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Histórias de Caça

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Fim


À Espera… de um Troféu de Javali
 

     

Autor: Pedro Alexandre Bravo Lima Delgado

12-12-2004

 

A história do lance

Fev 2004 – Apresentada uma reclamação do agricultor por danos em sementeira de ervas, desloquei-me ao local e inspeccionei os vestígios cujas pegadas eram quase imperceptíveis devido às características do terreno, existindo no entanto uma boa charca, mas com sinais de lama somente nas proximidades.


Decidi fazer uma espera a curta distância do local provável de entrada, para confirmação da direcção do vento à noite e auscultação do trajecto, sem arma e no período de lua nova, para que a rês entrasse confiante. Por volta das 21:45h e sem ter ouvido qualquer ruído, fui detectado a cerca de 10 m, devido a súbita viragem do vento. Um ronco violento e uma fuga calma deram a entender o comportamento típico de navalheiro.

Mar 2004 – Montei um cevadouro no campo junto ao mato, para fixação da rês. A visita era frequente e só o carreiro de entrada e saída era perceptível.

Decidi então fazer uma espera no outro extremo do campo, a 70 m, e ainda com lua fraca. Ouço o ruído de aproximação da rês e vejo-a a entrar. Fico tenso. Com a carabina apoiada, armo gatilho de cabelo e sigo o porco. Parece-me pequeno e decido aguardar. Relaxo, e sem querer, toco com o dedo no gatilho. Assusto-me com o disparo. Enquanto seguia os seus movimentos, mantive instintivamente a mira no sítio certo e dá-se o abate.

Rês média mas demasiado pequena para o comportamento então observado. Ao aproximar-me do cevadouro após o tiro, constatei aquela fuga sempre calma do navalheiro, que experiente, e desde o nosso primeiro encontro, logo tratou da sua segurança com a companhia de um escudeiro.

Abr 2004 – O cevadouro no campo não voltou a ser mexido. Montei entretanto um segundo cevadouro no mato, em zona muito suja e sem visibilidade para atirar. e que é visitado todos os dias. A sua presença continua confirmada. No entanto, as idas ao campo são pouco frequentes.

Preparei uma banha artificial com lamas no mato perto do último cevadouro. Demora alguns dias a utilizá-la. Finalmente consigo a sua “foto”: a altura das lamas nas árvores vai até 70 cm e existem navalhadas na casca. Boa expectativa de navalheiro.

Continuo a aproveitar o período da lua, mas as esperas efectuadas por vezes até muito tarde, acabam sem resultado. Verifico pelo estado das pedras e terra que as entradas são aleatórias e sobretudo tardias.

Entretanto, troquei impressões com o meu amigo Paulo de Monção. Nada feito. Havia dois anos que perseguia um grande navalheiro, tinha utilizado muitas técnicas e, ainda sem resultados.

Mai 2004 – Algumas visitas ao cevadouro do campo e diárias ao 2º cevadouro. Monto um 3º cevadouro no mato, a 30 m do 2º, com pouco campo de visão mas que já me permite atirar.

Desactivo progressivamente os dois outros cevadouros e o novo começa a ser visitado com frequência. A nova credencial chega, já a entrada da lua é tardia e a visibilidade fraca, mas decido fazer de imediato uma espera. Ás 20,00h, ruído muito subtil de pau a partir; 20,30h, novo ruído quase imperceptível de mato a mexer; 20,45h, uma cabeça enorme afasta as pedras e começa a comer. Aí está… é o lance tão esperado. Aguardo um pouco e deixo ganhar à vontade, meto a arma à cara lentamente no máximo silêncio, aponto, gatilho de cabelo… tiro no pescoço, queda, tentativa de fuga e tiro de remate.

De imediato telefono ao meu irmão: já está! Desloco-me para ver finalmente o meu troféu e ouço a conhecida fuga calma. Confuso, constato que atirei a uma enorme fêmea com cerca de 90 kg…

Confirmei posteriormente com um lavrador, que tinha visto a cerca de 3 km, na manhã (6:00h) desse dia, dois bichos juntos, muito grandes.

Jun 2004 – As culturas de milho próximas, mas fora da ZCM, desactivaram praticamente as visitas aos cevadouros.

O tempo era bom e convidava às esperas durante os nove dias de lua. Sempre podia observar uma raposa e um ou outro coelho. Na última espera, ouço ruído de mato a partir que vai crescendo, entre o 2º e 3º cevadouro. O ruído aumenta, e de uma forma continuada, começa a diminuir. Afasta-se sem parar.

Nunca mais os cevadouros foram visitados.

Jul 2004 – Durante quase todo o mês não existem sinais da sua presença. Entretanto há uma reclamação dos agricultores, por danos num campo de milho, a 1 km do local das esperas.

Vou verificar e encontro marcas visíveis de rês grande, possivelmente do navalheiro. Decido aguardar num ramo de uma árvore no presumível local de entrada. Ouço ao largo, o mato a partir, mas de passagem. Desaparece completamente das culturas.

2 Ago 2004 – Pela manhã, telefonam-me com nova reclamação de danos, pois esteve presente no sábado e domingo, com estragos bem visíveis num campo de milho.

As marcas seguiam diferentes pistas, nomeadamente a travessia do caminho de acesso numa encosta e várias entradas na cultura. Face aos elevados danos havia que encontrar decisões rápidas.

Nessa noite, eu e o meu irmão iríamos montar duas esperas. Inspeccionado o local e pisteada a encosta durante a tarde, com o meu filho Pecas, decidimos por unanimidade os locais escolhidos, e fiquei sentado na borda do caminho, num combro de 50 cm de altura, com ramagens de eucalipto na frente e a 30 m da travessia. O meu irmão ficou “confortavelmente” na árvore, o­nde controlava as entradas para a cultura. Instalamo-nos às 19:30h.

O tempo estava enevoado e ameaçava chuva. O vento fraco, insistia em desanimar-me, rodando da frente para a esquerda e por vezes de trás. O ruído das cascas dos eucaliptos simulava muitas vezes o esperado partir do mato, mantendo-me constantemente em alerta. Às 20:30h uma raposa vem caminho acima na minha direcção. Aproveito para testar a minha posição e o movimento de meter a arma à cara. Apenas o roçar da coronha no casaco leva a raposa a rodar 90º de um só salto, na minha direcção. Pára, aguarda e continua sem alarme. Está tudo bem, só tenho de ser mais lento e amplo nos movimentos.

Sinto que está uma noite de caça… Existe harmonia com o meio…“Tá-se bem”! Às 21:50h começa a pingar umas gotas grossas e que vai aumentando lentamente. Será que o meu irmão quer ir embora? Não há qualquer sinal de luz. Estamos em sintonia, como sempre.

Ouço um estalar leve, à esquerda, em baixo e atrás de mim. Não existem ali sinais de passagem, não é ele…, mas o canto do olho está lá para confirmar. Serão as cascas dos eucaliptos com o vento?

A chuva pára e a brisa leve entra da esquerda, certa, calma. Volto a confirmar pelo canto do olho, atrás. Aquela mancha escura não estava lá…, ora, não se mexe! Alto… e o círculo claro no centro…, mexe-se agora… e vem caminho abaixo na minha direcção, nas minhas costas, sem um único ruído e em passo lento. Calma…, o vento está bom…, o caminho tem 3 m de largura e estou a controlar perfeitamente a respiração…. Parou ao meu lado a olhar para mim… é ele!!! Avança 1 m e fica encoberto pelas ramagens de eucalipto que estão à minha frente. Não o vejo… nem um movimento…, se não puder atirar com certeza, vai entrar na cultura e aí eu sei o que lá está: outra Steyr Manlicher 300WM com 3 Nosler 180 grains, com mais de 90% de eficácia. Calma…, ainda não se mexeu ou será que já foi mato abaixo, sem ruído? Olho para o relógio, são 22:20h.

Lentamente, olho para a frente e vejo a sombra negra que prossegue o caminho sempre com a mesma calma. Meto a arma à cara, sem roçar a coronha e aponto. O local de impacto não é o melhor, na espádua de cima para baixo e por trás.

Aproveito uma ligeira flexão do animal para a direita e atiro. A rês rola caminho abaixo e tenta levantar-se, de lado, atravessada. Agora! Aponto bem à espádua e disparo. O animal cai! Meto a 3ª bala, levanto-me, acendo a lanterna e desloco-me na sua direcção.

Que bicho!!!. Ainda respira, e decido rematá-lo com o ultimo tiro para não sofrer mais. Aponto a lanterna, encostada à arma e, de repente, numa tentativa de ataque, arranca direito a mim com toda a força. Aponto com segurança, avança pouco mais que 1 m e cai de lado. Disparo, para acabar rapidamente com o nobre animal.

Foi um lance inesquecível. Olho-o, com a admiração e o respeito que só um caçador sente perante a sua rês.

É sentir o fim de uma ligação mística e com tantas emoções, feitas de pequenos detalhes e grandes momentos, que só a caça proporciona…


Apontamentos

1. Períodos de espera: Fevereiro a Agosto de 2004

2. Local: Macinhata da Seixa - Concelho: Oliveira de Azeméis - Distrito: Aveiro

3. Zona de caça: Proc. Nº 3333 DGF - Zona de Caça Municipal de Oliveira de Azeméis

4. Entidade titular: Clube Associativo de Caça e Pesca Loureirense – Loureiro – O. de Azeméis

5. Autorização de Caça: – Acção de correcção de densidade - Credencial DGRF – Ref. SCP/ 1877 de 2004.07.06

6. Método de Caça: Espera no solo

7. Arma: Steyr Mannlicher Elegance 300WM equipada com óculo Swarowsky 1,5-6 x 42

8. Munição: Federal Nosler Partition 180 grains

9. Lance final - Data: 02 de Agosto de 2004 - Hora: 22:20 h

10. Tempo: Enevoado, com ligeiros aguaceiros. Chuvada 30 min antes da entrada

11. Zonas de impacto e distâncias de tiro:

1º - Espádua esq., cima para baixo, trás para a frente - 20 m

2º - Espádua esq. Lateral - 25 m

3º - Entre as mãos, com a rês de lado - Remate: 15 m

12. Características da rês: Peso estimado 130kg, comprimento 1,60 m, pelagem muito uniforme e densa, com focinho muito comprido.

13. Troféu: Medalha de prata com 106,03 pontos C.I.C. – Registo nº 147 da Comissão Nacional de Homologação de Troféus

Notas diversas

a. Os cevadouros foram controlados por mim, praticamente todos os dias desde Fevereiro a Julho. Em cada deslocação, fazia cerca de 15 km e gastava uma hora. Utilizei cerca de 60 kg de cereal.

b. A zona de passagem da rês para os cevadouros nunca foi cortada por mim, nas deslocações de e para as esperas. No regresso, percorria cerca de 500mt a pé, sempre no máximo silêncio e nunca utilizando qualquer foco de luz. No dia do lance, 3 pessoas calcaram toda a área e inclusive deslocamo-nos para as esperas pelo caminho donde entrou a rês.!

c. Retirei, por duas vezes, laços montados por um caçador furtivo, cuja técnica era notável, quer nos materiais naturais e atractivos eficientes que utilizava, quer no cuidado posto na habituação progressiva do animal às alterações do meio, através da sequência de mudança das formas da vegetação e montagem dos componentes.

 

 

O cevadouro no campo

No outro extremo do campo, a 70 m…

O escudeiro

2º Cevadouro no mato, já visível após limpeza

Banha artificial e arvore com lama

3º Cevadouro no mato

…enorme fêmea com cerca de 90 kg

Local do lance

O troféu

 

 
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