| | 914 Utilizadores on-line |    

Login [Entrar]

 
   
 
 
Artigo

Início

Anterior

Próximo

Fim


Espera, no chão ou no palaque?
 

     

Autor: JOAQUIM JOSÉ DE OLIVEIRA MOURATO

27-03-2010 18:57:59

 

Palanque fechado no chão
   
Palanque aberto com 3 Mts de altura
   
Cevadouro tapado com pedras
   
Quero, antes de começar este artigo sobre a preparação duma espera, dizer-vos que o que vou escrever, pretende unicamente dar um modesto contributo para os apaixonados desta modalidade e não pretendo explanar aqui nenhum tratado sobre o tema.

Nos muitos anos de caça, cheguei à conclusão que nesta arte não há verdades absolutas, e aquilo que num sítio funciona na perfeição, noutro sítio não dá qualquer resultado. O caçador, antes de tudo, deverá aprender a ler no terreno, tal como o aluno aprende a ler nos livros.

O campo é como um jornal, o­nde vêem escritas as notícias de tudo o que por lá acontece. Se o caçador souber ler estas notícias seguramente terá muitas mais possibilidades de êxito. Nas passagens dos javalis, nos lameiros o­nde se banham, nos regatos, nos locais de comida, podemos saber o tamanho, as vezes que visitam o local e muitas outras informações que nos serão preciosas.

Na preparação da espera devemos sempre ter em conta os sítios dos “encames” e o caminho que, em princípio, usarão até ao “cevadouro”. Disse, “em princípio”, porque, às vezes os porcos tomam o caminho que nos parecia menos provável. O principal factor, a ter em consideração, é o vento. O sítio, o­nde nos queremos colocar, na espera, deverá ser escolhido para que o vento dominante não “carregue” para o cevadouro. Os porcos podem “arejar-se” de nós a muitas centenas de metros, e quanto mais fraco for o vento, pior será para o caçador. As partículas odoríferas que nos denunciam, quando “empurradas” pela brisa suave chegam ainda mais longe do que quando são “espalhadas” por vento forte.

 
   
 «...a maior virtude do praticante das esperas é a paciência. Todo aquele que a tiver, “se não for hoje, será amanhã”, colherá os frutos dela.» 
   


Depois de optar por “montar” a espera na zona, escolhemos a localização exacta do “cevadouro”, tendo em conta, o relevo do terreno, a distância ao “posto de espera”e a visibilidade. Se for possível “encostar” o cevadouro ao mato, donde previsivelmente, o javali vai entrar, será bom. Os porcos velhos gostam de vir com o “cabelo tapado”, nos sítios o­nde “desconfiam”. O “cevadouro” deve, no entanto ser exposto a luz da Lua para proporcionar boa visibilidade ao caçador. Ao contrário, o “posto” deve estar à “sombra”, ou ter alguma coisa que nos esconda.

Se a Lua nos ficar “de caras” e não tivermos alguma árvore ou arbusto que nos faça sombra, devemos fazer um “aguardo” que, para além de evitar que nos encandeemos com a Lua, ainda nos “tapará” qualquer reflexo ou movimento que nos poderia denunciar. Devemos fazer o “aguardo” alguns dias antes de caçar, pois o cheiro da resina do mato cortado recentemente, pode fazer desconfiar os porcos.

Reza o ditado que “Não podemos ter ao mesmo tempo Sol na eira e água no nabal”. Pois bem!

Se o “posto” ficar perto do “cevadouro” a visibilidade é melhor, ouviremos melhor, o tiro é mais fácil e consequentemente a hipótese de abater o animal atirado é muito maior. Se o “posto” for mais longe, vê-se mais mal, ouve-se mais mal, o tiro é mais complicado, mas as hipóteses que os javalis entrem ao “cevadouro” são muito maiores.
Os “velhos sabidos”, sobreviventes de tantas “guerras”, muitas vezes, não querem “entrar”, com o vento nas “costas”. Fazem então um “cerco” ao “cevadouro” de forma a poderem aproximar-se com o vento “de caras” e desta forma poderem cheirar o seu inimigo. Claro está que quanto mais longe o caçador esteja, mais possibilidades tem de ficar fora do “cerco” e como tal não ser descoberto pelo javali. Reconheço que eu às vezes já exagero na distância, mas até aos cem metros, penso que é razoável.
No sítio do “cevadouro” devemos limpar todo o mato. Se for na Primavera ou no Inverno devemos raspar também a erva que, por estar verde, não nos proporciona contraste do javali escuro contra o fundo, que de noite fica também escuro. No Verão e no Outono o pasto amarelo até nos ajuda ao fazer realçar o vulto negro do porco. O vulto escuro do animal contra o claro do pasto seco dá-nos uma melhor perspectiva da posição do “porco” ajudando a localizar melhor o tiro.

Tenho por hábito tapar a comida com pedras que evitam que o gado doméstico a coma e quando os javalis chegam fazem uma “barulheira” monumental, ao voltar as ditas pedras denunciando a sua presença a algum caçador mais dorminhoco.

Quanto à questão de, se é melhor caçar no chão ou em palanque, como em todas as coisas da vida, há vantagens e desvantagens. O palanque construído a 3 ou 4 metros de altura como é usual em Portugal, proporciona seguramente melhor visibilidade ao caçador. Se for fechado dá bom abrigo e comodidade ao “esperista”, em especial nos meses em que as temperaturas nocturnas baixam muito. Sem dúvida estas são as maiores vantagens, que vejo nos palanques. A maior desvantagem é que os “artistas” com muita “história no pêlo” sabem perfeitamente que é dali que “chovem” balas, levando-os a redobrar as cautelas ao “entrar” e assim dificultando ainda mais aquilo que já de si, não é fácil.

O palanque é um elemento estranho no campo e como tal faz desconfiar ainda mais os “velhos ressabiados”. Em relação ao vento, pouca diferença há, pois a altura normalmente é muito pouca para que o ar com o nosso odor passe por cima dos porcos sem que se “arejem”. Os palanques feitos à altura que antes mencionámos, têm ainda um outro problema. Normalmente as escadas construídas de madeira, quando molhadas pela chuva ou pela maresia, escorregam como se fossem untadas com manteiga, tornando-se perigosas.

Quando o caçador não é muito jovem e já não tem os reflexos de outrora, de noite, com pouca luz, pode correr riscos desnecessários.

Sendo assim, entendo que o melhor é fazer palanques fechados no chão. Assim o caçador estará comodamente instalado e abrigado do frio, sem perigo na subida ou na descida. Em relação ao vento, não me parece que haja grandes diferenças.

Eu prefiro caçar na “rua”. Hoje há bons “agasalhos” para o frio, e ainda que sacrifique a comodidade, dá-me muito mais prazer estar em contacto directo com o campo. Sinto tudo à minha volta com maior intensidade.

Por outro lado, os javalis podem desconfiar do perigo ao aproximarem-se do “cevadouro”, mas não têm aquele elemento estranho (o palanque) a chamar-lhe ainda mais a atenção e “aguçar-lhe” as cautelas. Quantas vezes me passaram a escassos metros sem darem conta da minha presença. Há caçadores, a quem aconselho vivamente que cacem em palanque e não fiquem na “rua”. Na verdade, muitos deles, não nasceram nem foram criados no campo e ainda que animados de grande entusiasmo pelas artes da caça, nunca se sentirão à vontade, ali, sentados detrás duma carrasqueira, sem a protecção e conforto que lhe dá o palanque. Se o que vêm procurar na caça é prazer, então acho bem que não transformem esse acto em desconforto e sacrifício. Cada um tem “as suas medidas”, portanto terá que escolher a forma em que melhor se sinta ainda que muitas vezes não seja a mais frutífera.

Finalmente depois de “armada” a “espera”, deverá o caçador munir-se dos apetrechos que sejam úteis e necessários para a caçada. Tudo o que não seja preciso torna-se um empecilho que para além de ocupar espaço e peso, não serve para nada.

Todos os barulhos que não sejam normais no campo poderão delatar-nos. Os plásticos duros, os papéis rijos, as latas de bebidas, etc., provocam ruídos que facilmente são captados pelos animais e que os associam ao homem. Os barulhos a que os bichos não estão habituados põem-nos de imediato alerta, no entanto o ruído a que estejam acostumados deixa-os tranquilos, por muito forte que seja.

O caminho do carro para o posto deve ser o mais curto possível e feito em total silêncio. Quanto menos “rasto” deixar-mos melhor. Não devemos fazer ruído que pode ser ouvido por algum javali “encamado” nas imediações.

Resta-me dizer que a maior virtude do praticante das esperas é a paciência. Todo aquele que a tiver, “se não for hoje, será amanhã”, colherá os frutos dela. “QUERER É PODER, QUEM PORFIA MATA CAÇA”.

09-03-2010
Joaquim Mourato

 

 
Imprimir   Imprimir
     
     
     
     
 
 
 
Votos (18)    
 
     

Comentário(s) (3)   Comentário(s) (3)    
    As esperas    
    As esperas    
    pormenores infalíveis    
   
     
  Voltar

 
 

| Ficha Técnica | Aviso Legal | Política de Privacidade |

 

(TES:1s) © 2004 - 2017 online desde 15-5-2004, powered by zagari