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Histórias de Caça

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O que podia ter acontecido...!
 

     

Autor: AGOSTINHO BEÇA

Autor Fotos: A. Beça

06-01-2011 17:12:00

 

Dispensa legenda
   
Lameiros com rega de lima
   
Cabeço do Mau Vizinho e aldeia de Vale de Pena
   
O único sinal que indica mudança de país
   
Em breve estas perdizes terão menos espaço onde criar...
   
Quando se encontraram, de madrugada, era ainda noite cerrada. Chovia copiosamente e estava um frio de rachar, típico do mês de Dezembro. Nestas circunstâncias, outros certamente não partiriam!


Cães na mala, as merendas e o resto da tralha no banco de trás, depois de um café quente e umas torradas, arrancaram noite fora para o que desse e viesse. Mais um dia de caça, mais uma aventura…!

Torrencial e puxada a vento, a chuva, esta força da natureza transmitindo toda a sua adversidade, paradoxalmente fazia também pensar nos regatos e levadas a transbordarem, cascatas em recônditos lugares, lameiros com rega de lima, torrões a desfazerem-se nos alqueives, centeios e trigos empapados, na fertilidade dos campos e noutras coisas simples, que muitos observam mas nem todos conseguem ver.

No alto de Rossas a água transformou-se em neve e a estrada rapidamente ficou coberta de um tapete branco, que iam trilhando com crescente dificuldade para os pneus estreitos da “4L”, à medida que avançavam sobre a neve intacta. Ninguém circulava no IP4 àquela hora e com semelhante temporal.

Começaram a pôr a hipótese de não conseguirem sequer chegar a Bragança, enquanto rolavam a baixa velocidade, embora pouco faltasse para esse “porto seguro”. Não parava de nevar e a estrada ficava mais traiçoeira a cada metro percorrido. Desliza aqui, patina ali, abrandando sem usar o travão e sempre pronto a levantar completamente o pé do acelerador, apesar do aquecimento no máximo e das frenéticas escovas, o pára-brisas continuava a embaciar e a cobrir-se de gelo, complicando seriamente a visibilidade.

Partilharam não sei que misterioso sentimento de evasão, de desprendimento, de desobrigação e comentaram entre si:

-Em Bragança alguém nos há-de dar guarida... a nós e aos cães!

É estranho, intrigante mesmo, como um caçador pode permanecer sereno e completamente à-vontade, sentir mesmo conforto ou aconchego no meio da pior tempestade! Basta-lhe o mínimo de abrigo, mas muito mais importante que isso será a cumplicidade de um companheiro...

Chegados finalmente, na cidade já o nevão era menos intenso. Estacionaram próximo da Praça da Sé, decidindo aguardar um pouco antes de se meterem ao caminho, na ideia até de, se calhar, já nem irem caçar! Um café no Chave d ’Ouro ajudou-os a recompor das peripécias acabadas de viver. Soltaram os cães e passearam pela cidade, aproveitando para visitar a Vila do Castelo e as imediações deixando o “Sol” e o “Joli” aliviarem-se à vontade em todos os postes e esquinas, alçando as caudas e rosnando a outros cães, alguns perdigueiros, cujos donos, pela certa, não se atreveram a sair de casa.

Quando já só caíam uns farrapinhos de neve, pelas dez da manhã, puderam prosseguir em direcção a terras de Outeiro e Vimioso.

Ao descer para a ponte sobre o Sabor o espectáculo era outro! Brilhava um sol intenso, lindíssimo e nem sinais de neve. Aquela luz… o azul… a limpidez do ar…! Maravilha! Plenamente satisfeitos, iam antevendo e planeando a forma de abordar o terreno o­nde pensavam caçar nesse dia – Quinta de Vale de Pena. Passariam a pequena e encantadora aldeia que viu nascer João Lourenço [1] – grande caçador de perdizes e contador de histórias de caça –, seguiriam o caminho pelo meio do pinhal descendo até ao rio Maçãs, o­nde havia um sítio óptimo para estacionar e merendar, junto a um moinho abandonado. Como já não era cedo, teriam de caçar doutra forma que não a habitual; então, o melhor seria caminhar de baixo para cima, de modo a que, no final da jornada, não “penassem” para chegar ao carro e até porque “elas” podiam já ter sido batidas dos altos.

A estratégia seria tentar “fintar” as perdizes que várias vezes e em épocas anteriores, já se lhes tinham escapado pelo meio das copas dos pinheiros sem um grãozinho de chumbo no corpo... Descendentes dos bandos que ali havia antes da plantação daquela enorme mancha de pinhal, ainda criavam nas orlas, movimentando-se sempre astuciosamente para o interior do arvoredo.

Não foram muito longe, no remanso de um olival fundeiro, que resistiu à invasão das resinosas, lá estavam... Um bando grande levanta ruidosamente e contorna a encosta soalheira em direcção ao rio, “fazendo a asa” para cima à procura da protecção dos pinheiros, como se previa. De tão rasteiras que iam, só houve tempo para fazer um tiro à mais atrasada, que tombou a boa distância no meio do esteval que se prolonga até ao rio.

-Calma, Manel... já lá vamos às outras.

Os cães reagiram, rivalizando a absorver os eflúvios dos rastos frescos no solo de o­nde tinham levantado, correndo como loucos, um pouco baralhados, cruzando-se e farejando cada centímetro de terreno lavrado do olival. Um Pointer e um Epagneul Breton, duas raças bem diferentes, mas as mesmas aptidões.

-Busca, Sol...

Depois de lhe dar as indicações necessárias (cada caçador tem a sua forma de o fazer), não demorou muito a cobrá-la. Animal de ventos, excelente! Raramente se via com a cabeça baixa. Caçava com grande estilo e distinção, muitas vezes parando assim mesmo, com a cabeça no ar apanhando as invisíveis emanações. E mais outra grande qualidade: dente muito macio.

Já conhecedores da zona, das querenças e manhas destas perdizes, voltaram atrás, em direcção ao fundo da aldeia para baterem a encosta descendo novamente, devagar, pelos únicos trajectos possíveis – os caminhos da floresta. Mais ou menos paralelos entre si, com ligações de confluência, constituem uma rede que lhes permitia encontrarem-se regularmente e decidirem alguma mudança de táctica.

A jornada esteve particularmente animada. Nesse percurso as perdizes iam levantando, repentinas, ariscas, verdadeiramente bravias, umas à beira dos caminhos, outras mais no interior do pinhal. Os tiros falhados de ambos sucediam-se. Quando se encontravam trocavam impressões sobre os levantes provocados pelos cães com belíssimas “paragens”, a forma astuciosa como algumas escapavam pelo meio dos pinheiros, quase sem lhes porem a vista em cima.

-Não devem ser só as perdizes daquele bando…!

Um pouco decepcionados, mas com a adrenalina no máximo, ofegantes, seguiam juntos em silêncio aproximando-se pausadamente de uma curva à direita e olhando a encosta em frente, o­nde o estradão continuava. Os dois perdigueiros imobilizaram-se, “bloquearam”, provocando a reacção imediata das espingardas em riste... Dois ou três passos em frente e os cães permaneceram estáticos. Mesmo no meio do caminho, no recanto abrigado, viram-nas no chão, correndo em todas as direcções e levantando com enorme estardalhaço. Foi tal a precipitação que só o Manel conseguiu cobrar uma.

Impressionante foi constatar que, depois de percorrem os mesmos caminhos para trás continuando a caçada, no regresso, as perdizes estavam no mesmo sítio. Aconteceu isto por duas vezes em cerca de uma hora! Tiros para um lado e para o outro, nada... Resolveram então dar mais um tempo, subir à zona da raia seca passando no cabeço do Mau Vizinho e seguir um pouco pela linha da fronteira, perpendicular ao caminho vicinal que liga às aldeias espanholas, tão afastadas da “civilização” e desertificadas como as nossas. Unicamente uma tabuleta como indicação da mudança de país – Coto Privado de Caza…! Quanto a perdizes, apenas viram uma ou outra, isoladas e largas.

Sempre com a ideia de tornarem àquele recanto, até porque ficava em caminho para o carro, foram-se aproximando, agora mais avisados e caminhando separados um pouco por dentro dos pinheiros, com o mínimo ruído possível. Não é que estavam lá outra vez...!!!

Tiroteiro de novo e o Manel tombou mais uma, cobrada com grande mestria pelo “Joli”.

Satisfeitos, com as emoções dos inúmeros lances gravadas de fresco, foram descendo até ao rio, explicando que tirar três perdizes de um bando com mais de dez, em Dezembro, prestes a terminar o período venatório da espécie, não põe em perigo a sua preservação.

Montado o “acampamento”, enquanto rebuscava lenha por ali, junto ao toro de uma nogueira tombada, morta e a apodrecer, inofensivos “macro-fungos” de cor clara, limpos, com bom ar, convidavam… Nem de propósito! Um petisco da Mãe Natureza. Colheu-os aproveitando bem os talos e lavou-os cuidadosamente na água corrente do rio.

Mesa posta – com toalha, é claro – as vitualhas de entrada nos pratos de madeira, que normalmente os Galegos usam para o “pulpo”, grelha nas brasas com duas alheiras e uma linguiça já a reluzirem, tranquilamente sentados nos bancos de montaria, contemplavam o cenário e saboreavam não só o bucolismo do momento e do lugar, como também o precioso líquido da garrafa de Douro escolhido a preceito e previamente “chambreado” junto à fogueira.

Com certa nostalgia, depenicando pedacinhos do que havia em cima da mesa, contou alguns episódios dos tais que ficam na memória com bastante nitidez e que revemos com os olhos da alma; há mais de vinte e cinco anos, desenrolados ali, naquele mesmo lugar, na companhia de dois caçadores, amigos e mestres da arte venatória, já desaparecidos, muito provavelmente agora entregues em pleno e a tempo inteiro aos prazeres de caçadas mais duradouras…




Caçavam no termo da Paradinha de Outeiro e traziam, à frente da pequena linha que formavam, bastantes perdizes. Seriam pelo menos três grandes bandos. Naquele dia o rio Maçãs tinha gelado completamente e permitia passar para este lado. Atravessaram, pé-ante-pé e com algumas escorregadelas, para perseguirem um dos bandos que tinha voado para a ladeira, na altura sem o pinhal, com parcelas de centeio e restolho pontilhadas de carrasqueiras intercalando com pequenas manchas de mato rasteiro de urze e carqueja e outras com o típico matorral de estevas, giestas e arçãs.

Riu-se a bom rir ao “rever” os cães, pernas abertas esgadanhando no gelo, voltavam para trás, corriam ao longo da margem, ganindo ao verem-nos do outro lado… Alguns tiveram de passar quase arrastados e outros ao colo…

Foi um belíssimo dia de perdizes! Apesar do frio de Dezembro, caçou-se com energia e saber, da forma que o terreno indicava e deixando os excelentes perdigueiros darem o seu melhor, como que comandando o andamento da linha com as suas indicações infalíveis.




Num outro dia, caçando na mesma encosta, de um lance do jovem companheiro, ficou no ar apenas alguma penugem …. o “Radar” desapareceu bastante tempo e, de cima daquele fraguedo, viram-no cobrar o perdigão junto ao rio, a uma distância que pareceria impossível de compreender a quem não ande nestas coisas.




Lembrou ainda…
… um dos primeiros dias de caça da juventude (talvez em 1975), quando, naquela mesma ladeira, levantou um enorme bando de perdizes. Seriam cerca de cinquenta (não é mentira de caçador…!), que o fizeram andar toda a manhã ladeira acima e abaixo até que as descobriu, já exausto, o­nde nunca imaginaria – no areal junto ao rio! Falhou os dois tiros, houve tempo para recarregar e novo falhanço… e continuavam a levantar em todas as direcções, confundindo-o… ainda foi possível meter mais um cartucho, que também não serviu de nada… Que grande lição! Percebeu a razão natural de viverem em bandos.
e…
…histórias, ouvidas na infância, em prolongados serões à lareira e à luz da candeia, com Reis, Príncipes e Princesas, também com mouras encantadas e todo esse imaginário, sobre o cabeço do Mau Vizinho e batalhas sangrentas… Será que as munições das peças de artilharia daquele tempo tinham alguma eficácia a 3,5 km, em linha recta, a partir do cabeço de Outeiro (ruínas da fortaleza);
histórias de contrabandistas e de passagens da fronteira “a salto”, conduzidas por “passadores” que se faziam pagar com grande maquia para ensinarem estes caminhos escondidos junto ao rio e na raia seca…



Enquanto “atacavam”, agora, as costelas de porco que iam estando grelhadas (por sinal muitíssimo bem temperadas de véspera), enaltecendo a bravura destas perdizes, a conversa, amena e prazenteira, saltou para a matreirice que lhes permite sobreviver, o domínio de estratégias admiráveis, a enorme vantagem sobre o ser humano em resultado de melhor conhecimento do território… mas, reflectindo sobre o seu futuro neste habitat – quando os pinheiros tiverem dominado completamente o terreno já não haverá espaço favorável para os descendentes!

A terminar, os cogumelos que tinham entretanto permanecido dentro de água no rio, num saco plástico, bem lavados e escorridos, com um fiozinho de azeite, umas areias de sal grosso, mais umas voltas e para cima da grelha.

-Tens a certeza que não são venenosos?

-Já vi o Alexandrino fazer isto montes de vezes, não deve haver problema.

Estavam bons!

Naquele lugar remoto, o­nde praticamente só pastores e caçadores se atrevem a ir, num cenário autêntico, paradisíaco, um quadro de inefável beleza, com a doce companhia das perdizes a cantarem (em desafio ou chamamento?), de um lado e do outro do rio, o murmurejar da corrente e toda a envolvência que transmite um sentir de encantamento e felicidade irrecusável…, iam soltando frases dispersas carregadas de pleno optimismo.

-Não podem fazer-nos mal nenhum…!

-Se morrermos, morremos felizes!

E riam-se com vontade, perdida e inocentemente, como duas crianças que tivessem feito um qualquer pequeno disparate…

Não foi passada mais de meia hora… indescritível a revolução nas entranhas… uma sensação de mal-estar única, o tipo de cólicas nunca antes experimentado…

O Manel mal teve tempo de baixar as calças, logo ali, o mais próximo que lhe foi possível. De repente, ambos, de calças na mão, sentiam o corpo a esvair-se em fluidos… usando a linguagem mais apropriada para o insólito da situação, isto é praguejando e gritando que foram os cogumelos, havia que sair dali rapidamente e procurar ajuda!

Precipitadamente, esquecendo por completo “a beleza cénica do momento e do lugar”, arrumaram as tralhas no carro – não sem, pelo meio, terem ido novamente “a campo” – e abalaram em direcção à aldeia. A intenção era chegar depressa o­nde pudessem ser socorridos, se necessário. Sentindo uma enorme aflição por novamente precisarem de se aliviar, não puderam parar na aldeia, seguindo a toda a velocidade em busca de um ponto adequado. Apenas escassos metros à frente da última casa, cada um para seu lado da estrada, literalmente saltando do carro, que ficou com as portas abertas, gemendo e agarrando a barriga, fizeram o que tinha de ser feito…

Regressando, combalidos e preocupados, procuraram acalmar-se mutuamente, caminhando uns minutos pela estrada. Retomaram a viagem até Outeiro, o­nde pararam no café e beberam umas bagaceiras, para “desinfectar”…

O que podia ter acontecido… nem é bom pensar!

Fica a história, pelo menos como advertência para que outros não façam nada de parecido. Os cogumelos foram posteriormente identificados como não comestíveis, embora não sendo venenosos de forma letal.





[1] João Lourenço, nascido em 1891 na Quinta de Vale de Pena (Pinelo – Vimioso), no seio de uma tradicional família de agricultores transmontanos, foi professor no Liceu e no Seminário de Bragança. Formado em Agronomia, exerceu também a profissão, como técnico de campo, na região. Profundamente conhecedor das coisas da lavoura e da caça, escreveu sobre esses assuntos assinando como “João Ninguém”: “Recordações”, 1970; “Caça e Mais Caça (Recordando Ainda)”, 1972; “Memórias Continuando a recordar…”, 1972 e “Mudando de Rumo”, 1973.

 

 
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