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ou o dilema fardo de palha versus estofos cómodos
Transporte das Armadas numa Montaria
 

     

Autor: Alexandre Valente

24-01-2007

 

   
Quando comecei a participar em montarias cheguei à conclusão que o transporte nos atrelados de tractor, sentados em fardos de palha, só podia ser uma coisa: um qualquer castigo, por qualquer razão antiga, que eu ainda não tinha conseguido perceber, quase um ritual ancestral de que eventualmente já se perdera a origem, ainda cheguei a pensar que se pretendia manter os monteiros bem despertos até ao seu posto, garantindo o sucesso no abate, mas descartei tal hipótese.

Sempre achei que todos os monteiros deveriam aspirar a poder deslocar em viatura própria até aos seus postos de caça. O conforto na viagem, a facilidade de transporte da “tralha” toda, o abrigo em caso de borrasca, enfim…, só vantagens! Já para não mencionar menos um problema para os organizadores, e a redução do custo da montaria, uma vez que não seria necessário providenciar tractores, atrelados e respectivo condutor; tudo substituído por uma fotocopiazinha de um mapa com as informações pertinentes.

Este meu sonho tornou-se realidade este fim-de-semana (07-01-2007)!
Lamentavelmente o meu sonho transformou-se num pesadelo!

Numa montaria em que participei a organização reduziu o custo de inscrição eliminando os custos do transporte, esta minha dedução trata-se de uma mera especulação, já que efectivamente não sei que razões estiveram por detrás desta opção do clube organizador. Os acessos eram de facto bastante bons e simples. Nada que enganar, tudo bem sinalizado, um mapa com a localização das portas, dos acessos e das zonas de parque para as viaturas.

Findo o sorteio, dadas indicações necessárias e esclarecidas as dúvidas que persistiam, foi dada a partida para a mancha. Eu, cumpridor, lá me meti no meu carro e lá fui procurar a minha porta. Comecei por me enfiar na fila de carros mas o que ia à minha frente parou adiante, pelo retrovisor vi que outro se lhe juntava, um grupo que não se quer perder, pensei cá com os meus botões. - Só no regresso conclui que sempre se tinha tratado de um forma de concentração, infelizmente não para entrarem todos juntos na mancha, sem perturbar, mas antes para uma paragenzinha estratégica com fim bem mais importante: um cafézinho!

Tudo parecia correr bem, a sinalização estava bem, embora o tamanho da letra obrigasse a parar para ler as indicações, os mais míopes tinham mesmo de sair do carro para o conseguir. Eu tive a sorte de poder deixar o carro a cerca de cinquenta metros. Toca a equipar-me, sem esquecer o colete laranja, retirar a arma da funda, remover o cadeado de gatilho, pegar nas munições e outros acessórios, e dirigi-me para o meu posto. Considerava-me em acto de caça, por isso carreguei a arma e destravei-a. Por pouco tempo. E tive de colocar e retirar a segurança várias vezes. Querem saber porquê?
Cinco minutos depois passa na estrada um carro, um atrasado, quem está livre disso?
Mais dez minutos e passam mais dois carros.
Mais cinco minutos passa outro, que abre o vidro e me deseja boa caçada!
Quinze minutos depois uma “caravana” de três ou quatro carros.
Façam as contas ao tempo que entretanto se passou e à perturbação junto ao meu posto de caça, que apesar de tudo era o mais afectado por ser um dos primeiros no acesso à mancha, e aos restantes entre o meu e a zona de parque.
Cinco minutos mais e rebenta o foguete sinalizador do início da montaria.

Nessa altura, e aproveitando finalmente a acalmia, comecei a reavaliar a minha posição e a pensar se não teria sido melhor ideia deixar o carro um pouco mais longe e fazer uma parte do trajecto a pé. É que se me saísse um javali que arrancasse naquela direcção, ou acertava no javali ou no carro. Como se não bastasse, a minha preocupação ainda foi acrescida pois, bem ao alcance de um tiro de carabina, estavam mais dois ou três carros. Já não havia nada a fazer senão deixar passar os javalis se por acaso por ali se atravessassem.

O silêncio que entretanto se instalara não augurava um resultado interessante.

Tinha decorrido pouco mais de uma hora, quando me apercebo de uma viatura que estaciona a menos de cem metros de mim. Não só me fecha mais um ângulo de tiro, como ainda de dentro dela saem quatro indivíduos. Sem colete de segurança, sem arma e àquela hora não eram seguramente caçadores, se o eram, o que ainda menos abonaria a seu favor, não estariam seguramente inscritos. Mesmo assim lá enveredaram pelo caminho abaixo, com a maior das naturalidades, passando a cinquenta metros de mim, em plena cavaqueira, despreocupados, um até me pergunta se está tudo a correr bem!

Apeteceu-me dizer-lhe umas quantas coisas em voz bem alta, mas limitei-me a fazer-lhes um vigoroso sinal de silêncio com cara de poucos amigos. Não só não percebeu como alguns metros adiante resolve virar-se para um pinheiro e aliviar a bexiga! Depois lá continuaram e entraram pela mancha dentro. Soube mais tarde que se deslocaram até à proximidade duma das portas onde mais tarde saiu um javali, e aí permaneceram durante bastante tempo e sem que, em momento algum, tivessem interrompido a sua interessante/importante conversa.

“Vierem ver a bola”! Só pode ser!
Pelo menos não se lembraram, como certo “caçador”, de acender uma fogueirita junto ao posto! “Era só para aquecer os pés!”

E se acham que as barbaridades já são muitas, preparem-se!

Durante as duas primeiras horas da montaria ouviram-se muito poucos tiros, dois ou três, no máximo. Não admira por isso que todos estivéssemos aborrecidos. Que alguns, menos optimistas, arrumassem a arma mais o restante material e se enfiassem no carro, já que estava mesmo ali, à mão de semear, que bem lhes aprouvesse! Alguns houve que o fizeram, sequer ao menos, em silêncio!

Mas houve quem fosse mais longe. Perto de mim um certo “caçarreta” depois de se enfiar no carro ligou-o para que o aquecimento/ar condicionado funcionasse. Infelizmente só pegou à terceira…

Outros, a que não consigo sequer chamar “caçarretas”, não estiveram com meias medidas e, sem respeito por ninguém (nem mesmo a sua própria segurança), lá abalaram atravessando a mancha, pelo meio das portas, e no sentido inverso ao da chegada. Desta vez tive azar, fiquei mesmo colocado junto à “avenida” mais concorrida da zona… Escusado seria talvez referir que, ainda que no final se ouvissem alguns tiros, o resultado tenha sido nulo.

Ainda acreditei que haveria poucos malucos, mas acabei por me ver forçado a arrumar a tralha, em silêncio, e aguardar no carro, durante a última meia hora, o foguete anunciando o final da montaria, já que, a certa altura, eram uns atrás dos outros a debandarem.

Quer isto dizer que a minha montaria terminou uma hora mais cedo!

Parece que muitos caçadores continuam a não saber comportar-se numa montaria. Assim o transporte nos atrelados resolve o problema, já que ninguém está disposto a regressar a pé. Quero deixar bem claro que embora a opção de não fornecer transporte seja do clube que organizou a montaria, já o mau comportamento dos caçadores presentes não é, obviamente, da responsabilidade da organização.

Afinal sempre é castigo!
 

 
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