser um porco “a sério”. Embora houvesse mais rastos, eram mais velhos, e na noite anterior o porco tinha passado ali sozinho. Era um bom sinal, seguramente seria um macho velho. Normalmente andam sós, juntando-se unicamente às fêmeas quando estas têm “ganas de namoro”. Algumas vezes são acompanhados por um “macho novo”. É o “escudeiro”. O porco velho dá-lhe protecção e “escola”, mas em troca é o recruta quem tem que servir de “carne para canhão” nos sítios em que o “patrão” desconfie de algum”problema”. Quando o caçador tem pouca experiência e o “dedo leve”, o desgraçado do escudeiro é que “paga as favas” e o velho manhoso salva-se. Por isso chegam a velhos!

Rapidamente ali improvisei um comedouro com um pouco de cereal e uma “banheira” com uns pingos de resina natural. Quando o calor aperta e os carraços atacam, os javalis adoram esfregar-se na resina, para se verem livres daquela praga.

Não fiquei com muitas esperanças, pois às vezes, è um porco que passa e não tem por ali caminho habitual.
Passados três dias já os porcos tinham comido. Não consegui achar o rasto grande. Seriam seguramente outros, pois haviam muito “mexido” e os porcos grandes deixam pouco.
Resolvi, depois de pôr mais comida, aguentar mais um par de dias para ver se via alguma marca do “artista”.

Passados dois dias, junto à banheira, lá estava o rasto enorme das “pezunhas” do porco. Era ele, agora tinha a certeza de que tinha voltado. Havia que preparar tudo já, ainda por cima a lua estava no terceiro dia do crescente. O sítio que me pareceu melhor para o “posto” era na “chapada “ do outro lado de um pequeno regato, agora seco, mas fundo.

À “meia barreira”estão dois chaparros donde se via bem o comedouro e a “passagem”. Na sombra de um dos chaparros podia “tapar-me” da Lua. Com rapazes destes é preciso todos os cuidados. O brilho do cano da carabina ou de qualquer outro objecto é o suficiente para denunciar a nossa presença e adeus javali. Muitos caçadores gostam de usar nos chapéus emblemas e uma série de “latinhas”, que até são bonitas, mas na caça fazem tanta falta como uma viola num enterro. Qualquer movimento mais brusco da cabeça, tanto ao Sol como à Lua, e parece que temos um lampião ali pendurado. Quanto menos “enleios”, melhor.

O pequeno “limpo”, o­nde estava o “cevadouro” e a “banheira” era um pouco “apertado”, sendo possível ver dois metros à volta, mas o pior era a distância. Desta vez estava a exagerar, mas com um porco velho, quanto mais longe melhor. Na verdade também não havia outra maneira para me colocar, de forma que “o que não tem remédio, remediado está”. Cento e muitos metros. Mais perto ou mais longe o que fazia falta era que o porco “entrasse”, porque sem ele é que não havia “função”.

Nessa primeira noite entraram três porcas com uma mão cheia de rapaziada nova. Armaram ali um verdadeiro “escândalo”. Uma barulheira desgraçada! Quando acabaram o banquete abalaram, e cá o “padecente” a “aguentar” ali mais duas horas com a companhia dum exército de melgas que não me largavam de maneira nenhuma.

Assim acabou a primeira espera.

Duas noites se seguiram com o mesmo “filme”. No fim da terceira noite já começava a pensar em “meter uma folga”, se calhar o meu amigo tinha ido fazer outra viagem diferente.

O grande problema é que, os que “padecemos” desta doença, esquecemos rapidamente estas “injecções”, e no dia seguinte já temos o “vírus” outra vez.

Desta forma à meia tarde, lá ia eu de novo, de “bagagem” aos costados pronto para outra.

Cheguei ao “posto” ainda com Sol e rapidamente aprontei o “material”, em total silêncio. Nunca se sabe se não há porcos “encamados” perto, por isso o melhor é ir pelo caminho mais recto, o mais depressa possível e sem barulho.
Atei num ramo do chaparro uma fita de plástico muito leve, que me indica sempre a direcção do vento. Se o vento se “volta” o que estamos a fazer é avisar os javalis que estamos ali. Sentei-me disposto a “esperar” até me fartar.

Diz-se por aqui que”de Espanha nem bom vento nem bom casamento”.Quanto ao casamento não sei como será, mas o vento!!! Esse é falso como o judas. Quando pensamos que está firme “na cara”, já ele está nas costas. Pois bem! O vento estava “espanhol”, e de momento parecia firme. A fita de plástico continuava a esvoaçar na minha direcção. Uma nuvem de “ladrões de sangue”voava à minha volta, prontos para me darem umas valentes ferroadas. Tratei de por um pouco de repelente. Queria estar o mais quieto possível.

Pôs-se o Sol. Aquela hora a que chamamos “lusco-fusco”é uma “carga de trabalhos”. Já não se vê bem porque não há luz do Sol e ainda não se vê bem porque a Lua ainda não alumia o suficiente. Quando os javalis entram nessa altura, há que puxar das habilidades e resolver a “papeleta”o melhor que se puder.
Pois, foi o que aconteceu. A um par de metros das pedras que tapavam a comida, estava um vulto negro, ainda meio escondido pelas giestas circundantes. Tinha que ser o porco grande!!!!

Estava “especado” já havia alguns minutos, sem se mexer. Não o conseguia ver bem com os binóculos. Veio pelos eucaliptos, junto ao regato. Com rama seca caída no chão e a terra dura e não fez barulho nenhum. O grande cab… tinha vindo de “sapatilhas”. Sozinho e com tantas cautelas tinha que ser o “artista” que eu esperava!
Passaram mais alguns minutos e o vulto deslocou-se para o “limpo”Agora já o via bem, de “ventas” no ar, parou ao pé das pedras. Já não tinha dúvidas, Era ele!!!
Agarrei a carabina e com toda a calma destranquei o seguro. Apoiei lentamente o cano no espeque. O pasto seco dava um óptimo contraste com o vulto negro. Afinal a coisa estava a compor-se.

O porco era enorme. A frente levantada e a traseira descaída. A cada momento olhava a fita, mas naquela noite o “vento espanhol” continuava certo. Assim que se “atravessou”, o tiro ecoou por aqueles “cabeços” fora, e ouvi perfeitamente a bala embater no animal.

Agora o “gajo” já pisava as ramas secas naquele galope desenfreado que repentinamente parou. “Está despachado”, pensei.

Toca a arrumar a “tralha” à pressa e corri para a “furgoneta”. Como o regato é fundo e “sujo”era preferível dar a volta de um par de quilómetros que ia ser mais rápido. Além do mais o porco deveria estar morto, pelo que era preciso o transporte para o carregar.
Chama-se, por aqui, a isto “contar com os ovos no cú da galinha”.

Chegado ao local do tiro, procurei sangue, mas nada. Eu sabia que o javali não estava “no tiro”, porque o tinha ouvido a correr, mas esperava encontrar sangue. A única coisa que se via era o “arranque” marcado no chão, o­nde foi atirado. Com o chão assim duro e sem “pintura” não há nada a fazer. Há que voltar à madrugada para procurá-lo.

Raios partam a sorte!!!!

Aquela noite não “preguei olho”. Não era capaz de dormir, e tentava a muito custo estar quieto, para não acordar a “patroa”.
A cama tinha “picos”, assim às quatro da manhã, levantei-me.
Passei pelas “bombas da Gasolina”, para tomar um café. Estão abertas toda a noite. Embora não tivesse dormido nada estava bem desperto. Por um lado, tinha a certeza que o porco estava morto, por outro a verdade é que não havia sangue, e isso era muito mau sinal.

Devagar, lá me meti ao caminho, fazendo tempo para que começasse a amanhecer.
Passei ainda pelo “monte” a apanhar um cão que não é grande coisa, mas é melhor que nada.

Largando impropérios todo o caminho lá cheguei ao “Tapadão D’Almeida, tendo ainda que esperar uma meia hora até começar a ver bem. Quando não há sangue tenho por costume começar a procurar fazendo círculos concêntricos cada vez maiores, pois não sabemos ao certo a direcção que o animal tomou. Pouco depois de ter começado, a uns quinze metros do cevadouro, encontrei sangue na cerca de arame. Dois metros mais para lá estava sinal duma “queda” do porco e aí havia uma valente poça de sangue.
Eu sabia!!! Dali para a frente já seria fácil. A “pintura” era abundante, de sangue claro, sinal evidente de tiro de pulmão.

A uns quarenta metros, debaixo dum eucalipto, lá estava o enorme corpanzil mais teso que um carapau.
Tentei abrir-lhe a boca, para ver bem o “faqueiro”, mas não fui capaz. No entanto o que se via cá fora era espectacular. Belo animal!!!

O tiro entrou pelo “costado esquerdo” furando o pulmão e rachando em seguida o coração. Há que ver o que aguentam!!! A duras penas, consegui carregá-lo com ajuda duma grade que sempre levo na “carrinha”. Trabalho escusado!!! O calor da noite tinha estragado a carne. O javali estava inchado. Depois da esfola, deitava aquele cheiro “envinagrado” característico da carne de javali a”passar-se”. No Verão, com o calor, é rápido. Ainda nessa tarde cozi a cabeça, para tirar um par de “navalhas compridas e grossas. Perfeitas!!!!. As “amoladeiras” grandes e também elas sem defeitos. São estes lances que nos fazem passar sacrifícios e desconfortos mas sempre com a ilusão de um dia ter-mos a sorte de caçar um grande “Navalheiro”.


Joaquim Mourato


Nota: Este javali deu na homologação 109,63 pts.
 

 
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