| | 496 Utilizadores on-line |    

Login [Entrar]

 
   
 
 
Histórias de Caça

Início

Anterior

Próximo

Fim


Dois Colossos
 

     

Autor: JOAQUIM JOSÉ DE OLIVEIRA MOURATO

16-05-2010 11:00:00

 

O autor com o seu enorme javali
   
Boca do «colosso» abatido
   
O grande javali
   
O autor feliz com o sucesso da caçada
   
1995, foi ano de valentíssima seca. O calor escaldante do Verão abrasava tudo, deixando sem comida e sem água, tanto o gado doméstico como os animais bravios. “As charcas” e os ribeiros, com uma miséria de água, de dia estavam “tapadas” de gado, “morto de sede” e esfomeado, que ao cair da noite corria os campos em busca do pasto, que praticamente, já não havia. Eram tempos de grandes dificuldades para todos os seres vivos. Logo que o Sol desaparecia lá no Poente, começava a corrida da “bicheza” brava aonde ainda restasse alguma pinga de água, para aliviar a sede, que aguentara durante a tarde abrasadora.

As porcas, às vezes, com uma “mão cheia” de “riscados” atrás, de lado mostravam o seu tamanho, com as “tetas” caídas e vazias, mas de frente pareciam “bacalhaus com orelhas”, tal era o estado de magreza. Os javalis sabiam bem o perigo que corriam, mas tinham obrigatoriamente que acorrer aos poucos sítios o­nde havia água para beber.

Tinha visto uns dias antes, na margem da “charca das perdigoas”, umas “banheiras” muito “seguidas”. Numa delas via-se o rasto de um “fadista”, que a julgar pelo tamanho das marcas dos “sapatos”, tinha que ser muito grande.

Rapidamente estudei o terreno. Na realidade só poderia “esperar” o porco, debaixo dum pequeno zambujeiro, mais ou menos a uns setenta metros da “charca”. Dali, via perfeitamente as “banheiras”, a pouca água que havia e ainda o sítio donde supostamente o animal deveria entrar. Do outro lado, há uns silvados enormes. Quase de certeza o bicho viria pelo silvado pois por ali, só iria “mostrar o cabelo” já dentro da água.
 

   
 Sozinho e em silêncio continuava a assistir, petrificado, àquela demonstração de força e bravura. 
   

O grande problema iria ser o vento, que só de Norte ou Leste, faria com que o animal não me cheirasse. De qualquer outra direcção que soprasse, era certo e sabido, que iria descobrir-me e não entraria. Já estávamos no “Crescente”. O único remédio, era esperar e ter a sorte de apanhar alguma tarde com vento”bom”, antes de acabar a Lua.

Tentar a caça a porco velho com vento mau é estar a ensinar-lhe a maneira de nesse sitio nunca mais se deixar “enganar”.

Faltavam três noites para a Lua Cheia. Desde manhã o vento estava “espanhol” (vento Leste). À meia tarde, depois de engolir qualquer coisa à pressa, carreguei “o estojo” e “àla que se faz tarde”.

Que grande ilusão levamos sempre, os caçadores. Pelo caminho, lenta e repetidamente, ia analisando todos os pormenores. Se corresse mal, pelo menos que não fosse por eu fazer alguma “parvoíce”. Deixei a carrinha num caminho de terra, a uns duzentos metros atrás e rapidamente caminhei em linha recta para o zambujeiro. Sempre em silêncio, lá me coloquei, debaixo do zambujeiro, atrás dumas ramas cortadas no outro dia em que vi o rasto pela primeira vez. Normalmente estando à sombra, não é preciso “aguardo”, mas neste caso ia ter a Lua de frente e tinha medo do reflexo do cano da “ferramenta”, mais ainda tratando-se dum “sabidão”.

À medida que o Sol ia desaparecendo, os “barulhos” do dia, iam dando lugar aos da noite. A passarada ia-se calando, começando a sinfonia das rãs na água e dos grilos e ralos no campo. À minha volta as melgas começavam a circular com aquele zumbido irritante. Menos-mal que agora há esse repelentes de insectos, senão essa malta cuidava de chupar o sangue todo a um homem. Antes de aparecerem estes produtos, esfregávamos umas ervas, chamadas “mantrastos”, na cara e nas mãos, para afugentar os mosquitos. As vezes que as usei tive igual resultado às vezes que não puz nada, ou seja umas valentes ferroadas.

Pouco passava das dez horas da noite, um casal de patos-reais, que tinha pousado pouco tempo antes, arrancou espantado por alguma coisa. De repente as rãs calaram-se e de seguida os ralos também. Ficou tudo em silêncio. Não restavam dúvidas que andava ali algum bicho, mas eu não o via.

Passados alguns minutos, no meio dos poucos juncos que ainda restavam verdes, mexeu-se uma sombra. Embora a charca tivesse muita “freguesia”, assim com tão pouco “barulho”, podia muito bem ser o “fadista” que eu esperava. De qualquer forma tinha que “aguentar” e com os binóculos tentar ter a certeza do que se tratava, não fosse “ferrar” algum tiro numa porca parida que muitas vezes também são cautelosas.

Sempre tive a mania de esperar o mais longe possível dos sítios o­nde vão os porcos. É menos provável que nos descubram, e se fizerem o “cerco” para entrar com o vento de caras, temos mais hipóteses de ficar fora. Como em tudo na vida, aqui também há o “reverso da medalha”, tornando-se mais difícil avaliar o animal e o tiro é mais complicado, pela maior distância e por ser de noite. Bom!

Como dizia antes, tentava ver se aquele seria o dono do rasto que eu tinha visto, quando inesperadamente, surge dum regato já seco à minha esquerda, um outro javali. Este, sem sombra de dúvida era enorme. Sem a mais pequena cautela “arrancou” para o outro como um touro para o cavalo.

Foi a primeira vez que vi uma luta entre dois “colossos”. Fui testemunha silenciosa dum espectáculo que muito poucos terão possibilidade de assistir. Os “roncos” abafados eram seguidos de violentas “trombadas” que atiravam, ora um ora outro, a metros de distância. A “poeirada” que levantavam no terreno seco, só por breves momentos me deixava ver os contendores que no fragor da luta se equivaliam em força e tamanho.

Sentia-me pequeno perante a grandiosidade do combate.

Seguramente, um deles invadiu o território do outro. O senhor daquele domínio não ia permitir a outro aquela invasão. Na natureza as coisas resolvem-se assim e só pode haver um vencedor.

Sozinho e em silêncio continuava a assistir, petrificado, àquela demonstração de força e bravura.

Sempre uso nas esperas, uma fita de plástico leve, pendurada num ramo seco, que me mostra a toda hora a direcção do vento. Reparei então que o vento já tinha dado um toque para Sul, o que, a qualquer instante me iria denunciar.

Não havia tempo para mais apreciações. Rapidamente destranquei a carabina e no  momento em que um dos javalis saiu da poeira apontei e atirei. Ouvi, nitidamente, o embate da bala no enorme “corpanzil”. Seguiu-se uma corrida desenfreada. Ouvia agora os cascos no chão duro afastando-se a galope.

Nessa altura ainda fumava, pelo que, ainda meio aturdido, puxei dum cigarro e calmamente fumei. Devemos sempre esperar, pelo menos um quarto de hora, antes de ir procurar o javali atirado. Neste intervalo de tempo, se a ferida for grave, o porco acaba por morrer e evitamos assim o encontro com ele vivo, o que não é nada recomendável. Se o “estrago” for menor, também não perdemos nada. O animal, não se sentindo perseguido de imediato pode ficar perto, acabando por “arrefecer” e morrer, sendo mais fácil de encontrar. Embora eu sempre o tenha feito, não recomendo a ninguém procurar um javali atirado de noite e pior ainda sozinho. É realmente muito perigoso dar de caras com um porco ferido, mais ainda de noite.
 

   
 Nunca chegarei a saber se matei o maior ou não, mas isso também não é o que mais importa. Nessa noite morreu um valente, que merece todo o respeito e admiração daquele que teve a sorte de o ter caçado. 
   

Acabado o cigarro, lá o fui procurar, mas o javali não estava “no tiro”. No entanto um metro à frente do sítio o­nde atirei já havia “pintura” dum sangue encarnado vivo, com aquela espuma característica dum tiro que lhe rebentou com os pulmões. Este è já meu!!!

Resolvi seguir o rasto de sangue, porque tinha a certeza que, embora pudesse não estar muito perto, estaria morto.

Depois de uns trinta metros, dei de caras com o silvado, e o rasto seguia para dentro dele.

Depois de largar alguns impropérios, que aqui não digo, voltei para trás. “Tenho que cá vir de madrugada e com ajuda para tirar este gajo da porra do silvado, Vou mas é arrumar a tralha”.

Por curiosidade, fui ainda, ao regato seco, para ver se havia rasto do segundo porco que entrou e se seria o mesmo rasto que eu tinha visto. O terreno estava duro e seco, por isso não havia marcas nenhumas.

Entre o regato e o zambujeiro, o­nde tinha o “aguardo”, havia uns trinta metros de sargaços que me davam pelos joelhos. Para encurtar caminho ia atravessando os sargaços. Ia pensando em tudo o sucedido e por pouco não tropecei no enorme javali, morto no meio dos sargaços. O animal, desorientado, pelo tiro que rapidamente lhe roubava a vida, correu alguns metros dentro do silvado, voltando a sair mais acima, para vir morrer nos sargaços.

Não me tinha enganado, da boca do javali saíam duas belas “navalhas”. Por cima assomavam duas grossas e perfeitas “amoladeiras”. Belo animal!!!

Eram impressionantes os golpes que tinha nos flancos. Havia rasgos com um palmo.

Nunca chegarei a saber se matei o maior ou não, mas isso também não é o que mais importa. Nessa noite morreu um valente, que merece todo o respeito e admiração daquele que teve a sorte de o ter caçado.

São estes “artistas” que nos fazem “aguentar” noitadas, com as maiores inclemências, sempre na esperança que chegue a hora de encontrar aquele enorme javali com que sonhamos.

Nota: medido deu 98 pts.

13-03-2010
Joaquim J. O Mourato

 

 
Imprimir   Imprimir
     
     
     
     
 
 
 
Votos (18)    
 
     

Comentário(s) (2)   Comentário(s) (2)    
    Sim sr    
    Muito bom...    
   
     
  Voltar

 
 

| Ficha Técnica | Aviso Legal | Política de Privacidade |

 

(TES:1s) © 2004 - 2017 online desde 15-5-2004, powered by zagari