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Histórias de Caça

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A oportunidade do lance ...
 

     

Autor: NELSON CADAVEZ

14-01-2005 10:00:00

 

Um magnífico Navalheiro, um belo Troféu
   
Desde o dia em que este episódio ocorreu até agora já passou quase um ano, mas tenho bem fresco na memória o lace vivido, e só agora decido partilhar esta “história de caça”, pois estamos em plena época de montarias, e com alguma frequência nos desencantamos com as portas que nos saem em sorteio.

Em montaria, embora à partida haja portas com mais probabilidades de avistarem, atirarem e cobrarem reses, só no final é que se sabe quais foram as portas boas e quais foram as más, porque muitos são os factores que interferem no cumprimento das querenças do animais.

Na montaria em Talhas - Macedo de Cavaleiros no dia 29-01-2004, organizada pela FACIRC – Federação das Associações de Caçadores da 1ª. Região Cinegética, integrada no âmbito da Festa dos Caçadores do Norte, coube-me em sorte uma porta numa armada de fecho, situada no limite da mancha, junto a uma linha de água que desagua no rio Sabor, colocados os monteiros desta armada de fecho com a devida antecipação, eu apeei-me na porta anterior e depois de desejar boa sorte ao companheiro, dirigi-me para a minha, e no percurso fui observando os sinais da presença dos porcos.

Bastante perto da minha porta observei uma vereda bem definida e usada recentemente pelos javalis. Chegado à porta, pouso a “troucha” e caminho até à porta seguinte, mais duas veredas perfeitamente definidas, uma talvez a uns 20 metros outra a uns 30 aproximadamente, boa sorte para mais um companheiro, e estou de regresso à porta para me colocar, pois a montaria estava prestes a começar, (não esquecer que ao chegar à porta devemos considerar-nos em acto de caça), subo então para uma pequena fraga que ali existia e, em frente um monte com acentuada inclinação coberto de densas estevas e giestas e no cimo do referido monte uns pequenos silvados e umas oliveiras de pequeno porte. A mancha começava justamente nessas oliveiras.

Três monteiros mais impacientes, enquanto não foi sinalizado o ínicio da montaria, juntaram-se na porta de um deles e fizeram uma pequena tertúlia.

Estoura o foguete, começa a montaria, silêncio absoluto, minutos depois meia dúzia de torcazes, bruscamente levantam voo junto às oliveiras, estranhei mas não suspeitei absolutamente de nada, “- então com todo aquele barulho dos três monteiros e só agora levantam”.

O silêncio é interrompido com o barulho de uma viatura que se aproxima e gradualmente ouço cães a ladrar, tratava-se de uma matilha que iria entrar mesmo à minha frente, junto às oliveiras no início da mancha.

Perante este quadro, uma porta com visibilidade muito limitada, onde iria entrar uma matilha e com alguns companheiros de jornada algo barulhentos, a montaria parecia pouco promissora.

Os matilheiros soltam os cães, entram no monte, e de imediato uma algazarra infernal, ladras sérias, os matilheiros apercebem-se que é porco, incentivam os cães, e a dada altura grita um dos matilheiros, “- é um grande navalheiro”.

O navalheiro sabendo que em sentido contrário de onde vinham os cães também havia ameaças, decide romper contra estes e vai para fora da mancha.

O bom trabalho dos matilheiros, e não posso aqui deixar de dirigir um elogio pessoal à Matilha do Azibo, dado que conseguiram reencaminhar o javali à mancha, correndo e cortando-lhe o caminho, ajudados pelo facto dos cães ainda estarem descansados, que por sua vez não deixaram o animal escolher e ganhar terreno.

Gradualmente sentem-se novamente as ladras à aproximarem-se e monte a partir cada vez mais próximo, e o javali sempre a coberto do mato dirige-se para o rio, vejo-o pela primeira vez a uns cento e tantos metros, deu para perceber que se tratava de um bom exemplar, tive oportunidade de atirar, e só o não fiz porque nesse preciso momento o porco passava em frente do companheiro da direita que por estar colocado mais abaixo e quiçá distraído, o não viu, “- desta é que ele se vai embora e vai ser atirado lá para baixo, pensei eu”.

Há espera de ouvir tiros, e nada, as ladras dos cães já se sentiam muito distantes, talvez a aproximadamente 1 km, junto ao rio. O tempo passa e nada de tiros, e eis que um pequeno barulho à minha frente junto ao ribeiro, me devolve à minha porta, atento que estava nas ladras cada vez mais distantes, olho e vejo fugazmente o navalheiro, atiro sem tempo de preparar o tiro, apercebo-me que não lhe toquei, o javali dá um salto e inverte o sentido da fuga, e deixo de o ver. Calculei que fosse sair ao caminho na primeira vereda à direita que previamente sinalizei com uma pedra, alinho a carabina com a pedra, fracção de segundos depois aí está ele, majestoso e sem medo, aponto e disparo, o navalheiro torceu-se, mas continua, entra ao caminho, consciente de que tinha apenas mais uma munição, aponto perfeitamente à espádua e disparo novamente, deixo de ver o porco, e ouço de imediato o matilheiro do alto do monte “- esse já caiu”.

Recarrego a carabina, recomponho-me da emoção e desço em direcção ao caminho, qual não é o meu espanto ao ver esticado no caminho semelhante animal, que ainda respirava, cumprido o ritual de sangrar e capar o animal, entretanto e com a ajuda do companheiro da direita já chegado à minha porta, colocamos o navalheiro numa posição digna, junta-se a nós o monteiro da esquerda (reprovável esta concentração de monteiros numa porta, mas desculpável pela magnificência do bicho), e depois dos tradicionais parabéns e comentários “... isto é que é sorte!... ”, para durante uns breves minutos admirarmos o seu magnífico troféu (homologado pela Comissão Nacional de Homologação de Troféus em 19-04-2004 com 111,91 CIC medalha de ouro).

Voltamos às respectivas portas, pois a montaria estava no seu princípio, teriam decorrido se tanto uns 15 minutos.

Quase até ao final da montaria, isto é mais ou menos três horas depois, nada por ali se passou. No regresso a matilha que contribuíra para este espectacular lance, ao entrar no monte onde estava encamado o navalheiro é subitamente reanimada, começam novamente as ladras, e mais ladras e levantam uma porca, atirada pelo “grupo da tertúlia” que se foi. Na perseguição da porca alguns cães tropeçam naquele que provavelmente seria o “escudeiro” do navalheiro e levantam-no também sem que alguém tenha tido oportunidade de atirar, e ainda bem dado que se tratava de um porco pequeno.

O navalheiro decidira encamar naquela noite num pequeno silvado mesmo no limite do monte junto às oliveiras, e ali estava, ouvi-nos chegar, colocar e atento, esperava o melhor momento para silenciosamente se furtar. (Quando se levantaram os pombos deve-se ter desencamado).

O que vou dizer a seguir é uma mera conjectura pessoal:- “Porque viria o navalheiro tentar atravessar o ribeiro à minha frente para voltar ao sítio onde estava encamado? Para levar a matilha até ao seu subordinado, e assim enganar cães, matilheiros e monteiros!, talvez”.

A astúcia, bravura, robustez e imprevisibilidade do javali, fazem da sua caça, um exercício desportivo sem comparação em termos de caça maior em Portugal, pelo que em montaria, a oportunidade do lance pode estar em qualquer canto do monte, se o desfecho do lance é favorável ao Monteiro, isso já é outra história!
 

 
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