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Legitimidade de se Caçar
 

     

Autor: CARLOS MOREIRA ANTUNES

10-10-2012 14:05:57

 

Há algum tempo, alguém com o dever de informar e de respeitar os leitores do jornal onde escreve, não pensou duas vezes em lançar mão de ofensas gratuitas e injustas, para além de ignorantes e infundadas, sobre um grupo de cidadãos que caça. Até imagino que esse artigo foi escrito entre refeições bem fornecidas de produtos animais, estes bem tratados, no uso de todas as suas faculdades instintivas (no matadouro!) e em que o Homem teve de usar de toda a sua arte para fazer frente ao seu selvagem adversário... Devemos dar-lhe a resposta merecida, com a superioridade da educação e boas maneiras, bem como a todos os que discutem a legitimidade hodierna de se caçar.

As Sociedades contemporâneas atingiram estádios de evolução tais, que se permitem cada vez mais, iniciar rupturas com anteriores práticas e tradições, com os mais diversos fundamentos. A grande questão, digamos dogmática, que tem ocupado as mentes das pessoas, está no papel do Homem com o que o rodeia, particularmente com o ambiente, este entendido num sentido lato e abrangente.

Como é sabido e reconhecido por todos, as Sociedades actuais, têm cada vez mais preocupações ambientais e estas num sentido cada vez mais abrangente e proteccionista o que não se discute, nem se considera negativo, mas que tem trazido à colação matérias e discussões, muitas das vezes extremadas pelas partes, a que convém dar resposta e não deixar passar o tempo, na esperança que se esqueça o assunto!

Das questões de hoje, temos a poluição do património aquífero, do desequilíbrio, por acção humana, na flora, bem como o ataque ao património faunístico e particularmente neste, a destruição de ecossistemas de suporte a muitas espécies, levando-as à ameaça de extinção, ou mesmo a esta, quando os danos, de forma irreversível, impedem os animais de se adaptar ao meio e de adquirem aptidões novas tendentes à permanente e sempre nova evolução. Talvez o deslumbramento da tecnologia e do que o Homem, pela sua própria mão, consegue construir fez-nos chegar a estes dias e a este ponto de verdadeira bifurcação em que opções centrais devem ser tomadas, sob pena de condenação do próprio Ser Humano ao fracasso civilístico!

Ora, como não poderia deixar de ser, o tema da nossa relação com os demais animais deste mundo, veio a tornar-se vexata quaestio, não só em matéria de touradas, como de criação e exploração animal e veio à baila, assim numa falsa conectividade com estes temas, a questão da Caça! Segundo a facção contra esta prática ancestral (eu diria, a mais antiga da história!) a caça teria perdido a sua razão de ser há muito tempo. Na sua construção, afirmam que a racionalidade humana não se compadece com tais práticas, bem como, face ao estado de produção alimentar dos dias de hoje, a caça, enquanto colecta alimentícia, estaria fatalmente sentenciada de morte (perdoem-me o trocadilho), para além do mais estaríamos a matar animais inofensivos, coisa que a Razão do Homem não poderá permitir! Estes argumentos e muitos outros, como a própria necessidade de o fazer, têm sido, com variável intensidade, trazidos a terreiro e posto em contenda caçadores e “proteccionistas”.

Na minha opinião (que valerá o que for, na medida em que a minha área de formação está longe das ciências da Biologia) o que deverá resolver, terminantemente, esta discussão (ou melhor, atenuá-la, visto que haverá sempre facções extremistas, bloqueadas pela cegueira da falta de tolerância) será o enquadramento no Homem no mundo e particularmente, qual o seu papel mais primário. Não concordo, embora admita a opinião contrária, que o Homem é, tão-só, racionalidade. Talvez estejamos a regressar a Descartes, mas a ideia de que o Homem, concluí o seu ser na mais lídima possibilidade de reflexão, tem turvado as mentes daqueles que esquecem a mais rudimentar condição do Homem: a sua animalidade!

Do meu ponto de vista (volto a insistir, vale o que for), o Homem não pode desprezar a sua condição de animal e daqueles que persegue outros, de forma natural, instintiva e inata. Neste ponto reside, a meu ver, um dos fundamentos que pode legitimar o Homem, na sua prática da caça. Na verdade, apesar de o pastoreio e a produção de alimento próprio, fenómeno que nos fez suplantar as permissões evolutivas que o próprio meio nos dava, certo é, que a caça, enquanto prática Humana, nunca deixou de nos acompanhar e de se demonstrar, pura e simplesmente natural e determinante no comportamento de alguns elementos da nossa colectividade gregária. Este aspecto é tão mais evidente, que existem caçadores, criados em famílias alheias à caça, cujo meio nunca lhes revelou a prática, que sempre sentiram a necessidade de procurar a caça e viam nos demais animais, presas que cumpria perseguir e, possivelmente capturar. A ideia de vício, ou de necessidade intrínseca e inata, tem permanecido e não deverá ser esquecido na discussão que travamos. Mais: desde as mais primárias aglomerações humanas, que não todos os indivíduos, mas apenas uma parte específica ( e, na época, especialmente nobre) tinham esta função de caçar, o que, talvez, revele o facto de só uma parte das Sociedades modernas, alguns dos indivíduos e não todos, tenham a necessidade de caçar. Será que a caça está para lá da vontade do Homem, não de todos, mas daqueles em que, como nas mais primárias sociedades, tal se revelou? Será que esta inexplicável vontade de caçar não demonstrará uma legitimidade natural de se caçar?

Todavia, só este argumento não chega, tais como muitos outros que têm sido arrolados pela classe, como o facto de os caçadores serem dos mais entendidos em matéria de campo, bem como, verdadeiros proteccionistas do ambiente. Quando tomamos uma discussão destas, não podemos usar argumentos da prática para justificar o instituto. Assim como não nos podem dizer que a caça é prejudicial porque as práticas A, B e C são negativas, uma vez que, neste caso, é a prática que está mal, não o instituto; também não podemos usar argumentos da prática diária para justificar a caça: esta última, é antecedente à prática, cujo fundamento está num patamar superior. Por outro lado, o dizer que é natural ao Homem, por si, não é suficiente porque tal argumento poderia justificar tantas outras práticas maléficas do Homem, como crimes!

Na minha óptica, talvez abalada pelo facto de ser caçador, o fundamento superior, a última ratio do instituto, está numa razão social de caçar… Ninguém nega, assim o julgo, que o Homem vive nos mesmos terrenos que os demais animais e como tal tem de partilhar o mesmo habitat e, sobretudo, os mesmos recursos. Ora imagine-se que, de repente, terminávamos com a caça: como controlaríamos os outros animais? Como coabitaríamos com eles, numa óptica de recíproca limitação? O facto é que, os demais animais, não teriam qualquer problema, até porque o instinto é-lhes muito mais forte, em lançar-se sobre as nossas colheitas, sobre o nosso alimento e demais disposições do meio, sem contar com a nossa parte no mesmo. O facto, que ainda não vi a contraparte dar cabal resposta, está no facto de como vivermos com os demais animais, sem que eles ponham em causa a nossa própria subsistência? Ou será que chegaremos à hipocrisia argumentativa de proibir os meios preventivos do conflito imediato entre animais, como a caça, para depois andarmos a “controlá-los” com gás nos jardins públicos e lançando-lhes fogo depois de mortos? Será mais ético este último modo de coabitarmos? Parece-me, com sinceridade, que não! Não quer dizer que os outros animais devam ser proibidos de tocar no que é nosso. Dentro do razoável, os prejuízos que os animais nos causam nas produções alimentícias, devem ser entendidos como o preço que pagamos pelo facto de vivermos neste muito e de partilharmos os mesmos recursos. Todos temos direito aos mesmos recursos, mas o Homem não poderá defender o seu próprio direito ao habitat se continuar a esconder-se na redoma da intelectualidade e esquecer a sua primária condição.

Assim, um ambiente de vida humano, ecologicamente equilibrado (art. 66º, CRP) não terá uma concretização eficiente, se a caça não realizar o seu papel preventivo Em suma, defendo a conjugação de dois critérios: a legitimidade natural com a legitimidade social da caça, como forma de fundamentar a máxima legitimidade de caçar!
 

 
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