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Histórias de Caça

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Noite de Lua
Noite de Maestrança
 

     

Autor: João Santana Fialho Acabado

23-12-2010 12:24:17

 

A invulgar caçada que se segue foi já com credencial, das primeiras que os Serviços Florestais terão passado para correcção da densidade dos javalis, estamos portanto aí em 85 ou 86, mais coisa menos coisa.

Nesta altura embora vivendo em Amareleja dou aulas em Moura e para aqueles lados tenho como habitual companheiro de caça o mestre Joaquim Turíbio, mecânico de profissão e dono de uma pequena oficina de motorizadas. Conhecêramo-nos uns anos antes, quando precisei dos seus serviços para um conserto numa motorizada todo o terreno, que era o meu cavalo de campo nas andanças por matos e rios. Naturalmente eu já tinha ouvido falar dele e ele em mim, ao que parece… – Conversa para cá conversa para lá, assim como quem não quer a coisa e lá fomos metendo a caça ao assunto e não me desagradou de todo o seu jeito vendo-se que sabia do riscado, mas sempre modesto, cauteloso… – E a ele parece que tão pouco lhe terá desagradado a minha conversa. Na altura ambos caçávamos muito à noite e há muito tempo também. Eu frequentemente sózinho, e ele sózinho sempre! – Agradou-me!

Passados uns dias quando calhou a ir levantar a mota, e também assim como quem não quer… lá combinámos então dar a nossa voltinha. Só para ver em que paravam as modas... – Tão bem nos ajustámos que nos tornámos inseparáveis companheiros por longos anos. Uns dez ou doze foram. – A “área de jurisdição” do mestre Joaquim era toda ela ao redor de Moura, do Guadiana até Portel, passando pela Vera Cruz, pela Amieira, Alqueva e Marmelar, apanhando deste modo um bom bocado da Serra. Do lado de cá do Guadiana não era tão extenso o seu território, mas de qualquer forma sempre se estendia até à Póvoa de São Miguel e a Safara. – No seu dizer esse era o seu chão, o seu querido chanito, ali sabia ele onde tinha os pés! Querendo com isso dizer que conhecia tudo. – E conhecia de facto tudo, de dia e de noite!

Tinha este homem qualidades raras como pessoa e uma habilidade como caçador que mesmo sem querer o faziam sobressair. E se conheci e acompanhei com gente que sabe caçar!

Graças a Deus! – Esta é das dádivas que mais Lhe agradeço!

Vi-lhe fazer coisas verdadeiramente extraordinárias, que para mim o colocam como o melhor caçador nocturno com que alguma vez acompanhei. A caçada que descrevo neste breve apontamento é disso mesmo um exemplo. – Foi sem dúvida um privilégio a sua companhia e amizade, e poder partilhar o seu saber imenso.

Estamos então pelo começo das Montarias e arranjámos uma credencial ali para a Quinta de Donas Marias, lá na aba Sul da Serra do Mendro a dizer para o Guadiana, de frente com a Vila de Moura, com a Corte Serrão e com o Sobroso por cima e os Pardieiros por trás. Os porcos nestas paragens e à época são muitos. – Neste tempo práticamente só quem caça nesta ponta da serra, na que vem morrer ao Guadiana onde hoje está o paredão da Barragem, é apenas o grupo de Alqueva, o Chico Malvarisco e o seu irmão, o Prof. Cuco e restante companhia. Por vezes encontramos o seu velho Opel preto escondido, metido nas silvas e covas mais fundas e escusas, sempre com um cortiço atado no tejadilho. – Manhoseiras… Outras vezes é uma carrinha ou um jipe, sinal certo e seguro que o Prof. Manuel Camacho Nunes e a sua gente estão por perto.

Estes grupos são nossos velhos “colegas”de arte, apesar de não nos juntarmos. Chamamos-lhe nós os do “agarra canito!”. Assim os baptizámos, pois ao cair da tarde gostam de dar pequenas “pancadas” com dois ou três cães leves, de meia terra, e eles sorrateiros punham-se lá onde havia de passar o javardo… Atrás dos cães normalmente bem atrás, vinha um sem espingarda, de faca pronta, e era esse o que aos primeiros ladros logo lhes gritava, “…agaarra canito! – Agaarra!”.

A nós, nem eles nos sonhavam por ali, pois ao carro deixávamo-lo do outro lado, bem longe e vínhamos sempre com grande antecedência. Saíamos da Vila logo a seguir ao café, depois de almoço. E por ali andávamos vendo os rastos e as voltas dos nossos bichos. Ao fim da tarde comíamos uma bucha e íamo-nos então colocar onde nos parecia. Claro, quem quer que passasse ou que chegasse, não nos passava despercebido.

Estamos então uma tarde descansados, tratando já do farnel, depois de tudo visto, sentados junto à fonte das “Pretas”, quando soa um latido ao longe e a seguir outro, vindos na nossa direcção… – Aí estão eles os do “agarra canito” em acção! – Logo a seguir o habitual, “…agaarra cão! …agaarra!”. Nós sorrimos e continuamos a comer, pois havia que despachar. Nisto começam a ouvir-se roncos, rosnadelas, e uma restolhada dos diabos no mato ali mesmo perto, vindo direito a nós, e começam a passar porcos de criação de 30 a 40 quilos e mais duas ou três valentes marrãs, de briga com dois cães. – Quase nos levavam por diante! Tivemos que nos levantar à pressa e pôr a comidinha a salvo, que aquilo vinha tudo cego! Bastante mais para lá, soam ladros doutro cão a rabo doutro porco. Passado uns instantes um tirinho seco lá à frente, depois outro e pronto, tudo sossegado! – Estes sabiam…!

Despachámo-nos, enrolámos o estojo e lá nos fomos a colocar. Um tanto desagradados com o rebuliço que ali houvera, pois sempre eram os “nossos” porcos. – Tínhamos um papel e tudo!

Lá em cima, no assento de terra da Corte Serrão tinha havido uma grande seara, que era agora um restolho cheiinho de semente, de formigueiros e de gafanhotos, ainda com a palha toda por enfardar. – Claro que sendo aquela a noite a seguir à Lua Cheia e tanto por causa da grande claridade como por andarem os bichos um bocado escaldados, coitados, de irem vendo desaparecer os companheiros à conta da célebre credencial… Nem pensar em que se fossem passear pelo restolho nas primeiras horas da noite. – Iriam sim, lá para as tantas, depois de terem o seu sossego por garantido.

Assim sendo o mestre Joaquim foi para um sítio bem coteado e discreto, muito do seu agrado meio metido no mato, a Cova das Abelhas, onde estava um colmeal. E eu fiquei-me num cruzamento de caminhos cá noutra ponta da seara, onde havia umas boas entrada e além disso, de ouvido, controlava uma pequena charca de onde vinham as veredas. Esta àgua era belíssima mas estava toda tapada de morraça e não tinha o mínimo de condições de ventos para lá me pôr. Estava essa charca na base de uma enorme encosta de mato com uma mata de eucaliptos lá no alto. Além disso e também de ouvido, controlava eu as duas ou três passagens que da dita água davam para chapada de mato do outro lado, atravessando o caminho que ia para baixo, para a Quinta de Donas Marias. Corria este caminho por um vale fechado entre dois outeiros gigantescos, no meio de denso matorral e de grandes silvados, tudo coberto e ensombrado por grandes azinheiras e sobreiras, enoveladas de silvas. Era este sombrio vale muito bom e muito coteado durante a noite e tinha além da charca onde eu estava mais duas pequenas barragens, para baixo, como digo tudo cheio de silvas. – Muito gostava eu de dar a minha voltinha por aqui, pé ante pé, à cata de algum porquito que se descuidasse. – A este vale acudia toda a espécie de bicheza bravia a tratar da sua vida...

Pela tardinha, assim que me coloquei começo logo a ouvir pequenos ruídos dum porco que anda lá em cima nos eucaliptos, e que vem vindo com todo o cuidado para baixo. – Vem à água, vem sózinho e cauteloso…

Sabendo que na água não posso ficar, nem aproximar-me tão pouco, espero-o cá de longe, ao cruzamento dos caminhos e faço ideia de o apanhar ali mesmo ao sair para o restolho, se a tal se atrever, ou então nas passagens que dão para a outra barreira, no caminho que vai para baixo. Se assim fizer deixá-lo-ei adiantar-se e chegar-se mesmo perto do caminho e quando tiver ultrapassado a aragem que agora corre enquilhada para baixo, quase para o lado donde vem, avançarei e aproximar-me-ei então. Tenho é que o deixar chegar bem a uns vinte ou trinta metros do caminho para que possa então deslocar-me… Ele virá no seu trajecto, sempre com o vento no focinho, deixá-lo-ei adiantar e a seguir avanço eu já fora dos seus ventos para o ir apanhar a atravessar o caminho. Tenho que avançar no momento certo se não, ou me venteja, ou quando chego a vistas das passagens já ele estará no mato do outro lado...

E assim sucedeu! Veio vindo por ali abaixo devagarinho, parando, bebeu, banhou-se, fungou umas quantas vezes, deu uma volta à água, cheirando e dali apanhou uma das veredas que dão para o caminho, e seguiu então decidido. Eu atrasei-me um poucochinho ao sair, com medo de ser sentido, e quando cheguei só já vi a sua sombra desaparecer para o outro lado… Não obstante não me sentira, nem sonhara sequer, e andava agora trastejando tranquilo, cheirando nos matos do outro lado do caminho, dirigindo-se ao restolho. Eu recuo e preparo-me para o apanhar então a sair para o restolho, mas o bicho parava a uns metros da beira do mato, esperava e voltava para trás, e daí outra vez a fazer que saía, mas não saía… Nisto andámos, até que numa das idas e vindas me fiquei quieto a ver se de qualquer forma lhe conseguiria atirar, mesmo no mato, que aquilo era tudo estevão de folha larga e tojo, mas havia uns bocados mais rasteiros e aí poderia calhar a ver-lhe a linha do lombo e saber exactamente onde estava. Com tudo isto estamos à boca da noite e já mal se distinguem as cores…

Por fim a uns trinta metros lá se mexe e vejo-lhe então a linha da lombeira rasando por cima dos tojos, mando-o parar com um “…ssSSSHHHH…”. Pára, levanta cabeça, inquiridor, e o recorte da orelha assoma. Está desgraçado... Frito! – Fecho-me bem com a arma, coloco o minúsculo ponto de mira fluorescente aí uma mão-travessa por baixo da orelha, para o lado do cachaço e dou ao dedo... – “PPAAAHHH!” – Só se ouve o estalo do tiro… Seco! – Nem pataleou!

Nesta época em certas ocasiões, para tiro curto, ainda uso zagalotes. Estes zagalotes fazia-os eu próprio, fundindo chumbo rijo ou “shrapnel” extra-rijo, que me traziam dos campos de França, da Normandia creio. Fundia-os, rebolava-os e carregava-os dentro de concentradores austríacos, com uma bucha de feltro de lã rosa, da Gevelot. Cargas de 12 bagos de 8mm, ou de 16 bagos de 7,2mm, propulsados a 400m/s. – Qualquer coisa de devastador!

Em termos de cargas e munições seguia os conselhos do meu Pai, que supervisionava as minhas experiências balísticas. – Não poderia estar em melhores mãos.

– Este já está! Esperemos o que se segue… Recuei para a minha posição inicial e aí fiquei. – A noite cerrou-se, a Lua foi-se levantando, lentamente, muito lentamente… Nada!

Passadas umas três horas já com a Lua alta lá apareceu o mestre Joaquim, como uma sombra, pelo caminho adiante, muito devagarinho como era seu costume, a ver se via alguma coisa naquele lado do restolho. Foi um alívio para mim, que já estava a ficar enlagartado de tantas horas quieto… – Ele tivera os porcos perto, no mato, lá na cova das Abelhas, mas não lhe tinham chegado a “dar tiro”, e naquele bocado de seara por onde viera nada tinha visto. – Decidimos assim ir dar uma volta juntos a ver se os encontrávamos, pois era já tempo de andarem no restolho, a tratar da vidinha.

Lá fomos então os dois, caminho adiante batendo a folha com o binóculo, de ouvido sempre alerta.

Demos volta ao restolho todo, e nada… – Apenas ouvimos um guincho no mato do outeiro que corria por cima da cabeceira da seara. Ainda esperámos um bom bocado a ver se os porcos desciam ao restolho, mas não... Já tinham comido e estavam de abalada.

Dali viemos andando decididos direitos ao local onde estava o porco que eu abatera para o puxarmos e o podermos carregar com o carro quando fôssemos de saída. Estávamos bastante cansados e vínhamos falando baixinho.

Quando íamos chegando ao tal cruzamento dos caminhos o meu companheiro estaca e põe-me a mão à frente, em sinal de alerta! – Estava um javardo mesmo no meio do restolho!

Pelo binóculo vi que estava sózinho e andava dando volta aos camalhões de palha. Estava longe e devido ao barulho do remexer da palha, e entretido que estava, não nos ouvira.

Que fazemos? Estamos já cansados e tentar apanhá-lo esperando a ver para onde ele iria, demoraria sabe-se lá o tempo… – A mim sinceramente apetecia-me era ir dormir!

“– Espere lá! – Vamos a enganá-lo... – Este vai mas é com a gente…!”

Que eu soubesse havia apenas dois processos certos de o entalar, o primeiro seria esperar que ele fosse andando por si e ir cortar-lhe as voltas, coisa demorada… Ou então ir um de nós em redondo, ao largo, a dar-lhe ventos ou a fazê-lo desconfiar para que saísse direito ao outro, que se colocaria de modo a cortar-lhe a fuga. Neste caso a fugida seria quase de certeza direito ao tal vale fundo ou ao outeirão grande, de onde quase de certeza viera. – Mas também demoraria o seu tempo…

Assim sendo e como não me apetecia nada andar, fiquei eu no caminho a cortar a saída ao bicho. Ora estando eu no caminho e estando a vê-lo poderia sempre deslocar-me e chegar-lhe a tiro, os quarenta passos da ordem. – O mestre Joaquim iria então dar a volta e rodeá-lo bem de longe, de modo a ser apenas sentido, tocando-o discreta e suavemente na minha direcção.

Mesmo sendo esta uma situação de grande vantagem para o javardo, que se encontrava sózinho e desconfiaria sempre de qualquer barulho, e podendo ele fugir para qualquer lado, em qualquer momento… Estava, mesmo assim, em muito maus “lançóis”…!

Andei então um pouco para a frente e ganhei alguma altura no terreno de modo a controlar melhor a situação com o binóculo. Se tivesse que andar seria para baixo, e estaria sempre por baixo dos ventos do nosso “amigo”. O meu companheiro desapareceu pelo caminho, para trás, de roda e bem ao largo...

Eu por mim estava práticamente no sítio onde tinha feito a espera. O restolho brilhava agora suavemente ao luar, lá bem no meio o javardo continuava entretidíssimo a catar semente e a virar a palha. O sereno era completo! – Aquilo ia demorar…

O tempo passa, estou a observá-lo descontraidamente quando detrás do ondulado da folha surge outro vulto. Olho com atenção… – Dou um salto! Não é outro javardo, é o mestre Joaquim…! Vem de gatas, de cabeça baixa e vai amparado com um camalhão, ora andando, ora parando, de modo a chamar a atenção ao porco, sem no entanto ir nunca direito a ele. – Será possível…!?

– Pois é assim mesmo! – E o porco só repara nele passados instantes, que estava com a cabeça metida debaixo da palha. Levanta a cabeça, vira-se para o “colega”, dá uns passos nervosos e fica meio atravessado, avaliando a situação, prontíssimo para arrancar a correr. A aragem corre de cima para baixo direito a onde estou e não o serve, o cheiro dos dois “companheiros” corre paralelo para baixo. Estarão a setenta metros um do outro… – Nem quero acreditar!

O javardo vai rodando com passinhos curtos, nervosos, vai-se pondo de frente para o intruso, e acaba ficando quase de rabo comigo, tem toda a atenção focada no vulto que tem à frente! – Agora estão “de conversa”um com o outro, com roncos curtos e abafados de mistura com umas fungadelas: “…RROO …rroo…”, “rrroooo…”. – No meio da limpa!! – Eu tenho os cabelos em pé, parece que estou ligado à electricidade!

O porco vai rodando para baixo de modo a apanhar os ventos do loquaz colega, anda e pára, parece uma mola em tensão. Entretanto vai-se aproximando pois a atitude e a “conversa” do “outro” são tranquilizadoras. – “Este” está parado desde que fora detectado, só “fala” e dá umas “focinhadas” ocasionais na palha…!

Estão agora a menos de metade da distância, falta pouco para o javardo cortar os ventos ao caçador… Dá mais uns passinhos, meio de lado. Estão quase de frente um com o outro, quase enfiados um com o outro em relação a mim. – Parece-me ver a espingarda a ser erguida. – É a espingarda! – Demora uma eternidade… – PPAAAAHH!!

– OOLÉÉÉ...! – OOLÉÉ…! – Palmas de puro entusiasmo!

Redondo! Fulminado! AH!AH!AH!

Bem feito! – OOLÉÉ…! – E OOLÉÉ!!

Fantástico!

– Os “Olés” saíram sem sequer dar por isso, que até saltei! – As palmas e gargalhadas no meio do nada são da mais pura alegria! – Apenas o devido, a um faenaço e tanto!

Dirijo-me ao meu companheiro para o abraçar, ao que todo contente, me diz: “– Olhe lá, amigo João, se está pr`aí alguém a ouvir isto… – Há-de julgar ca gente tamos mas é malucos...!”

– Se calhar estávamos mesmo…!

– Bons tempos…!

Amareleja, 30 de Agosto de 2010.

João Acabado
 

 
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Comentário(s) (14)   Comentário(s) (14)    
    João Acabado...    
    Noite de Maestrança    
    Familiaridades e afinidades.    
    Coisas do arco da velha!    
    Ele há coisas ...    
    Olha-me estas peças...    
    Grande peça...    
    Olha que Dois...    
    Excelente!!!    
    Admiráveis ...    
    Assim vale a pena recordar os velhos    
    Que Grande prenda de Natal...    
    Boa Caçada    
    Belo conto de Natal    
   
     
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