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Histórias de Caça

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O Palanque 1
 

     

Autor: ANTÓNIO ALBERTO

21-02-2013 14:22:11

 

   
   
Dia 30 de Abril de 2012, véspera de feriado, tirei mais um dia de férias de forma a aproveitar as noites de Lua e dedicar-me à atividade pela qual sempre fui um apaixonado, a caça, neste caso na modalidade de Espera.

Saí da Amadora por volta da 17:00h rumo a Muge, após ir buscar 2 sacos de amêndoa para os cevadouros que o meu amigo Ribas tinha comprado.

Por volta das 18:00h já estava no famigerado Silas, mais conhecido pelas suas espetaculares bifanas, à espera do guarda da reserva e amigo Moutinho. Lá pusemos a conversa em dia e após o repasto (de bifanas, como não poderia deixar de ser), fomos tratar de 2 cevadouros que ainda não tinham sido tratados naquele dia.

Pelas 19:00h o Moutinho deixou-me num dos palanques da propriedade (o nº 1) tendo-me alertado que o cevadouro estava a ser frequentado por um porco macho com cerca de 2 a 3 anos e que andava sempre sozinho. Também combinamos a hora em que iria terminar a espera, caso não aparecesse qualquer javali, por volta das 22:30/23:00h.

Dessa hora até ao anoitecer pouco aconteceu, estava muito vento e optei por me deixar estar sentado na cadeira de forma a evitar ao máximo o vento que soprava de lado e por vezes rodava, ficando de frente. Nada se ouvia além do pica-pau que andava nas redondezas e dos carros que de vez em quando passavam numa estrada municipal.

Por volta das 21:00h lá me pus de pé pela 1ª vez, durante alguns instantes, “para esticar as pernas”, pois não gosto muito de estar de pé, penso que a possibilidade de ser detetado pelos javalis é maior!

Pelas 22:00/22:10h voltei a “esticar as pernas” e qual o meu espanto quando nesse momento ouvi um muito leve respiro de javali nas minhas costas, fiquei estático, apenas os olhos mexiam tentando perceber se o animal andava por ali perto ou se me ia detetar! A adrenalina disparou, nesse momento estava a 200, o esforço era enorme para que o coração não saísse da caixa.

Continuei completamente estático e de vez em quando ouvia uns sons de partir paus e de passar pelo mato, mais tarde vi um vulto a passar a estrada mas não me apercebi do que era, a noite estava muito escura.

Entretanto, de pé, com a arma numa mão e o telemóvel na outra lá me consegui baixar um pouco (de forma a que não houvesse claridade do telemóvel) e enviar uma mensagem ao Moutinho a dizer para me ir buscar mais tarde pois o javali andava por ali.

Às 22:45h comecei a ouvir um leve roçar num pinheiro que ficava do outro lado da estrada (a cerca de 60 metros do palanque), em frente ao cevadouro ao que pensei, deve ser uma raposa ou outro bicho!
Pelo sim pelo não lá pus a espingarda à cara e qual o meu espanto quando vi um javali a coçar o rabo na árvore e que mal se coçava se punha atrás da mesma. Nesse momento não tive noção do seu tamanho, só quando ele terminou o seu trabalho (para aí ao fim de 10 min.) e atravessou o caminho para se proteger na sombra e nos arbustos é que me apercebi que era um javali grande.

Começou a andar para o lado direito do palanque e eu tentei segui-lo com a arma apontada mas não estava a dar hipóteses, tinha sempre alguma coisa a encobri-lo. Lá continuou para a direita muito devagar e fazendo pausas encostado às arvores, eu entretanto já estava debruçado de fora do palanque mas sempre com a arma apontada, o javali chegou a uma zona mais descoberta e arrancou a correr, foi nesses ínfimos segundos que arrisquei o tiro, era o tudo ou nada.

Afortunadamente a bala saiu com o estrondo que é característico do calibre 9,3x62 e fez o seu trajeto direita ao alvo, tendo-se alojado no sítio exato onde tinha sido apontada, na caixa torácica do javali.
Como estava numa posição “acrobática” e com o tiro fiquei, por momentos, fora de enquadramento, após recuperar voltei a apontar a arma e o “bicho” jazia morto no chão.

Lá me desci do palanque e fui ao encontro do animal morto com a arma na mão, não fosse o diabo tecê-las, com uma lanterna de cabeça e com a faca de desmanche no bolso.

Fiquei contentíssimo com o animal mas ainda não estava com a noção do quanto era grande, liguei logo para o Moutinho que não atendeu e após várias insistências desisti e liguei para o meu amigo Ribas (grande apaixonado desta modalidade de caça e impulsionador das esperas em minha pessoa, antes do conhecer não tinha “aficcion” por esta modalidade de caça) a contar-lhe o sucedido e a dizer-lhe que o Moutinho não estava a atender, ao que ele me disse logo que devia estar ao pé de alguns javalis e que não atendia para os não assustar. Acertou na sua previsão, mais tarde vim a saber que era isso que se tinha passado.

Entretanto resolvi voltar para o palanque até que o Moutinho me ligasse de volta e assim aconteceu por volta das 00:15h. Lá lhe disse que já tinha morto um javali macho e que quando quisesse me viesse buscar.
Ao fim de alguns minutos apareceu o Moutinho na pick-up, eu desci do palanque e fui ter com ele, estava com um sorriso de orelha a orelha, um dos seus maiores prazeres é ver estes “bichos” de patas para o ar.

Mal cheguei ao pé dele disse-me logo, “então matou algum leitão”?

Ao que eu respondi, não é um leitão mas sim um javali macho jeitoso, para ai 100 Kg. E agora só cá estamos os dois como é que o vamos por em cima da pick-up?

O Moutinho muito calmamente disse logo, “não será um Javali que 2 homens não conseguem carregar”!

Bom, lá começámos as manobras para o pôr em cima da pick-up mas o javali nem mexia! Voltas e mais voltas e nada, todos os esforços estavam a ser infrutíferos.

Entretanto o Moutinho lembrou-se de subir para o carro e começar a puxar e eu a empurrar, claro que à primeira puxa dela saiu disparado do carro para o chão, 2ª tentativa, eu em cima do carro e ele a empurrar, mais uma vez nada, não mexia.
Após largos minutos de tentativas frustradas o Moutinho lembrou-se de uma hipótese, passar o javali para lá de uma vala da estrada e pô-lo num sítio mais alto de forma a puxar a pick-up para a vala e conseguir arrasta-lo lá para dentro. Assim foi e desta vez com sucesso.

O caminho até à casa de desmanche, cerca de 20 min., foi feito com agradável prosa sobre o sucedido, quer a mim quer a ele, que também tinha estado com 8 javalis adultos ao pé e mais uns quantos listados.

Ao chegar à casa de desmanche mais um problema, como íamos pendurar o javali?

Com muita arte/engenho e com a ajuda de 2 roldanas lá conseguimos pendurá-lo, diretamente da pick- up para o gancho, não arriscamos a pô-lo no chão.
Com todas estas peripécias já passava da 01:30h do dia 01/05/12, pelo que combinámos que continuaríamos o trabalho por volta das 10:00h, assim dava tempo para eu ir a casa descansar um pouco e trazer ajuda, neste caso o meu sobrinho (rapaz a iniciar-se nestas andanças da caça).

No caminho de regresso a casa telefonei ao meu sobrinho que se disponibilizou a ir comigo e combinámos sair da Amadora por volta das 08:30h.
Assim foi, às 08:30h rumámos novamente em direção a Muge, parando no caminho, num café que tem um pão muito bom e numa charcutaria característica de província, a dona é uma senhora de idade avançada e muito simpática, para comprar uns queijos curados de muito boa qualidade (alcunhados de queijo da velha, sem ser em sentido pejorativo).

Chegámos a Muge por volta das 09:30h, telefonei ao Moutinho e ele já estava ao pé do javali, pelo que lhe disse que mais uns minutos e estaríamos ao pé dele.
Quando cheguei junto da casa de desmanche e vi o Moutinho ao pé do “bicho” pendurado é que me dei conta do quanto grande era, era maior que o Moutinho, cerca de 150 kg e com 7/8 anos de idade. Um verdadeiro “Rei” que sobreviveu a todas as amarguras e armadilhas do homem, com grande perícia e saber, até ser deposto com a dignidade que se impunha.

Aproveitámos para tirar as fotografias da praxe (na noite anterior não tinha sido possível tirar fotografias porque a máquina do telemóvel era muito fraca para o nível de luminosidade existente) e lá metemos mão à obra para efetuar o desmanche do “bicho”.
Por volta das 12:15h, o trabalho estava concluído e lá rumámos em direção à Amadora, sempre com uma ótima disposição, como seria de esperar!

Mais uma vez, quero agradecer a amizade e companheirismo dos meus Grandes Amigos Moutinho e Ribas. Sem eles e sem a sua paixão por esta modalidade de caça esta reserva não teria chegado a este nível de densidade de javalis e qualidade.

Todas as palavras que possa escrever não são suficientes para expressar os momentos que temos vivido nesta e noutras aventuras em que temos estado juntos.

 

 
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    Parabéns pelo bicho    
   
     
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