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In “Portugal Cinegético” edição nº4 de 15 Outubro de 1935
Os caçadores modernos ou os «matam tudo» de hoje
 

     

Autor: Carlos Pontes

Fonte: Portugal Cinegético 1935

11-05-2010 13:10:40

 

Capa Portugal Cinegético 1935 edição nº 4
   
Artigo Portugal Cinegético 1935 Os caçadores modernos ou os «matam tudo» de hoje
   
Começo por pedir desculpa à geração moderna, mas as verdades têm que ser ditas. Antigamente o prazer da caça não era só matar, como hoje se faz. A ordem actual é encher a sacola de qualquer forma, não importa por que processo, a questão é atufulhar a dita, com que hoje nem sequer já alombam, contanto que no dia seguinte se saiba nos espingardeiros que o snr. Fulano matou... tantas! «Que grande Homem! dizem todos os colegas, mas os velhos caçarretas exclamam: «Que grande selvagem!», pois que estes só matavam o que necessitavam para a sua alimentação, e os novos de agora matam para a galeria.

O velho caçador do meu tempo tinha a preocupação de matar caça, já se sabe, por isso se munia de uma espingarda, mas só gostava de matar de uma maneira desportiva. Antes de mais nada atendia ao trabalho dos seus cãis, fôsse êle caçador de caça de pena ou de pêlo. Nunca atirava a distâncias extraordinárias para não estragar a quantidade de peças de caça, como hoje se faz, confiados no tal baguinho da sorte que pode derrubar mais uma à vista, que pode contar para fazer cantar nos espingardeiros. As centenas que se estragam, nisso nem se pensa.

Quanto mais valor não tinham os velhos amadores e os poucos que, dêsses bons tempos, ainda existem, quando ainda não havia estes modernos meios de transporte e que tinham que fazer caminhadas a pé de bons pares de léguas, antes de começar a praticar o seu «sport» predilecto.

Se ao cabo de todos este sacrifícios, um cão lhes picava uma peça de caça ou fazia qualquer outra asneira, não se atirava, a-fim-de se lhe dar o devido correctivo, e portanto lá se ia embora uma oportunidade de fazer número, mas que importa isso comparado com o prazer de ter na nossa frente um cão bem ensinado e de primeira ordem!

Quanto mais não vale matar uma peça de caça depois de ser bem parada e tirada pelo nosso melhor auxiliar - o cão, do que matar centenas... pelo processo actual, sem arte!

Hoje o que interessa é saber-se que se matou um grande número, para fazer constar até... pelo telégrafo!

Mesmo os velhos caçadores de coelhos tinham presunção em ter a melhor matilha, cãis bons e bem ensinados, fazendo vir os coelhos às espingardas, com o seu quitador para trazer à mão os coelhos, apanhados a dente pelos podengos, ou mortos a tiro.

Mas hoje que prazer há nisso, se os novos muitas vezes nem sequer levam cãis - e o «caçar sem cão é caçar de toleirão», segundo diz o adágio.- Nem pegam nas peças que matam, lá esta o criado para as apanhar: a questão é não perder tempo, porque o companheiro pode ter morto mais uma peça.

Que saudades eu tenho do lindo trabalho de boas matilhas com o seu bom quitador, que tive ocasião de ver bastas vezes no Alentejo, devido ao amável convite de velhos companheiros, uns já infelizmente falecidos e outros já retirados das lídes venatórias!

Bem sei que para os modernos pouco ou nenhum interêsse isso tem; são velhas utopias dos antigos marteleiros que nada matavam; hoje é que se... mata!

Quando caçavam ás perdizes dois ou trés companheiros juntos (o máximo em geral nos tempos rotineiros), e uma perdiz caía de aza a um dos companheiros, o que tivesse um cão que cobrasse bem o ferido ia auxiliar o outro até encontrá-la, e só depois é que seguiam caçando.

Agora é impossível: Não pode perder-se um minuto, quando não perder-se a linha, e ou o criado a acha, ou segue tudo para diante. O número é tudo; emquanto se procura a ferida pode-se deixar de matar outras e o companheiro é um rival e não um bom amigo como dantes era. Não vale a pena perder tempo e êle ficar com mais uma peça!

Nas batidas às perdizes, que prazer se poderá ter em abater aves que vêm, coitadas, direitas ás espingardas sem trabalho algum para o caçador?

Ainda que o tiro seja a maior parte das vezes mais difîcil de que o tiro de salto, é matar só pelo prazer de fazer mal; nêsse caso atirem aos pratos e deixem as perdizes para quem as pode perseguir com o seu cão, que é o «sport» mais bonito que se inventou.

As batidas, assim como as linhas, é que têm posto a maior parte das perdizes em condições de não aguentarem as paragens dos cãis, porque as tornaram extremamente bravas. Bem sei que também tem concorrido muito para a perdiz já não esperar tanto a paragem dos cãis, como dantes, a limpeza dos matos, que se tem feito no nosso país por tôda a parte.

Charnecas de areia montados em terrenos pobres, tudo tem sido arroteado para a cultura do trigo o que brevemente se não deverá continuar a fazer devido ao novo regime cerealífero, ficando só para essas culturas os terrenos próprios.

Espero então que a nova geração terá ocasião de se civilizar cinegèticamente falando, com os matos que tornarão a crescer terão novamente necessidade de caçar com cãis e ver o quanto é belo o desporto praticando como se fazia nos tempos passados.

Um velho titular e grande caçador, já falecido, que me dava a honra de ser meu amigo, num dia de festa em Lisboa, no Rocio, disse-me o seguinte: «Vês tu esta gente de boca aberta, julgando que se está a divertir e a ver coisas muito bonitas; pois estão todos muito enganados.

Secalhar, coitados, nunca virão um cão parado, a coisa mais bela que foi dada ao homem ver!»

Assim pensavam os velhos caçadores, e por isso tinham na mais alta conta o seu melhor auxiliar e maior amigo: o cão.

Mais uma vez peço desculpa aos novos caçadores destas mal alinhavadas linhas, mas o único desejo dêste velho e rude marteleiro é que a geração moderna torne a caça num desporto, como antigamente o era, e não num autêntico extermínio como actualmente.

In “Portugal Cinegético” edição nº4 de 15 Outubro de 1935



Situação em 2010, a minha opinião.

Tenho 25 anos, carta de caçador desde os 14 e nada disto vivi mas tudo isto e mais alguma coisa sinto. Ingenuamente ou não fiquei surpreso ao ler este artigo que só serviu para me mostrar que afinal a culpa não é nossa mas sim dos nossos antepassados que já mal empregavam, que afinal nós evoluímos, hoje temos armas que atingem km´s, temos visão nocturna, lasers, miras telescópicas, medidores de distancia, carros que andam por todo o lado e até as doenças que dizimam a caça conseguimos inventar. Evoluímos muito e em muitas coisas muito bem, já a mentalidade essa deixa-se ficar para trás. Concluí que em mais de 80 anos a única coisa que muda é a abundância de caça que é muito menor em determinadas áreas quase nula, as leis patéticas dos nossos queridos engravatados, à má gestão por partes de clubes e associativas que contam com órgãos que nada sabem e muito menos fazem, os dados estatísticos feitos á distância que muitas vezes levam ao desbaste de populações e a INVEJA e GANÂNCIA cada vez mais acentuadas. Em duas únicas palavras para transcrever o apelo feito por alguém que se dizia injustiçado com a caça em 1935, resumo tudo isto a GESTÃO e MENTALIDADE que nos tais 80 anos em nada evoluiu.

Com alguns lances de memória vividos, a única coisa que me motiva ou melhor, me faz levantar para “ir a caça” são apenas os cães, não os "comes" com os companheiros que esses por ganância e inveja fui obrigado a abandonar.

Hoje em dia pouco faz sentido para mim na caça, as montarias que tanto gostava são hoje palco de prémios e galas, de dinheiros mal empregues de ganâncias e invejas desumanas, apontam armas uns aos outros porque "foi o meu tiro que matou e não o teu", de tradição já nada ou pouco tem, nem sequer o mata-bixo, apenas os cães porque são imprescindíveis e porque esta proibido o uso de bombas, mas mesmo assim claro existe quem faça não tivéssemos nós em Portugal! Vejo-me obrigado a criar os meus próprios coelhos para não ir para o monte apenas passear os cães, dou de comer aos últimos javardos da zona para os ver a morrer num laço ou outro processo furtivo, javalis estes sim posso dizer que vivi os bons tempos deles, os tempos que metiam medo e que a sua abundância era sem igual, não como dizem muitos, "cada vez há mais"!

Não sou caçador de perdiz, apesar de apreciar e admirar o grande trabalho de um cão de parar tenho "amigos" que caçam à perdiz, e a minha zona de caça tem cerca de 1 dois bandos por ano que quase nunca ultrapassam os 15 exemplares (triste), mas que ainda assim esses tais caçadores (com idade para ser meus pais) caçam as perdizes a estradear, com os cães na mala a espera de ver o "tal bando" e sem qualquer respeito perseguir o bando até um dia trazer 5 perdizes caçadas numa só manha do tal bando que apenas já só contava com cerca de 8, e todos contentes cheios de peito " Nós é que somos ", não sei se por nunca terem algum motivo de mostrarem que são alguma coisa ou por perfeita estupidez, são deste género os mesmos senhores que alimentam com ansiedade uma largada de perdizes, que como diz e bem o artigo, enfim "Coitadas", sempre com a desculpa das que sobram ficam para criar, muitos outros com mais 40 anos de vida que eu (companheiros habituais), revivem com orgulho os seus velhos tempos em que matavam 30 e 40 coelhos numa só noite, "dantes é que era, agora não há nada"!

Não consigo ter como companheiro alguém que mata uma peça ilegal e em declínio só porque se não a matasse os cães só apareciam no dia seguinte, com alguém que entra em casa do amigo e companheiro de caça e lhe rouba o melhor cão, alguém que mata com veneno os cães dos outros só porque são melhores ou porque existe pouca caça e não chega para ele, uma facada dessas para mim seria a ultima gota para me despedir de uma paixão com sangue e tradição muito antigas.

São estas e outras que aos poucos me fazem desistir daquilo que mais gosto, e enquanto os cães continuarem a alimentar essa minha esperança “caço” sozinho porque já não acredito em companheiros, e os poucos "amigos" tento conservar alguns a muito custo.
Vejo agora muitos amigos que deixaram a caça outros vão deixando, enquanto alguns outros vão tirando a carta sem saber nas que se vão meter, a esses só tenho a dizer algumas coisas que a mim ensinaram, outras que forçadamente aprendi e que para tantos não tem qualquer novidade.

Nunca gabes o teu cão.

Sempre que vires caça nunca digas o­nde (não se leia inveja, mas preservação), se contas das duas uma, ou fica a ser a ultima vez que a viste ou então és um grande mentiroso (caçador).

Respeita a peça, deixa que ela tenha a sua oportunidade e proporcione o melhor lance possível.

A principal regra de caça (com arma de fogo) que infelizmente tantos acidentes tem causado e por consequência tantos problemas tem dado na legislação, maneja sempre a arma com toda segurança possível. (Hoje em dia as noticias abrem com tragédias do tipo, homem mata mulher e filho com arma de caça. Não é uma caçadeira é uma arma de caça que é utilizada por caçadores e não por assassinos, e mais uma vez pagamos nós com elas enquanto vemos o mercado negro a multiplicar).

Nunca tentes meter na cabeça de um velho teimoso aquilo que achas correcto porque logo de seguida serás o pior da fita, porque não sabes nada e porque és novo e tens muito que aprender.

Se vires uma peça de caça que não podes ou deves abater segue o exemplo do nosso confrade João Fonseca, que publicou aqui no Santo Huberto e muito bem a historia que passou com o filho numa espera bonita de se "ver", pode ler-se na secção de "Historias de Caça" com o título “Uma noite de pura magia, ou como uma porca atrevida fez as nossas delícias” (http://www.santohuberto.com/sh_conteudo.asp?id=1650), isto sim é um exemplo de mentalidade que devia nos tempos que correm nem sequer ser discutido, mais um caçador que tenta fazer ver ao seu filho o que é a caça, que este por sua vez se vai desiludir quando se poder titular, se chegar a querer fazê-lo.

Por último e não menos importante, respeita sempre o defeso e tenta o mínimo que seja fazer por ele!

Para concluir quero apenas dizer que sou humano e como tal já cometi erros, e vou cometendo, não quero com este desabafo atingir alguém. Tenho impresso na memória o dia em que cheguei a casa com duas perdizes à cinta, que cheio de orgulho exibo ao meu pai, a pensar que era "o maior", e este ao ver uma perdiz e um perdigoto que mal voava, desiludido me disse, isso não se faz! Aprende-se com os erros, aprende-se com a vida, mas as forças não resistem quando vemos que o que gostamos não tem qualquer poder de subsistência.

Sempre pensei criar um filho, que seguisse os mesmos passos que eu, mas hoje chego até a ter medo de o poder guiar para tão maus caminhos, de qual será a reacção dele ao ver uma fotografia do pai com 6 ou 7 anos todo camuflado, de cartucheira calibre 12 no ombro (não havia medida de cinta, risos), com um Diana 31 calibre 4,5 na mão preparado para sair para os coelhos com o bisavô, da mesma forma com que o meu pai me criou sempre na esperança que a evolução dos tempos se igualasse também na mentalidade, e como qualquer pai caçador vê nesta modalidade um bom caminho a seguir, uma ocupação digna e bonita.

Também sei que não sou o único e que cada vez somos mais aqueles que não tem qualquer orgulho em dizer que são caçadores, e que chegam a ter até vergonha de o dizer, com o medo de serem apontados como um ser de outra classe ou hoje em dia até um assassino.

Revendo este artigo de 1935, se o quiséssemos aplicar na actualidade bastava para isso mudar-lhe a data de 1935 para 2010, algumas palavras e acentos que já não constam na ortografia actual e com as excepção de que hoje não se "enche a sacola" como antigamente, acrescentando que a inveja dos companheiros não se deixa ficar só pelo numero de peças abatidas serve na perfeição para ilustrar o que mudou na nossa mentalidade em 75 anos.


Saudações

Carlos Pontes
 

 
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Comentário(s) (10)   Comentário(s) (10)    
    o Sr. carlos pontes, está muito enganado.    
    Leitura Actual    
    Não era bem assim    
    Obrigado!    
    os caçadores modernos ou    
    Aleluia    
    Confrade Luis Novais    
    75 anos!    
    Pensamento igual...    
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