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Histórias de Caça

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Uma espera... desesperante
 

     

Autor: PEDRO HENRIQUE JORGE

Autor Fotos: Pedro Jorge

03-04-2010 16:20:00

 

O posto (o Veado)
   
O cevadouro
   
Pronto, só faltao resto...
   
Eu não sou “esperista”, e há muito que não faço uma espera sequer, ainda que receba regularmente "convites" para isto ou para aquilo, regra geral recuso, até porque o tempo livre que tenho não é muito e as estórias são por demais.



Felizmente, há excepções.

Há uns dois meses um cliente que também é meu "vizinho" convidou-me para uma espera, a que não pude comparecer, embora gostasse de o ter feito. Este mês, o convite repetiu-se, com outra aliciante, a reserva em causa era gerida por este e por um outro conhecido com quem muito gostaria de caçar. Tudo fiz e consegui confirmar a presença.

Embora mais gostasse de fazer uma espera do principio ao fim, como não tenho local para tal, o mais parecido que consegui foi encontrar alguém que me fizesse o trabalho, mas que de alguma forma me sentisse integrado nessa parte da espera, e não resumido aquele que puxa o gatilho. Feitas as contas, entre amigos estava e não dei por falta de muito.

O cevadouro ficava do outro lado de uma lagoa, a uns 70 ou 80 metros, tinha o vento de frente, fraco, o céu estava limpo e a temperatura amena. Coloquei-me um pouco abaixo do "muro" da barragem, e preparei-me para "esperar". Aliás, acho que fui lá para isso...

Cheguei por volta das 17.30, pelo que pude gozar toda a transformação da vida naquele local, dos animais diurnos para os nocturnos... Esqueci-me dos binóculos e a maquina fotográfica parecia que tinha areia nos maquinismos, tal era o barulho que fazia, pelo que acabei cedo com as fotos.

O pior foi mesmo o "chimfrim" de rãs, sapos e outros animais, de tal forma que achei óptimo ter levado os auriculares... a dada altura tive de desligar o som, que estava quase surdo. Pouco depois disto, tendo descansado um pouco os ouvidos, voltei a ligar, e apanhei o primeiro susto do dia: um casal de patos-reais passaram-me por cima, e o ruído amplificado que fizeram quase me deitaram ao chão... Voltaram mais umas duas ou três vezes...

Ora quando me colocaram, disseram-me que havia rastos frequentes no cevadouro que indicavam porcos de diversos tamanhos, sendo de salientar um mais profundo e que entrava pela esquerda, enquanto outros mais pequenos entravam pela direita.

Ok, noutra caçada contratada lixava-me para as indicações, mas nesta tinha todas e mais algumas razões para estar descansado quanto à fiabilidade das mesmas, e como já vinha "ensaboado" pelos problemas de fazer uma espera nesta altura (os que visitam o "outro" portal sabem bem do que falo) decidi gozar a espera tipo profissional daquilo e só atiraria se tivesse a certeza de ser "um", de preferência, "grande".

O barulho das rãs não me deixava ouvir nada, mas volta não volta fazia-se um silêncio sepulcral... Numa de destas vezes, pelas 20.45, ouvi à esquerda um ronco... nada de mais, mas suficiente para me despertar e colocar com outra disposição.

É que pela forma como passou toda a semana, pela insistência da minha mulher para eu ir à caça (muito estranha, diga-se), as coincidências de encontrar pessoas conhecidas desta forma, contra todos os hábitos, dormi muito bem, a companhia compareceu a horas, a viagem foi rápida e bem passada… tudo facilidades…

Com o cuidado do costume, coloco a arma na vara de apoio e aponto para o cevadouro. No primeiro local de comida não havia nada, no segundo, um pouco mais à esquerda, também não, e no terceiro, mais alto e afastado de mim, também não me parecia haver nada. Tiro a cara do óculo e nesse instante pareceu-me ver algo a mexer, algo que não me tinha chamado a atenção. Volto a encarar e vejo um vulto no terceiro local!

Bem, como já disse, estava armado em “esperista profissional”, pelo que ter avistado aquele porco/porca em nada me afectou. Estranhamente, mesmo em nada, estava calmo e descontraído como se fosse a coisa mais natural do mundo… Esperei, portanto, que conseguisse identificar o que tinha no óculo, que nesta altura estava de lado, com a cabeça baixa, mas parcialmente tapado por umas ervas. Nesta altura não estava mesmo para disparar e deixei o dedo fora do gatilho, para evitar tentações, e vi nitidamente o animal dar umas focinhadas nos troncos que protegiam o trigo… Óptimo, já valera a noite, e para fazer aquilo, se calhar até merecia o tiro...

Às tantas, o bicho farta-se de estar naquela posição, vira-se e ficou virado para mim, parecia estar a ver-me. Como ele estava na sombra, era uma mancha, menos escura que o que esperava encontrar, dada a minha “vasta experiencia” nesta forma de caçar, mas pude notar a silhueta esguia e estreita, em vez de redonda, de uma fêmea “cheia”. O animal começa então a descer, penso eu que a caminho do outro comedouro, e sai da sombra.

Vejo, pela mira telescópica a cabeça de um javali, focinho branco, com umas “bochechas” largas daquelas que se vêm nas fotografias, e o¬nde adivinho umas dentolas XXL, ou mais. Note-se o “adivinho”…

E continuo calmo, como se estivesse a assistir a um programa de televisão… o provável navalheiro ficou de novo a olhar na minha direcção, de frente, mas nesta altura já eu havia encomendado a alma do dito a Santo Huberto, esperava apenas que ele se virasse um pouco para não disparar de frente (não lhe fosse partir algum dente).

Ele vira-se e baixa a cabeça, aponto-lhe ao coração, ainda que de início estivesse inclinado para um tiro de cérebro… Revejo toda a situação, o porco parado e descansado, bem centrado, arma destravada e estável no alvo, o melhor apoio que consegui em anos… Sustive a respiração e decido, é agora:

CLICK.

Fo#$-%&!!! Já sabia que tinha de me acontecer uma coisa destas! Eram facilidades a mais…

Bem, não perdi a calma, o porco levantou a cabeça mas não saiu do sítio. Espero mais uns segundos, ele continua na dele e eu começo a fazer contas: que se passou? Não picou? Foi o fulminante que falhou? Ou esqueci-me de municiar a câmara? Ou a P#$a da bala caiu antes de fechar a culatra?

Só havia uma forma de o saber, peguei num polar que tinha no chão, tapei a arma para abafar o ruído, puxei o manobrador e retirei a bala, que afinal estava lá. Igualmente devagar começo a empurrar o manobrador e tudo corria bem, o porco continuava na mira, mais uns segundos e…

TRACK…

Fo#$-“#, esqueci-me de segurar a bala, e quando esta saiu do carregador a mola empurrou a restante para cima, embatendo com estrondo nos lábios do carregador. O porco fartou-se de ouvir coisas estranhas e fez-se ao caminho, nem o vi “desaparecer” no nada.

As restantes horas até me irem buscar foram… chatas.

À meia-noite e meia estava no carro, já me haviam perguntado e eu respondido, por SMS, sobre as minhas desventuras… já todos sabiam e (estranhamente) lamentavam a minha pouca sorte, quando esperava umas valentes risadas.

Quando se caça com amigos estamos sujeitos a reacções destas.

Bem, em abono da verdade, o que me disseram, diversas vezes, foi que a culpa era só do calibre (9.3x62, pois estava entre o fan club do .30-06).

Claro que quando cheguei a casa, e contei à cara-metade, ela disse-me logo que a culpa afinal era dela, ou seja “que fosse à caça, tudo bem, mas fazer mal aos bichos…”.

Analisando a bala falhada, pareceu-me estar suficientemente picada para ter deflagrado, mas chegado a casa, comparando com outras disparadas anteriormente e que guardo, foi mesmo pouco. Desmontei a arma, e a razão para tal falha apareceu: Tinha muito óleo dentro da culatra, e este actuou como amortecedor do percutor.

Pelo sim, pelo não, já mandei trocar a mola de percussão, e verificar o resto.

Quis reservar aquele cevadouro para a próxima lua, mas vai estar em repouso… Talvez para Maio lá volte, tenho todas as condições para que tal aconteça.

 

 
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Comentário(s) (7)   Comentário(s) (7)    
    rui rodrigues    
    ...para recordar!    
    Excelente relato    
    Ou: em casa de ferreiro ...    
    Uma vez será da caça    
    Há lá mais!    
    Há mais marés...    
   
     
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