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Avaliação da Ocorrência do Corço no Alvão-Marão
 

     

Autor: Rui Morêda

04-08-2004 16:24:00

 

   
Nos últimos anos tem-se assistido a uma expansão espectacular do corço (Capreolus capreolus) na Península Ibérica. Esta afirmação é repetida várias vezes por diferentes autores, nomeadamente, da vizinha Espanha. O comentário de LLORENTE é elucidativo: ”O que se está a passar com o corço em Espanha ficará na memória.

Seguramente em poucas ocasiões da história recente do Ocidente Europeu, se é que existe alguma, terá assistido o homem ao fenómeno expansivo de um grande mamífero, tal como o corço está actualmente protagonizando no nosso solo”, as razões dessa expansão não estão totalmente explicadas mas podemos enunciar algumas: enorme plasticidade e adaptação a diferentes habitats; abandono progressivo dos terrenos rurais proporcionando mais abrigo; possível aumento da tolerância à presença do homem e, finalmente, uma territorialidade acentuada que não permite grandes densidades mas que obriga, por si só, a um aumento da área de distribuição.


Ao contrário do que se passa em Portugal, na vizinha Espanha a esta expansão do corço, nos últimos anos, tem correspondido um aumento considerável e racional da sua exploração cinegética, verificando-se cada ano um aumento de exemplares abatidos e um aumento da qualidade dos troféus, este último directamente relacionado com a qualidade do habitat e sanidade das populações. Em Portugal, actualmente (2002) e com as informações disponibilizadas, apenas se faz exploração cinegética do corço (legalmente) em duas zonas de caça turística, uma com corços autóctones e outra com corços introduzidos, ou seja, existe um claro subaproveitamento e uma falta de gestão deste valioso recurso cinegético. Convém salientar que são muitos os caçadores portugueses que todos os anos gastam consideráveis quantias de dinheiro a caçar corços noutros países europeus quando poderia, perfeitamente, ser gerada essa riqueza em Portugal.


Os estudos efectuados sobre o corço em Portugal são escassos e alguns deles desactualizados, apesar de tudo começa a existir um crescente interesse científico por esta espécie misteriosa de grande interesse ecológico (inclusivamente, está a ocorrer no Centro de Portugal uma importante tentativa de reintrodução do Corço com o apoio de organismos estatais e organismos representantes dos caçadores), não só por se tratar de uma espécie cinegética mas, também, por se tratar de uma importante e ancestral espécie-presa do lobo ibérico (Canis lupus signatus). Desta forma, este trabalho contribuirá para conhecermos a distribuição do corço na região e interpelarmos acerca da sua relação espacial com as áreas de distribuição e de expansão do lobo ibérico, sendo esta matéria de grande interesse para a conservação da natureza, especificamente, para o Parque Natural do Alvão.


A região do estudo, Sítio Alvão-Marão da Rede Natura, encontra-se dentro da área de distribuição natural do corço (a Norte do rio Douro). São vários os relatos que confirmam a sua presença em determinadas zonas da área em estudo sendo, inclusivamente, alvo de uma gestão por parte do Estado nas décadas de 50 e 60, capturando-se vários exemplares em poços-armadilha que eram posteriormente colocados num cercado perto da pousada de São Gonçalo no Marão, trabalhos estes efectuados pelos guardas florestais.


Hoje em dia, a protecção a esta espécie na região é praticamente nula, ou seja, não é efectuada exploração e ordenamento cinegético, apesar de existir uma grande parte de terrenos cinegéticos ordenados (designação legal), verificou-se uma enorme falta de fiscalização, uma presença forte de furtivismo e a presença excessiva de cães nos montes, contribuindo, seguramente, para uma diminuição das populações de corços. Durante a execução do trabalho de campo foram encontrados 4 laços, 2 poços-armadilha, ouvidos vários tiros (note-se, fora do período de caça) e encontrados alguns cães “assilvestrados” dos quais dois a perseguir um corço adulto e outros dois a perseguir uma cria de corço.


Para além deste cenário negativo existem várias estradas o­nde se poderão dar atropelamentos de corços, no entanto, foi curioso observar que junto à principal via de comunicação e perturbação, da área de estudo, o Itinerário Principal nº4 (IP4) encontra-se uma forte presença de corço de um lado e de outro da via, confirmando-se, assim, a adaptação do corço a ambientes humanizados.


A título de conclusão, resta-nos salientar que o objectivo principal deste trabalho foi o de fomentar o conhecimento da espécie na região, identificando a sua área de distribuição e a sua relação com a qualidade ambiental e os factores sócio-ambientais.


Através dos resultados obtidos, nos levantamentos efectuados nas 80 quadrículas, com recurso aos sinais de presença, elaborou-se um mapa de ocorrência do corço (Fig. 4).


 

Conclusões

Este estudo permitiu, e em conformidade com o seu objectivo, avaliar a ocorrência do corço numa determinada área da região Alvão-Marão. Dele podemos concluir que o corço se encontra presente em mais de um terço da área estudada e que apesar dos vários entraves que lhe são colocados, principalmente por acção do homem, este demonstra uma enorme capacidade de adaptação e tolerância, colonizando zonas bastante humanizadas. Adivinha-se assim uma expansão do corço na área de estudo bem como se está passando em grande parte da Península Ibérica o­nde o fenómeno de expansão do corço tem deixado surpresos todos aqueles que se têm dedicado a esta espécie.


No entanto, fica-nos a impressão que este importante recurso cinegético (e ecológico também) não está a ser devidamente acompanhado e aproveitado e que há ainda muito a fazer por esta espécie quer em termos de protecção quer em termos de gestão. Depois deste estudo de avaliação da ocorrência seria importante partir para um estudo de densidades sabendo de antemão que se trata de uma espécie muito difícil de quantificar, especialmente, em habitats florestais como é o caso.


Da análise dos resultados do trabalho de campo devemos referir que não foi possível tirar nenhuma conclusão da relação entre a presença do corço e a área basal do estrato arbóreo uma vez que não se encontrou nenhuma correlação entre esta variável e a presença ou provável ausência do corço e também, por vezes, devido à falta de representatividade da área basal da parcela de 100 m2 em relação à quadrícula de 100 ha que, convém salientar, se revelou demasiado grande para um estudo deste género, pois permitia muita heterogeneidade dentro desta, nomeadamente, em termos de vegetação, relevo e perturbação humana entre outras. Relativamente a análise estatística dos resultados, concluímos que, as variáveis mais discriminatórias entre os dois grupos pré-seleccionados, com presença e sem presença de corço, foram a altitude, a alimentação, a acessibilidade e a tranquilidade, estas duas ultimas directamente ligadas mas independentes.


Relativamente às potencialidades e com recorrência ao método das quadrículas, que sofreu algumas adaptações, foi possível verificar que o corço possui, nesta área de estudo, uma grande possibilidade de expansão uma vez que cerca de metade da área avaliada revelou possuir alta potencialidade para o corço.


Consideramos importante referir que os índices de presença encontrados foram vários e por vezes em grandes quantidades mas, apesar disso, foi extremamente difícil visualizar corços (apenas por duas vezes) e senti-los (outras duas) o que realça a capacidade de mimetismo e refúgio desta misteriosa e apaixonante espécie.


Existe uma série de possibilidades de aproveitamento desta espécie quer sejam elas ecológicas ou cinegéticas, em nosso entender umas não impedem as outras, assim sendo, apelamos aos ecologistas, especificamente aos representantes do Parque Natural do Alvão, e aos caçadores e gestores de zonas de caça que unam esforços para apoiarem e desenvolverem as populações de corços na região. Para os ecologistas permitirá também apoiar de forma indirecta as populações do lobo ibérico, para os caçadores poderá permitir um aproveitamento cinegético ordenado desta valiosa espécie a curto/médio prazo.


O corço, “O duende da floresta”, é de facto uma espécie misteriosa e fascinante que, como tal, merece toda a nossa admiração e dedicação.
 

Relatório Final de Estágio do Autor (UTAD, 2003)

 

 
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