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Relatos de um matilheiro
 

     

Autor: João Santana Fialho Acabado

Co-Autor: Joaquim Santos

28-06-2011 18:02:05

 

Este é o testemunho de um grande caçador de javardos, que mais tarde com o aparecimento das montarias se tornou matilheiro. São algumas das suas recordações, que põe à nossa apreciação.
Bem haja!


RELATOS DE UM MATILHEIRO


Nos anos 80 após ter ido responder a tribunal, acusado de andar a caçar javalis ilegalmente, condenado a pagar quarenta e dois contos e de me tirarem os dez cães com que andava a caçar, resolvi então começar a caçar legalmente. A maneira de o fazer era registar a matilha e começar a caçar em montarias. Nesta altura começaram as primeiras montarias, entre elas as que eram organizadas em benefício das Juntas de Freguesia, o­nde eu ajudava na organização em conjunto com o amigo Alexandre Barros. -Aí começaram a aparecer as primeiras matilhas Portuguesas.

Na altura em Safara havia duas a minha e a do Rafael de Brito, existiam ainda a do Alexandre Barros, de Mourão, a “dos Penedos”, de Alqueva, dos meus amigos António e do irmão Chico. Havia ainda “a Lusitânia”, era seu matilheiro o meu grande amigo José António e a “dos Cavalinhos”, do Dr. Vacas de Carvalho, a do Dr. Zé Formosinho, a matilha “de Odiana”, do falecido Prof. Camacho Nunes, a do ti Fialho também já falecido, da Vera Cruz, a do Zé Manuel também da Vera Cruz, a do Joaquim de Brito Pais, de Beja, a dos irmãos Fialho, de Évora, a do Chico Cândido, de Barrancos, e a da Tecnocaça, cujo matilheiro era o Luís S. Marcos.

Estas montarias eram uns autênticos arraiais, com muitos postos, chegavam a ser cento e vinte ou mais.

Havia muita curiosidade por parte das pessoas, pois aquilo era tudo novidade para o povo. Os bares eram explorados pelas Comissões de Festas e havia comes e bebes até as tantas.

O Dr. Alberto Fernandes, de Moura, era o veterinário de serviço e chegava a levar mais de quatro horas a cozer cães, sempre brincando, a divertir o pessoal com a sua boa disposição. -Era uma autêntica festa!

Nesta altura as matilhas tinham direito a um posto e à propina que era na altura de dez contos.

Criou-se entre alguns destes matilheiros grande amizade e um espírito de camaradagem e entreajuda espectacular. -Ninguém abandonava o local sem que todos tivessem os seus cães recolhidos!

Muitas destas matilhas eram formadas por cães de todas as raças cães vindos do campo, de pessoas que guardavam gado, eram cães muito habituados a caçar, cada um para si. Eu próprio na minha matilha tinha alguns cães destes. -Tive alguns cães fora de série como o “Béu”, um rafeiro preto que segurava um navalheiro com 70 ou 80kg, ou a “Japonesa”, uma rafeira alentejana que no dia em que a fui experimentar agarrou dois porcos de 50kg. O “Fadista”, que foi um ponteiro de primeira, e outros mais.

Depois vinha o trabalho dos matilheiros, os cães tinham que se ematilhar, era mais um trabalho de canil.

Depois vieram as montarias ditas “comerciais” e com elas apareceram mais matilhas. Muitas delas foram buscar as suas bases a Espanha. -Ora como toda a gente sabe, quem vende dez ou doze cães de uma matilha nunca vende os melhores, a não ser que se lhe compre a matilha toda. -Resultado? -Pareciam cabras atrás do matilheiro!

Uma matilha, para estar equilibrada, tem que ter oito a nove ponteiros, dez a doze de meia distância e quatro a cinco de agarre.

No caso da minha matilha, a maior parte eram nascidos e criados no meu canil, tudo cães muito batidos na caça aos javardos, pois tanto caçavam de Inverno como de Verão, cães que ainda vinham do tempo do famoso grupo javardeiro conhecido como a “ETA Cinegética”.

Em 1990 o Carlos Patinho pediu-me para caçar comigo. Tinha ele à volta de vinte cães, alguns eram podengos e os restantes não tinham raça. Andou essa época toda a caçar sem ganhar um tostão. No fim da época dei-lhe meia dúzia dos meus. Tinha muito gosto e paixão pelos cães, gostei do modo como ele trabalhava e no fim propus-lhe sociedade, o que ele aceitou na hora. -Assim nasceram as “Matilhas do Ardila”.

Caçámos desde Tavira até Penamacor, com todas as organizações da altura.

Nesta altura os matilheiros eram vistos como os parentes pobres das montarias e havia certas organizações em que os matilheiros nem podiam comer juntos com os Monteiros. -Até para se comer uma simples sobremesa tinham que ir as cozinheiras ver se tinha sobrado algum pratinho de arroz doce aos “Senhores Monteiros”.

Uma vez numa montaria na zona de Mértola, na hora do pequeno-almoço o cozinheiro que era nosso amigo disse-nos “Rapazes, hoje não se demorem muito que temos ensopado de enguias para o almoço!”. -No final da montaria, quando já estávamos todos sentados à mesa à espera das enguias, qual foi o nosso espanto quando nos puseram uma feijoada na frente!

Perguntamos ao cozinheiro pelas enguias e a resposta dele foi “- A ordem é que as enguias são só para os Senhores Monteiros. -Vocês comem feijão e é se querem!”

Aquilo deu-me volta ao estômago da revolta que senti, eu não precisava daquilo, andava ali por gosto, por paixão aos meus cães e à Caça. -Eu e o Patinho levantámo-nos da mesa e fomos comer a Mértola.

Numa outra montaria um Monteiro muito bem-educado, tinha matado um porco à meia chapada e gritava-me: “-Oh matilheiro! -Traz-me esse porco aqui para ao pé de mim”. Como eu fosse empregado dele…!

Na mesma montaria, mas mais à frente ao aproximar de outro posto vejo que os cães estão a morder um porco já morto. Qual é o meu espanto quando vejo o homem em cima de uma rocha com uma pedra enorme nas mãos preparando-se para a mandar para cima dos cães… Dei-lhe um grito, “-Você é doido…? -Não vê que ainda mata algum cão?”. -“Dão cabo do porco!”, respondeu ele!

Ao longo destes anos de matilheiro conheci muita gente, organizações que tratavam os matilheiros com o respeito que eles mereciam, como parte integrante da Montaria e outras que nem por isso. Conheci verdadeiros Monteiros.

Monteiros que falavam com os matilheiros, alguns até já conheciam os nomes dos cães. Não posso deixar de frisar aqui o nome de um homem que se interessou sempre pelas matilhas e sempre defendeu os matilheiros. Muitas vezes em conversa com os matilheiros ele falava da importância de constituirmos uma Associação de Matilhas, pois nos ajudaria no que fosse preciso. -Hoje já não se encontra entre nós esse grande amigo, o JOÃO BRITO FONTES.

Os matilheiros não são apenas meros condutores de cães, são acima de tudo bons caçadores. São pessoas que gostam muito daquilo que fazem e que têm uma paixão enorme pelos seus cães!

Quantas vezes tive de fazer mais de um kilómetro com um cão ao colo com as tripas de fora, até chegar a um posto. -Daquela vez que os cães fizeram um agarre a setenta metros de um posto, muito á frente dos matilheiros, sempre convencido que alguma porta fosse rematar o porco, e os cães não se calavam, sinal que o porco não tinha sido rematado. -Pelo rádio o Patinho dizia-me “-Joaquim, olha que o porco esta a dar porrada nos cães!”. “Eu vou lá rematá-lo!” disse-lhe eu, e comecei a correr em direcção aos latidos. -Demorei algum tempo a chegar ao pé do porco pois o mato era forte. -Depois de matar o porco e de a refrega ter acabado, a primeira coisa que o matilheiro faz é olhar para os cães, não esteja algum ferido. Neste caso havia nove anavalhados, seis dos nossos e três de outras matilhas.

O chocante disto tudo foi que a 60 ou 70 metros estava uma porta que assistiu a tudo isto e não se mexeu para ir ajudar os cães! -A desculpa que me deu é que não tinha faca…!

Meus amigos, um Monteiro que vai para uma montaria e não leva uma faca, que Monteiro é este?

Na montaria do Pulo do Lobo, no Guadiana, num sítio em que o rio passa todo numa largura de 5 metros e com uma profundidade enorme, íamos caçando rio abaixo quando os cães corriam um porco em direcção ao rio. Qual o nosso espanto quando vimos o porco saltar a uma altura de uns bons quatro metros, levando os primeiros cães com ele. -O porco, esse nunca mais o vimos, desapareceu na forte corrente! -Os cães, fomos encontrá-los mais adiante, numa rifóia que a água fazia ali.

Tiveram que vir os bombeiros de Mértola, presos por uma corda para tirar os cães um a um, lá de baixo. -Era quase uma da manhã quando saímos do rio! -Felizmente sem ninguém se magoar, nem cães nem pessoas.

Por incrível que pareça, no ano seguinte a história repetiu-se!

Há lances que ficam gravados na nossa memória, como aquele em que apenas três cachorros me acompanhavam, e ao passar por perto de um sobreiro com uma pernada caída, com muitos tojos debaixo, um dos cachorros começou a ladrar e logo os outros acudiram. Já mais perto do sobreiro, eu também me aproximei e incentivei os cachorros. -De repente saiu de lá uma porca de 80kg na minha direcção, que não me deu tempo para nada, metendo a cabeça no meio das minhas pernas e atirando-me ao ar, para cima dos tojos, que não eram poucos!

Todo este espectáculo foi presenciado por um posto que veio mais tarde a matar a porca.

Um outro lance que jamais esquecerei, quando aquele varrascão manso me matou dois cães, um deles, o melhor cão de agarre o “Béu”, e me feriu mais três.

A jornada de caça para um matilheiro começa bastante cedo por vezes no dia antes da montaria, e só terminando no dia seguinte.

O matilheiro deve saber que tipo de mato se vai montear, para poder escolher os cães que mais garantias lhe darão.

É com saudade que relato estas minhas histórias, foram alguns anos, muitos amigos e muitos kilómetros de estrada. Muitas manchas percorridas.

Para alguns fui um dos melhores, para outros era mais um, mas para mim, era eu mesmo, fazia-o por gosto e dedicação aos meus cães. Dois anos antes de dar por terminado o meu percurso como matilheiro, tive um dos meus maiores orgulhos quando recebi o prémio “Dom Carlos I”, dedicado à matilha do ano.



Joaquim Santos, de Safara.
 

 
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Comentário(s) (2)   Comentário(s) (2)    
    é verdade sim senhor...    
    Caro Joaquim Santos, obrigado    
   
     
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