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Histórias de Caça

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Um episódio inédito
 

     

Autor: José Manuel Paulino

06-01-2011 17:05:00

 

   
   
   
   
Chegados ao local da espera começou a escurecer, e não muito longe ouvimos os fortes grunhidos de dois javalis machos que travavam uma violenta luta,

É verdade, a sorte do Zé Duarte continua, mais um porquinho razoável à custa da "fisga", um tiro quase de rabo e ficou no sítio, a mono tiro 243 nas mãos do ZD revela-se infalível.
Na noite em que caçamos este javali vivemos um episódio inédito.

Chegados ao local da espera começou a escurecer, e não muito longe ouvimos os fortes grunhidos de dois javalis machos que travavam uma violenta luta, certamente para definir qual deles iria beneficiar da simpatia de alguma fêmea que rondava por perto. Passado algum tempo deixamos de ouvir o rebuliço da refrega e a nossa atenção centrou-se nas possíveis entradas na esperança de que algum daqueles machos nos entrasse. E assim foi, passaram algumas fêmeas e as respectivas proles e por fim, após várias investigações, abordando locais diferentes no mato forte na tentativa de descobrir qualquer indício de perigo, apareceu a silhueta do bicharoco, destacava-se pela sua pelagem clara, era o macho que já tínhamos observado em ocasiões anteriores. Como o vento não batia muito certo e estávamos no chão, eu tinha-me afastado um pouco a fim de deixar maior liberdade ao Zé Duarte, que sentindo e acompanhando a movimentação do porco e tendo em conta a direcção do vento, conseguiu não denunciar a sua presença. Mal apareceu no espaço limpo tentou logo esgueirar-se rapidamente mas não foi muito longe, a minúscula bala da 243 deixou-o redondo no sítio.

Lá nos aproximamos com a habitual curiosidade de ver de perto o troféu conseguido e foi então que o meu filho, com um ouvido bastante melhor do que o meu, me chamou à atenção:

- Pai estás a ouvir? E eu não ouvia nada.
- Parece o chapinhar dentro de água misturado com um respirar aflito! Acrescentou.

Andámos um pouco na direcção dos sons e eu comecei também a ouvir o estranho barulho, não conhecíamos ali por perto qualquer local com água. Estávamos indecisos, o mato era bastante forte e a visibilidade não era muita, as nuvens tapavam a lua. A curiosidade venceu e com alguma dificuldade lá nos fomos aproximando, o barulho era cada vez mais nítido, não havia dúvida que era um bicho dentro de água.

Desviando as estevas com as mãos e tacteando o chão irregular coberto por altos pastos com os pés, estávamos numa zona baixa, demos de caras com um poço quase cheio de água barrenta o¬nde aparecia a grande cabeça de um javali que lutava aflito para sair sem o conseguir. O poço estava abandonado, rodeado e quase tapado por pastos e mato, tinha um bocal com cerca de meio metro, a água estava a um metro e pouco e o porco de pé, chegava com as patas ao fundo, ficando quase toda a cabeça fora de água.

Ficámos atónitos, sem saber o que fazer, o primeiro impulso foi de tentar tirar o bicho, mas como? Pela cabeça enorme que nós só víamos numa perspectiva de cima parecia uma fêmea grande, ao metermos o forcado na água para averiguarmos mais sobre o bicho e o poço ele atirava-se que nem uma fera, não havia muito tempo que ali estava. Estivemos algum tempo observando o cenário sentindo-nos incapazes de salvar o bicho pelo que optamos por sacrificá-lo a fim de lhe poupar o sofrimento de uma morte lenta. Com algum cuidado para evitar o perigo de algum estilhaço das pedras da parede do poço, rematou-se o bicho que acabou por desaparecer na água. Foi um momento de algum constrangimento que apagou a alegria do abate anterior.

Com bastante trabalho conseguimos tirá-lo do poço, ao contrário do pensávamos não era uma fêmea mas sim um macho de uns oitenta quilos, já com os dentes danificados de morder as pedras da parede do poço.

Como é que o bicho que certamente conhecia detalhadamente o local foi cair lá dentro? A única explicação que me ocorre é que tal tenha acontecido no desenrolar da luta com o outro macho que o Zé Duarte matou, aquela guerreia que nós ouvimos logo que chegamos.

Estes episódios levam-nos a pensar que todo o cuidado é pouco, por vezes de noite facilitamos as coisas e esquecemos estes perigos. Há muitos terrenos que ao passarem da actividade agrícola para o aproveitamento cinegético apresentam situações deste tipo, autênticas armadilhas tanto para animais como pessoas.

Mais uma noite bem passada fazendo aquilo que gosto na companhia que mais prazer me dá, ficam estas linhas e algumas imagens para mais tarde recordar.

José Paulino
 

 
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Comentário(s) (3)   Comentário(s) (3)    
    Ele há coisas...    
    Mais um belo relato...    
    Bela história de caça!    
   
     
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