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Histórias de Caça

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Ética da Caça e do Caçador
 

     

Autor: AGOSTINHO BEÇA

04-02-2005 11:00:00

 

O Castelo de Outeiro
   
Chegaram por volta das sete e meia da manhã. Chovera imenso durante a noite e os caminhos estavam mais enlameados do que nunca. Resolvendo não avançar com o carro, pararam no alto do caminho, ao começar a descer para o marco geodésico da Recta Corsa. Atrás deles, sobressai – verdadeiramente imponente – o cabeço de Outeiro, com os seus mais de 800 metros de altitude e as ruínas do Castelo, iluminadas pela magia do amanhecer.

Caminhando com passo certo e firme iniciaram a jornada que prometia ser molhada. As perdizes não estavam lá; talvez na lavrada ... o­nde o Sol ensaiava agora um tímido aparecimento. O Manel esperava, parado há uns minutos, no marco geodésico, enquanto o companheiro progredia na lavrada, conforme o combinado, em direcção a ele.

Quase três décadas de caça às perdizes permitiam-lhe estes mais-que-certos palpites. Não se enganou! Apesar da presença de um ser humano e um cão – o Joli – a poucos metros de distância, aí estava o bando, que a Lira já tinha pressentido e assinalado. Levantaram na dobra do terreno, imediatamente na direcção do refúgio, asas abertas em pleno, atingindo uma velocidade impressionante em fracções de segundo, ficando logo fora da vista, encobertas pelo mato bastante alto. Dois tiros inúteis, apesar de rápidos e bem colocados.

Deslizando num limpo, quase rastejando, novamente a Lira dá todos os sinais de sentir alguma peça de caça, ou seria algum passarinho?

– Se estivessem aí, já eu as tinha visto! Lira: são “elas”, ou é uma lebre? Então hoje não havemos de “avezar” uma perdizinha?

Inusitadamente, aí vai ela, isolada, saída como que por encanto do único pedaço de mato que ali havia, a uma distância adequada para fazer um bom tiro (30-40 metros). Mais dois tiros falhados, o segundo já incerto, embora com segurança, mas a medo, pelo respeito à posição o­nde seguia o Manel.

– Isto hoje não está a correr nada bem!

O Manel, que vinha no vale, num perfeito “coup de roi”, fá-la tombar como um trapo.

– Boa, Manel.

Continuaram. Próximo do Santuário de S. Bartolomeu avistam-se, na outra margem do Sabor, as minas de Coelhoso. Montes esventrados, sem vegetação, por o­nde foram sendo depositadas as escórias da exploração do minério. Visão fantasmagórica e não muito agradável.

Nestas conjecturas, salta uma codorniz, de rabo, perfeitamente alinhada e na distância ideal para um tiro de excelência. Arma na cara, instintivamente, não disparou ... estamos em Dezembro e já terminou o Período Venatório para esta espécie migradora. É melhor assim.

Passava pouco das três da tarde. Descendo na “volta” do lombo que leva de Vale de Pereiros ao Ribeiro de Longarás, cinco perdizes “arrotaram” por trás das carrasqueiras, sem lhes poder atirar. Já só as vislumbrou fora do alcance de tiro. Cena repetida inúmeras vezes, tanto nesta época, como em épocas anteriores. Há anos que isto lhe acontece neste mesmo lugar. A cadela reagiu, arqueando as orelhas e indo rapidamente cheirar o local o­nde se encontravam. Pousaram uns metros à frente, relativamente perto, mesmo na beira do caminho que vai para a Ponte de Parada, duas de um lado, três do outro. Estavam mansas, porque chovia, embora com pouca intensidade. A pulsação aumentou ligeiramente, como é habitual à vista destes bravos animais.

Lira, vamos a elas, murmurou para a perdigueira.

Não é fácil descer até lá. O carreiro, no meio de estevas, a dado passo, obriga a passar por baixo das carrasqueiras. O mato estava bastante molhado e a humidade começou a entrar na roupa interior. Foi descendo o mais silenciosamente que podia, olhando sempre em frente, não fossem elas levantar novamente. Pelo meio, como não poderia deixar de ser, ainda assomou à fraga que se debruça sobre o lado oposto e outra levantou. Provavelmente o mesmo perdigão que costuma estar aí, mas fora de tiro, rodou por baixo e para trás. Paciência, fica para a próxima época. Este, se vier a procriar, certamente transmitirá à descendência a argúcia que lhes permite sobreviver, ludibriando tudo e todos.

Atravessado o pequeno ribeiro, que neste ponto se precipita em cascata por um silvado impenetrável, para desaguar, lá ao fundo no Ribeiro de Longarás, chegou ao caminho. Foi aqui que, na abertura da época passada, lhe ficou uma perdiz, de um “doble”, impossível de cobrar. É também neste ponto que começa a área de refúgio, com as placas de interdição de caçar bem à vista. Na “volta” habitual, sobe-se em vez de descer para o Sabor. Muitas vezes tem reflectido sobre a completa inutilidade deste tipo de refúgio com carácter permanente, a forma como está delimitado, acerca dos bons lances que poderia ter se pudesse caçar nas ladeiras sobranceiras ao rio e pensando em quantas perdizes acabarão por morrer de velhas ...

A Lira estacou, “parou”, “marrou”, “apontou”, “bloqueou”. Parece que só mexeu uma das narinas, sentindo os eflúvios das perdizes a pouca distância (não chegou a saber se metros, se apenas centímetros). Petrificada, com todos os músculos retesados, uma das patas de trás ligeiramente levantada, como se fosse dar um passo, pescoço esticado e alinhado com o dorso, olhou-o de soslaio, com aquele olhar estrábico, extraordinariamente concentrado, como quem diz: atenção, estão aqui! Que perfeição da Natureza! Invocou, mais uma vez, todas as divindades da caça e o espírito dos antigos criadores de perdigueiros, agradecendo-lhes por semelhante espectáculo. Num fugaz momento, toda a carga genética, transmitida de geração em geração, ao longo de anos de evolução, patente nos gestos deste delicado animal. Mais uma vez teve o duplo e antagónico pensamento: como é que o Raul pôde dispensar esta cadela magnífica? Abençoado seja, porque o fez!

De súbito, todo o Universo se concentrou no inconfundível rufar de duas perdizes que saltaram, também sem as ver, por trás dos arbustos, na direcção do refúgio. Sorte a delas, ou estratégia? Procurou pôr-lhes a vista em cima, mas foi impossível. Parado no meio do caminho, já bastante molhado, mãos crispadas na arma, dedo no guarda-mato, engoliu em seco a frustração, enquanto a cadela, poucos metros à frente, avançando lentamente e agachada, lhe lançava um olhar inquiridor, naturalmente intrigada por não ter ouvido qualquer estampido.

Avançou dois passos cautelosos e fez, com a boca, aquele “arrotar”, imitando o bater de asas, que todos os caçadores fazem para provocar o levante das perdizes que ficam “pregadas”.

– PRRrrrrrrrr ...

Como era de esperar, sobrepondo-se ao ruído do Ribeiro de Longarás, com um caudal de tal modo impetuoso que até parecia um rio, novo rufar por trás dos arbustos, nas suas barbas, também invisível, só que desta vez, já a uma boa distância. Conseguiu “meter” dois tiros e ao segundo viu a perdiz numa trajectória oblíqua e prolongada, ir cair a uns bons 150 metros ladeira abaixo, já dentro da zona de refúgio, percebendo claramente que tinha ficado “d’asa”.

Tudo se precipitou. E agora Lira? Rapidamente olhou em redor, prescrutando os cabeços do lado de Paçó – a Cara de Vila Nova, Carva e Gaiosas. Paisagem deslumbrante, apesar de enevoada, algo assustadora pela imensidão daqueles montes rapados e recortados, quase a pique, sobre o vale do Sabor, levando-o a pensar na pequenez do ser humano. Nada fazia supor que mais alguém andasse neste ermo tão longínquo e num dia tão pouco propício a trabalhos de campo. Nem caçadores, nem “fiscalizadores”. Apenas ele, a cadela, as perdizes e eventualmente algum corço ou javali, acoitados no fundo da ladeira, junto às linhas de água.

O desnível é respeitável (mais de 100 metros), assim como o declive (superior a 50%). Com este tempo húmido tudo é extremamente escorregadio e a perdiz até podia já ter levantado novamente ou escapado “a pés”. Passava das três e meia. Em Dezembro anoitece de repente e a busca pode ser demorada. Pensou seriamente: vou ou não vou? Um dilema.

Ética de caçador. Cumprimento das normas legais de conduta. Seria legítimo, nesta situação, penetrar numa zona interdita à caça? Também não parecia certo virar costas e ir embora. E se alguém o via? Correcto, correcto, seria avançar com a arma descarregada. E se a perdiz, mesmo ferida, saltasse novamente?

No meio desta catadupa de pensamentos prometeu a si mesmo: só disparo se for para a “segurar” e não atiro a mais nenhuma, neste trajecto. Estava em causa a consagração da Lira como exemplar de perdigueiro português, na dupla vertente de cão de mostra e de cobro. Ainda não tinha havido oportunidade de ver esta cadela “trabalhar” sozinha. Cobrar uma perdiz nestas circunstâncias é uma autêntica prova, tanto para o cão como para o caçador. É a suprema expressão da cinegética – arte de caçar com cão. Estava também em causa uma regra, essa sim fundamental da ética do caçador – nunca deixar uma peça de caça ferida no terreno, sem qualquer tentativa de cobro.

Perante tão ponderosas razões, esquecendo as placas de sinalização do refúgio, decidido, de um salto aí vai ele, ladeira abaixo, disposto a tudo e antevendo as emoções de um lance de caça daqueles que é quase impossível descrever ou explicar a quem não é caçador.

Falando em voz baixa:

– Busca lá, Lira. Está ferida... busca linda.

Pensou-a logo: se tiver de descer até mais de meio da ladeira, o melhor será atravessar o ribeiro, nem que seja a nado! Poderei passar para a outra margem e, caso anoiteça, saberei muito bem regressar, porque mesmo de noite são visíveis os caminhos.

A distância foi percorrida em passos largos e firmes, apesar dos tropeções nalgumas pedras soltas, em meia dúzia de segundos chegaram ao sítio, que tinha “marcado” bem. Num relance viu uma pena tricolor, do flanco, agarrada aos espinhos de um arbusto sem folhas e por baixo, penas mais pequenas – o ponto mágico da “pancada”. A Lira, já afoita, andava em círculos, descendo e subindo, parecia que a estava a ver, quando se detinha por breves instantes. Assinalou o local, esgaçando algumas giestas e estevas, por forma a que pudesse retomar a busca no mesmo ponto, caso a cadela perdesse o rasto.

– Busca lá Lira!... Ela está aqui. Foi repetindo em voz baixa. Não só porque é um animal assustadiço, mas também porque não se deve “falar à mão”, quando os cães estão em busca, para não os desconcentrar.

A Lira, alvoroçada, desaparecia no meio do matagal e voltava, sem a perdiz. Deu mais algum tempo e nada. Continuava agitada.

– Então, Lira? Busca lá.

De repente, entendeu-a: queria que a seguisse! Começou a descer, como podia, pelo meio de estevas, silvas e juncos. A cadela passava por baixo e ele procurava segui-la pisando por cima dos silvados. Valiam-lhe as polainas de cabedal, sem o que seria impossível. Algumas silvas agarram-se à roupa, refreando o andamento, só conseguindo livrar-se delas rodando o corpo, tendo até uma das vezes que ripar da navalha “Palaçoula”, presa à cartucheira, para cortar uma que era mais grossa. Numa fraga sobranceira, enquanto estudava a melhor maneira de descer, vê abanar ligeiramente as estevas mais rasteiras. É ela! A cadela está do outro lado, só pode ser a perdiz! De facto, passa a Lira que, com uma ligeira paragem nesse ponto, segue o rasto, curvando à esquerda. Descia em zigue-zague. Continuou, a custo, procurando não a perder de vista. Estava sem dúvida no rasto certo. Deixou de a ver, mas sentia-lhe o movimento, mais à frente, como se a tivesse apanhado.

Quase no fundo da ladeira, o ruído das águas do ribeiro era esmagador. Como é que ia passar para o outro lado? A cadela seguia agora, com mais convicção, em passo rápido, por um carreiro paralelo à linha de água, percorrido provavelmente por javalis ou corços, porque aqui não anda o gado. Eram quase quatro horas. A neblina do fim da tarde descia, tornando o lugar escuro e húmido. Estavam exaustos e ele já molhado até aos ossos.

Lira, não desistas agora ...

Mais uns passos, mais umas picadelas nas silvas e viu a cadela, imobilizada, com a cabeça espetada num tufo de juncos.

– Eu sabia! Dá cá, linda, dá cá.

Levantando a cabeça, exibe a perdiz na boca, com orgulho, revelando todos os seus instintos ancestrais. O culminar de um lance extraordinário, proporcionado pelo elemento mais importante na caça à perdiz – o Perdigueiro.

Docemente, com aquele olhar lânguido, entregou-lha, ainda viva, sacudindo algumas penas da língua e abanando o “saracoto”. Acarinhando a cadela, verificou que a perdiz estava também ela toda molhada e dava o último suspiro, fechando os olhos. Sentiu a comoção habitual perante a morte. Tinha apenas a asa esquerda partida.

 

A Lira e a perdiz


Rapidamente passou-lhe um dos atilhos da velha cartucheira no pescoço, dando uma laçada, com as pontas, a envolver a asa boa, por forma a ficar bem esticada, aconchegada ao corpo; assim, quando ganham rigidez cadavérica ficam mais compostas. Pôs-se a caminho do ribeiro, evocando, como sempre faz quando pendura uma perdiz, as palavras de Miguel Torga: “... parece uma deusa morta... no cinto ainda se lhe tem respeito”. Basta descer mais um pouco, mas é preciso escolher bem o ponto de passagem – impossível naquele lugar – pelo que tem de caminhar para montante, à procura de melhor sítio. Passava das quatro da tarde, já escurecia. Sobressalta-se com o pensamento de que está dentro da área de refúgio e deve sair dali, o mais rapidamente que puder. Com alguma dificuldade, chegaram ao ponto o­nde o ribeiro que vem de Vale dos Pereiros e o Ribeiro das Gaiosas desaguam no Ribeiro de Longarás. Pareceu-lhe que nunca os tinha visto com tanta água e tão revoltosa. Bom, só havia uma solução: passar a direito, procurando não cair. Experimentando as pedras o­nde punha os pés, lá passou, com água quase pela cintura.

– Anda Lira.

Hesitante e quase arrastada pela corrente, passou também, sacudindo-se ruidosamente quando se viu em terra firme.

Agora sim, completamente molhado, com as botas fazendo o ruído característico do ressumar da água, encetou o caminho de regresso. O carro estava a mais de um quilómetro, sempre a subir. Foi “pedalar” ininterruptamente, saboreando os momentos acabados de viver, sem sentir qualquer desconforto pelo corpo molhado, pela chuva, pela passagem do ribeiro e do suor causado pelo esforço da subida.

O Manel aguardava-o, dormitando dentro do carro, após mais uma tão boa quanto extenuante jornada de caça.

Manel: se a cadela já dormia no sofá lá de casa, agora passa a ter também o direito de comer à mesa!

– Com faca e garfo ...! Acrescentou ele.

Mudou de roupa enquanto, ofegante e entusiasmado, ia contando o episódio. Anoiteceu e regressaram satisfeitos, com o conforto que a roupa enxuta proporciona. Apenas duas perdizes cobradas, mas que permitiram sentir a natureza em pleno, num dia de caça inesquecível.

A conversa fluiu à volta das maravilhas de mergulhar na paisagem e da sua intemporalidade, do lavar da alma e oxigenação do cérebro que os silêncios e o esforço físico proporcionam, do deslizar dos cães, da bravura e resistência das perdizes, do privilégio dos lances vividos, do que perdem os não caçadores, dos vícios e virtudes do ser humano...
com a deliciosa sensação de que caçar não é um vício, como costuma dizer-se, mas sim uma virtude, o ser-se caçador.

Ilustração Antiga da colecção particular de Nuno Farinha, inserida no livro “A Perdiz”

 

 
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