| | 2164 Utilizadores on-line |    

Login [Entrar]

 
   
 
 
Histórias de Caça

Início

Anterior

Próximo

Fim


O regresso
 

     

Autor: PEDRO HENRIQUE JORGE

29-05-2010 9:55:56

 

O posto do Monte da Aldeia
   
O cevadouro
   
Por do sol
   
O ribeiro, ao lado do posto
   
A retaguarda do posto
   
Esta “coisa” das esperas está a começar a mexer comigo… há duas luas atrás, por uma falha de percussão da munição, deixei com alguma frustração as terras alentejanas onde fizera a primeira espera em anos. Na altura já tinha decidido voltar, e se na lua passada por motivos vários tal não foi possível, agora, lá consegui.


Tenho a dizer que ultimamente são as “esperas” que me causam mais transtornos em termos profissionais. Tudo parece girar em torno desta coisa das “luas”, já não se fala em “dia X” ou “semana Y”, mas “antes da próxima lua” isto, ou aquilo… na sexta-feira passada não foi excepção, e para evitar outros aborrecimentos excepcionalmente fui entregar uma arma para que o dono pudesse ir fazer a tal “espera”… Isto parece um vírus que anda por aí, e parece não ter cura. Até à data julgava-me imune.
 
Enfim, desde a “Expocaça” que esperava pela data acordada, se bem que queria mesmo era o sossego de um entardecer nas colinas de Portel, um por do sol tranquilo, sentir a brisa quente com os cheiros característicos do campo e… descansar.
 
Claro que fazendo isto e caçando, todos os sentidos estão mais despertos e a sensação é mais intensa. Foi com algum desgosto que não consegui fazer-me acompanhar pela minha mulher, que adora estas paragens, mas ainda lhe custa interiorizar que caçar não é só matar. Foi pena.
 
A viagem desde Torres Vedras correu bem, o Francisco e o Diogo fizeram questão de me dar boleia de novo e lá fomos conversando… pude saber da estreia de ambos na última lua, com uma descrição bem disposta dos acontecimentos, mais umas opiniões sobre calibres, armas e miras e outras coisas mais e num instante estávamos em Monte do Trigo, para nos juntarmos aos restantes intervenientes.
 
Sorteio dos postos, e calha-me o “Monte da Aldeia”, cevadouro novo, ainda não utilizado, e pela conversa com o Paulo e com o Jorge, os organizadores, estava bastante mexido.
 
O Paulo, uma vez mais fez questão de me reportar as suas observações do local e de referir que havia rastos de um porco grande, que se destacavam, e que se tivesse paciência para o esperar deixando os outros que por lá andavam poderia conseguir um bom troféu.
 
Tinha preferido voltar ao cevadouro o­nde “deixara” fugir o maior porco do Alentejo, mas esse estava de folga. A propriedade dispõe de vários cevadouros, mas só alguns são sorteados, assim sendo, há que resignar e seguir para o novo local.
 
Este tinha em comum ser junto a uma lagoa, e esta ficava num vale, para norte era pasto e para sul havia mato. Foi-me mostrado o local e descritas algumas características do mesmo. Do alto pude observar a lagoa, o cevadouro, e dois locais o­nde, à minha discrição, podia fazer a espera em função do vento. Eram eles junto a dois pequenos regatos que alimentavam a barragem, um deles mais à direita, passava pelo meio do pasto sendo terreno mais aberto, não me agradava muito. O outro era ladeado por chaparros e outras árvores, mais fechado, e oferecia mais opções de dissimulação da minha presença. Um pouco mais à esquerda deste havia uma vasta ceara de aveia.
 
Quando o Paulo me descreveu o que podia esperar do local, também me referiu que havia a possibilidade (ainda que não fosse a mais provável) de me entrarem porcos pela retaguarda do posto, pois havia muito rasto no próprio leito do agora seco regato, referindo que essa era uma característica que nem todos os esperistas gostam. Mas eu não sou esperista…
 
Optei por ir para este último. Seguindo pelo trilho feito pelos rodados do carro que alimentava o cevadouro, não tardou um segundo que não me despertasse o instinto caçador... A alguns metros de mim, acabadas de se espojarem, um casal de perdizes levantou com estrilho, sacudindo o pó e ganhando velocidade vale abaixo, rodando para a esquerda e pousando no limiar do mato, na encosta oposta. Uma cena perfeita dado o pano de fundo…
 
Chegado à "foz" e por consequente ao local da espera, tinha de decidir se o faria à esquerda, no meio do regato ou à direita do mesmo. Havendo a possibilidade remota de me entrarem porcos pelo regato, optei por ficar à direita, sendo assim mais fácil disparar para a minha esquerda.
 
O cevadouro ficava longe, a uns bons 100 metros ficava na zona de descarga da barragem tendo bem definidos uns dois passadiços que prometiam. Quando o observava, ouvi um burburinho na água, e presenciei o levante de um casal de patos reais… circularam por cima da charca durante duas ou três voltas e rumaram para outras paragens. Ainda não me tinha sentado e uma rola veio beber na margem. O sítio fervilhava de espécies cinegéticas… hajam pombos e volto lá, ai volto, volto.
 
Um pouco mais para a sua esquerda ficava uma banha, junto a um chaparro solitário que se destacava dos do monte, uns 50 metros por detrás deste. Nesta zona, a altura do pasto era considerável, e só conseguiria ver algo junto do tronco.
 
Feitas as fotografias da ordem, despachadas as sms’s e telefonemas, carreguei a arma com munições frescas (Lapua Naturalis 220 grains, já que estava numa zona alagada ehehe), verifiquei o aperto das montagens e o zoom da mira, ajustei a cadeira para me dar uma posição de tiros confortável para o cevadouro, coloquei os auriculares e regulei o seu volume (além do mais protegem das melgas) e… começou a espera propriamente dita.
 
Pouco a pouco o sol foi baixando no horizonte, as cores foram mudando, e as estrelas foram surgindo. Neste crepúsculo, voltei a ouvir chinfrim na lagoa, desta vez eram as galinhas-d’água que faziam a festa… A noite foi caindo e o ecossistema foi sossegando, aparte das melgas que teimavam em zunir junto aos ouvidos (vivam os auriculares) e do coaxar constante das rãs.
 
O tempo foi passando, e eu gozando cada momento daqueles. Estava totalmente relaxado e sentia-me bem. Ultimamente o cansaço tem-se acumulado, e isso reflecte-se no dia-a-dia, pelo que momentos destes são um tesouro. A Lua brilhava timidamente no seu quarto-crescente, e dei por mim a observá-la através das ramadas da árvore sob a qual me instalara, e num gesto que depois me iria arrepender, peguei nos binóculos para a ver em pormenor.
 
Estava nisto há uns minutos, poucos, quando uma restolhada me chamou à realidade. No caminho para o posto, ao ver os rastos que havia no leito seco do regato, coloquei um ramo em pressão, preso nas ervas da margem. Ao ser empurrado, desprendeu-se e foi este o ruído que ouvi. Mas quando quis ver o que se passava nas minhas costas, estava completamente encadeado pelo brilho da Lua. Fechei os olhos para tentar recuperar a visão, começo a ouvir uns passos muito dissimulados, que não consegui identificar a origem, mas calculava que fossem perto. 
 
Abro os olhos e já conseguia enxergar qualquer coisa. Ouço agora uma fungadela, tão perto que quase senti a deslocação do ar na nuca. Viro-me o mais que a cadeira permitiu, felizmente sem ruido, e vi finalmente, a dois/três metros o vulto de um javali parado… de cabeça no ar, fungava, e por detrás dele, encobertos pela curva do regato, outros mais pareciam fazer o mesmo. Esteve ali uns minutos, depois pareceu descontrair e calmamente subiu o pequeno declive da margem esquerda, e parou de novo, cabeça levantada, mas não fez qualquer outro movimento ou ruído.
 
Estava tão perto que o conseguia cheirar. A sua silhueta recortava-se perfeitamente contra o fundo claro que a ervas queimadas pelo sol proporcionavam. Mal se mexia. O ângulo não me deixava encarar correctamente a arma e tendo já colocado o zoom no mínimo, conseguia apontar mas com a coronha apoiada no antebraço.
 
Estive assim durante uns dois minutos, com aquela figura a encher completamente o óculo, mas ainda assim tinha boas referências para fazer o disparo. Calculava tratar-se de um porco, de uns mal pesados 70 kg, mas não tinha dentes pois via-lhe a boca perfeitamente.
 
Atrás de mim, no regato, as fungadelas continuavam, cada vez mais perto, cada vez mais frequentes, mas ainda assim fora de vista. Já estranhavam qualquer anormalidade, e eu já me tinha rendido à evidência: não ia disparar. Não naquelas condições e não àquele animal. O espectáculo de os ter tão perto era para mim muito superior a qualquer necessidade de efectuar o disparo. Fiquei a ver e adorei cada segundo.
 
Até que outro mais afoito, ou quem sabe se fazendo parte de alguma estratégia de defesa do grupo, decidiu sair do escuro do ribeiro, mas este fê-lo para o lado direito, ficando imediatamente atrás de mim. Que me visse ou cheirasse, não sei, senti uma fungadela mesmo muito perto de mim. Roncou e imediatamente pôs-se em fuga. Virei-me e ainda o vi desaparecer monte fora. Era mais pequeno, de uns 30-40 kgs. Os que estavam no regato devem tê-lo seguido bufando de irritados julgo eu, mas o meu amigo da esquerda continuava descontraidamente encostado na arvore…
 
Para não esconder nada, devo dizer que houve um breve momento em que disse para mim mesmo “hoje é que precisava de uma treta daquelas do .30-06! O coice da 9.3 provavelmente deslocava-me o antebraço e decerto ficaria com um sobrolho à Weatherby”. Mas foi um... "fantasma" que pairou por pouco tempo.
 
Quando tentava ligar a máquina fotográfica para filmar (nunca conseguiria uma fotografia naquelas condições), o gajo fartou-se, virou-se para mim e eu disse-lhe literalmente adeus! Foi suficiente para o por a mexer dali para fora.
 
O resto da noite passou calmamente, uma grande tranquilidade invadiu-me e dei por bem empregue todo o tempo que ali passei. Foi de longe a melhor experiência de caça maior pela qual passei. O Paulo recolheu-me pelas 2.00, por essa hora a Lua já perdera parte das pilhas, quero dizer, do brilho e isso deu-me a perceber que, a continuar nas esperas, preciso mesmo de uma mira telescópica nova.
 
Podem perguntar porque ficar tão satisfeito sem ter morto nada… mas provavelmente foi por isso mesmo. Se tivesse disparado teria sentido outras coisas… mas para o ter feito, esse gesto tinha de me dizer algo, e na altura pareceu-me ser absolutamente desnecessário ter dado a morte àquele animal. Que ganharia com isso? Carne? Lá em casa só eu a comeria, aposto! O meu pai já me tinha dito que também não queria… e para convidar uns amigos para lá irem a casa não necessito de desculpas. Troféu também não tinha e o resto não me importa. Para a próxima, talvez daqui por uns anos possa esse porco dar a mesma satisfação a outro caçador.
 
O regresso a casa fez-se nas calmas, mas receio que a conversa que mantive, ou tentei manter, com o Francisco não deve ter tido grande nexo, eu vinha literalmente a dormir... acordado. O Diogo então vinha mesmo ferrado. Chegamos a Torres pelas 5.30 da manhã, já raiava o dia. E eu a lembrar-me que dali por uma hora estaria de volta ao mesmo local para outros compromissos… Ai ai...
 
Já pela tarde recebo um sms do Paulo de certa forma lamentando que o “tal” porco que me havia falado como frequentador daquele local não ter comparecido e esperando que não tivesse dada por perdida a noite. Perdida? Depois do que passara? Entre amigos? Eu é que lhe peço desculpa por ter umas ideias um bocado “próprias” de como devo encarar a caça!
 
Agora vem a parte mais chata. Apetece-me voltar! Esta coisa das esperas deve ter-me contagiado e o maior javali do Alentejo anda por aqueles montes… mas para isso tenho de convencer a minha mulher a “deixar-me” ir e a forma mais fácil e(ra) fazer-me acompanhar por ela. Mas descai-me contando-lhe esta aventura e agora já diz que nunca lá vai por os pés.
 
Os meus sinceros agradecimentos ao Paulo Farinha e ao Jorge Pinto pelo convite, assim como ao Francisco e ao Diogo pela boleia.
 
Até à próxima.
 
Pedro Jorge
 

 
Imprimir   Imprimir
     
     
     
     
 
 
 
Votos (34)    
 
     

Comentário(s) (3)   Comentário(s) (3)    
    o regresso    
    É isso um VIRUS mas saudavel ...    
    Fico feliz...    
   
     
  Voltar

 
 

| Ficha Técnica | Aviso Legal | Política de Privacidade |

 

(TES:0s) © 2004 - 2017 online desde 15-5-2004, powered by zagari