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Milharias até quando?
 

     

Autor: Gilberto Manuel Nunes Pinelas

20-09-2005 12:00:00

 

   
Numa sociedade que se pretende moderna, mas, conturbada pelas sucessivas recessões de ordem política ou económica, em Portugal, é cada vez mais latente a preocupação e o carácter interventivo dos cidadãos, relativamente às mais diversas questões, que directamente ou indirectamente lhes dizem respeito e, a caça, pela sua especificidade em toda a sua dinâmica, é também ela um motivo dessas preocupações, movendo cada vez mais cidadãos conscientes, que convictos das suas necessidades de tentarem resolver alguns problemas, sentem-se impelidos e sem preconceitos, a participarem, quer activamente na sua condição de meros caçadores, quer em prol, de outras componentes que abranjam esta legítima actividade ancestral.

Num ano completamente atípico, no que se refere à meteorologia, a força da natureza, na sua condição reguladora absoluta e, a mão criminosa do homem, teimaram mais uma vez este ano em Portugal, em alterarem a "paleta de cores" dos nossos campos, deixando-os "feridos", com tons pardacentos, tal a escassez dos recursos hídricos e a violência dos incêndios florestais.

É sabido, que na própria condição dos animais bravios, na sua componente comportamental irracional, existe algo, que perante condições extremas de dificuldade, quer na procura de novos habitats, para procriação ou simplesmente numa tentativa de procura de alimentos, os seus "relógios" biológicos, levam-nos por vezes, a deslocarem-se dezenas, centenas ou milhares de kms até outras paragens, assistindo-se a deslocações ou concentrações massivas de determinadas espécies em determinadas áreas, proporcionando-nos por vezes espectáculos de rara beleza.

Em Portugal e, agora dentro do âmbito da caça, à semelhança de muitos outros países, também nos é possível assistirmos a algumas concentrações massivas de algumas espécies cinegéticas, resultantes das cíclicas migrações por elas efectuadas, procurando novos territórios residentes e, que apesar do carisma temporário, em época própria, com uma gestão correcta e adequada às realidades, tão bons momentos nos proporcionam a nós caçadores, quando as sujeitamos ao acto venatório, veja-se o caso do pombo torcaz.

É certo que a concentração massiva de animais, pode resultar de diversos factores, sendo estes quase sempre por causas naturais, ou pelo carácter intromissor e manipulador do homem sobre os recursos naturais, como o tem demonstrado ao longo dos tempos, por vezes e, infelizmente para nós caçadores, nalguns casos, inadvertidamente.

Nos últimos anos no nosso País, com maior relevância para o ano que decorre, pela sua atipicidade, pelas inerentes consequências nos ecossistemas e pelos modelos agrícolas preconizados pelo agricultor "moderno", quando o Estio se avizinha, tem-se assistido a um "fenómeno" de "migração" de um dos ungulados da nossa fauna cinegética, que pela sua apetência pelas zonas húmidas e abundância de comida fresca, tem encontrado nas zonas de regadio, onde subsistem as monoculturas de cereal, mais concretamente o milho, o habitat perfeito para aí se radicar e desenvolver... Eis os javalis nos milheirais!

O facto dos javalis nos milheirais, durante a época de maior escassez de comida natural nos nossos campos, não podemos considerá-lo um facto recente, pois este processo de "invasão", desencadeado por estes animais sobre as culturas deste cereal, perdura já ao longo dos anos e, sempre com maior incidência, caso o regime das culturas seja extensivo, caso a comida e a bebida natural lhes falte no "monte" e sempre que lhe destruam os seus habitats preferidos de refúgio, onde possam ter os encames para descansarem sossegados.

É sabido, que no intento de minimizarem os prejuízos nas suas searas e, afugentarem os javalis, os agricultores inicialmente, começaram por adoptar a "requisição" de alguns caçadores e suas matilhas de caça, estas por vezes e, na sua maioria, compostas por quase todo o tipo de cães de caça menor ou pastoreio, tais como "rafeiros", utilizados para manuseamento do gado, podengos e outros, mais habituados a procurar a caça menor de pêlo e, assim na companhia de alguns amigos, poucos, estes munidos de uma ou outra arma, tentavam assim atingir os seus propósitos e, caso fosse abatido algum javali, este era normalmente consumido numa "almoçarada" ou "jantarada" entre amigos num verdadeiro convívio e camaradagem sã.

Como diz o adágio popular, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" e, logo o homem percebeu também, que para além de conseguir desembaraçar-se desta espécie de caça maior, enquanto residente nos seus milheirais, seria "oportuno" também, tirar algum proveito económico desta situação e, então começámos a assistir a uma subversão dos padrões, dos processos de intenção, até aí, praticamente inócuos, dando ensejo e, de uma forma escalonada, a uma actividade mercantilista, cujo acto de "caça" e, na gíria popular, foi prontamente designado por "milharia". Todos os intervenientes, principalmente os promotores, passaram a lucrar com este tipo de acções, relegando-se a matéria constitutiva e os preceitos morais, da génese da constituição das nossas zonas de caça ordenada, para planos secundários.

É obvio, que tais processos de eliminação desta espécie cinegética de caça maior, tão cobiçada e acarinhada por alguns caçadores mais responsáveis, os chamados métodos de correcção de densidade, designados pela DGRF, deveriam pressupor no mínimo, critérios de gestão cinegética coerentes, de acordo com as realidades, mas de facto pautam-se pela sua isenção, pelo que passo a citar, alguns "pequenos" maus exemplos, decorrentes do presente ano:

Herdade dos Pavões - Coruche - 54 javalis - uma "milharia"
Herdade de Camões - Maranhão (Avis) - 73 javalis - várias "milharias"
Herdade do Paço de Baixo - Mora - 15 javalis - uma "milharia"
Herdade (?) - Ciborro - 18 javalis - uma "milharia"
Herdade do Pinheiro - Águas de Moura - 20 javalis - duas "milharias"
Herdade (?) - Arraiolos - 16 javalis - uma "milharia"

Ora isto, estes indicadores (196 javalis abatidos), são números realmente assustadores e comprometedores para o sector da caça, não podemos nem devemos escamoteá-los, principalmente, quando se pretende cada vez mais, a implementação de práticas de gestão profícuas nas nossas zonas de caça ordenada, de forma a atingirmos os nossos objectivos enquanto homens, gestores ou caçadores, mas nunca descurando o factor da sustentabilidade das espécies, sejam elas de caça maior ou menor. Será assim que o caçador moderno e de bom senso deverá rumar, caso queiramos ser respeitados e encarados de uma outra forma pela sociedade, ganharmos o nosso espaço e, não sermos surpreendidos pelos movimentos anti-caça perante tais factos.

No que respeita à sua legitimidade e, face ao enquadramento oficial venatório, as "milharias, são sem dúvida, actividades singulares danosas, enfermando de estatuto próprio. Mas por outro lado e, por meras razões agrícolas, caso seja comprovado pelos agricultores, que os javalis lhe estão a causar prejuízos nas suas culturas, as milharias, poderão ser sancionadas pelos serviços competentes oficiais e, ganharem assim legitimidade, por forma a atenuarem tais prejuízos.

Nesta panóplia de acções e intervenções vinculativas às "milharias", neste momento e, não eximindo os agricultores, não poderemos dizer que exista um alinhamento de intenções, que não seja o aspecto lucrativo, financeiramente fácil e imediato. No que diz respeito às atitudes dos seus promotores, sejam eles agricultores, caçadores, matilheiros, gestores cinegéticos ou entidades oficiais reguladoras, o que se sabe, e não deixa de ser controverso e aleatório, é que geraram um problema, problema esse, que acaba por extravasar para outras questões mais profundas do nosso sector cinegético, como por exemplo o mercantilismo, pois veja-se:

- O agricultor e dono das searas, vende as "folhas" de milho a quem as queira explorar nestes intentos, ou ainda, executa ele as tais "milharias", vendendo as "portas" e, assim ganha dinheiro.

- Os caçadores, gestores cinegéticos e ainda alguns matilheiros, compram as "folhas" de milho aos agricultores, vendendo-as posteriormente a outros "caçadores de milharias" e, assim ganham dinheiro.

- Os matilheiros que participam nestes eventos, ao fazerem uma prestação de serviços, são pagos em dinheiro, em "portas" ou em javalis abatidos, que na maioria das vezes são comercializados e, assim ganham dinheiro.

- Os javalis abatidos, caso sejam pertença da organização, prontamente são comercializados e, assim ganham dinheiro.

- No caso, em que o regime das "milharias" é "mata pendura", os "caçadores mais afortunados" e em caso de abate, levam para casa um "porquinho", logo poupam no "talho" ou vendem-no e, assim ganham dinheiro.

Ora perante estes factos indesmentíveis e enraizados, com carisma de uma "cultura" de mentes própria, com certeza que qualquer tipo de atitudes ou soluções e, numa tentativa de resolução deste problema a curto prazo, todas elas parecem-me exíguas, tais as repercussões colaterais que advêm de tais práticas "irracionais".

Não poderemos advogar, que este conceito de mercantilismo e, através da acumulação sucessiva de "milharias", seja ou possa ser, a razão do enriquecimento, do dinamismo ou mesmo incremento do nosso sector da caça, enquanto realidade.

Todos nós sabemos, que a caça é uma actividade legítima regulamentada, e que, supostamente deveria gerar riqueza, que envolve por vezes, esforços suplementares de carácter humano ou financeiro, para que muitas das vezes, consigamos atingir as metas a que nos propusemos nas nossas zonas de caça, mas assim com estas "ajudas", com estas práticas de gestão cinegética, torna-se extremamente difícil vingarmos, ganharmos respeito, afirmarmo-nos definitivamente no nosso sector e ganharmos credibilidade perante a opinião pública, veja-se o que pensam os "média" de nós.

E será concretamente mais difícil ainda, aquando o sector da caça, seja tutelado por um estado de direito fragilizado, de costas voltadas às questões da caça, de coração aberto às ONGA'S e, cujas entidades representativas dos nossos caçadores de caça maior portugueses, o Clube Português de Monteiros principalmente, pelo seu carisma, mas também as Federações, as Confederações e as Associações de caçadores, encarem este problema de uma forma absentista, pouco isenta, cheia de maus exemplos, penalizando-se assim duramente, uma das espécies mais relevantes do nosso património cinegético, enfraquecendo-o, como aqueles, que em nada contribuíram, para este tipo de situações, mas que amam a caça verdadeiramente.

Visto isto, por vezes acredito, que alguns de nós, cidadãos caçadores e, à semelhança de outras coisas que se passam na nossa vida quotidiana, nos sintamos com vontade de desistir, que tudo não passa de uma mentira, de uma ilusão, ao ponto de nos sentirmos por vezes uns parolos, cuja força da razão, não interessa ou não é aceite, sob suspeita do impensável. Mas por outro lado, sinto e acredito também, que numa tentativa de melhorarmos, o caçador moderno, tem a responsabilidade e obrigação, de participar activamente no debate vivo das questões da caça, de expressarmos as nossas opiniões e, caso seja necessário ainda, sem hesitações, denunciarmos aqueles que nocivamente e "camuflados" na sobranceria das suas actividades neste sector, em vez de o ajudarem, preferem ser autênticos "vendedores" de sonhos, de ilusões impróprias e desnecessárias.

Com a tradição que nos é reconhecida, na arte da montaria ou sob o efeito da lua, cacemos então os nossos javalis, façamos cultura e, que os tempos vindouros, sejam tempos, de dar tempo a estes animais, pois temo, que neste tempo de homens, o tempo, não tenha tempo para eles.

Até quando as "milharias"?
 

 
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