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Histórias de Caça

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O Caçador
 

     

Autor: José Neves

09-05-2010 21:52:38

 

   
   
Em meados do último decénio do século passado, uma montaria ao javali, apenas iniciada,terminou abruptamente por causa do falecimento súbito de um caçador no seu posto.
Se for verdade que os deuses escolhem os favoritos em ocasiões de felicidade e de prazer, então tudo aconteceu no estrito cumprimento de um destino cordial...


Desligou o telefone com um sorriso de satisfação no semblante, e continuou a limpeza minuciosa da caçadeira. Ainda bem que contagiara os dois filhos, transmitindo-lhes a paixão pela caça. Com a vareta de madeira empurrou o pano seco pelo interior do cano e, após olear os pontos de maior atrito, colocou delicadamente a arma no cofre, junto às outras, arrumando a lata e os escovilhões no armário. Só tornaria a empunhá-la quando voltasse ao campo.

O excesso de peso e em particular a fraqueza das pernas, consequência da idade e da doença, não lhe permitiam as correrias de antigamente atrás das perdizes. Os rapazes, embora afirmassem o contrário, faziam o frete e acompanhavam-no umas quantas vezes aos coelhos. Era o suficiente. Uma satisfação imensa invadia-o quando chegavam de madrugada para o recolher. Entravam em casa de rompante, acordando a mãe e, por entre gargalhadas, exigiam o pequeno-almoço, como em solteiros.

Depois da viagem, sempre animada e por isso rápida, os laços familiares fortalecidos, iniciava a manobra arengando aos cães, batedores minuciosos das tojeiras, os caçadores numa crescente cumplicidade a vigiar as escapatórias nos matos.

Uma sombra, porém, perturbava tão aprazíveis pensamentos. O médico confirmara dias antes a existência de graves problemas cardíacos, impondo mais cuidados e a diminuição do esforço físico. Calara-se para não inquietar a família, mas tinha de acautelar-se, espaçar as habituais caçadas e medicar-se com regularidade. Não pactuava com pieguices e lamentações e assumia integralmente o seu percurso de vida. A morte era o desfecho inevitável, mas gostaria de enfrentar o fim de cara levantada, inteiro, com a pujança física indispensável para estar no monte e, durante uma jornada, finar-se condignamente.

Abandonou o aposento que há muito reservara para as suas coisas. Aí, no meio dos troféus do tiro e da caça, dos livros e das pinturas, das fotos, passava a maior parte do tempo doméstico. Tranquilo, percorreu o comprido corredor à procura da mulher. Parou no janelão e afastou a cortina para olhar o quintal, inundado pelo aguaceiro, à escuta do alarido dos coelheiros no canil. Dedicava-lhes uma afeição ilimitada. Preocupava-se com o que sucederia se morresse. Tratá-los-iam bem, disso estava seguro, mas acabariam os mimos e as conversas que só eles entendiam. Decidira não rejuvenescer a matilha e, conforme desapareciam, não os substituía. Aos três exemplares acresciam os dos colegas, conjunto suficientemente eficaz e produtivo para as surtidas efectuadas. Oxalá pudesse concluir a tarefa!

Encontrou a mulher na minúscula estufa, cuidando das plantas, diligente e dedicada.

- Na próxima semana vou com os rapazes a uma montaria em Montalegre.
- Ainda agora chegaste e já estás com a cabeça na partida! Tu e os teus filhos não têm juízo! Não pensais noutra coisa!
Censurou amorosamente a companheira, concluindo:

- Bem! Lembra-me para vos preparar o farnel.

Afinal, ainda que não admitisse explicitamente, sempre o tinha apoiado. Desde que se conheceram, há mais de quarenta anos, nunca lhe escondera esta vocação. Nesse tempo de prolongado namoro conseguira até convencê-la a participar em algumas expedições, como certo dia, aos patos na barrinha de Esmoriz, surpreendidos por um violento temporal longe do carro. Toda encharcada, a tiritar de frio, apavorada com a violência da tormenta, fora a última vez que o seguira. Mas nunca fora um estorvo. Um ou outro resmungo, para marcar posição, mas até apoiara, generosa, a progressiva afeição dos filhos por estas fainas. Entretido com estas reflexões, sorriu.

Não conseguia perceber a má vontade que alguns expressavam contra o caçar. Isso desgostava-o profundamente. Iniciara-se em menino, numa sociedade sadia em que o pensamento urbano era equilibrado pelo peso da ruralidade, e na qual esta actividade ancestral era compreendida e apreciada. A morte, como finalização do acto recolector que a caça pressupunha, era aceite sem complexos, porque inerente à vida. Altivo, sempre assumira a sua condição com o sentimento de pertença a um grupo de gente com lugar próprio na natureza. E esta verdade continuava indesmentível, apesar das excepções que sempre ocorrem. Ao longo das gerações, porque tinha possibilitado a evolução humana, a influência da cinegética era incontornável. Pensava nestes assuntos e apercebia-se, com amargura, das profundas alterações ocorridas nos últimos anos. Sentia-se o alvo de adversários maldosos, ignorantes do mundo natural que a todos envolve.

Lá fora continuava um Inverno agreste. No interior norte, o gelo petrificara os montes e a neve isolara as povoações serranas, cortando muitas estradas. No litoral, bátegas torrenciais provocavam cheias e avultados prejuízos. Na semana anterior, apesar dos avisos da meteorologia, insistira em viajar e, nuns olivais minhotos da sua predilecção, juntara uma boa molhada de tordos. Com autêntico prazer antevira a festa com os amigos, e o saborear destes abençoados patronos de encontros tão animados. Tais peripécias completavam o acto de caçar e contribuíam para aumentar o sortilégio que o atingia.

Reflectia sobre estes temas sem nunca obter uma resposta clara e definitiva sobre o porquê de ser caçador. A razão não conseguia explicar cabalmente aquilo que o instinto comandava. Ao contrário dos filhos, na família conhecida, antes dele ninguém tivera esta inclinação. Só podia ser legado de avoengos trogloditas, repetia aos amigos, irónico perante o inexplicável.

Recordava, da infância, os olhares de curiosidade lançados sobre o estojo o­nde repousava a caçadeira inactiva do pai, fruto de uma herança fortuita. Intuía que naquele cobiçado sarcófago estava a chave da aventura e a concretização de anseios profundos. Sonhava. Mas não ousava tocar-lhe.

Na periferia da sua cidade, os campos e os pomares repletos de vida, eram uma atracção irresistível. Desajeitado com a fisga, servia-se de armadilhas imperfeitas para apresar a passarada. Mas apurou-se nestas artes, cresceu e, por fim, introduziu-se com naturalidade entre os mais velhos. Um dia, finalmente, o seu mentor presenteou-o com a almejada espingarda. Tinha quinze anos. Até hoje uma dádiva inesquecível e preciosa. Embora o aço exibisse as mazelas do descuido prolongado, em particular o interior dos canos, improvisou os meios e, num exercício contínuo de aprendizagem, gradualmente foi surgindo a recuperação, para regalo pessoal e espanto de todos.

A estreia aconteceu numa remota abertura, cada vez mais esfumada nos confins da memória, nas ladeiras suaves do monte de S. Gens, à ilharga da aldeia o­nde veraneava. Levantou-se de noite, antes do cantar do galo, apesar da deslocação ser curta e a volta começar nas imediações da quinta. A claridade rósea da aurora apanhou-o sentado no pedestal de uma penedia isolada, hierática sentinela da casta tranquilidade daqueles brejos e campinas. Um velho coelheiro abandonado, manco, enjeitado pela matilha, acompanhava-o no encantamento. O disco solar ainda espreitava o horizonte quando um bando de perdizes, afugentado por um predador desconhecido, se atravessou em diagonal a escassas dezenas de metros. Inconsciente, num gesto mil vezes treinado a seco, disparou e aconteceu a queda brusca de uma das aves. Estava de asa, se fossem verdadeiras as histórias contadas pelos homens nos serões da vindima, durante a pisa das uvas no lagar. Correu estouvadamente e lançou-se sobre ela antes que se refugiasse numa moita de vegetação espinhosa.
Todo ele era triunfo e poder.
Talvez por isso a perdiz rendeu-se com um breve bater de asas. Dependurou-a na cozinha rural, a mortificar, durante dias. Procurava-a quotidianamente para confirmar que tudo tinha sido realidade. Não fosse a intransigência materna e jamais autorizaria que alguém lhe tocasse.

Saíram de casa ao amanhecer, a seu pedido. Apreciava a paisagem familiar oferecida pela estrada serpenteante, a suave luz matutina a colorir o granito das montanhas, as sombras das árvores reflectidas na água parada das albufeiras, enfim, a placidez da viagem. O clima, cúmplice e benigno, permitia que os cumes afiados do Gerês e a linha arredondada dos cimos da Cabreira se recortassem, nítidos, no azul quase puro do céu. Mais distante, dominadora e mágica, a serra do Larouco.
Ao contrário dos velhos tempos do furgão manhoso e barulhento, reclinou-se no confortável assento e fingiu adormecer, embalado pelo suave baloiçar.
Queria-se naqueles sítios deslumbrantes. Demorava-se a imaginar o modo como abordaria as encostas para caçar perdizes inventadas, ou como actuaria para as encurralar nalgum vale das alturas. Mais adiante, com a mudança de panorama, via-se, prudente, a progredir vagarosamente pela borda dum fraguedo longínquo, junto ao precipício, na perseguição de um improvável e há muito extinto bode, ornamentado com um troféu formidável.

Chegaram ao local da concentração com vagar para conviver, como exigia a praxe. Não era um verdadeiro aficionado da caça maior, mas comprazia-se com estes ajuntamentos, o ambiente descontraído e a troca de impressões. Equipava-se com uma caçadeira muito gasta, de canos cilíndricos. Apesar da sua antiguidade, dizia, ainda colocava com precisão as pesadas balas de chumbo. Os comentários maliciosos não tardavam. Fazia então uma pausa e observava a assistência, com os olhinhos marotos a piscar na face redonda. Recitava uma ladainha incompreensível e, teatral, gesticulava com vigor. Perspicaz, escolhia a presença ocasional de algum janota, encadernado com vestimenta internacional e calçado a condizer, para mostrar, gozador, a farpela coçada e as botas cardadas engorduradas de sebo. Tudo de boa marca, repetia, só que as etiquetas saíram com as lavagens. A vítima, já não só embatocada com o oloroso charuto, rendia-se às provocações e alinhava na boa disposição existente. Assim angariava inúmeros amigos, sempre ansiosos pela sua companhia divertida e o feitio sem maldade.

Entretanto, aviados os petiscos e tiradas as sortes, proclamadas as regras e feita a oração reverente, felizes, arrancaram para a mancha por entre saudações e larachas.

Silencioso, examinou em pormenor as imediações do posto e aguardou o estralejar do foguete, aviso do início da caçada. Abrigou-se do vento frio encostado ao tronco rugoso de um castanheiro centenário, e pensou nos filhos com um sentimento de ventura desmedida. Mais uma vez juntos, integrados na natureza, a partilhar novas experiências e sensações.

Debruçara-se sobre o saco à procura de mais um agasalho, quando uma dor intensa, súbita e terrível, lhe oprimiu o peito e o deixou sem fôlego. Incapaz de lhe resistir, escorregou lentamente do banco, ofegante.

Caído sobre o chão primevo, os sentidos em agonia sorviam o borbulhar vital da água na levada adjacente, e, num último relance, despediam-se das efémeras cores da vida, cada vez mais esbatidas, a mão direita abandonada sobre a arma, numa derradeira carícia.

Na serenidade do rosto vincado pelos anos, um sorriso enigmático espelhava a paz do seu passamento.


José António Neves
 

 
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Comentário(s) (11)   Comentário(s) (11)    
    Muito bom!    
    Honra lhe seja feita    
    Que mais se pode dizer.    
    Sublime    
    Notável Narrativa    
    magnifico    
    Verdadeiramente alma de caçador!    
    Um grande caçador    
    Excelente    
    Mais uma vénia ...    
    O caçador    
   
     
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