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Histórias de Caça

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Alfobre de felicidade
 

     

Autor: Luis A. S. R. Ferreira de Paiva

15-05-2010 11:30:00

 

O protagonista. Aqui, noutra ocasião
   
A paisagem onde decorre a acção
   
Um curto descanso, bem ganho
   
Haverá dias felizes na vida de toda a gente. Mesmo aqueles que, por vontade do Criador, tiveram existências difíceis ou forçadamente mais curtas, viveram os seus momentos de felicidade. Eu acredito nisso piamente, até porque ela, a ventura, é relativa e adaptada a cada um que, inevitavelmente, a perseguirá com os maiores denodo e persistência. Dos dias felizes que já eu vivi, alguns estão relacionados com a Caça. É um dia desses que eu vou tentar descrever:

Nesse ano, eu tinha um novo cão que, por acaso, também era um cão novo.

E quis o destino que o tivesse estreado numa caçada a dois, com um companheiro da região daqueles para os quais basta olhar uma vez, para perceber que caçaram toda a vida.

Eram seus, então, três canitos. Um bretão, aparentemente de sangue bastante puro e dois podengos, dos médios e daqueles de focinho barbudo.

 

Montijo, nomeara ele o perdigueiro que lhe tinha sido oferecido pelo cunhado a trabalhar para aquelas bandas.

 

A sua luta era para os trazer “curtos” porque, devido ao relaxamento que com eles tinha no defeso que atravessavam soltos e vagueando por o­nde queriam, os animais, pouco habituados à voz na Caça e bem calhados na rédea larga, caçavam afastados que chegava e sobrava.

Gastava-lhes, por isso, os nomes, chamando-os vezes sem fim.

Do meu, não esperava eu, ainda, grande coisa. Apenas dar-lhe calos nas patas e horas de monte.

 

Saímos, então, cedinho, directos da aldeia, com os cães à frente e praticamente logo a caçar.

A boa disposição era evidente, entre caçadores, em dia de abertura geral e no início da jornada. Junto às casas da extrema do povo, o meu companheiro, ia saudando, bem disposto, os patrícios que iniciavam a labuta diária, Gracejando, mesmo, com uma anciã, soltou-lhe um “Éh, Tie Amélia, melhor será botar já auga ao lhume, que na volta é que vai ser desplumar!”

 

Não há nada melhor do que a sensação de caminhar no monte, com o cão, em dia de Caça geral. A mim que caço e cacei, sempre, a quase tudo em todas as modalidades de Caça, nada me preenche mais. A Caça de salto com cão é, na caça miúda, o pináculo da Caça.

 

A manhã estava esplêndida para a função. Limpa, fresca para Outubro e os terrenos húmidos da chuva fraca de horas anteriores. Melhor, nem de encomenda para os cães e para encontrar as perdizes, ao sol.

 

Foi a minha companhia quem ditou o rumo, o posicionamento de cada qual e a volta a dar. Sendo eu conhecedor daquelas paragens, de muitas caçadas feitas, a “táctica” era já dada em meia dúzia de palavras e sem necessidade de recorrer a outros termos que não os da toponímia local, tão do agrado das gentes do interior rural transmontano.

 

As referências soavam como; cruz do carrascal, pinhal das chãs, curriça do lameiro ou a rodeira da extrema e dispensavam mais explicações.

 

Combinadas a ida e a volta, separamo-nos com os respectivos fieis amigos, – que tinham, entretanto, trocado alguns “sorrisos” entre si - aí uns cinquenta metros um do outro e metemos pernas ao termo.

 

Não tardou para que os cães dele, se pusessem a galope, correndo, quem sabe, um coelhote ou alguma lebre que não tínhamos podido avistar. O meu aprendiz de auxiliar, ao contrário, aventurava-se pouco, mostrando alguma timidez própria de um estreante naquelas andanças e dos meses que tinha de vida. Os berros de chamada que rapidamente se transformaram em ameaças, atirados pela minha companhia aos seus cães, foram dignos do pastor mais traquejado nestas lides da verbalização em calão. Pudessem as cadelas que os tinham trazido ao mundo, ouvi-los que teriam, seguramente, corado, pese a sua condição de irracionais e naturalmente promíscuas.

 

Mas não houve mão que eles dessem. Por isso e porque já um bando bom de perdizes se tinha posto nas asas picado pela correria desatada, optei, depois de o ter feito saber a um companheiro desaustinado pela falta de ordem que perpassava pela sua canzoada, por me colocar ao abrigo dos desvarios dos canitos desobedientes, afastando-me um bocado mais e alargando o espaço entre nós. Tinha que ser assim e não se tratava de falta de solidariedade alguma, pois, com um cão imberbe e inexperiente, arriscava-me a estragá-lo definitivamente com o exemplo dos outros.

 

Fiquei, dessa forma, fora da vista do meu companheiro, ainda que o ouvisse distintamente, “prometendo” a desforra aos cães, o que fazia, isso sim, com que estes, de avisados que estavam, menos se lhe chegassem e continuassem, sempre, a caçar suficientemente longe para estar a salvo de qualquer pagador de promessas.

 

Rapidamente chegámos ao miolo do termo, um painel de terrenos cultivados, com pequenos olivais, vinhas, parcelas de trigo, centeio ou aveia em restolho por essa altura, alternando com um ou outro adil ou lavrado, e bordados com cordões de “sujos” de carrascos, escovas, silvas e estevas, tudo com um dobrado fácil de andar. Era aqui que eu gostava mais de as caçar, às perdizes. E, por norma, elas eram certas nestas bandas.

 

Tomei, então, redobrado alento e atenção ao meu projecto de auxiliar, procurando ver-lhe curiosidade e interesse em procurar rastros recentes ou em aventar caça. E o animal, trotava já desinibido, muito embora sem ter bem a certeza de saber ao que andava. Não se afastava mais do que uma dezena ou duas de metros e, quando calhava ficar atrasado com o focinho encalhado nalgum odor novo ou estimulante, prontamente levantava a cabeça procurando ver-me com receio de ficar só.

 

Umas centenas de metros mais e, do alto de um cabeço, verifiquei que tinha um fartote de caçadores traçando o termo que se me deparava. A espaços, escutava tiros, dobrados por vezes e seguidos de estímulos à companhia canina. Estive parado uns minutos, assim, avaliando o que fazer enquanto roía uma maçã com que me tinha prevenido.

 

E, avistado e avisado por gestos o meu companheiro, decidi voltar para trás, obliquamente, desfazendo a volta combinada, pois, uma vez mais me parecia ter ainda pouco cão, para tanta companhia.

 

Passei por ele e pelos seus cães, o Montijo e os outros dois, mais controlados, mas ainda conservando uma distância de segurança que lhes era aconselhada pela memória sensitiva, e comuniquei-lho em duas palavras, ao que me disse que sim, que voltaríamos, mas que o melhor ficaria perdido, ainda assim.

 

Mas voltamos, pisando terrenos diferentes do que tínhamos feito na ida.

 

Perto de uma pequena vinha, murada e com um pombal abandonado num dos topos, vi, levantarem-se aos cães da minha companhia, para trás e sem que ele disso se apercebesse, primeiro umas três, depois uma meia dúzia e finalmente, uma bandada enorme de perdizes que voaram, não muito apertadas, na direcção de um pousio que acabava num cabeço coberto a giestal.

 

Seguro de saber o­nde estariam, dei duas assobiadelas tentando atrair a atenção do meu companheiro e dar-lhe a saber das aves. Gestualmente, combinamos que ele se adiantaria, tentando ganhar a frente às perdizes e impedindo-as de se afastarem à pata.

Hesitei um pouco sobre como proceder e, com um encolher de ombros mental, animei o meu animal em tom baixo e, calmamente, encaminhei-me para o­nde supunha terem as perdizes buscado abrigo.

 

Não tardou que andasse em terrenos o­nde elas poderiam estar. Cruzando um pasto e subindo em direcção ao cabeço socalcado e sujo de silvas e giestas baixas, notei que o canito, subitamente, parecia diferente. Começou por se excitar com um rasto que apanhou no chão para, meia dúzia de metros volvidos, ameaçar a paragem entremeando-a com uma guia hesitante. Fiquei radiante e atento, com aquela sensação na boca do estômago que, tantos anos e lances volvidos, ainda me surge sempre que estou na eminência de um levante.

 

O animal, cruzados uns vinte metros, imobilizou-se numa atitude plasticamente perfeita, tremendo ligeiramente e inseguro do que é que lhe estava a acontecer e do estranho impulso que lhe tolhia os músculos mal lhe entrara aquele cheiro pelas narinas dentro. Não pude gozar muito o momento, porque a perdiz, uma só, com o rufar característico do violento golpear das asas, levantou uns bons metros à frente do cão, de atravessado primeiro, para depois tentar obliquar, afastando-se. Abati-a com um disparo, fácil, que não errei e o meu colaborador, após uma curta hesitação na surpresa do levante, acorreu ao local da pancada e banqueteou-se com as penas que se iam soltando.

 

Não tive muito tempo para desfrutar do lance ou para tentar acertar o cobro do canito porque os arredios quadrúpedes do meu companheiro de jornada, depressa acorreram ao tiro e, temendo o desfecho, tirei a perdiz ao meu cão.

 

Afagava-o ainda, quando a minha companhia de caçada irrompeu em vigorosos chamamentos pelos seus cães, alternando-lhes os nomes – o do Montijo principalmente – com estridentes assobios e fortíssimas imprecações.

 

Estes, após uma curtas correrias à roda do local e instados pelas enxotas que lhes fui, também, fazendo, arrancaram, os dois podengos na direcção do dono e o Montijo, teimosamente, rumo ao sujo do alto, a uma trintena de metros de mim.

 

E o que tinha que acontecer, aconteceu. O cão, mal se assomou às giestas, pôs nas asas, com um forte ribombar, bem uma dezena de perdizes, que levantaram em ordem unida, não sem que antes, justiça lhe seja feita, o Montijo tivesse esboçado uma tentativa de paragem.

 

Fiz um tiro que errei, ao meio do bando e a emenda, já bem centrada, derrubou, fulminada, uma das últimas aves. Com o balanço tomado, foi cair, para lá do cabeço e do muro que o delimitava, já fora do meu alcance visual.

 

Corri então na direcção da queda, assobiando ao meu cão para que me seguisse, embora não estivesse seguro do que esperar dele.

 

Dobrado o alto, no meio das giestas e encostado ao muro, tentei calcular visualmente o­nde poderia estar a perdiz, e para aí me dirigi, incentivando o meu ajudante para que a fosse procurando. E ele deu com ela primeiro que eu, ainda que não se tivesse disso apercebido imediatamente, já que se parou por cima da ave morta, sem a chegar a ver. Mas eu apanhei-a e dei-lha, para que a tivesse na boca um bom bocado, como recompensa que lhe tocava do lance acontecido. De novo, o aparecimento do Montijo e o receio de uma disputa me fez, abreviar a aula e atrelar a perdiz.

 

Estava-me a correr bem a manhã. Do que eu levava de expectativas, tinham-se cumprido todas mais do que aceitavelmente. Não só cobrara duas perdizes como, melhor, o cão tinha caçado muito para além do que eu dele esperava.

 

Decidi então que era chegada a vez de atentar no meu companheiro que eu não via desde há tempos e encetei a marcha na direcção de o­nde me surgira a sua voz, não havia muito.

Comigo, embora sempre à distância, seguiu também o Montijo.

 

Caminhava distraído quando, de novo, o meu cão se imobilizou. À passagem por um silvado ficou com a cabeça, perpendicular ao resto do corpo e à direcção que trazia, voltada para as silvas. De novo fazia uma figura esteticamente bonita de ser vista.

 

Não acreditei que de mais perdizes se tratasse, pois tínhamos sido tudo, menos discretos umas centenas de metros atrás. Imaginei, pois, que por ali se alapasse algum coelho, ou que, o que não era inédito, alguma codorniz tivesse buscado refúgio entrando no coberto.

 

Incitei o cão, duas ou três vezes e, perante a sua permanente imobilidade, avancei para as silvas com a arma ao alto.

 

O levante fez-me dar um salto pois não contava com a perdiz e na ânsia de ser rápido no encare, fiz um único tiro para o­nde a ave tinha voado, baixa e tapando-se com a vegetação.

Do que tive a certeza foi de que tinha podado uns carvalhinhos que fechavam a vista, para lá de uma dúzia de metros, mas na dúvida, acerquei-me rapidamente deles e, no terreno mais limpo, ainda fui a tempo de ver a perdiz, à pata, entrar para um matagal considerável aí a uns quarenta ou cinquenta metros de mim.

 

De novo corri e nessa direcção, chamando o cão. Lá chegado, incentivei-o a buscar no local o­nde vira a ave pela última vez.

O canito, nariz no chão e cauda nervosamente inquieta, fez dois ou três círculos, abrindo o raio, de passagem para passagem, findos os quais, levantada a cabeça e olhando para mim como que inquisitoriamente, quis regressar ao local inicial, flectindo, então, para a minha direita e para um forte e bem alto silvado que se desenvolvia para baixo, na direcção que trazíamos.

Insisti com ele que não era ali que eu o queria a procurar e, de novo, o animal com o nariz no chão, circulou na zona o­nde eu tinha, positivamente, visto a ave por último.

 

Segundos volvidos e já estava de novo, cá em baixo tentando vir na direcção do silvado.

De novo o arrastei para cima, desta vez, alargando uns bons metros mais a zona de busca, sempre na direcção em que eu vira a perdiz ir-se.

O desfecho foi o mesmo. O cão depressa desistia da busca e queria teimosamente regressar na direcção de vinda.

 

Com isto, tinham-se passado uns bons dez minutos e eu, na certeza de que não conseguiria mais cobrar a ave e de que o cão não tinha experiência para ma encontrar, decidi-me por pedir a ajuda do meu companheiro e dos seus cães.

Assobiei forte, como costumava fazer para comunicar com ele e cheguei mesmo a gritar-lhe o nome.

 

Entretanto, o meu auxiliar, finalmente entregue à sua vontade, tinha descido e teimosamente rondava as silvas para o­nde tinha querido dirigir-se.

Não lhe prestei muita atenção inicialmente, mas ao ver que furava, aos arranques, silvado adentro, com muita dificuldade e aparentando insensibilidade aos fortes espinhos, calei-me e dirigi-me para o­nde ele desaparecera, espinheira adentro.

 

Já não o vi, pelo que o chamei repetidamente enquanto o ouvia arrastando-se com dificuldade no interior e assim continuei, mesmo depois de o deixar de escutar.

Por mais que o chamasse não o conseguia fazer voltar e, já com o meu companheiro presente, lembrei-me de contornar o silvado, saltando uma ribeirita para tentar chegar do lado de lá.

Deparei-me com o cão, deitado, focinho ensanguentado dos arranhões e com a perdiz entre as patas, enquanto me mirava e, pausadamente, batia lateralmente o toco da cauda que lhe tinham cortado a dois terços, quando cachorrito.

 

Era como se me dissesse: “Então? Afinal quem é que tinha razão?”

De bem disposto, passei a um estado de quase euforia.

Não me contive que não o elogiasse perante o meu companheiro cuja má disposição contrastava com a minha alegria, na mesma proporção que o sucesso da minha jornada se distinguia do fracasso da sua.

 

Voltamos juntos, eu jovial e sem conseguir tirar os olhos do meu cão que trotava à minha frente, procurando ainda caça, e dando sinais de um entusiasmo enorme, ele mais acabrunhado e jurando que não mais queria cães de parar, viessem lá de o­nde viessem, insensível aos meus argumentos de que o não deveria ter junto com os coelheiros nem todos soltos, percorrendo o termo, caçando por conta própria, ao contrário do que ele acreditava ser o melhor treino possível que lhes poderia dar.

 

Escusado será acrescentar que não o convenci e que o Montijo seguiu caminho, oferecido a alguma matilha, para ponteiro ou até, quem sabe, para cão de companhia e que os seus podengos continuaram a ser soltos, durante todo o ano, entregues a si próprios e, como não, autênticos campeões de corso.

 

Mas ficaram-me na memória, a caçada e o capital de felicidade que obtive com o meu cão que se fez nesse dia.

 

Luís Paiva
 

 
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Comentário(s) (8)   Comentário(s) (8)    
    Paixão pela caça    
    Uma narração explendida    
    Dias felizes...    
    Dizem que    
    Como o entendo    
    muito bom    
    Bravo Luís    
    Um primor    
   
     
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